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•3 Relíquias
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MARIA LÚCIA TEIXEIRA DE MELO Relíquias
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•7 Velho, não. / Entardecido, talvez. / Antigo, sim. Me tornei antigo / porque a vida, / tantas vezes, se demorou. E eu a esperei / como um rio aguarda a cheia. Mia Couto
Entre o passado e o presente sucedem-se histórias e estórias na vida de pessoas, ainda mais na de quem está prestes a tornar-se uma octogenária. Ofereço aos que amo e àqueles que me são caros, estas recordações, fluxo contínuo dos acontecimentos positivos e negativos, a aceitação da impermanência, o desapego das coisas efêmeras e a preferência pelas eternas — o meu Relicário. DEDICATÓRIAS
Exit. Fui. Enfim, fui-me. Reintegrei-me no flume de lume – à eternidade. Enfim o fim da busca da diferença entre mentira e verdade. tudo agora é eternidade. Tel quel, enfin, l’eternité Em lui même le change. Nem humano, nem demônio nem um sonho de anjo. Plenitude total, sem bem, nem mal. enfim a plenitude do homem-animal. De volta à minha verdadeira condição de elemento ígneo do indigno signo terráqueo. Aleluia! Aleluia! não eterno de mala e cuia! Exéquias (Excerto de poema de Fernando Mendes Vianna) Aos meus saudosos e generosos irmãos, José Waldemar e Clênio.
Ao Ricardo, meu irmão, jornalista e especialista em artes gráficas, meu agradecimento pela sua colaboração no processo de revisão, formatação e edição deste livro. À Simone, minha filha, pelo incentivo e pela digitação e organização dos textos. AGRADECIMENTOS
• Todo começo de cantiga é assovio 13 • Itaúna, amor primeiro 15 • Donda, minha avó Flora Rosa 18 • Centelhas de Ramiro 19 • Dona Lindoca 21 • Zé de Melo 23 • Marta, saudosa mãe 25 • Ivo, meu pai 28 • O balcão do tempo 32 • De casa em casa 33 • Espírito de Natal 35 • A fé que veio de casa 37 • A Estação Ferroviária 39 • O Hotel e seus hóspedes 41 • Vizinhança amiga 45 • Praça da Matriz 49 • Magia dos quintais 50 • Uma coisa puxa outra 52 • Coisas da política 54 • Cotinha e a agulha do destino 56 • O presépio do Sô Umberto 57 • O milagre da conversão 58 • Semana Santa 59 • Festa no Morro do Rosário 61 • Dois pra lá, dois pra cá 67 • Fazer avenida 69 • Minha geração 68 • A lenda de Miss Itaúna 72 • Minha formação 76 • Final de jornada acadêmica 81 • Vida de casada 88 • A cidade que mora em mim 94 • Nada muda tanto quanto o passado 95 • Batismo em preto e branco 98 • De flores e jardins 99 • Lora, Nilda e Alda 101 • O vai e vem dos preços e da vida 103 • À mesa, como convém 104 • Relações familiares 111 • Matriarca e embaixatriz 112 • Primeiras viagens 116 • Rio de Janeiro 117 • Espírito Santo 119 • Goiás 119 • Paraná e Santa Catarina 122 • Estados Unidos 123 • Argentina 124 • França 124 • Portugal e Itália 124 • Daniel 132 • Vítor 132 • Alice 133 • Ana Teresa 134 • Breno 134 • Mariana 135 • Gabriel 135 • Luisa 136 • Marina 136 • Anunciação 137 • Duas aposentadorias e uma vitória 140 • Os sustos que a vida nos dá 142 • Pandemia e capsulite 144 • A tempestade e o silêncio 145 Epílogo • Uma reunião de família e amigos 147 SUMÁRIO
•13 O destino de um livro é o encantar e perturbar, excitando magnificamente a fantasia, fecundar e estimular a faculdade criadora do espírito, irmanando o sonho com a ação. Eduardo Frieiro Todo começo de cantiga é assovio Há muitas razões que levam uma pessoa a escrever um livro sobre sua própria vida. Cada uma tem seus mo- tivos, todos muito particulares. No meu caso, o impulso nasceu de algo simples, espon- tâneo, quase natural. Este livro foi sendo gestado aos pou- cos, mês a mês, ao longo do ano de 2025… até que nasceu. Digo com honestidade: não foi tarefa fácil. Mesmo tendo formação de normalista, graduada em Letras, amante da língua portuguesa, tive meus tropeços — principalmente na organização do roteiro. O conteúdo parecia estar todo aqui, na cabeça, fervi- lhando. Mas, como sempre me acontece, minhas histó- rias abrem janelas, portas, caminhos paralelos… e eu me afasto do rumo. No início, escrevia e rasgava. Reescrevia. Até que, enfim, engatei a marcha e segui em frente. Sempre fui uma leitora assídua — mesmo assim, não li tanto quanto gostaria. Ainda hoje leio e releio obras, compreendendo melhor as entrelinhas que, no passado, a imaturidade me impediu entender com clareza.
14• Eu costumava registrar tudo o que me impactava: fra- ses, poemas, aforismos… Todas as palavras que desper- tavam minha emoção. Guardei esse material, ainda que de forma desorganizada, em cadernos, cartões, papéis soltos, fotos e lembranças de família. Reencontrá-los foi como abrir um baú cheio de afetos e inspirações — que agora me ajudaram a compor este livro de memórias. Entre essas anotações, uma frase me marcou: “Todo começo de cantiga é assovio.” Foi assim que, cheia de ânimo e encantamento, come- cei a escrever meu primeiro livro. Simples, sem nenhuma pretensão literária. Apenas com o desejo sincero de ex- pressar meus sentimentos — de amor à minha família, à minha cidade, aos meus amigos, a todas as pessoas que, de alguma forma, cruzaram meu caminho. Algumas já se foram, outras chegaram sem hora marcada para partir. Aos setenta e nove anos, senti que este projeto era bom, necessário e desafiador. Bom, porque confirmou que os nossos sonhos não en- velhecem conosco. Necessário, porque me trouxe aco- lhimento — foi um processo terapêutico, ajudando-me a lidar com emoções e com as transformações do envelhe- cer. Desafiador, porque me mostrou que, mesmo com a idade, ainda é possível criar e realizar. Por isso, decidi caminhar por trilhas novas. Com pas- sos mais lentos, talvez… mas ainda cheios de vida.
•15 Itaúna, amor primeiro Acredito ter muito o que contar. Aos 79 anos, carrego uma bagagem farta de experiências. Vivi intensamente — em Itaúna por mais de trinta anos e, há mais de quarenta e seis, em Belo Horizonte. Ainda assim, não houve dis- tância suficiente que rompesse meu elo com a terra natal. Tenho por Itaúna um amor antigo e profundo. Laços tecidos na infância, nas praças onde brinquei, nas ruas que percorri com os pés descalços ou calçados de espe- rança. Tenho uma ligação quase telúrica com aquele chão que me viu crescer. Frequentei escolas, clubes, participei de festas, desfi- les — tudo o que uma cidade do interior podia oferecer à juventude dos meus anos dourados. E mais: ofereceu afe- to. O povo de Itaúna sempre foi amigo, generoso de ami- zades verdadeiras, das que duram para sempre. Foi lá que recebi as primeiras lições — em casa, com meus pais, e depois nas salas de aula, nas rodas de con- versa, nas observações silenciosas que a infância ensina. Tive sorte: fui agraciada com o dom da memória. E é a ela que agora recorro, com zelo, para costurar lembranças e registrar a trajetória que percorri. Tive meus êxtases, arrebatamentos, sonhos, dores, arrependimentos, conquistas — pois nenhum ser hu- mano atravessa a vida impunemente. Bebi da fonte do estoicismo. Confesso que vivi. Estou feliz, escrevendo minha tra- jetória e minhas recordações. Um simples legado para meus descendentes.
16• Marta, minha mãe, e Ivo, meu pai Álbum de família
Remontar nossa ancestralidade é um encontro com nós mesmos, é um ato de amor e reverência a quem somos. Lembrança de meus avós, raízes que sustentam minha história: Flora Rosa e Ramiro Lopes de Freitas, que deram vida à minha mãe, Marta; José Firmino de Melo e Oraslinda Teixeira, que deram força ao meu pai, Ivo. Onde estão todos eles? — Estão todos dormindo Estão todos deitados Dormindo Profundamente. MANUEL BANDEIRA, no poema Profundamente, parte de sua obra Estrela da Vida Inteira
18• Donda, minha avó Flora Rosa De minha avó, nascida em Ita- guara, em 1896, como Flora Rosa de Jesus, só tenho lembranças. Na- quele tempo, retrato era um luxo raro. Os poucos que havia se apa- garam, consumidos pelos anos. A imagem que guardo é de uma se- nhora alta e magra, com cabelos finos, lisos e ralos, sempre soltos. A pele morena, marcada por rugas acentuadas pelo tempo, sem brilho nem vaidade. Sua fi- sionomia lembrava uma cabocla ou uma índia — traços fortes e marcantes que se tornaram eternos para mim. Ainda bem moça, aprendi a costurar numa Singer Fa- cilita e fiz muitos vestidos para Vó Donda, que se vestia com simplicidade. O tecido, sempre de algodão escuro, trazia florezinhas miúdas estampadas. O modelo era sem- pre o mesmo: mangas longas, saia comprida com pouca roda, presa ao corpinho abotoado na frente, com gola. Os chuleados e as casas já podiam ser feitos na máquina de última geração, que permitia melhor acabamento e rapi- dez. Cada vestido era uma entrega, um gesto de carinho. Donda era como meu pai chamava a sogra, Flora Rosa. Nunca perguntei o significado daquele apelido — passou batido, como se diz. Ela apreciava o cheiro de rapé, um hábito antigo dos reis e rainhas da Europa, que acondi- cionavam o pó de tabaco moído, misturado com outras ervas, em luxuosas caixinhas hoje expostas em museus imperiais. Muito provavelmente, o uso constante de rapé por Vó Donda, e sua peculiar realeza, está associado à suaIlustrações: Ricardo Melo
•19 herança indígena — sem coroas, sem joias, sem estojinho com pedras preciosas. De minha vó, ouvi algumas vezes a palavra “tuta- meia”, estranha ao meu vocabulário, mas possível de entender pelo contexto: “A gente ganha uma tutameia. Não dá pra nada, tá uma carestia danada. O salário aca- ba depressa.” Tutameia também dá nome a um conto daquele Doutor João, inventor de palavras carregadas de simbolismos. Nas suas andanças, passou por Itagua- ra (então distrito de Itaúna), no início dos anos 1930. É provável que minha avó o tenha conhecido, por ele ter praticado a medicina à época, antes de virar diplomata e escritor famoso. É bem possível que ela tenha aprendido a palavra com o tal João Guimarães Rosa. Assim, mesmo com vagos registros oficiais e visuais, Flora Rosa — ou Donda — continua viva em mim, com cheiro de pano novo, de café coado no coador de flanela, em tardes de conversa, sentada no banquinho baixo, re- tangular, pequeno e estreito, de madeira rústica, que só tinha espaço para ela. A caixinha simples onde acondi- cionava o rapé, sempre à mão. As recordações dessa avó, transcritas em palavras, encontraram espaço para serem ditas com o coração. Centelhas de Ramiro Meu avô Ramiro de Freitas Lopes morreu cedo. Tão cedo que poucas são as lembranças que guardei dele. Mas o que ficou — embora tênue — brilha como centelha em noite escura. A memória me visita em cena breve, quase estática. Morávamos em Itaúna. Eu, Cleusa e Marilene — peque-
20• nas ainda — chegando à casa dele. Estávamos com vestidos iguais de poá miudinhos, nas cores vermelha e azul-marinho, delicados como nossa infância, modelos que as mães faziam questão de ver as filhas usarem em trio, como flores plantadas no mesmo canteiro. Vejo meu avô sentado no al- pendre, poucos cabelos grisa- lhos. Nós de frente para a casa, talvez um pouco tímidas. Não vejo minha mãe. Pode ser que estivesse ainda no pas- seio, caminhando devagar, nos observando de longe. A cena é curta, sem som, mas ficou guardada em mim como um retrato antigo, sem moldura. Nascido em Carmópolis no ano de 1888, Ramiro cau- sou-se em 1914 com Flora, que passou a adotar Freitas no sobrenome. Da união, formaram uma família numerosa: Nair, Anita, Zeli, Helenice, Marta, Jaime, Alci, José, Ari, Geraldo e Antônio. No ofício de ferreiro, fundiu uma escultura em metal, símbolo do desenvolvimento econômica de sua terra. A peça retratava a cena icônica da fuga para o Egito, de José, Maria e o Menino Jesus no lombo de um burrinho. Talvez ele nem soubesse, mas deixou ali, naquela singela obra, a sua lembrança mais duradoura. Esse foi um dos poucos bens materiais que deixou aos filhos, aos 63 anos, mas sua herança foi vasta: muitos fi- lhos, netos, sobrinhos. E para mim, muitas tias, tios, um montão de primas e primos. Um sobrenome espalhado em tantas vozes e afetos.
•21 Essa escultura da fuga para o Egito é, para mim, sím- bolo da passagem de meu avô: breve, corajosa, silenciosa — mas cheia de significado. Dona Lindoca Nasceu como Oraslinda Teixeira, em 1896, no distrito de Rio Manso, pertencente a Bonfim, lugarejo tranquilo, banhado pelas águas do Paraopeba. Lindoca, como pas- sou a ser carinhosamente chamada pelos pais Zeca e Maria Filomena, chegou à maturidade como uma mulher forte, determinada, independente. De grande força interior, acreditou ser capaz de empreender e partiu para a luta com bom tino e competência nos idos anos 1940, quando passou a ser dona de seus próprios negócios. Dona Lindo- ca foi como então passou a ser conhecida por todos pelo resto da vida. Para mim, simplesmente Vó Lindoca foi uma mulher à frente do seu tempo, posso garantir. Viveu em Itaúna e em Belo Horizonte. Sua casa acolheu muita gente da família e jovens itaunenses que seguiam para a capital para estudar ou trabalhar. No então arborizado Barro Preto, entre as avenidas Amazonas e Augusto de Lima, reinava um con- vívio saudável e animado de jovens. Minha irmã Marilene foi uma das que foi morar com ela nos tempos de Colégio Anchieta. Assim como minha pri- ma Nini, sobrinha de minha mãe, vinda de Caeté para tra- balhar numa gráfica do nosso tio-avô. A pensão de Dona Lindoca tornou-se referência para pessoas que procura- vam abrigo seguro em ambiente familiar na capital. Não sei dizer como, mas até o então torneiro mecânico Agnaldo Timóteo foi ancorar naquele porto, vindo de sua
22• terra natal, Caratinga. Conhe- cido na cidade como o “Cauby mineiro”, despontou anos mais tarde com sua voz mara- vilhosa e fez sucesso estrondo- so em todo o Brasil. Dona Lindoca era uma mu- lher elegante, tradicional. Ves- tia-se com capricho e bom gosto. Seus conjuntos sóbrios e de bons tecidos eram confec- cionados em Itaúna, sob medida e exclusividade — alta- -costura. Dona Maria do Sinhô era a artista que transfor- mava tecidos em roupa para minha avó. Maria do Sinhô veio de Caxambu e casou-se com um senhor da família Mendes. Muitas vezes fui à casa de Dona Maria acompa- nhando minha avó. Do casamento de Lindoca com José de Melo, nasceram meu pai, Ivo, as tias Ita e Lindomar, e o mais novo, Edson — mais conhecido por Didi. Minha convivência com essa avó foi profunda, intensa e afetuosa. Fui a sua segunda neta. A primeira foi Dilma, filha da tia Ita e única mulher entre seis homens. Ao todo, 16 netos e um montão de bisnetos. Lindoca teve muitos irmãos e duas irmãs, Geny e Nair. As duas também tiveram hotel em Itaúna: Hotel Cruzeiro e Hotel Ideal. Assim como meu pai, que herdou o Hotel Santana, de existência longa e muitas boas histórias. Convivi muito com os irmãos de minha avó, princi- palmente com os mais moços, Geraldo e Osvaldo — estes mais novos do que meu pai. Lembro de uma comemo- ração de Natal na casa deles, na Rua Juiz de Fora, onde
•23 moravam os casais Geraldo e Amélia, Osvaldo e Luzia. Foi uma festa em família, maravilhosa, em que todos me cobriram de atenção. “A menina mais linda e boazinha” foi um dos elogios que recebi e não mais esqueci. Que criança não gosta? Minha avó gostava de me dar presentes — e da minha presença. Nos períodos de férias, meu pai me levava para Belo Horizonte para passar alguns dias com ela, quando comprava tecidos que sua cunhada Cilica costurava, para um novo vestido do meu guarda-roupa. À noite, antes de dormir, eu rezava com minha avó. Após as orações, ela colocava o travesseiro no meu colo para “catar piolho”. Eu fazia o cafuné — não sei quem dormia primeiro. Todas essas pequenas lembranças me remetem aos momentos inesquecíveis que vivi com essa minha avó, que procurei retribuir com o mesmo carinho e afeto. Zé de Melo José Firmino, o Zé de Melo, nasceu em Betim, em 1892, no tempo em que a sede do governo de Minas Ge- rais estava se transferindo de Ouro Preto para Belo Ho- rizonte. Na juventude formou-se no ofício de carpin- teiro e marceneiro, profissão que abraçou para sempre. Desfeito o casamento com minha avó Lindoca, foi morar na casa do meu pai, seu filho homem mais velho. Desde então adotou nossa casa como sua e de perto acompa- nhou o crescimento dos netos. Com os meninos, dividia os aposentos e guarda-roupas. Nossa convivência era feliz e harmoniosa. Meu avô sempre teve um jeito pa- cato, não incomodava ninguém. Amava a todos. Dali de casa nunca mais saiu.
24• Anexo à residência, Zé de Melo instalou sua oficina e con- tinuou exercendo sua profissão. Passava o dia inteiro no porão, entre martelos, limas, formões, parafusos, pregos, alicates, tor- queses, serras e réguas — um arsenal de peças dispostas na bancada de trabalho. No meio de tudo, um lápis quadrado, ver- melho, se destacava. Eu achava bonito e pegava para olhar. Era um lápis para carpinteiro; não servia para eu escrever nos meus cadernos. Meu avô, despretensioso e na sua simplicidade, às tardes ia para o passeio da casa e recostava na parede, pitando seu cigarro de palha, que ele mesmo produzia: alisando a palha, cortada no tamanho certo, e passan- do a saliva para ficar bem enroladinho; o fumo, picado a canivete. Uma pasmaceira no cair da tarde, tomando a fresca e vendo o tempo passar — calmaria só interrom- pida pelas operárias voltando do expediente diário na fábrica de tecidos. O meu irmão Clênio, pré-adolescente, foi o grude do nosso avô. Era até engraçado, os dois lembravam uma cena do filme O Garoto, de Charles Chaplin. Clênio, des- calço como gostava de andar, vestia um surrado pale- tó do avô, cujos braços encobriam suas mãos. Parecia que aquele jeito de se vestir era uma forma de sentir-se abraçado. Eu gostava muito de conversar com aquele homem tranquilo e reservado em suas intimidades, mas que dei- xava escapar uma observação aqui e ali. Sabia o nome
•25 das minhas amigas, sempre perguntando por elas e seu namorados. “Fulano já tem casa própria?”, perguntava. Ter casa própria, para meu avô, deveria ser requisito in- dispensável para um bom casamento. Naquele tempo, há quase 62 anos, eu achava graça e não entendia, mas desconfiava dos motivos de tal inda- gação. Fico pensando e lembrando de meu avô, homem de pouca escolaridade, humilde e bondoso e sua preocu- pação com o futuro de minhas amigas. Hoje, quando já percorri muitos caminhos, inclusive o da evolução cons- ciente, pude perceber a grandeza da pergunta, a alma de meu avô. E a chama inextinguível da esperança. Chego a pensar que ele foi um santo, por tudo que representou para nós. Um São José Operário, o patro- no dos trabalhadores. Meu avô faleceu em 15 de abril de 1973, num dia bonito, Domingo de Ramos. Marta, saudosa mãe Marta de Freitas nasceu em 26 de março de 1926, em Itaguara, então distrito de Itaúna. Ainda menina, estudou no Grupo Escolar Dr. Augusto Gonçalves, por onde tam- bém passaram filhos de famílias tradicionais da cidade. Foi contemporânea de Oscar Dias Correa, futuro minis- tro da Suprema Corte, filho de Manuel Dias Correa e dona Maria da Fonseca Correa. Minha mãe estudou até onde a vida lhe permitiu, até o quarto ano primário. Outros co- nhecimentos foram adquiridos com o tempo, junto com a sabedoria. Ainda jovem, solteira, trabalhou como tecelã na fábrica de tecidos Itaunense. Aos 18 anos, já casada, exercia o papel de mãe com de- dicação, zelo e competência. Incentivou e acompanhou o
26• estudo dos filhos com cuidado. Era cordata, tinha bom gênio, mas com energia cobrava dos filhos muito mais do que meu pai. Companheira e colabora- dora do marido, ajudou na ad- ministração dos seus negócios. Foi querida de todos, sensí- vel, humana e bondosa. Ajuda- va os irmãos nas suas dificul- dades financeiras, em especial os mais novos. Era a tia amada e respeitada pelos sobri- nhos. Sua casa, generosa, vivia cheia de parentes, recebi- dos com atenção e carinho. Ótima dona de casa, mulher exemplar, discreta. Com ela vivi momentos muito bons, principalmente na minha infância, a ponto de querer me espelhar nela. São muitas lembranças. Naquele tempo era comum vi- sitar parentes e amigos, levando em fila a prole. A ban- deja com café já preparada na cozinha, vinha à mesa acompanhada de um caprichado e delicioso bolo ca- seiro. Dos meus irmãos, lembro que Ivinho era o que mais gostava dessas visitas. A motivação era o infa- lível bolo. Certa vez, ao sermos convocados para ir- mos embora, Ivinho reagiu: “Ainda não comi bolo!” Outra boa lembrança foi a de uma visita à tia Zeli e tia Nice, recém-casadas. Os maridos Alcides e Dalton tra- balhavam na Barragem do Benfica, onde tinha uma hi- drelétrica. Não lembro mais como chegamos lá. Só me lembro de um detalhe da decoração de uma das casas que me encantou: a toalha de mesa feita de feltro vermelho, sem costuras nas bainhas, com lindas aplicações de bo-
•27 nequinhas holandesas, com as roupas e acessórios, ta- manquinhos de madeira, bico fino e chapéu com pontas levantadas para o alto. A estampa ainda trazia imagens de moinhos, cisternas, baldes e flores salpicadas sobre o tecido. Eu ficava contornando a mesa redonda para ver tudo bem de perto, e a sensação era a de que as meninas também rodeavam a mesa para me olhar. Soube que até hoje essas pequenas casas, destinadas à moradia dos em- pregados da usina continuam no mesmo lugar, próximas a um lago, porém envelhecidas e desabitadas. Assim era minha convivência com minha mãe, mu- lher vibrante e bonita. Caprichava com entusiasmo na escolha de nossos vestidos, sapatos, meias e laços de fita de cetim, acessórios imprescindíveis para nossos cabelos lisos, de franjas, presos no alto da cabeça. Nossos ves- tidos eram sempre iguais quando éramos crianças. Os mais novos eram reservados para passear e ir às missas e outras celebrações. Para as peças de adorno, recorria-se ao Seu Alberto, vendedor ambulante de joias. Pele clara avermelhada, olhos azuis, era muito conhecido pela fre- guesia da região. Correntinhas de ouro, cruzinhas, brin- cos e anéis de rubi e água-marinha. Minha mãe usou um brinco de coco e ouro. Por volta dos seus quarenta anos Dona Marta sofreu de uma depressão muito forte que nos abalou demais. Eu estava com mais ou menos dezoito anos. Fizemos de tudo para ajudá-la a superar aquela crise. Eu, primeira filha mulher, ajudei meu pai nesse processo. Providen- ciamos o necessário para uma internação em Belo Ho- rizonte. Em pouco tempo teve alta. Anos depois, outro revés: o diagnóstico do diabetes, insidiosa doença que a maltratou muito. Com seu estojo de metal, onde de-
28• sinfetava com álcool a agulha, meu pai administrava a aplicação de insulina. Eu sentia a dor que minha mãe sentia, vendo aquele instrumento de ponta grossa pe- netrar em sua pele. Minha mãe faleceu à noite, no Hospital Socor, em Belo Horizonte. O traslado do corpo foi realizado na manhã se- guinte para as despedidas da família e dos amigos. Foram muitas as homenagens. Dias depois, recebemos da Câma- ra Municipal de Itaúna correspondência de condolências e moção de pesar pelo falecimento de nossa querida mãe. Palavras elogiosas e confortadoras amenizam um pouco a saudade e a tristeza deixadas em nossos corações. Com o olho no passado vou desfiando meu rosá- rio, vou delineando minha mãe, traçando seu perfil, recordando fases de nossas vidas, de quando ela cui- dava de nós, e de quando passamos a cuidar dela. No começo somos filhos, depois os papeis se invertem. As lembranças parecem não ter fim. Ivo, meu pai Meu pai, Ivo Teixeira de Melo, nasceu em Rio Man- so, no dia 26 de fevereiro de 1917. Fez de tudo um pouco na vida. Era homem de muitos ofícios e poucas vaida- des. Ainda solteiro, foi escrevente juramentado no cartó- rio de seu avô, Zeca Teixeira, em Rio Manso. Depois, foi chefe de restaurante de trem da Rede Mineira de Viação. Foi proprietário de armazém, hotéis, pensões e bares em Itaúna e Belo Horizonte. De bar em bar, montou negócios na capital — Barro Preto, Cachoeirinha, Centro. Viveu até a experiência de dono de boate, a Umuarama, em socie- dade com o cunhado Gerson e o sobrinho Itamar.
•29 De volta a Itaúna, abriu o que ficou conhecido como Bar do Ivo, na Praça da Estação, famoso pelos tira-gostos, pela cerveja frappé (segundo descrição afrancesada do meu irmão Zé Waldemar) e pela boa prosa, acompanhada de uma saborosa cachacinha ou suas variantes, como o Rabo de Galo. Empreendimentos muito agi- tados para um administrador tão pacato. Certa vez, em Belo Hori- zonte, ocorreu um furto no fim do expediente. Na hora, ainda tinha muita gente na rua. Alguns tentaram pegar o larápio, mas em vão. A féria foi embora e meu pai ficou a ver navios, mas não perdeu o humor: “Folgado... Nem teve o trabalho de pular o balcão!”. Ele era assim. Estres- sar pra quê? Das diversas atividades que exerceu, a de hoteleiro foi a definitiva — e a que mais lhe rendeu boas e quase sempre hilariantes histórias, sempre lembradas em rodas de conversa da família. Além de pacato, meu pai foi um homem sereno, espirituoso, por vezes engraçado e desa- pegado de bens materiais. Apreciava uma bebida, fumou por longos anos, adorava jogar buraco, palavras cruzadas e, principalmente, sua legião de netas e netos. E assim foi até o fim da vida, aos 94 anos, em 2011, deixando orgulho e vazio nos nossos corações.
30• Praça da Matriz de Itaúna, década de 1950
Quase oitenta anos e um coração que pulsa, guardan- do histórias que o tempo não apaga. Venho contar meu caminho, feito de vozes, de risos, de encontros, de saudade e luz —a memória é meu livro e o amor o enredo, sou filha, irmã, mãe, avó, mulher que nunca se reduz. Quer conhecer um pouco de nós? Então, venha. E eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé. CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, no poema Infância, publicado no livro Alguma Poesia, em 1930. ef
32• O balcão do tempo Meus pais se casaram em 1943. Ela, com 17 anos; ele, com 26. Foi no tempo em que o mundo ardia em guerra. Enquanto soldados brasileiros cruzavam o oceano rumo aos campos gelados da Itália, para lutar contra as Forças do Eixo, minha família começava a escrever sua própria his- tória — silenciosa e resistente — como tantas outras que se firmaram com medo, esperança e sonhos. Foi nesse cená- rio turbulento que nascemos, eu e meu irmão José — ele em novembro de 1944, eu em março de 1946 — filhos do pós-guerra, crianças de um Brasil que também se reerguia. O desejo intenso de reviver uma memória pode ser um sentimento de saudade e apego ao que já se passou. Acho fabuloso lembrar-me de tanta coisa. Pode ser que algu- mas lembranças tenham vindo de histórias contadas, ou mesmo de um sentimento guardado no fundo da alma. Alguns especialistas dizem que lembranças antes dos três anos são apenas montagens do nosso cérebro, peças de um quebra-cabeça emocional. Realidade ou produto da nossa emoção, o fato é que, passados tantos anos, consigo projetar com nitidez uma cena: meu pai atendendo fregueses atrás de um balcão de madeira, com uma balança de dois pratos e um jogo de pesos. O cenário é um armazém de secos e molhados na Vila Mozart. Ao fundo, prateleiras com pequenos produ- tos. No assoalho, sacos de aniagem com os grãos e, os de algodão, com as farinhas. Ainda no balcão, o vidro de ba- las que atraía minha atenção. Eu ficava posicionada como uma menina que ia comprar doces. Minha mãe dava apoio ao meu pai no armazém, ano- tando fiados nas cadernetas, pesando carnes secas, lin-
•33 guiça Maria Rosa, entre outros produtos. Dividia seu tem- po entre o pequeno comércio, a administração da casa e a atenção aos filhos — com a leveza das mulheres que sus- tentam o mundo. “O café precisava ser adoçado com as balas do armazém porque não havia açúcar”, recordava ela, anos depois, dos dias difíceis de desabastecimento provocados pelo conflito mundial. Essas passagens são sementes que brotam como ver- bos. O que estava latente ganha vida e expressão. De casa em casa O tempo foi passando. Mudamos da Vila Mozart para outra casa, no mesmo bairro, na mesma rua, um pouco abaixo, em direção ao Centro. O armazém continuou no mesmo lugar. Lembro como se fosse hoje. O dia começa- va cedo, e o café da tarde era servido às 2 horas. O pão e as quitandas passavam de porta em porta, vendidos em bicicleta, com um grande cesto de vime acoplado à ga- rupa. O vendedor levava uma corneta com uma bola de borracha, anunciando que os produtos fresquinhos esta- vam chegando. Minha mãe e outras vizinhas saíam à por- ta com cestos ou sacolas de pano bordadas, prontas para guardar os pães. A melhor padaria era a do Vasco. De casa em casa, fomos parar na Praça da Estação, no Hotel Santana. Em seguida, meu pai arrendou o Hotel Coutinho, ampliando as acomodações para mais hóspe- des que iam chegando. Os lotes das duas casas faziam di- visa pelo quintal. Éramos sete. E naquela ocasião, minha mãe engravidara de novo. Eu estava com doze anos. Em 31 de maio de 1958, percebi um movimento di- ferente do habitual naquela casa. Mesmo já acostumada
34• com a rotina, notei algo fora do comum: as empregadas desinfetando bacias, fervendo água… a parteira chegan- do. E então, o choro da criança pela primeira vez. Nas- cia ali o oitavo irmão, dias depois registrado como Edson Ricardo. Não demorou muito e simplesmente ficou para sempre Ricardo para os da família e Edson para os de fora. O nome composto do novo caçula, embora para mim soasse um pouco estranho no começo, foi uma junção de homenagens ao nosso tio Edson — o Didi — que morreu muito jovem, aos 29 anos, e a Ricardo Magalhães, amigo e parceiro do meu pai nos jogos de cartas, filho do Cris- pim, dono do melhor cinema da cidade: o Cine Rex, na Praça da Matriz. Ah… o Cine Rex! Quantos espetáculos maravilhosos! Foi também Cine Teatro. Por lá passaram Procópio Ferrei- ra e a filha Bibi, Adelaide Chiozzo, Ângela Maria, Cauby Peixoto, Silvio Caldas, Dick Farney… e tantos outros. Seus shows deixaram saudades. Aos domingos, eu frequentava as matinês para assistir aos filmes da Atlântida. Oscarito, Ankito, Grande Otelo, Eliana, Carlos Roberto… ficava so- nhando conhecer o Hotel Quitandinha, o Cassino, o Cas- telo da Urca, as calçadas de Copacabana… Somente anos depois é que fui conhecer o Rio de Janeiro. Além do Cine Rex, o mais antigo da cidade, Itaúna teve o Cine Popular e o Bagdá, ambos do mesmo dono. O Po- pular anunciava os filmes em cartaz em tabuletas arma- das na frente do cinema, de vez em quando derrubadas pelo vento. Eu nunca tinha ido ao cinema à noite. Com nove anos, foi uma grande alegria quando fiquei saben- do que eu poderia ir com meus pais ao Bagdá, numa ses- são das sete, assistir La Violetera, musical com produção hispano italiana de grande sucesso, estrelado por Sarita
•35 Montiel, no papel de uma vendedora de violetas e intér- prete de belas e inesquecíveis canções. Tempos depois, outro filme me encantaria: Marcelino Pão e Vinho, outro sucesso de público em razão do tema que reúne infância, religiosidade e comédia. A interpre- tação de Pablito Calvo, o menino esperto que arranja- va soluções um tanto quanto reprováveis, mas por uma causa justa, me emocionou. Adoro filmes de época, os cenários e os figurinos... Espírito de Natal Na família tivemos tudo que precisávamos, mesmo nos tempos mais difíceis. Ninguém exigia nada além do indispensável. À medida que crescíamos, as despesas iam aumentando. Gastávamos com parcimônia. Os que já sa- biam fazer alguma coisa davam um jeito de ganhar algum dinheirinho para seus pequenos gastos pessoais. No Natal não havia ceia no dia 24. A comemoração era no dia 25: um almoço especial, sem iguarias sofisticadas. O cardápio era variado — pernil ou leitão com pele cro- cante, assado no forno de fogão à lenha; macarronada, arroz de forno, tutu de feijão com ovos cozidos. As sobre- mesas eram arroz doce com canela, pudim de pão, pudim branco com calda caramelizada e ameixas pretas, doces de frutas em calda e secos, preparados em casa. Na noite do dia 24, colocávamos nossos sapatinhos perto da janela do quarto, e de manhã bem cedo eu ia ver o presente que tinha pra mim. Uma vez, desconfiei que minha irmã Cleusa tinha acordado mais cedo e ficado com o meu, deixando o dela pra mim. Os presentes eram sur- presas. Não era moda escrever cartinha para Papai Noel.
36• Na manhã do dia 25, íamos à missa. Do lado esquerdo do altar tinha um presépio lindo. A gruta era escura, en- feitada com malacacheta — um mineral brilhante, também chamado mica. As imagens eram grandes: tinha camelo, ovelhas, vacas, pastores, os Três Reis Magos levando ouro, incenso e mirra. Nossa Senhora, José e o Menino Jesus na manjedoura. No alto da gruta, a Estrela D’alva brilhando. Aos pés do presépio, um anjo que recebia moedas doadas pelos fiéis. Quando a moeda caía, o anjo balançava a cabe- ça pra frente, em sinal de agradecimento. Num canto, uma cesta de frutas — mangas, pêssegos, jambos e carambolas. As mais bonitas eram as romãs. Umas pessoas levavam, ou- tras tiravam e levavam pra casa para comer. Eu nunca pe- guei nada. Tempos depois, fiquei interpretando que aquela cesta, mais do que um ornamento, era um símbolo de amor e doação. “Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei.” A Igreja ensina por imagens, símbolos e palavras. Natal também é tempo de dar e receber presentes. Em Itaúna, três lojas do ramo se destacavam pela variedade de ofertas de produtos natalinos, todas elas na Rua Sil- va Jardim: Casa Saldanha, do Chichico Saldanha; Bazar Itaúna, do senhor Abelardo Lima; e Loja do José Leão, um imigrante libanês. A Casa Saldanha vendia bonecas das melhores marcas, portanto mais caras. Cada uma mais linda do que a outra. Tinham cabelos castanhos, loiros, cílios, olhos de vidro que mexiam. De vestidos, meias e sapatinhos brancos, ficavam expostas num tablado em forma de escadaria, nas proximidades do Natal. Eu, mi- nhas irmãs e amigas íamos olhar e comentar qual era a mais bonita. Era o nosso sonho de consumo. Quando apareciam as primeiras plaquinhas com “vendida”, “re- servada”, ficávamos imaginando quem seria a sortuda.
•37 No Bazar Itaúna tinha brinquedos mais baratos, que se encaixavam no orçamento da nossa família — assim como o Armarinho do Leão José, que vendia de tudo um pouco. Honestamente, não era uma loja bonita, nem as bonecas de plástico rosa com ranhuras imitando fios de cabelo, olhos de papel colado, sem roupa e descalças (coitadas!) chegavam aos pés dos modelos mais simples da Estrela. Mesmo assim, havia quem comprasse. Tinha também outras um pouco melhores — as de papelão, com tons de pele mais próximos do real, mas com um problema: não podiam tomar banho. Se molhassem, viravam uma mas- sa disforme! Vestidas, sim, mas de papel crepom de cores variadas. Não usavam sapatos como as outras, mas fica- vam dentro do orçamento de Dona Marta. A gente brin- cava assim mesmo, com cuidado para evitar os respingos das chuvas e não manchar os vestidos. Para completar o espírito de Natal, meu pai trazia de Belo Horizonte maçã argentina vermelha, envolvi- da em papel de seda azul, bem cheiroso. Eu saboreava a fruta devagarinho e guardava o papel para preser- var o seu perfume. A fé que veio de casa Minha mãe sempre ia à igreja à noite para as rezas que começavam às sete e me levava com ela. Eu gosta- va de ir. Apesar da demora, assistia à missa até o fim, com paciência, sem pedir para ir embora. Rezávamos a Ave Maria, Pai Nosso, Creio em Deus Pai… às vezes o terço inteiro. Eu gostava muito do Kyrie eleison. Achava bonito o diálogo do celebrante com os fiéis:
38• Kyrie, eleison. Kyrie, eleison. Christe, eleison. Christe, eleison. Kyrie, eleison. Kyrie, eleison. Não compreendia as palavras, mas repetia olhando para minha mãe. Com o passar do tempo aprendi o sig- nificado das expressões e a simbologia dos ritos. Kyrie faz parte do Ato Penitencial. É uma súplica a Deus pelos pe- cados cometidos — Senhor, tende piedade de nós. A Adoração ao Santíssimo Sacramento era um mo- mento impactante. O padre erguia a pátena dourada, provava o vinho e misturava o pão e o vinho que se trans- formavam no Corpo de Cristo. Era a consubstanciação, palavra difícil como outras tantas que faziam parte do ri- tual. Eu comungava a hóstia consagrada depois de rezar três Ave-Marias e um Pai-Nosso em penitência. Os peca- dos veniais confessados eram os de sempre: “briguei com meu irmão, desobedeci a minha mãe”. Sou católica por tradição oral, transmitida pela minha família. Fui batizada, fiz Primeira Comunhão, catequiza- da por Dona Ivolina Gonçalves. No 13 de maio eu e mi- nhas irmãs participávamos da Coroação de Nossa Senho- ra de Fátima. No cortejo, os pastorinhos, Lúcia, Jacinta e Francisco, filhos de Itaúna, se vestiam como as crianças originais do milagre de Fátima. Eu ia vestida de virgem e minhas irmãs Cleusa e Marilene de anjos. A asa da Cleusa era grande e tinha um defeito que a pendia para o lado. A da Marilene era pequena e proporcional ao tamanho dela, mas as penas eram menores. Dona Cirene Carvalho era quem dirigia os ensaios do coral. Não lembro de ter colocado a coroa na Santa. Ficava sempre aos pés do altar cantando e jogando pétalas de rosas que levava num cestinho forrado de cetim, deco-
•39 rado com peninhas brancas. Acho que uma vez eu subi a escada e coloquei a palma nas mãos de Nossa Senhora. Era muita emoção para uma criança. Terminada a Coroa- ção, recebíamos um cartucho de amendoins das mãos do Tio Juca, o sacristão, também responsável pelas chaves da igreja, como São Pedro. Em Itaúna, as paróquias exerciam um papel muito forte na vida das famílias. As cerimônias religiosas eram o momento de congregação social, que eventualmen- te contavam com quermesses, onde se vendia salgados e doces, entre outras atrações. Os padres do meu tem- po foram o vigário José Neto e o padre Waldemar. Este, já mais velho e caladão, circulava pela cidade de batina preta e um sobretudo de quatro botões, abençoando as crianças. Reza a lenda que levitava na capela da Santa Casa, feito um santo. A Estação Ferroviária O hotel ficava perto da estação. Era o mais procura- do naquelas paragens. A localização era ideal para os que acorriam à cidade, principalmente os viajantes que iam fazer a praça, abastecer o comércio local com as novida- des do mercado. Outros vinham para trabalhar ou estudar. Centenas de pessoas passaram por lá: bancários, professo- res, juízes de Direito, promotores de Justiça, artistas de cir- co, anões, padres, curandeiros, aventureiros de toda sorte. Para quem não sabe, lá pelos idos de 1940, os trens da Estrada de Ferro Oeste de Minas agitavam as pacatas ci- dades do interior. Mulheres, homens e crianças iam para a estação, nos horários de maior movimento, para ver quem chegava e quem saía. A televisão não tinha chega-
40• do com seu poder e magnetismo. Outras opções de lazer eram raras. Naqueles tempos, estação ferroviária era ponto de re- ferência da população e trem de ferro, um importante meio de transporte. As estações ferroviárias eram a porta de entrada e saída das cidades, simbolizavam o desenvol- vimento, conectavam a população com os grandes cen- tros. Daí a importância das vias férreas e sua expressão no contexto social dos pequenos municípios. Sem elas, as cidades pareciam mortas ou isoladas do mundo. A estação, encravada nas barrancas do Rio São João, cujas águas faziam girar as turbinas, gerava energia para iluminar a cidade e movimentar a indústria têxtil em ex- pansão. Foi nessa progressista cidade de Itaúna que esta história aconteceu. À hora marcada, lá na curva da Santa Casa, o ma- quinista já ia reduzindo a marcha, preparando-se para mais uma parada. A locomotiva resfolegava, cuspindo fumaça pela chaminé. Era sinal de que, em pouco tem- po, atravessaria o pontilhão e, depois de vencida mais uma curva, chegaria à estação para o desembarque dos passageiros. Nessa hora, tudo já estava preparado. Os guarda-cha- ves, a postos, orientavam as manobras no entroncamen- to dos trilhos. As cancelas eram abaixadas para interdi- tar a travessia dos pedestres. Tudo era sincronizado com bandeirinhas e apitos, garantindo a segurança de todos. O barulho dos vagões, o burburinho das gentes quebra- va, por alguns minutos, a monotonia da cidade. Os carregadores também ficavam de prontidão à es- pera dos que desembarcariam. Lembro do carregador n.º 1 e do carregador n.º 2, que ninguém chamava pelos no-
•41 mes. Eram identificados pelos números gravados no que- pe. Solícitos, pegavam as bagagens e conduziam os pas- sageiros ao hotel, recebendo pelo serviço prestado. Eram parecidos na estatura, vestidos com uniformes acinzen- tados, e me pareciam gêmeos. O Hotel e seus hóspedes A hospedaria era uma espécie de moradia coletiva, administrada pelos próprios donos, que também resi- diam ali. Recebia tanto hóspedes por temporada quanto mensalistas. Uns chegavam para pernoitar; outros, para ficar meses, até anos. Com o tempo — esse senhor de tudo — criou-se uma convivência saudável entre os hóspedes e a família dos hoteleiros. Laços de amizade foram se atando, e víncu- los afetivos nasceram. Houve até casamento: o professor Luiz Otávio Rabelo e Maria Eunice, que anos depois seria minha colega no Curso Complementar. Luiz Otávio, pro- fessor de inglês, português e francês de muitas gerações itaunenses, tornou-se grande amigo da minha família. Anos mais tarde, escreveu uma homenagem envolvente e profundamente humana, calorosa, cheia de afeto, e me- mória viva dos bons tempos em que foi hóspede no Hotel Santana, publicada pelo jornal Folha do Oeste. “Voltemos, assim, aos dias descontraídos de ontem, para inferirmos quão profunda ficou gravada, em nossa retina, a imagem luminosa do passado. Apraz-me, portanto, registrar com letras fortes as deliciosas recordações dos bons tempos do Hotel Santana. Aliás, não bem um hotel, mas meu segundo lar. Ali vivi três anos alegres e felizes,
42• sob o teto do amigável casal — Ivo e Marta — com seus seis filhos (os outros vieram depois). Proprietários da excelente hospedagem de então, localizada na Rua Afonso Pena (hoje Zezé Lima), junto à Praça da Estação, o hotel recebia grande quantidade de hóspedes, muitos dos quais passavam a residir ali e se tornavam amigos diletos do pessoal da casa. Naquele tempo, eu trabalhava na Companhia Industrial Itaunense, que vivia, por assim dizer, sua fase de ouro na produção e exportação de tecidos. Tendo minha família se transferido para Belo Horizonte, em busca de outros ares, eu — que tinha ficado em Itaúna — comecei a procurar um local onde pudesse morar. Aconteceu que, depois de alguns contatos nesse sentido, fui bater à porta do Hotel Santana. Foi o amigo Milton Campolina, funcionário na época do Banco da Lavoura (hoje Banco Real), hóspede do citado hotel, que me indicou a nova residência. No dia seguinte à conversa com o Milton, eu estava diante do proprietário da minha segunda morada, por quem fui recebido com boa vontade e delicadeza. Bati para sua estalagem, onde permaneci três rapidíssimos anos com a modelar família Teixeira de Melo, de cuja companhia só saí para me casar. Por isso, conheci bem o Hotel Santana, de que guardo imorredouras recordações. Os donos do hotel, Ivo e Marta, juntamente com seus filhos e hóspedes — sobretudo os de maior permanência — respirávamos uma atmosfera agradável de convivência fraternal. Era um ambiente de paz, descontração e saudável humor. Tanto que já se passaram quase quatro décadas e os anos não conseguiram apagar a lembrança daqueles bons tempos que vivi.”
•43 A cerimônia e a recepção do casamento de Luiz Otávio e Eunice aconteceram no Bairro da Piedade, numa tarde bonita. Marilene, minha irmã, foi dama de honra. Dona Germana Gonçalves, portuguesa, e Dona Mariquinha Carregal também participaram da festa. Mariquinha era alta, magra, branquinha, e sempre começava suas histó- rias assim: “O Lico, meu irmão…” e vinha um caso. Outra viúva idosa, Dona Cecília, também foi morar no hotel. Germana, Mariquinha e Cecília — as três velhinhas hóspedes, para mim, foram precursoras de um conceito que só muito tempo depois virou moda: moradia para idosos. Trouxeram seus móveis antigos: cama de casal, toucador, jarro e bacia decorada… e até urinol. Dona Germana decorou seus aposentos com um toque lito- râneo: uma concha cor-de-rosa, por onde eu “ouvia” o mar, e uma foto da filha Mariinha ao lado do Pão de Açúcar, num porta-retrato claro com um coqueiro in- crustado. Foi dali que nasceu meu sonho de conhecer a Cidade Maravilhosa. Nosso hotel era simples, sem estrelas, mas singular. Muita gente passou por ali, deixando histórias e partici- pando da vida da cidade. Dr. José Valeriano Rodrigues, promotor de Justiça, nascido em Barbacena em 1913, foi um deles. Autor do Hino de Itaúna, junto com Jésus Ferrei- ra, deixou versos que celebram fé, trabalho e amor à terra. Por um sonho de fé e grandeza Por aqui boa gente aportou E na pedra bem preta a certeza De um bom pouso, sem medo, marcou. Foi Sant’Ana de São João Acima Desta forma criada em Gerais.
44• Dentro em pouco subia na estima Pelo esforço de seus ancestrais. Juca Pedro aparecia de vez em quando, vendendo tor- rões de açúcar medicinal que curavam feridas. Malaquias, paulista, não lembro o que veio fazer em Itaúna, mas nun- ca esqueci seu cordão e anel de ouro com pedra preciosa. Brincava comigo e com Cleusa: dizia que, se alguma de nós se casasse com ele, ganharia um anel bonito. Casa- mento? Impossível. Éramos meninas, e ele… muito feio. Sô Chiquinho era viajante. Dona Francisca, ruiva, sar- denta, baixinha e rechonchuda, inspetora estadual de ensino, visitava a Escola Normal para aplicar provas e fa- zer relatórios. Leila e Violeta, moças de Carmo do Cajuru, estudavam em Itaúna. Depois vieram os jogadores do Rio, na fase de ouro do Esporte Clube Itaúna: o Diamante Ne- gro, Evaldo do Vasco, e outros que não lembro. Fizeram sucesso com as moças, até namoraram algumas. Certa vez, chegou alguém que marcaria para sempre a história do hotel. Desembarcou à noitinha na estação cheia de gente. Ninguém sabia de onde vinha nem o que queria. “Veio sem quê nem pra quê” — diziam, alimen- tando especulações. Era Antônio Faria. De família tradicional, solteirão, bonito, cabelos e bigodes pretos, inteligente, culto… e dependente do álcool. Contraiu o vício cedo e nunca se livrou. Numa bebedeira, fraturou as pernas. A família decidiu ampará-lo: no hotel teria cama limpa, refeições e amizade. Com o tempo, as muletas viraram extensão do seu corpo. “Posso andar com elas?” — pediam os meninos, curiosos. Ele ria alto, gargalhada que vinha do peito
•45 combalido, e entrava na brincadeira. Às vezes empres- tava, outras enxotava os pequenos com as muletas, e to- dos entendiam a farra. Um partidão, não fosse a bebida — suspiravam as sol- teironas. Às vezes prometia largar a cachaça, ficava dias sem beber. Todos torciam por ele. Mas vinha a recaída: sumia pelos bares, voltava sujo, abatido, caminhando com as próprias pernas. As muletas chegavam depois, trazidas por algum conhecido. Isso sempre nos intrigou. Um dia não levantou para o café. Chamaram o dou- tor: interação medicamentosa, disse o Atestado de Óbi- to. Tentava largar a bebida. Foi velado no salão do hotel, cheiro de velas e rosas. As muletas, num canto, pareciam reverenciá-lo. Cumpriram sua função. Agora, morto, não precisava mais delas. Não sei que destino tiveram. Só sei que Antônio marcou nossas vidas. Por muito tempo, ainda ouvíamos um toc toc toc imaginário no assoalho. Nostalgia? Não. Apenas lembranças dessas passagens tristes e delicadas. Nosso afeto por Faria e seu infortúnio comoveu a todos. Vizinhança amiga No quintal da casa de Dona Elvira, nossa vizinha, ti- nha uma mangueira muito alta. Quando as primeiras mangas iam amarelando, ficávamos de olho esperando a hora de saboreá-las. Eram mangas “comuns”, as mais gostosas para o meu gosto. Eu batia a fruta ou apertava com cuidado para soltar o caldo amarelo e doce. Com os dentes, tirava uma pontinha da casca e sugava. Para mim, não tinha coisa melhor. Depois, soltava o restante da casca e aproveitava tudo até a semente ficar branca.
46• O caroço sugado se transformava em boneco. As fibras viravam cabelos e barbas. Com lápis coloridos, fazíamos olhos, bocas, nariz — tudo inventado por nós. Saía cada um diferente e esquisito, mas fazia parte da brincadeira. Tia Nice (tia por adoção) morava com a mãe, Dona El- vira. Ela gostava das sobrinhas e, por extensão, das suas amigas. Eram pessoas cuidadosas e preocupadas com a gente. Só Eliane Tarabal tinha “permissão” para subir no pé de manga, sob a alegação de que a avó e a tia não gostavam que subíssemos, com receio de que caíssemos e precisássemos ir para o hospital. Não sei se era verdade… ou se ela, mais ou menos da minha idade, queria demons- trar uma certa superioridade perante as irmãs mais novas e as amigas. No princípio, obedecíamos. Depois, começa- mos a nos aventurar pelos galhos mais baixos para colher. Nunca ninguém caiu ou se machucou. “De criança e bor- racho põe sempre Deus a mão por baixo”, diz o ditado. Eliane era uma das filhas de Moacir Coutinho e Dona Arina Tarabal. Eram sete meninas, todas com iniciais em E, começando pela mais velha, Elisa, até a mais nova, Ele- nice. Eu achava bonito. Dona Elvira e tia Nice eram nos- sos anjos da guarda. Moacir Coutinho, um “tio”, era dono de caminhão e proprietário de um posto de combustível da Texaco, no caminho do bairro Santanense, antes do hospital. Era também dono da linha de ônibus que fazia o transporte entre o Centro e o bairro. Meu pai nunca dirigiu, nunca teve carro. Era seu Moa- cir quem matava nossa vontade de passear. Às vezes de ônibus, outras no caminhão, passeando por Santanense. À noite, quando ele ia para a Praça da Matriz, eu, minhas irmãs, junto com as filhas dele, entrávamos no ônibus, íamos até o ponto de partida para o bairro e depois voltá-
•47 vamos a pé para nossas casas. Aproveitávamos para com- prar picolé ou um pirulito colorido — o Gostosão — que vinha enrolado em papel com cara de palhaço, novidade no baleiro. Dona Arina e Moacir foram um casal marcante. Deixa- ram saudades desses momentos da minha vida, de crian- ça até quase adulta, quando passei a frequentar, junto com as filhas deles, os bailes do União Operária Recreati- va — clube do qual ele foi um dos fundadores e, algumas vezes, presidente. Além de Dona Elvira, minha infância foi cercada por vizinhos cheios de vida, filhos, netos, histórias e afetos. Brinquei com algumas dessas crianças; outras viriam a ser amigas dos meus filhos e sobrinhos. As relações de amizade atravessavam gerações como um bordado bem- -feito: linha firme, ponto cruzado, paciência e afeto. Lembro-me bem do seu Augusto Alves, da Papelaria Virgínia — onde comprávamos os cadernos Avante, com estampa de escoteiros empunhando a bandeira do Bra- sil, estojos de madeira com divisórias, réguas, esquadros, compassos, lápis John Faber e borrachas Mércur. Material escolar completo, comprado com uma certa reverência. Sua loja também vendia forminhas de papel para os docinhos de aniversário, mas o que nos deixava encanta- das mesmo eram os vidros de chocolate granulado. Bas- tava chegar perto do balcão que ele despejava um punha- do nas nossas mãos em concha. A gente voltava para casa com o coração leve e em agradecimento ao bom Augusto. Maria Isabel, uma neta dele, trabalhava na papelaria — e foi também minha colega de escola. Na mesma rua moravam Dona Virgínia, esposa do seu Augusto, e também Dona Ester, que viria a ter um pa-
48• pel importante na minha vida. Outro filho do casal, José Alves — o Nino — morava perto deles e de nós, com sua “carrada” de filhos. Naquela família, como na minha, ha- via crianças de todas as idades. Eu gostava de todos, mas havia uma que me chamava mais atenção: uma sobrinha vinda de Oliveira para passar férias — Marininha. Todas eram bonitas, mas a Marininha se destacava. Ti- nha os cabelos longos, fartos, dourados como trigo no sol da tarde. Eu, menina, sentia uma pontinha de inveja das garotas que vinham de fora — todas pareciam mais arru- madas, mais alegres, mais soltas. Observava-as à distân- cia, reparando nos vestidos de tecidos coloridos, nas fitas do cabelo, nos sapatos que brilhavam. Nunca brinquei com elas. Elas nem me conheciam — mas eu as conhecia com os olhos. Dona Ester, a tia dedicada, solteira e atenta, enchia- -se de alegria com as sobrinhas. Era com ela que eu fa- zia cursos de flores de pano. Aprendi a recortar pétalas, bolear folhas, montar ramalhetes. Depois, fiz também flores parafinadas, com hastes longas — daquelas de enfeitar vasos. Eu já sabia costurar. Fiz para mim um vestido rosa, de tecido encorpado, e resolvi bordar nele uma cerejeira. Flores delicadas, aplicadas na parte da frente, formando um arabesco. Usei miçangas para fi- xá-las. Sempre gostei da arte japonesa. A ikebana é lin- da. As cerejeiras do Japão, as sakuras, são um espetácu- lo exuberante. Aprendi a bordar com Maria Ângela Amaral. Aprendi ponto ajour, matizado, rococó, bainhas. Escolhia os riscos, comprava pedaços de linho, algodão, na Casa de Retalhos do Zinho Nolasco. Eu adoro papoulas — fiz um paninho de bandeja bordado com elas. Acho que tenho até hoje.
•49 Com a vizinhança amiga também me dediquei às artes da cozinha e à produção de bolos, tortas, salgados e doces — para a alegria dos futuros filhos e netos. Praça da Matriz Na maioria das cidades do interior, a Praça da Matriz é um ponto de encontro e convívio social, onde ocorrem eventos e celebrações. Itaúna também é assim. Sempre foi, desde meus tempos de criança, quando a praça era muito diferente. Ao lado da igreja, foi construída uma fonte — como uma bacia enorme — que, nos primeiros anos, foi uma atração para nós. A bacia parecia desproporcional, e os galhofeiros a apelidaram de “bacia da dona Estelona”. Pura maldade! Muitas casas já não existem mais. A praça foi mudando de configuração, com a demolição de alguns prédios. A fonte ficou ali, sem função, quase abandonada, e agora foi revitalizada, prestes a ser reinaugurada, com chafariz mais alto e iluminado. Sempre que vou a Itaúna, passo pela praça e noto a ve- lha fonte — um elemento que permaneceu como um bloco de cimento sem detalhe, mas que chama a atenção. Estou fisicamente afastada da cidade, mas, pelo Instagram da prefeitura, acompanho as novidades que vão acontecen- do. E essa imersão no passado traz à tona as boas recor- dações — muitas e muitas — que vou narrando aqui como participante da história. Era ali que eu e meus irmãos menores íamos aos domingos, com minha mãe, para passear. Não éramos ainda nove filhos, talvez uns cinco, e éramos obedien- tes. Certa vez, pedimos picolé, e eu fui encarregada de comprar, enquanto eles ficaram esperando em um ban-
50• co da praça. Comprei na padaria do Antônio Batista, situada na rua atrás da igreja, mas perdi o rumo e não sabia onde eles estavam me esperando. Os picolés co- meçaram a derreter com o calor do sol, que já estava a pino. Eu fiquei aflita, mas tinha certeza de que alguém iria me encontrar. Nas imediações da praça principal, havia um moinho onde eu e minhas irmãs levávamos os grãos de café torra- do — em panela de ferro, no fogão a lenha — para a moa- gem. Não era uma obrigação nossa, e sim desejo de as- sumir pequenas responsabilidades. Acho que havia uma estimulação para o desenvolvimento da autonomia e de pequenos compromissos. A lista de tarefas incluía também a busca pelo pó de brita — um refugo da produção de pedras empregadas na construção civil, abrasivo natural usado na limpeza de panelas. Cada uma de nós levava uma latinha para co- lher o pó mais fino, pelo qual não pagávamos nada. Esse produto hoje só é recomendado para limpeza pesada. Foi substituído pelo sapólio e outras soluções. Magia dos quintais Resgatando o passado, volto às ruas e quintais de ter- ra batida, onde brincávamos muito. Colhíamos chuchu, mamão verde pequeno, jiló e gravetos. Com eles fazíamos as pernas, rabos e chifrinhos de animais das nossas ca- sinhas e fazendinhas. Foram infinitas as brincadeiras de antigamente: jogar maré, queimada, pula-pula, passa- -anel, telefone sem fio, pique de esconder e brincar com bonecas. Outros faziam máscaras de bichos, gesticula- vam, grunhiam, fazendo medo nos menores.
•51 Meu irmão, Zé Waldemar, talvez por influência dos empresários circenses que se hospedavam no hotel do meu pai, chegou a montar um circo na entrada do po- rão. Anunciou o dia, preparou as entradas (meia para as crianças e inteira para os adultos), improvisou um cená- rio com um lençol velho, pintou a cara de palhaço. Virou o artista principal, dono e administrador. “Contratou” gente da turma para os papéis de mágicos e acrobatas. Lenços coloridos, cartolas, bichos, bicicletinhas imi- tando o Globo da Morte... O elenco era divertido. Todo mundo queria ser artista — mesmo sem cachê. O bom mesmo era a diversão. Meu encantamento por gente de circo me despertou o desejo de ser artista do ramo. Equilibristas, trapezistas, bailarinas — tudo me inspirava. Em outro extremo, tam- bém já quis ser freira, quando apareciam no hotel aquelas irmãs em busca de moças com vocações sacerdotais. E as jabuticabeiras? Ah, as deliciosas jabuticabas co- lhidas no pé! Lembro muito do casarão de Dona Ritinha e do Sr. Aurélio Campos, com seu quintal imenso. Nos tempos da jabuticaba, eu e minhas irmãs íamos ávidas em busca da fruta pretinha. Dona Ritinha as vendia em litros, que colhíamos no seu pomar, mas controlava de longe a colheita e vez ou outra resmungava quando via as cascas caindo no chão. Na fazenda de Paulo Monteiro também tinha muita jabuticaba. Na safra, aguardávamos ansiosas pelo convite da família para saborear de graça. Em Itatiaiuçu, morava o Quedo, amigo do meu pai, que também nos convidava. Mas só depois que o Dr. Milton Penido, prefeito de Itaú- na, passasse por lá. O amigo dileto tinha a preferência, junto com sua numerosa família. Mesmo assim, sobrava
52• fruta. Lembro do Quedo, das suas filhas gêmeas, Carmela e Carmelita, e outros filhos. Uma coisa puxa outra Na rua onde morávamos, presenciamos algumas vezes cenas que me fazem lembrar O Estouro da Boiada, uma das mais belas páginas da prosa de Euclides da Cunha. Mas o que acontecia na minha terra era chamado de “Vaca Estourada”. Naquela época, os gados não eram transportados em caminhões para o matadouro público. Eram conduzidos em grupos pelos vaqueiros. Quando os animais pressen- tiam iminente perigo, eles se dispersavam, espalhando pânico. As pessoas corriam para as casas, umas avisa- vam as outras, e assim formava-se uma eficiente rede de comunicação. Era uma empreitada difícil. Os vaqueiros aboiavam e, com muito custo, conseguiam conter o gado e conduzi- -los sob controle. Mas eu ficava com muito medo de um desastre. Minha irmã Ana Maria tinha o costume de ficar na pracinha esperando outras meninas para brincar. Ela levava sua cadeirinha de madeira esmaltada feita pelo avô Zé de Melo. Mesmo que ela percebesse a situação, não daria conta de sozinha escapar e se esconder. Então era eu quem cor- ria para trazê-la para casa, tremendo de medo. Fecháva- mos a porta, mas não dava tempo de trancar as janelas de madeira. Algumas vezes, uma desgarrada subia no pas- seio e mostrava seu carão ameaçador. Uma coisa vai puxando outra e surge mais uma lem- brança de rua. Isso já faz muito tempo, ficou num passa-
•53 do mais distante ainda. Foi de manhã, muito cedo. Tinha chovido de madrugada. De repente, um caminhão pe- queno tombou bem na frente da nossa casa. Tinha leite derramado, laranjas espalhadas na rua, trouxas de rou- pas, mulheres e crianças chorando. Acho que ninguém ficou ferido. Não houve choque entre dois veículos, nem muito peso. Devia ser um caminhãozinho de mudança com poucas coisas. Ainda bem que não foi nada trágico, porém algo intri- gante permaneceu em mim. Durante muitos anos, uma vez ou outra, a cena me vinha à mente, sempre de manhã mais cedo. Eu sentia no ar uma sensação diferente, até o cheiro do leite derramado e o odor das laranjas. Tem horas que penso ter características de paranormalidades perce- bidas por meio de sonhos e pressentimentos. É uma in- tuição leve, que não me interessa aprofundar. Tenho um estoque de memórias de minha terra e de outros lugares. E mais coisas vão puxando outras tantas. Itaúna tinha muitos nomes de ruas que foram mudando com o passar dos tempos: Rua da Ponte, Rua do Cascalho, Rua do Bu- racão, Rua São Vicente, Rua do Hospital, Rua da Gruta, Praça do Grande Hotel, Rua da Somisa — e todo mun- do da cidade sabia onde ficava. Referências geográficas não oficiais, mas que funcionam. De oficial, tem uma rua em particular que muito nos honra: a Rua Ivo Teixeira de Melo, que fica num loteamento novo. Salvo engano, a homenagem foi feita antes do falecimento dele. A Rua Getúlio Vargas me faz lembrar de uma casa pe- quena, onde morava um rapaz meio estranho que pas- sava horas na janela. Tinha o apelido de Gia. Diziam que ele atacava meninas, acusação nunca confirmada. Mas a curiosidade infantil era grande, e a gente passava na
54• rua para ver se ele estava mesmo lá. Numa noite de re- lâmpagos e trovoadas, o telhado da casa do Gia ficou destruído. “Um castigo”, segundo os propagadores de fake news de então. O mistério daquele apelido sempre me intrigou. Gia ou sapo, já que se tratava de um ser masculino? Gia (Jia) é uma espécie de rã e, no mundo espiritual, segundo minha pesquisa, simboliza renovação, purificação, de- vido à sua ligação com a água e ao ciclo de vida do girino para adulto. Conexão com o mundo espiritual e emo- cional, sinal de que é o momento de enfrentar questões internas. E eu, menina ingênua, imaginava que fosse um ser do mal. Em tempo de chuvas intensas, surgem pequenas rãs no beiral das minhas janelas, quietinhas como pedras cor de gelo. Sinto aflição em tocá-las, mas dou um jeito de soltá-las na mata exuberante atrás do meu prédio. Lá é o lugar delas, em paz no Parque Mangabeiras. Coisas da política Que eu lembre, em nossa casa não se falava em polí- tica. Não havia preleção a respeito do tema. Meu pai não tinha hábito de conversar sobre o assunto. Nos bares, nas ruas, é evidente que havia palpites, partidos adver- sários, polêmicas. Meu irmão mais velho já era um líder estudantil e, em época de campanha municipal, fazia seus discursos na frente da Prefeitura, em prol do can- didato que apresentasse a melhor plataforma de gover- no. Eu admirava meu irmão e ia ouvir o que ele falava. Acho que ele nem sabia que eu estava no meio do povo. Ele não era candidato e eu não era eleitora.
•55 Um certo dia, só por curiosidade, perguntei ao meu pai quais eram os partidos políticos que existiam em Rio Manso, cidade onde nasceu. Ele respondeu: “Dois, os Periquitos e os Papagaios.” Satisfez minha curiosidade e encerrou a conversa. Não entendi nada, se era verdade ou piada. Sei que, para prefeito de Itaúna, ele votou no Dr. Milton Penido, do PSD, que foi chefe do Executivo duas vezes. Sabia também que ele gostava de Juscelino Kubitscheck de Oliveira, o JK. Este era um po- lítico desenvolvimentista. Se eu votasse naquela época, eu seria eleitora dele. Em 1961 eu tinha 15 anos. Não podia votar, e pela lei eleitoral eu teria que esperar mais três anos. Aconteceu que houve um golpe militar em 1964. A ditadura durou 21 anos e eu só pude votar pela primeira vez aos 43 anos. Incrível: hoje jovens de 16 anos já podem votar. Para mim, o voto não é obrigatório, voto se quiser, mas não me apetece. Vivemos um tempo muito difícil e estra- nho. As pessoas mudaram, muitas estão cheias de vazio e são as que mais sonham com cargos no Parlamento. Tenho saudade dos políticos do passado, principalmen- te dos mineiros. Como dizia o jornalista Geneton Moraes Neto: “O Brasil não é para amadores”. Nunca foi. Aqui, parece que o improvável acontece, o que é dado como certo não se confirma. O razoável é tido como loucura. O de- lírio vira fato: quem imaginava que um presidente fosse erguer uma nova capital no meio da mata, no meio do nada, depois de ouvir o palpite de um eleitor num co- mício? Pois Juscelino realizou seu sonho. Hoje os eleitores se digladiam, não sabem o que querem, a soberania da Nação está em frangalhos, os
56• congressistas não têm ética nem pudor. O que nos res- ta é a esperança de um mundo melhor para nossos fi- lhos e netos. Eu cá, ando com fé — e com fé eu vou até onde der. Cotinha e a agulha do destino Cotinha foi um tipo popular da cidade. Como ela, ha- via muitos — os loucos da minha terra, tão diferentes dos de hoje. Desprovidos de tudo, vagavam pelas ruas, mal- trapilhos, sem causar mal a ninguém. Eram figuras que doía de se ver. Tornaram-se, com o tempo, exemplos si- lenciosos de aceitação e humildade. Esmolavam com gestos largos, olhares perdidos, pa- lavras desconexas, ininteligíveis, como se falassem em outra frequência, outro tempo. Cotinha, entre todos, foi uma das que ficaram na memória da nossa cidade. Era alta, magra, enrugada. Andava sempre descalça — os pés calosos, gretados, marcados pelo chão duro que nunca tinha fim. Diz a lenda que, ainda menina, perdera uma agulha. A mãe, tomada pela raiva, praguejou:“En- quanto viver, terá que andar procurando a tal agulha, até achar.” E assim foi. Cotinha ficou acorrentada à sua caverna interior, vivendo uma existência procurando agulha no palheiro. Entrava nos jardins das casas, apanhava flores para enfeitar os cabelos. Pequenos buquês improvisados com ternura e delírio. Saía, voltava para a rua e conti- nuava sua peregrinação, repetindo o mesmo refrão: Sou moça, sou bonita, sou donzela… Sou moça, sou bonita, sou donzela…
•57 E seguia, com os olhos fixos no chão, remexendo fo- lhas, gravetos, papéis que o vento soprava para os cantos das ruas, cumprindo a sina que a loucura lhe impôs. O presépio do Sô Umberto No início do século XX apareceu em Itaúna um italia- no do extremo sul da Itália, bem da pontinha da bota, de um lugarejo chamado Tramitola. Foi isso que o imigran- te Umberto Salera contou ao chegar. O povo de Itaúna, humano e hospitaleiro, ouviu com interesse a história do moço cheio de sonhos que atravessou o oceano para co- nhecer o Brasil. Adoro contar histórias de pessoas da minha cidade e daquelas que chegavam para ficar. A história do Sô Um- berto e seus grandes feitos é uma das mais interessan- tes. Ele era sapateiro, um calzolalo, e foi esse seu primei- ro trabalho em Itaúna. Entendia tudo sobre couros e fez bons sapatos para muitos homens. Logo arranjaram uma noiva para ele, a moça era parente de outro imigrante de sobrenome Vizziani. Casaram-se, tiveram muitos filhos, deixando muitos descendentes. Tivemos muitos amigos dessa família. Além de exímio artesão, Sô Umberto tinha outros co- nhecimentos e habilidades. Tornou-se um empresário bem-sucedido do ramo minerário e cidadão itaunense reconhecido e admirado. Para nós, que fomos crianças, a lembrança que nos deixou foi a sua grande obra, singela e valiosa: um magnífico presépio construído no lote adja- cente à sua residência, às margens do Rio São João. Todas as peças eram artesanais e feitas por ele. Era uma verdadeira obra de arte, que despertava sonhos no
58• coração das crianças. O presépio era grande, quase da al- tura do teto do cômodo construído para esse fim. A mon- tagem parecia uma vila iluminada, com casinhas, ani- mais, lenhadores, monjolo, moinho, trabalhadores, os três Reis Magos, a manjedoura forrada com capim, com o Menino Jesus e seus pais Maria e José. Todas as figuras estavam ali, artisticamente colocadas. Sô Umberto era um religioso que acreditava no poder da água ungida. Quis que as águas do Rio São João jor- rassem das montanhas da cidade que o acolheu. Fez um pequeno desvio do rio para captar água suficiente para dar movimento e vida ao presépio. O Monumental Presépio do Sô Umberto entrou para nossa história e deixou saudades. Meus três primeiros fi- lhos e seus primos foram muitas vezes visitar e ficaram maravilhados. O milagre da conversão Em julho de 1955, três meninos de Itaúna disseram ter visto a imagem da Virgem Maria sobre um cupinzeiro em uma mata na Vila Mozart. Assustados com a apari- ção, correram para suas casas. A notícia se espalhou e, em pouco tempo, uma multidão incrédula correu ao local — uns na esperança de ver a Santa, outros para conversar com os pequenos videntes. Eu também, com 9 anos, fui acompanhada àquele lu- gar de peregrinação, cheia de esperança de ser contem- plada com a graça de ver Nossa Senhora. Por mais que eu rezasse, Ela não apareceu para mim. Nosso vizinho, o farmacêutico Ovídio Alves de Sousa — agnóstico ou quem sabe um ateu convicto — foi uma
•59 das pessoas que também relatou visões. Com base na sua descrição, foi reproduzida a imagem de Nossa Senhora de Lourdes, que até hoje ocupa o altar central da gruta de pe- dra construída no local da aparição, junto a uma pequena capela erguida anos depois. Dono da Farmácia Lima, vizinha à residência de sua numerosa família, Seu Ovídio era o amigo cordial que nos atendia, sempre de terno e gravata por baixo do jale- co branco. Era na sua farmácia que íamos tomar injeção e comprar desde grampinhos para cabelo até esmaltes, perfume da Coty, talcos, sabonetes… além de remédios, é claro. Tudo fiado para pagar no fim do mês. Sério e solene, para todos um exemplo de cidadania, após a conversão passou a percorrer diariamente, no vo- lante de seu automóvel, o caminho de casa à gruta para suas orações — enquanto sua saúde permitiu. Semana Santa Na minha cidade, nos meus tempos de menina, a Se- mana Santa durava sete dias. Agora, a impressão é que a semana ficou menor, ou já não é tão santa como no passa- do, principalmente nas cidades grandes. Tudo foi mudan- do aos poucos. Dia santo, atualmente, é só na sexta-feira da Paixão. A partir de quarta-feira as pessoas vão deixan- do as cidades para viajar. As rodoviárias ficam lotadas e as igrejas vazias. Não é como ontem, em Itaúna, quando todos os dias havia celebração na Praça da Matriz. A Procissão do Encontro era a que mais me encantava. Parecia um teatro a céu aberto. A imagem de Nossa Senhora das Dores saía de uma capela da Praça Imaculada Concei- ção. As mulheres formavam o cortejo, rezando e entoando
60• cânticos em louvor a Maria. O andor era lindo, todo flori- do. Eu ficava olhando detalhe por detalhe: descobri uma lágrima de resina na face de Nossa Senhora, mostrando o semblante triste de Maria, o que me comoveu. Do outro lado da cidade, vinha o Senhor dos Pas- sos, carregando a pesada cruz de madeira, ajoelhado, com uma coroa de espinhos cravada na fronte. A túnica era marrom, ajustada na cintura com um cordão de São Francisco. Percorridos os trajetos, as procissões se posi- cionavam frente a frente. O padre José de Souza Nobre, brilhante orador, já estava a postos. No lava-pés da quinta-feira era outro o cenário, com os apóstolos sentados lado a lado e Jesus. A sexta-feira da Paixão era de um profundo silêncio e respeito. Vivia-se o luto como se fosse a morte de um familiar. A Via-Sacra começava às 15 horas. O trajeto passava pelas 14 esta- ções, momentos da Paixão de Cristo. À noite acontecia o descendimento da cruz. Perpétua, nossa vizinha, contralto, interpretava a figura Verônica, entoando o Responsório — O vos omnes, desenrolando o Santo Sudário, emocionando os fiéis. A cerimônia avan- çava pela noite com a descida da cruz e a procissão do enterro, momentos mais tristes, porém bonitos. Meu avô sempre ia, de terno e gravata. Nós também íamos com ele. Durante o cortejo, quase sempre se sentia um chei- ro de queimado. Alguém descuidado ou com muito sono deixava a vela acesa sapecar a ponta de algum cabelo re- belde. No caminho, uns iam deixando a procissão quan- do chegavam perto de suas casas, outros entravam e se- guiam até a igreja para o encerramento. No Sábado de Aleluia, a hora do revide. O povo se reunia para fazer o tradicional boneco de pano com
•61 enchimento de trapos, que penduravam num suporte qualquer. À noitinha começava a queima de Judas, sob efeitos de fogos de artifício. A meninada adorava jogar estalinhos no chão. A noite terminava com os imperdí- veis bailes de Aleluia nos clubes da cidade. Para os que não acordavam de ressaca do dia anterior, o Domingo da Ressurreição começava cedo e com cheiro de aurora. Os sinos badalavam, chamando para a procis- são e missa campal. Moças vestidas de rosa, azul e verde, com grandes asas, representavam a Fé, a Esperança e a Caridade. De branco, com belas asas, o Anjo da Amargura. Festa no Morro do Rosário Reinado e Congado são festas religiosas celebradas em Itaúna no dia 15 de agosto, mesma data em que se comemora a Assunção de Nossa Senhora pelo calendário católico. O Congado e Reinado têm raízes nas religiões de matriz africana, e por isso, no passado, seus praticantes enfrentaram dificuldades com a Igreja Católica, por “de- sobediência”. João Dornas Filho, itaunense, poeta, con- tista e historiador, registra em seus escritos os embates de ambos os lados. Os congadeiros resistiram e até hoje a festa tem data fixa no calendário religioso e cultural da cidade, com direito a feriado para o povo participar. Desde criança, meus pais me levavam para assistir aos festejos. Na subida do Morro do Rosário, de uma ro- cha parecida com quartzito, branco acinzentado, exten- sa e inclinada, tem-se uma vista panorâmica da cidade, como se fosse um mirante. É dessa laje que eu, minhas amigas e minha prima Dilma assistíamos sentadas às danças e rezas. Era preciso estender panos e toalhas e
62• abrir as sombrinhas quando o sol começava a escaldar. Os namorados suportavam o desconforto para aprovei- tar mais tempo naquela festa, que não estaria completa sem as tradicionais barraquinhas com cocadas, quebra- -queixo, suspiros, pé de moleque e groselha gelada para espantar o calor. Atrás dos congadeiros seguem os devotos, com terços, flores, oferendas para colocar no altar, rezar ajoelhados e beijar a fita pendente da imagem da Santa. Festa muito bo- nita e colorida, preparada pelas irmandades que se ajudam o ano inteiro. Morei em uma casa na Av. Getúlio Vargas, entre os anos 1967 e 1968. Em frente morava o Joaquim Procópio e sua família. Joaquim era coordenador ou chefe de uma guarda. Ali os congadeiros se reuniam dia antes da festa para os en- saios. Cantavam e batiam tambores no quintal. Da janela eu acompanhava o movimento. No dia da festa eles chegavam paramentados e se juntavam para subir o morro. Marcus e Simone escutavam o batuque dos tambores e marcavam o ritmo com as mãozinhas, me puxando para a festa. Reinado precisa ser compreendido para ser admirado. Reinado é a simplicidade, a humildade, marcadas por dan- ças, cantos em devoção a santos, como São Benedito, San- ta Efigênia e Nossa Senhora do Rosário. Depois que apren- di um pouco a simbologia da celebração, passei a admirar ainda mais os rituais.
•63Nos tempos das aulas de acordeão, com minha mãe, irmãs, irmão, prima e avô Tio Didi com as sobrinhas Dilma e Maria Lúcia e os sobrinhos Ivo (no colo) e José Fotos: Álbum de família
64• Hotel Santana, de saudosa memória Fotos: Divulgação
•65 Igreja do Rosário, palco dos festejos do Congado Cine Rex: matinê aos domingos Itaúna na década de 1940: onde nossa história começa. Ao fundo, à esquerda, a Estação Ferroviária Gruta com a imagem da Virgem Maria
66• Nas ondas do rádio Em nossa casa havia um rádio de caixa de madeira, muito bonito e funcionando perfeitamente. Era uma peça digna de colecionador. Ficava ligado quase o dia todo, sin- tonizado na Rádio Clube de Itaúna, ZYZ4. Esse rádio hoje está em boas mãos: foi dado ao meu irmão Ivo, que sempre achou o aparelho muito bonito e pediu ao nosso pai. A Rádio Clube de Itaúna tinha ótimos programas de música e informação. Os locutores eram profissionais criativos e animados. Lembro do Marcelo Augusto de Fa- ria, o Mineirinho; do Naningo Neto; e do Cosme Silva, que além de locutor era radialista e contrarregra — um verda- deiro coringa. Minha mãe gostava de ouvir Tonico e Tinoco, Alva- renga e Ranchinho, Dalva de Oliveira, Linda Batista, Emilinha Borba. Entre suas músicas preferidas estavam Casinha Branca, Beijinho Doce, Índia, Recuerdos de Ypaca- raí, Ave Maria do Morro, Carinhoso e Serafim e seus filhos. Lembro de todas, pois ouvia com ela. Do repertório sertanejo raiz, recordo Chapéu de Páia, de Alvarenga e Ranchinho, que tocava muito de manhã- zinha, com o sol nascendo. Nessa hora, os locutores co- meçavam: “Acorda Maria Bonita, levanta vai fazê o café, o dia já vem raiando e a polícia já tá de pé.” O contrarregra da Rádio Clube entrava em cena, imitando o galo cantando e o gado berrando.
•67 No programa Tarde Sertaneja, Mineirinho brincava dizendo que as madames fingiam não ouvir seu progra- ma, mas quando ele anunciava que havia uma empregada procurando emprego, o telefone da rádio não parava de tocar — sinal inequívoco de boa audiência. Na minha infância, as radionovelas estavam no auge. Eu não acompanhava, mas minha mãe sim. A mais fa- mosa e mais longa foi O Direito de Nascer, com mais de 160 capítulos. Dizem que todo mundo já estava se abor- recendo com aquela lenga-lenga e passou a chamar de “O Direito de Morrer”. Houve também uma radionovela fictícia chamada Pre- sídio de Mulheres, muito comentada, assunto em todos os lugares. A trama girava em torno da vida de diversas prisioneiras que, apesar das origens diferentes, compar- tilhavam o mesmo destino — entre brigas, dores e trai- ções, emocionando as ouvintes. Eu tinha uma conhecida de Itaúna que só falava nisso, tanto que ficou apelidada de Vera Presídio. Lembro muito dela: era bonita e inteligente. Dois pra lá, dois pra cá Meus pais eram sócios do Automóvel Clube, mas não iam a bailes que ocorriam no terceiro andar. Meu pai,du- rante algum tempo, frequentava o segundo, onde se joga- va baralho, entre baforadas de cigarro e goles de cerveja com os amigos. Ambiente “reservado”, portanto. O clube tinha uma programação intensa: hora-dan- çante aos domingos à tarde, desfiles de modas e bailes em datas fixas. Os clubes de Itaúna sempre contratavam as melhores orquestras para tocar nos bailes. Lembro-me dos covers de Ray Conniff, Billy Vaughn, Glenn Miller,
68• Frank Sinatra, Românticos de Cuba. Clássicos eternos que evocam elegância e nostalgia. Repertório da melhor qua- lidade e ritmos calientes e românticos, como os boleros: Reloj, non marques las horas, deten tu camino, reloj, porque voy a enlouquecer … para que nunca amaneza… Fácil de dançar: dois pra lá, dois pra cá, e rostos co- lados, como si fuera esta noche la última vez. Bésame, bé- same mucho… Os primeiros acordes para os boleros, tan- gos, mambos, rumba, chá-chá-chás e sambas-canção já eram convites para a pista em forma de círculo rodea- do de mesas. As moças bem-vestidas, de salto alto, os rapazes engravatados, ternos de tropical inglês, camisas de puro linho ou...Volta ao Mundo, as que nunca amar- rotavam. Haja suor! Eu e minhas irmãs íamos aos bailes com nossas ami- gas, nunca sozinhas. Precisávamos de companhia na hora de ir para casa. Dona Ducarmo Pereira Quadros era nossa retaguarda. Ela levava as filhas e outras amigas também. Éramos vizinhas. Ducarmo era animada, mas quando o sono batia, e ela já farta de empadinhas e gua- raná anunciava a retirada, era a hora das filhas se escon- derem atrás das colunas da pista central e dali mesmo aceitar o convite para mais uma dança. Outras se ocu- pavam de distraí-la para ganhar mais tempo, tarefa que cabia às que tomavam “chá de cadeira”, condição em que nenhuma gostava de estar. À Dona Maria do Carmo devo um crédito pela atenção e carinho. Saudades!
•69 Fazer avenida Na minha mocidade, muita coisa acontecia na praça principal da cidade — especialmente na ala que atraves- sava a avenida em frente à Igreja Matriz. Era ali o ponto de encontro da juventude, o palco do nosso footing, que em Itaúna tinha nome próprio: “fazer avenida”. Os rapazes e as moças se posicionavam em sentidos opostos, e o desfile começava. As moças se embelezavam e, de braços dados com as amigas, caminhavam pela ave- nida, pra lá e pra cá. O objetivo era simples: ver e ser vis- ta, trocar olhares, paquerar. Muitos namoros começavam assim — com um sorriso tímido, um olhar demorado, um aceno discreto. Mas o footing também revelava as divisões da nossa sociedade. Lembro-me bem da “formação” dos rapazes: no início da avenida ficavam os da classe alta; depois vi- nham os da classe média; em seguida, os operários; e, por fim, os pobres e os negros. Estranho, não é? Hoje me soa absurdo, mas era o reflexo naturalizado do preconceito econômico, social e racial da época. Os mais bonitos, confiantes e desinibidos se agrupa- vam logo no início, exibindo ternos bem passados e sa- patos engraxados. Os mais simples e humildes, um pouco mais à frente. As moças também se organizavam desse modo — uma separação silenciosa, mas perfeitamente compreendida por todos. E, mesmo assim, tudo aconte- cia em paz na Praça da Matriz. Havia três clubes na cidade, cada um com seu público e estilo: o Automóvel Clube, o mais tradicional; o União Operária e Recreativo, originalmente voltado para os tra- balhadores; e o Flor do Momo, um pouco mais afastado
70• do Centro, criado pelo empresário Júlio Magalhães. Como seu próprio nome sugere, este último tinha fama de ser o mais animado, principalmente nos bailes de Carnaval, com sua energia contagiante e samba no pé. Minha geração Os Anos Dourados no Brasil referem-se ao intervalo de nossa história que se inicia no pós-guerra e vai até mea- dos da década de 1960. Ou seja, de Getúlio Vargas a João Goulart. Tempos de grandes transformações econômicas e políticas. Getúlio, que havia deixado o poder após 15 anos de governo, parte desse período como ditador, volta a governar em 1951, consagrado pelo voto popular. “Bota o retrato do velho, bota no mesmo lugar, o sorriso do ve- lhinho faz a gente trabalhar”, dizia o refrão fácil de deco- rar. Governou até seu suicídio, em agosto de 1954, ano que marca o início de uma era de turbulências institucionais que culminaram com o golpe civil e militar de 1964. Sou de uma geração em parte testemunha dessa época que moldou o mundo de forma profunda e definitiva. Vi- vemos o fim da Segunda Guerra Mundial e, com ele, uma era de reconstrução, de recomeço. No cenário interna- cional, os esforços de recuperação das nações devastadas pela guerra. Pela primeira vez, o mundo parecia entender que a paz precisava ser construída, não apenas ficar espe- rando por ela. Em paralelo aos solavancos da política, o Brasil viveu uma fase áurea nas artes em geral, sobretudo na música, com o surgimento da Bossa Nova e de uma nova linguagem cinematográfica que veio substituir as velhas chanchadas da Atlântida, o Cinema Novo. O ar de modernidade vi-
•71 nha acompanhado pelo advento de grandes obras, como a construção de Brasília, a nova capital, e o surgimento das primeiras indústrias automobilísticas, mudando em definitivo o cenário das cidades. Mas não foi só a música e o cinema que projetaram o nome do Brasil no exterior. Em 1958, a Copa do Mundo era nossa pela primeira vez, com luxuosa atuação de um rapaz de 17 anos chamado Pelé. Em 1962, outro gênio, Garrincha, encantou de novo o planeta. E repetimos o feito. A taça era nossa pela segunda vez. Como já foi dito, na minha casa as coisas da política passavam ao largo das conversas. Apesar das instabili- dades financeiras e dificuldades do dia a dia, me lembro apenas de um fato inusitado e digno de registro. No pri- meiro dia de abril de 1964, minha mãe voltava de ônibus de Belo Horizonte para Itaúna, com o filho de 5 anos. Na altura da barreira rodoviária, a simples dona de casa foi surpreendida com a interdição do ônibus. Minha mãe não se deu conta do que estava acontecendo no país e, muito menos, que não carregava documentos, motivo pelo qual foi impedida por militares armados de seguir viagem com o filho menor. A coitada ficou lá por horas, até que a situa- ção fosse resolvida pelo pessoal de Itaúna, cidade pacata, onde só tinha, se muito, três autodeclarados comunistas. Todos inofensivos: um médico, um dono de bar muito co- nhecido, o Onofre, e seu irmão apelidado de Colchão de Mola. Tempos bicudos estavam por vir. Na segunda metade dos anos 1960, o mundo passou por grandes transformações: movimentos sociais, cul- turais e políticos ganharam força, como o Maio de 68 na França, a luta pelos direitos civis nos EUA e o surgimento da contracultura. No Brasil, o período foi marcado pelo
72• golpe militar de 1964, início da ditadura, repressão po- lítica, censura, mas também por avanços na indústria, urbanização, e efervescência cultural. Foi uma época de agitação, mudanças profundas e contrastes entre pro- gresso e autoritarismo. Mas se houve um campo em que as transformações mais me empolgaram, foi o da cultura. Nos palcos, a ce- lebração da vida e da liberdade. As injustiças e as dores do povo foram traduzidos em belas canções e imagens, aproximando o artista do cidadão comum. Nas TVs, a temporada de festivais contribuiu para o revelar uma ge- ração de grandes compositores. Além do entretenimento, uma combinação eterna de poesia, lirismo e protesto. Hoje, olhando para trás, percebo o privilégio de ter vi- vido em tempos tão ricos, apesar de sombrios. Os jovens de 60 foram a geração sonhadora, a geração a que per- tenço viveu entre dores e delícias, lutas e conquistas. E, sobretudo, de presença. Ocuparam as ruas, os palcos, as escolas, pregando o sonho de um mundo melhor. A lenda de Miss Itaúna As décadas de 50 e 60 foram marcadas também pe- los concursos de miss. A mais famosa delas foi a baiana Marta Rocha, eleita a primeira Miss Brasil em 1954, e seu segundo lugar no Miss Universo foi motivo de comoção nacional. Perdeu o título para uma norte-americana por ter duas polegadas a mais nos quadris. O lamentável epi- sódio que passou a fazer parte do nosso folclore de país dos vira-latas virou até marchinha de Carnaval. Desde então, os concursos de miss passaram a ser realizados nos estados do país. Em Minas Gerais, Nico-
•73 lau Neto, jornalista que cobria o interior do estado, foi o grande promoter desse tipo de evento. Ainda hoje, guar- do na memória sua voz na televisão, apresentando as be- lezas e outras virtudes das candidatas, sob o patrocínio dos maiôs Catalina. Maria Tereza Dornas foi uma das que levaram a coroa, em nome de nossa cidade. A onda dos concursos de beleza cresceu. É aí que entra a confusão. Meus netos adoram espa- lhar por aí que a avó deles foi Miss Itaúna. Por mais que eu explique, não adianta: eles continuam espalhando a fake news como quem conta vantagem. A verdade é que fui, sim, uma das Dez Mais de Itaúna, em concurso pro- movido pelo jornalista Cosme Silva e Idervan Nogueira Jr. Todos os anos a sociedade aguardava, ansiosa, a famosa lista das dez moças em destaque na cidade. Naquela épo- ca, Itaúna tinha fama de ser cidade de mulheres bonitas. Em outra ocasião, ganhei o título de Miss Suéter. Isso foi bem antes da gravação do bolero homônimo e sutil- mente irônico, composto por João Bosco e Aldir Blanc, com interpretação magistral de Ângela Maria. Pois foi a soma desses dois concursos, digamos paroquiais, que ali- mentou o engano e me rendeu, até hoje, uma coroa ima- ginária, eternamente festejada pelos meus netos.
74• O inesquecível João Bolinha das primeiras lições Reprodução
Minha história começa nas primeiras leituras da in- fância, quando descobri que as palavras podiam abrir janelas para o mundo. Cresci entre livros e sonhos, e deles nasceu meu desejo de ensinar. Tornei-me profes- sora, e cada aluno foi um capítulo novo na minha vida. Hoje, carrego comigo a maturidade intelectual que o tempo me deu, fruto de uma caminhada feita de estudo, dedicação e amor pelo conhecimento. Vestida de azul e branco Trazendo um sorriso franco No rostinho encantador Minha linda normalista Rapidamente conquista Meu coração sem amor. Versos de Normalista, samba-canção composto por Benedito Lacerda e David Nasser. ef
76• Minha formação Aos sete anos fui matriculada nas Classes Anexas da Escola Normal Oficial de Itaúna, onde fiz meu curso pri- mário, o ginasial e o curso para normalista. Minha neta Alice certa vez indagou se existe “escola anormal”. Achei graça na pergunta da menina que já entendia de sinôni- mos e antônimos. Pensando bem, fazia sentido. A minha Escola Normal foi, seguramente, uma instituição boa, confiável, autêntica e ampla. Foi lá que recebi toda a base de minha formação. Fui matriculada em 1953 (ainda não existia jardim de infância). Minhas primeiras professoras foram Conceição Jardim, no primeiro ano, e Alzira Dornas, a Ziroca, no se- gundo. No terceiro, na ausência de uma titular, foram três substitutas: Ana Alves, Tia Alice, Heny Alves. No quarto, Heny Alves novamente. Dona Ziroca, que anos depois se tornaria nossa vizinha, me parecia a mais nova e tinha uma peculiaridade: morava na fazenda de seu pai Astolfo Dornas, e se deslocava da zona rural para o trabalho pe- dalando sua bicicleta. Aos meus olhos, uma proeza. Dos primeiros colegas do primário, lembro dos No- gueira, Jesse, Maria Ramira e Maria Aparecida, além de Márcia Guimarães e Vânia Mendes; dos Dornas, Astol- finho e Tânia; dos Parreiras, Marilene e Jader; dos An- drade, Irza e Vinicius; e ainda Marisa Antunes e Lúcia Campos Coelho. Lúcia era filha do Dr. José Campos e de Dona Alba. No fundo da casa dela havia uma dependên- cia com mesa e um quadro para escrever com giz e brin- car de professora. Era lá que a gente sempre ia para fazer o dever de casa e depois brincar, com direito a um lanche gostoso, bem gostoso.
•77 O Livro de Lili, da professora mineira Alice Fonseca, foi meu primeiro guia de alfabetização. Adotado por muitas escolas à época, soube mais tarde que foi escrito com base no método Global de Ensino que veio substituir o bê-á- -bá. Livrinho atraente tanto pela capa, texto e ilustrações, uma para cada lição, carregadas de sonoridade, ritmo, ri- mas. Lindo demais e inesquecível. Olhem para mim. Eu me chamo Lili. Eu comi muito doce. Vocês gostam de doce? Eu gosto tanto de doce! (…) Lili toca piano. Lili toca assim: dó, ré, mi, fá … Suzete ouve Lili tocar, Suzete é a cachorrinha. Toca, Lili, toca dó, ré, mi, fá. Outro livrinho inesquecível que povoou nosso uni- verso infantil foi João Bolinha virou gente, de Vovô Felício, personagem criado pelo escritor e educador mineiro Vi- cente de Paulo Guimarães. Feito de bolas coloridas de ta- manhos variados, o boneco nos encanta até hoje. Sabem quem eu sou? João Bolinha, Boneco desengonçado; Com quem brincar eu não tinha. Pois vivia desprezado. Depois do primeiro ano, já estava apta para ler mais livrinhos de história. Marilene, minha irmã, tinha um clássico da literatura, A Gata borralheira. Presente da tia- -avó Geny, que ela emprestava para Cleusa e para mim. Lemos tanto aquele livro que decoramos os versos: Numa labuta incessante. Vive essa pobre menina.
78• Que sem ter nenhuma culpa. Vive a sua triste sina. Vítima de gente estulta... Meu primeiro diploma foi entregue com festa e baili- nho organizado pela Heny, que ficou em apuros para or- ganizar os pares. Como administrar as escolhas de cada um? As preferências recaíam nos mais bonitinhos e bo- nitinhas, por razões óbvias. Diante da concorrência de parte a parte, não tive muita escolha. Apesar de “boni- tinha”, prevaleceu o meu lado “boazinha”. Entendi que “meu escolhido” par merecia a mesma atenção como os outros. Fui recompensada com meu primeiro e lindo vestido de baile em rosa claro, de um tecido que estava na moda, de algodão, cuja trama formava um zigue-za- gue como os que apareciam na tela da televisão quando saía do ar. Bem original. A festa foi ótima, regada a gua- raná e salgadinhos. Até esqueci do meu par. Em seguida veio o curso de Admissão, uma espécie de preparatório para o curso ginasial, concluído em dezem- bro de 1957. No comando das aulas, Heny Alves, Dirce Maimone, D. Cecy Tupinambás e D. Celita Gonçalves. Na pasta, o clássico livro escrito pelos catedráticos Haroldo de Azevedo, Domingos Paschoal Cegalla, Joaquim Silva e Osvaldo Sangiorgi. O currículo do Ginasial, iniciado em 1958, era amplo, rigoroso e variado, com destaques para o Francês, o La- tim e os Trabalhos Manuais. Lembro das colegas Teresinha Antunes e de suas irmãs, Ivony e Carmita, digníssimas representantes de Crucilândia. Teresinha e Maria Apare- cida Quadros — esta nascida em São José dos Salgados —, minhas grandes amigas, me acompanharam até o Cur-
•79 so de Normalista. Com elas, vivi momentos agradáveis e sempre enriquecedores: bailes, cinemas, aniversários e viagens. Muitas saudades delas! Em 1963 teve início o 2° ciclo com três séries, con- cluído em 1965, quando foi expedido meu certificado de conclusão do Curso Colegial Normal, com destaques para Educação Didática e Teoria Pedagógica, Educação Cívica, Psicologia, Biologia Educacional, Estudos Sociais, Educa- ção Física e Canto. Minha formatura foi um evento solene, marcado por uma missa festiva. Nossa beca era branca, com um mo- delo diferente do tradicional, o que já dava um toque es- pecial à cerimônia. O baile aconteceu no Automóvel Clube, numa noite cheia de elegância. As colegas circulavam com seus tu- binhos bordados com pedrarias, em tons bem claros. O meu, porém, destoava dos demais. Era um vestido verde, de tecido fino comprado na Casa Bangu. A ideia e a cria- ção foram do Rala, um estilista desconhecido, vizinho do prédio onde meus pais moraram em Belo Horizonte. O modelo tinha saia curta, ligeiramente rodada, e um decote contornado por um delicado fru-fru, perfeito para meu corpo magrinho, com as “saboneteiras” salientes que realçavam meu colo. Para completar, usei luvas de cetim da mesma cor e, nos pés, sapatos Chanel comprados na Rua do Ouvidor. Um verdadeiro show, registrado para a posteridade em fotos feitas na casa de Ivaní Corradi. Não posso falar de minha formação sem manifestar minha profunda gratidão a todos aqueles que contribuí- ram de maneira significativa na sedimentação da minha base intelectual, tão importante para os desafios profis- sionais que enfrentei ao longo da vida. De forma especial,
80• lembro aqui de alguns com carinho e uma certa indiscri- ção, em nome dos quais agradeço a todos. Ibsen Drumond, meu professor de Português, era muito culto, suas aulas prendiam minha atenção. Com ele aprendi com facilidade análise sintática, fundamental para compreensão da estrutura da frase, a relação entre os termos da oração, ordem direta e indireta, a estrutura superficial e profunda. Sua didática permitia uma inter- pretação mais precisa do texto. Osvaldo Chaves, meu professor de latim. Era uma figu- ra meio exótica, andava com um guarda-pó cor alaranja- do. Era tímido. Com ele aprendemos as cinco declinações, sistema de flexão nominal que modificavam a terminação das palavras para indicar sua função na frase. Osvald era casado com a Ritinha. O casal morava numa casa na Rua Melo Viana. Gostava muito dela. Nos intervalos das aulas, dizem que ele queria ter notícias da esposa, mas, para não assustá-la com o toque do telefone, ligava para a vizinha para ver se a Ritinha estava bem e, depois, tinha a res- posta. Se era galhofa, não sei. Embora Chico Buarque não tenha conhecido o distinto casal, sua canção de 1966 me faz lembrar destes versos: “A Rita levou meu sorriso / No sorriso dela / Meu assunto / Levou junto com ela / E o que me é de direito /Arrancou-me do peito / E tem mais”... Professor Lauro Antunes de Moraes, solteiro, lindo, arrancava suspiros. Foi meu professor de História do Bra- sil e Geral. Tinha cultura extraordinária. As aulas tinham vida. Antigo Egito, Mesopotâmia, faraós, pirâmides, mú- mias desfilavam nas aulas do querido professor. Do Marcílio Parreiras, professor de matemática, a ale- gre lembrança do seu vozeirão. Sempre nos últimos ins- tantes das aulas cantava o samba-canção Normalista,
•81 grande sucesso na voz de Nelson Gonçalves, cuja letra ter- mina com versos esperançosos de um rapaz apaixonado: Mas a normalista linda Não pode casar ainda Só depois que se formar Eu estou apaixonado O pai da moça é zangado E o remédio é esperar Final de jornada acadêmica Eu já tinha filhos quando ingressei na Faculdade de Letras da Fundação de Ensino Superior de Itaúna. Fábio, o terceiro, tinha cinco anos. Morávamos em uma pequena rua de apenas um quarteirão — o Beco do Dornas — entre a Rua Professor Francisco Santiago e a Av. Getúlio Vargas, pertinho da Escola Normal. As aulas eram ministradas neste mesmo prédio. A universidade dava seus primeiros passos e ainda não tinha sede própria. Os cursos iniciais eram realizados em outros locais cedidos. Odontologia, Direito, Letras, Pedagogia foram os primeiros cursos criados e auto- rizados. Estudei à noite, trabalhando como professora durante o dia. Do quadro docente, destaco José Gomes de Miran- da, excelente professor de Literatura Portuguesa, faleci- do em 2024. Suas aulas eram empolgantes. Exploramos obras como A Relíquia, de Eça de Queiróz, considerada uma das suas sátiras mais marcantes, criticando a hipo- crisia religiosa e os costumes da sociedade portuguesa da época. Uma narrativa de viagem, em que o protagonista
82• desenvolve reflexões em constante diálogo entre a fanta- sia e a verdade, às vezes conflitantes entre o sacrifício e a recompensa: "Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia". A diretoria da Fundação era toda composta por itau- nenses ilustres e idealistas. O presidente, também reitor, era Dr. Guaracy de Castro Nogueira — um grande líder na cidade, principalmente no campo da educação. O pri- meiro diretor executivo foi o meu primeiro irmão. O convite da formatura, que guardo até hoje, traz os nomes dos colegas: Antônio José Calasans, Gracinda San- tiago Carneiro, Leila Borges de Carvalho, Luzia Célia San- tiago Carneiro, Maria Albina Medeiros, Mariete Martins Amaral, Meire Santos Assis, Rosa Ferreira de Andrade. A solenidade constou de missa celebrada na Capela do Colégio Sant’Ana. A colação de grau, no gabinete da reitoria, foi uma sessão intimista. Não houve baile, nem outras comemorações. Tenho saudades dessas figuras magnânimas da Fun- dação de Ensino Superior de Itaúna. A maioria já nos deixou. Para eles, coloco o retrato na parede, em si- nal de reverência.
•83 Anos Dourados: baile de formatura no Automóvel Clube Álbum de família
84• À minha direita, Amélia Dornas e Terezinha Antunes; à esquerda, Marisa Antunes Parreiras Com Adelaide Pajuaba (ao centro) e a prima Dilma, à direita Fotos: Álbum de família
•85 No banco da Praça: Amélia Dornas, meu irmão Ricardo no meu colo, Terezinha Antunes e Maria Aparecida Quadros. Na foto ao lado, um grupo de amigas na Praça Luís Ribeiro
86• Com meu pai, em foto para álbum de casamento Fotos: Álbum de família
Há memórias que se guardam como fotografias ama- reladas pelo tempo, mas ainda quentes no coração. Quando fecho os olhos, volto àquele final dos anos ses- senta, onde tudo parecia começar: o amor jovem, a casa simples, os sonhos que se multiplicavam como filhos. En- tre livros e lições, fui tecendo uma vida feita de trabalho, afeto e esperança, mas também de muitos perrengues, é claro! Quem não os teve que atire a primeira pedra. ... mas problemas não se resolvem, problemas têm família grande, e aos domingos saem todos a passear o problema, sua senhora e outros pequenos probleminhas. Do poema Bem no fundo, de Paulo Leminsky, do livro Distraídos Venceremos, 1987. ef
88• Vida de casada Em 19 de fevereiro de 1966, antes de completar 20 anos, casei-me na Igreja Cura D’Ars, no bairro do Prado, em Belo Horizonte. Em pinceladas rápidas: fui conduzi- da ao altar num vestido lindo, de mangas três quartos, tecido brocado com bordados, usando luvas de cetim. Meu penteado foi uma obra de arte, criado por uma co- lega de Itaúna. Tinha enchimento de Bombril para sus- tentar as mechas e, no meio, uma guirlanda de strass prateado. Tudo no maior requinte, eternizado no meu álbum de retratos — capa branca de madrepérola, ins- crição dourada. Na época, meus pais viviam mudando de endereço em Belo Horizonte, feito ciganos. O da vez era na Rua dos Andes, no Calafate, onde aconteceu a festa organi- zada pela avó Lindoca. Recepção perfeita, embalada pe- los sucessos da Jovem Guarda, os ritmos do momento. Depois do casamento, fui com Waldyr morar em Itaú- na. Montamos nosso lar na Rua Melo Viana: ele, funcio- nário do Banco do Brasil; eu, professora. Dessa aliança que durou 30 anos, recebi minha maior herança: quatro filhos e oito netos. Marcus, o primeiro, demorou a nascer. Aflita, fui para o hospital à noite e lá fiquei entre dores e contrações até a manhã do dia 22 de dezembro de 1966. Dois dias depois, tivemos alta. Benevides Garcia, chofer de praça, estava sempre de prontidão para essas corridas, já que não tínhamos carro. Minha mãe, apesar da boa vontade, tinha pouco tempo para me ajudar. Ocupada com a lida doméstica, ainda cuidava de um filho pequeno e estava grávida do
•89 caçula, Guilherme, que nasceu em 14 de março de 1967. Agora eram dois bebês na família: neto e filho, sobrinho e tio. Amamentação, chupetas, fraldas no varal, cueiros, vacinas, pediatras. Minhas irmãs, solteiras, tão inexpe- rientes quanto eu, ajudavam nas horas vagas. Em 1968 nasceu Simone. Em 1972 veio Fabinho, o mais pesado, acima da média. Eu ainda era insegura, marinheira de primeira viagem. Contratei enfermeira para os primeiros banhos, até a queda do coto umbi- lical. Tive boas empregadas, que às vezes faziam papel de babá. Com Fábio, tudo foi diferente. Minha vizinha, Dona Alba, espontânea e generosa, quis dar os primeiros ba- nhos. Casada com o médico Dr. José Campos, meu pro- fessor de psicologia, mãe de Lúcia, minha colega na Escola Normal. Toda manhã, na hora combinada, ela chegava. Testava a temperatura da água, lavava o rosto, a cabeça, banhava frente e traseiro. Eu ficava olhando e aprendendo. Depois, álcool a 70 graus, vestia o bebê, enrolava no cueiro de flanela, apertado ao corpo como uma faixa longa, preso com cadarços. Me entregava o famoso “pacotinho de pão”, que fazia a criança sentir aconchego e segurança. Com o tempo, tudo se acalmava. Acompanhar o de- senvolvimento dos filhos era uma alegria. Eu esquecia noites insones, dores do parto, resguardo, chazinho de funcho para cólicas, macela para o sono, hortelã para tudo — sempre natural, colhido nas hortas. Léo nasceu em Belo Horizonte, no Hospital Vera Cruz, sete anos depois, em 10 de agosto de 1979. Lindo e forte como os irmãos. Eu já morava no mesmo endereço de hoje.
90• Marcus, Simone, Fábio e Léo FILHOS
•91 Brincando na pracinha: Simone, André (primo), Marcus e Guilherme (tio) Fotos: Álbum de família
92• Nos primeiros anos de casada: ao lado, com a irmã Cleusa e Marcus, meu pri- meiro filho; abaixo um registro com os recém-nascidos Simone e André, o primeiro de Cleusa Fotos: Danilo Teixeira
•93 Marcus e Guilherme, sobrinho e tio Ana Maria, Ricardo, Guilherme e Clênio, os quatro irmãos mais novos Dona Marta com filhas, filho, nora, netas e netos
94• A cidade que mora em mim Nossa vida em Itaúna foi muito boa. Meus filhos tive- ram uma infância feliz — daquelas que deixam saudades no cheiro do vento, no gosto do sorvete de domingo, no som dos risos ecoando pela rua. Meus pais moravam numa ampla casa na Praça da Es- tação, onde todos os filhos viveram antes de alçarem voos próprios. Mas o ponto de encontro para visitas, festas e comemorações nunca mudou: sempre foi a casa do ca- sal Ivo e Marta. A casa dos meus pais era quase uma ex- tensão da nossa. Ali, meus filhos brincavam com o tio, também menino, e com outras crianças da vizinhança, assim como seus pais brincaram anos antes. O tempo foi escrevendo novas páginas, outros enredos, mas o espírito continuava o mesmo. Antigamente, a praça era só um quadrado de chão ba- tido, cercado pela Estação Ferroviária e por residências antigas, algumas ainda com a aparência das primeiras construções da cidade. Em tempos recentes, ganhou nova fisionomia. Ao redor dos jardins, cujo traçado permanece o mesmo, foram instalados novos bancos com encosto — iniciativa da Prefeitura em parceria com os vizinhos tra- dicionais que adotaram as peças do mobiliário. Meu pai foi um dos ilustres moradores que teve o nome gravado em um deles. Itaúna sempre foi acolhedora. Havia quem dissesse que quem bebesse da sua água nunca iria embora. En- tre os lugares ideais para um passeio, lembro da Usina do Caixão, no Bairro Santanense. Era programa certo: con- templar a linda cachoeira e o gramado verdinho. Um ta- lude virava escorregador, por onde crianças desciam em
•95 sacos de aniagem, com as bochechas vermelhas de ale- gria. Depois, vinha a caça ao lanche: guaraná e sorvete não podiam faltar. O roteiro também incluía o Córrego do Soldado, no caminho para Itatiaiuçu, e o Povoado dos Campos, já em direção a Divinópolis — por onde se alcançava, por trilha, a Cachoeira dos Campos. Mais adiante, o Retiro dos Fa- rias. E o querido Rio São João, que cortava a cidade como uma fita d’água, espalhando seus braços em córregos e veios que fertilizavam tudo ao redor. Nos fins de semana e feriados prolongados, desfrutá- vamos da hospitalidade dos amigos e parentes. Como pe- dágio, uma peça de carne ou linguiça para o churrasco, acompanhado dos prazeres da comida mineira, cerveja gelada e boas conversas. Espaço para dormir não era pro- blema: colchões espalhados pelo chão da sala, todos jun- tos, amontoados e felizes. Alguns embriagados, é verdade. Com o crescimento da cidade e a expansão dos condo- mínios, muitos desses lugares livres e tranquilos desapa- receram. Ficam na memória a calmaria das matas, o cheiro de terra molhada e os momentos vividos em boas compa- nhias — alegres, coloridos, cheios de risos de crianças. Nada muda tanto quanto o passado Há uma frase atribuída a Napoleão Bonaparte que diz: “Nada muda tanto quanto o passado”. Moro no mesmo prédio desde que mudei para Belo Horizonte, há mais de 46 anos. A rua era outra: não havia prédios, só casas, além do Edifício Carolina Barcelos, na Rua Serranos. Aos poucos, as casas foram demolidas. O Parque das Mangabeiras, cons- truído em 1982, ainda não existia quando vim para a Serra.
96• No lugar do Minas Tênis Clube 2, havia algumas casi- nhas que foram desapropriadas. Fiquei cliente da Leda, uma manicure que morava ali e depois mudou-se para um apartamento pequeno, no Sion, com o dinheiro da inde- nização. Impressiona como o tempo passou rápido e como se deram tantas transformações na paisagem da região. Em frente ao nosso prédio ficava a ACM, Associação Cristã de Moços. Éramos sócios desse clube. Bastava atra- vessar a rua, ainda sossegada. Marcus, Simone, Fábio, Léo e eu íamos com frequência aproveitar as áreas de lazer. No lugar, ergueram um grande prédio: o Condomínio Bosque das Mangabeiras. Nosso prédio, mais velho, de três anda- res, ficou sendo o primo pobre da rua. Durante alguns anos fui síndica, e nesse período o prédio teve sua primeira grande reforma. Até então, havia passado por más administrações, e tive que botar ordem nas finanças. Instituí a cobrança de um fundo de reserva para despesas necessárias. Coincidiu com a chegada do Plano Real, e foi possível contratar uma empresa que ofe- receu parcelamento sem juros, com muitas parcelas fixas. Assim conseguimos fazer a reforma antes do esperado. Continuei na gestão por mais alguns anos, e até hoje os moradores dizem que fui a melhor síndica que o prédio já teve — o que me envaidece, porque eu mesma reconheço isso sem presunção. Gosto demais do lugar onde moro, apesar de alguns aspectos negativos. Não tenho mais ânimo para vender o imóvel, adquirir outro, fazer mudança e enfrentar um problema de adaptação. Estou apegada ao meu aparta- mento, que já passou por algumas modificações. Acho meu cantinho aconchegante, e aqui me sinto rodeada de amigas admiráveis, solidárias, que frequentam minha
•97 casa. Saímos para passear, conversamos nos corredores, e há quem diga que aqui é a Vila do Chaves. Tem até um pet chamado Chapolin. Márcia, Wanda e Coeli moram no meu bloco. Márcia é atenciosa, engraçada e brava. Sua braveza com os filhos dura só cinco minutos. Seu coração é gigante: quando passa dois dias sem me ver, liga para saber se estou bem. O carinho que ela tem se estende para minha família. Wanda, sua tia, vinte anos mais velha do que eu, é ir- reverente, engraçada e animadíssima. Atualmente está mais recolhida, mas já passeamos muito. Íamos para a Savassi tomar uma cervejinha e depois sentar no banqui- nho que ela chama de Roberto Drummond, autor do livro Hilda Furacão. Já fomos ao carnaval no extinto Tip Top da Rua Rio de Janeiro, com fantasias improvisadas. Adora contar que vai fazer cem anos e falar da preparação para a festa inspirada na Dercy Gonçalves, convidando médicos e amigos só para fazer rir. É uma pândega. Coeli é mais séria e comedida, mas está sempre pronta para ajudar. Vaidosa, está sempre bem arrumada e ma- quiada, mesmo que fique em casa. Somos amigas de longa data. Ela trabalhava na Cemig, e voltávamos para casa na hora do almoço no mesmo ônibus, junto com meus filhos. Berenice mora no outro bloco. É uma conceituada pianista, foi professora de música da UFMG e fundado- ra da Fundação de Educação Artística (FEA), uma escola de música. Quando vim morar neste prédio, ela já estava aqui. Até hoje, com menor frequência, temos o privilé- gio de ouvir o som de seu piano de cauda, sempre suave, agradando toda a vizinhança. Comecei a frequentar a Fundação e, pouco a pouco, nossos laços de amizade foram se estreitando. Fui convi-
98• dada para participar de Conselhos daquela instituição e, durante dois anos, fui presidente da FLAMA, Associação dos Amigos da Fundação, mandato encerrado em agosto de 2025. Com ela, frequento concertos na Sala Minas Ge- rais, sede da Orquestra Filarmônica, e também na Funda- ção. Amiga admirável, inteligente, sensata — gosto muito de conversar com ela. Dona Pedrita era dessas que adorava conversar. O ma- rido, um militar rígido aposentado. Dona Pedrita foi uma peça rara. Todos os dias ia ao Supermercado Epa e, às ve- zes, ao Mercado Central. Dava notícia de tudo: das ofer- tas, dos preços de utensílios. Voltava de ônibus carregan- do as compras e conversando com trocador, motorista e passageiros, contando o preço do chuchu, do frango, da goiabada cascão, do queijo. Feliz com as compras e por ter prestado um “serviço de utilidade pública”. Sem pressa para fazer a comida para a família. Tenho saudades dessa vizinha, também apelidada pelo Léo de "Dona Epa". Tive vários vizinhos de quem guardo boas recorda- ções. Não quero que eles me esqueçam, e eu também não quero esquecê-los. Às vezes me surpreendo num soliló- quio, lembrando das pessoas e suas histórias. Batismo em preto e branco Os primos Léo e Duda foram batizados no mesmo dia, na Igreja da Boa Viagem, em Belo Horizonte. Hoje, am- bos têm 46 anos. Na hora do batismo, Léo abriu o bué. O padre, então, benzeu os dois bebês e trovejou: “Não tem coré-coré!”. A frase, famosa pelo bordão do comentaris- ta esportivo Olavo Bastos, o Kafunga — considerado por muitos o melhor goleiro da história do Clube Atlético Mi-
•99 neiro — selou o destino: não teve mesmo coré-coré. Os meninos viraram irremediavelmente torcedores ferre- nhos do Galo, com o bom augúrio do atleticano de batina. Depois da cerimônia religiosa, houve um lauto almo- ço no meu apartamento. Estavam presentes Marilene e Júlio; os padrinhos do Léo, Ana Maria e André; e os pa- drinhos do Duda — eu e Waldyr. Entre os convidados, os avós Ivo e Marta, Dona Mercês do Vale de Paula (minha sogra) e a bisavó Dona Lindoca. Alguns já não estão mais aqui: meus pais, meus avós e o pai do Léo. Os dois bebês ficaram por alguns instantes recostados no sofá para serem fotografados ao lado da bandeira do Galo, confirmando o batismo esportivo. Foi um belo dia de celebração e festa alvinegra. De flores e jardins Adoro folhagens e flores. Passear na feira da Aveni- da Carandaí, perto do Colégio Arnaldo, é um verdadeiro colírio para os olhos. Cada setor é um convite à contem- plação, e a dificuldade está em escolher apenas uma para trazer para casa. As orquídeas são minhas preferidas, mas também me encantam os arranjos com boca-de-lobo, crisântemos, papoulas… é impossível não se apaixonar. Moro em um apartamento térreo com área privativa, onde cultivo alguns vasos com carinho. Tenho um em especial, maravilhoso, que me acompanha há cerca de cinquenta anos. Veio no caminhão da mudança, de Itaú- na para Belo Horizonte. O Lírio do Amazonas, com suas folhas largas, de um verde brilhante, são um espetáculo à parte. E, de tempos em tempos — umas três vezes por ano — surgem caules macios que carregam nas pontas
100• cachos de flores brancas, de pétalas finas e delicadas. Lembram orquídeas. Duram pouco: florescem, envelhe- cem, murcham e morrem. Mas, depois da poda, renas- cem, cumprindo seu ciclo vital. Hoje em dia, quase não se veem mais jardins floridos como antigamente. Os prédios tomaram o lugar das ca- sas. O paisagismo e a jardinagem se uniram para criar áreas externas organizadas, bonitas, mas diferentes. Os antigos jardins das vovós estão sumindo. Ainda as- sim, na minha rua há um resistente. Está lá desde que me mudei. É um jardim antigo, mas muito bem cuidado. Tem de tudo: flor de laranjeira, manacá, flores miúdas e de todas as cores. E um pé de dama-da-noite que perfu- ma toda a rua quando anoitece. Esse jardim pertence às freiras que moram numa casa ao fundo do lote. Uma casa antiga, com uma capela onde os padres da Igreja São João Evangelista celebram mis- sas. Já frequentei essa capela em tempos de Natal, para as novenas. Conheci muitas freiras no ponto de ônibus da rua. As mais jovens cuidavam das mais velhas — eram também enfermeiras — e tinham atenção e amizade com os vizinhos. Algumas vezes toquei a campainha pedin- do para medir minha pressão, quando sentia uma dor de cabeça. Na maioria das vezes estava normal; era só excesso de preocupação. Ao falar dessas memórias mais recentes, volto no tempo e lembro-me dos jardins da minha infância. Mui- tos lotes da vizinhança se alinhavam ao traçado das vias públicas: casas pequenas, outras maiores, alguns casa- rões e sobrados. Algumas tinham um pequeno recuo e alpendres simples. Imagino que, mais distante dali, ha- via sim grandes jardins floridos — com margaridas, ro-
•101 sas, dálias, cravos e jasmins — mas na minha casa, só no quintal. A beleza era outra. E tudo ficou guardado no coração, como flor que não murcha. Pra não dizer que não falei de cactos, Paschoal Mot- ta, grande amigo, inteligente, escritor, dedicou sua vida à literatura. Certo dia surpreendeu-me com esse lindo poema, enviado por e-mail. Senti-me honrada com essa homenagem, um presente que compartilho nestas pági- nas de recordação. Os cactus de Maria Lúcia Cáctus só aponta espinho? E as flores deles no viço? São espasmos de carinho num desatino em serviço de repintar a esperança. Ai, cores, leque de espantos, desse cantar numa dança os nossos risos e prantos... É vê-las e admirá-las entre afiadas defesas. Por pouco, perdemos a fala nesse florir da Beleza. Lora, Nilda e Alda Durante alguns anos, fui professora na Escola Estadual Pedro II. Matriculei meus filhos no Instituto de Educa- ção, na região central da cidade. Marcus na quinta série, Simone no terceiro ano, e Fábio no Jardim de Infância — todos no mesmo complexo educacional. O trabalho fora
102• de casa exigiu que eu contasse com o apoio de emprega- das para manter a rotina doméstica. Entre as mulheres que nos ajudaram nessa tarefa, três permanecem vivas na memória. Lora, a primeira delas, diariamente nos esperava com a mesa posta para o almoço. Nascida em Piracema, tinha um carinho especial pelo meu caçula, como se fosse fi- lho dela. Boa pessoa, mas assaz ranzinza. E resmunga- va com conhecimento de causa: “Cozinhar beterrabas gasta muito gás”, “Fritar bifes espalha muita gordura”, e assim por diante. Eu dava de ombros. Paciência nunca me faltou. Lora trabalhou na minha casa até voltar para a casa da mãe, no interior, levando como lembrança de Fábio uma botinha ortopédica preta e um uniforme do Jardim de Infância. Tempos depois, veio nos visitar e trouxe de presente um porta-copos antigo que herdou da mãe. Fábio, o preferido de Lora, conserva até hoje essa singela lembrança. Depois dela, veio Celenilda. Baiana de Porto Seguro, Nilda chegou aos 19 anos. Evangélica, frequentava uma igreja na Rua São Paulo, no Centro. Usava cabelos com- pridos, vestidos longos, muito séria para sua idade. Toda noite ia aos cultos com sua Bíblia. Casou-se e teve dois filhos. Tempos depois, ao deixar a igreja, deu-se a trans- formação: cortou os cabelos, mudou o modelo dos vesti- dos, caprichou na maquiagem e nos adereços. Atualmen- te mora em Juatuba, onde o marido tem uma oficina de lanternagem, e mantém um perfil no Instagram. De vez em quando, aparece por aqui para tomar um café com “Dona Lúcia”. Por fim, Alda. Há quase 25 anos ela transita e atende a todos da família: filhas, filhos, netos, sobrinhos, noras…
•103 por onde passa, deixa sua simpatia e eficiência. Uma ver- dadeira coringa. Para meus netos Vítor e Daniel, é como uma segunda mãe. Para Alice, outra neta, Alda é a Di- nha. Vivem em confidências pelos cantos. Mãe zelosa de quatro filhos e nove netos, Alda tem 57 anos e mora na distante Ribeirão das Neves. Não esconde o carinho por minha família — e esse é um sentimento recíproco. O vai e vem dos preços e da vida Além de professora, cheguei a vender blusas femi- ninas. Sempre que ia a Itaúna, aproveitava para cortar cabelo, fazer luzes, pés e mãos. Eu gostava dos profis- sionais que já conhecia — e dos que minhas irmãs in- dicavam. Elas marcavam hora para mim, sempre nos finais de semana. Era o dia da beleza. Minha irmã Cleusa me buscava na rodoviária e fi- cava por minha conta, como motorista particular. Du- rante uma dessas idas, conheci Ângela Herculano, cos- tureira e bordadeira de mão cheia, que confeccionava camisas de linho bordadas. Adorei o trabalho. Modela- gem perfeita. A beleza estava nos punhos de linho co- lorido; as pontas dos colarinhos seguiam o padrão dos punhos, com aplicações feitas à mão. Comprei três, de modelos variados: uma para mim, e as duas restantes resolvi vender. Com ajuda de uma amiga, funcionária da Receita Fe- deral, vendi as duas peças rapidamente, sem dificulda- de, para uma clientela seleta. As roupas não eram bara- tinhas, mas valiam o preço cobrado. Mulheres adoram renovar o guarda-roupa e presentear — principalmente roupas, sapatos e bijuterias. Eu mesma sou um exem-
104• plo: meu fraco sempre foi por sapatos. Não posso ver uma vitrine. Foi aí que comecei minha atividade de vendedora in- formal e descobri meu até então não testado tino para o comércio. Me dei bem na atividade paralela, apesar de não ser o momento mais recomendável para negócios. Em 1986, durante o governo de José Sarney, o índice de inflação chegara aos inacreditáveis 30% ao mês. O povo não sabia o que fazer. Começou uma corrida aos super- mercados para estocar alimentos e outros gêneros. Além do aumento diário dos preços, havia a preocupação com o desabastecimento. Eu acompanhava as notícias pela te- levisão, o apelo do governo para que a população tivesse calma, recomendando não comprar mais do que o neces- sário, explicando que esse movimento só pioraria a crise. Eu não me abalei com a situação econômica. Sempre dei meu jeitinho para contornar problemas. Comprava a prazo já com o acréscimo e vendia da mesma forma. Quem pagasse à vista, compraria sem juros. Mesmo podendo pa- gar no ato pela compra, quem recebia bons salários preferia comprar a prazo, aplicando o dinheiro no overnight. Fui em frente e até abri uma poupança para meu dinheirinho não evaporar em tempos de crise. Continuei enquanto conse- gui vender as camisas. A moda é como nuvem passageira — e as roupas de boa qualidade duravam muito.
•105 Léo e Duda: batizado alvinegro Alda, a "segunda mãe" Dos quintais do interior para a vida em apartamento na capital Liberato Pereira - Jornal de Casa Fotos: Álbum de família
Irmãs, irmãos e alguns netos reunidos no aniversário de 80 anos do meu pai IRMÃOS
CLÊNIO RICARDOANA GUILHERME JOSÉ MARILENECLEUSA IVO
108• À mesa, como convém Os almoços em família, durante anos e anos, aconte- ciam na casa de nossos pais. A família foi crescendo: mi- nhas irmãs e meus irmãos casando-se, tendo filhos… e as reuniões ficando cada vez mais animadas. Meus irmãos, de vez em quando, levavam os sogros e sogras que gos- tavam de passear em Itaúna. Ivo e Sônia levavam Dona Valdinha e Seu João. Não havia concorrentes para o pão de queijo do Seu João. Seu Alípio e Dona Lulu, sogros de Cleusa, também frequentaram alguns almoços, acompa- nhados do filho Danilo, dos netos e da “bisa” Dona Neta. Sempre havia espaço para acomodar todos. No almoço especial de Natal, o cardápio, antes sim- ples, foi ficando mais variado e solidário. Filhos e noras passaram a enriquecer a mesa com iguarias mais sofis- ticadas: panetones, castanhas, uvas, frutas e sobreme- sas. A castanha portuguesa era a preferida de minha mãe — eu e Cleusa também adorávamos — mas dava muito trabalho cozinhar. Dona Marta continuava responsável pelos básicos e tradicionais: arroz, farofa e pernil. Merecem registro algumas especialidades gastronô- micas que enriqueciam o almoço festivo. Marilene, que sempre investiu em comidas mais elaboradas, levava Peru à Califórnia e merengues deliciosos. Sônia gostava de tender, carne nobre defumada, finalizada com Karo e cravos-da-Índia espetados. Antonieta, outra cunhada, psicanalista, era adepta de uma alimentação mais sau- dável. Teve sua fase macrobiótica, à base de grãos, raízes e vegetais in natura. Seus potinhos eram suficientes para dois dias — providência necessária, porque não era a es- pecialidade da casa.
•109 Danilo se incumbia de fatiar o pernil e provar a primei- ra fatia para conferir o tempero. Estava sempre uma “di- lííícia”. Não tinha erro: minha mãe era craque no tempe- ro das carnes. Funcionário de uma multinacional, Danilo trazia sempre novidades de fora, como Coca-Cola diet para a sogra, diabética. Júlio, outro cunhado, assinava a Farofa d’Água, receita que aprendera quando morou em Salvador. Ricardo, cosmopolita, introduziu o tomate seco e a massa com funghi secchi. Minha novidade naquela época era a Salada Waldorf. Eu levava os ingredientes já pica- dinhos e deixava para terminar na hora de servir. Uma salada leve, suave, com aipo e maçã — receita nova que ensinei a todos. Ana Maria, mais objetiva, produzia um crocante frango assado na cerveja e temperado com sopa de cebola da Knorr. Guilherme, sempre irônico, dizia que era o único prato que constava no livro de receitas dela. Waldyr se encarregava de providenciar o vinho, bebi- da típica do Natal. Trazia no bagageiro os cinco litros do popular “Sang de Boá”, que se fazia acompanhar por fa- tias de “Fromage do Serrô”, em tradução livre dos galho- feiros. O Sangue de Boi quase foi ameaçado pelo alemão naturalizado Liebfraumilch, sofisticado, da garrafa azul e de fama efêmera. Celinha almoçava na casa da mãe dela e chegava no meio da tarde levando roscas para o café. Nossas filhas, já grandinhas, de vez em quando lavavam uns copos e limpavam a mesa. Era muita confusão. A família foi crescendo. José, meu irmão mais velho casou-se com 48 anos, em Brasília, com a querida Sô- nia Torres, e passou a vir com menos frequência a Itaúna. Outra cunhada, Sandra, representante de Pernambuco, casou-se com Ricardo em 2003. A partir dela, ficamos
110• Passeio na gruta com as crianças: Léo, Raquel, Juliana e Duda Almoço de domingo: família e visitas reunidas, à espera do frango com macarronada Fotos: Álbum de família
•111 sabendo que a culinária pernambucana, se não for me- lhor, “não fica atrás da mineira”, garante. E assim era o nosso Natal. Cada ano era de um jeito, mas sempre na casa dos meus pais. As celebrações onde todos se juntavam foram ficando mais raras com a morte de ambos. Ainda assim, os encontros acontecem na casa de uns ou de outros dessa família cada vez mais numerosa. A temporada de tetranetos vem aí. Relações familiares Minha família é enorme. Hoje, já não sei quantos estão vivos ou por onde andam. Ter amigos e família por perto me faz muito bem. Gosto de interagir, estreitar laços, me manter em constante conexão. Para compreender meus antepassados, vou rastreando e procurando informações onde é possível. Meu bisavô por parte de mãe, o João Rosa, casou-se cinco vezes. O último casamento foi, do alto dos seus 72 anos, com uma menina de 15, com quem teve um filho que mora em Oliveira. Calcula-se que teve 40 filhos, en- tre os quais minha avó Flora Rosa e meu tio-avô José Rosa — um músico que dava aulas de piano, acordeão e violão; Padre Elpídio, que só viveu em Itaguara, onde teve sua paróquia; João Rosa, ex-prefeito de Itaguara; Ney, Ivo e mais alguns que esqueci. Minha mãe teve muitos irmãos e irmãs. Os parentes diretos foram se desdobrando em outras famílias, até não ser mais possível fazer um censo confiável. Confesso que não sei mais quantos primos estão vivos. Em março de 2024, numa festa de aniversário em Itaú- na, fui apresentada a uma jovem: “Essa é da sua família.”
112• A moça me olhou sem entender e eu também fiquei no ar, olhando, procurando algum traço fisionômico que me desse uma pista. Então perguntei: Como vai a família? Ela respondeu: o Gastão está com 92 anos, mas está bem. Fi- quei esperando a ficha cair, o que demorou uns bons mi- nutos: a moça é neta da minha falecida prima Lilita. Seu tio-avô, Múcio, é meu afilhado de batismo. Foi como de- sembaraçar um novelo e puxar o fio da meada. Adoro resgatar minha história familiar. Sempre que me lembro de alguém do passado, vou atrás de um conta- to para ter notícias. Foi assim com Santina, uma paulista viúva do meu tio Geraldo, irmão de minha mãe. Eles mo- ravam em Franco da Rocha. Tiveram apenas um filho. Meu tio morreu cedo, pouco tempo depois o filho também. Consegui com nosso primo Ângelo o contato da Santina, nossa tia torta e ela ficou feliz por falar comigo. Está com 92 anos, bem de saúde, curtindo os três netos. É assim que vou atualizando minha árvore genealógica e reatando antigos laços familiares. Matriarca e embaixatriz Dizem que sempre tive influência positiva na minha família. Minha convivência é harmoniosa com todos: cunhadas, cunhados, sobrinhos e agregados. Minha casa, apesar de pequena, sempre teve lugar para todos quando precisaram vir a Belo Horizonte. Minha mãe e meu pai fi- cavam comigo quando vinham fazer tratamento médico. Pouco a pouco, fui assumindo um papel de cuidadora, to- mando iniciativas e tornando-me referência na família. Por causa disso, recebi o título de “matriarca”, so- bretudo porque sentia prazer em me ocupar das pes-
•113 soas. No entanto, confesso que senti um certo incômodo com o substantivo tão carregado de responsabilidades. Sou pessoa de personalidade complexa, às vezes intros- pectiva, observadora do mundo ao meu redor. Entendia perfeitamente que aquele título era um elogio, porém, a lembrança das mulheres da época do matriarcado não me parecia muito simpática, pela posição de liderança na condução do clã — figuras detentoras de poder que, a meu ver, transbordavam para o autoritarismo. A necessidade de agradar e cuidar dos outros pode ser um desejo inconsciente de ser amada e de ter aprovação, mas confesso que muitas vezes me sinto no direito de dar palpites na vida dos meus filhos. Em troca, costumo le- var uns trompaços. E fico assim, entre a cruz e a caldeiri- nha. Às vezes faço opção pela caldeirinha. Mãe é sempre mãe, e seu papel de orientadora é eterno. De “matriarca”, tornei-me “embaixatriz”. Mas como assim? Minha sobrinha Juliana me lembrou que eu fui a tia que resolvia tudo para elas em Belo Horizonte, em ou- tros tempos. Marcava consultas para minha irmã, levava às lojas que vendiam roupas e calçados da moda. Ana Cristina, outra sobrinha, que morava no Rio, noi- vou e veio casar-se em Belo Horizonte com o itaunense Paulo Emílio, filho dos Castanheira, família gigante pela própria natureza. Decisão acertada, já que a maior parte dos convidados residiam em Minas. Me pediram colabo- ração e prontamente assumi algumas tarefas para a rea- lização do evento. Dei meus pitacos na escolha do local, na decoração, no bufê etc. Exerci com eficiência meus dons diplomáticos. É o tal negócio: Melhor ser embaixa- triz do que matriarca.
114• Garotas de Itaúna nas areias de Copacabana Álbum de família
Quando faço um balanço das viagens que já realizei, percebo que não foram poucas — algumas longas, ou- tras bem breves. Viagens em família são as melhores. São mais alegres, divertidas e contribuem para reforçar laços familiares e criar memórias inesquecíveis. A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos. Trecho de "O Livro do Desassossego", de Bernardo Soares, semi-heterônimo de Fernando Pessoa. ef
116• Primeiras viagens Na infância, férias não significavam grandes desloca- mentos. No máximo, poucos dias em Belo Horizonte ou em cidades próximas, como Cajuru, Mateus Leme e Divi- nópolis, sempre na casa de parentes ou amigos. Íamos de carona ou de ônibus. Foi numa dessas idas que vivi uma experiência inusitada. Minha tia Ita sofria com enjoos nas viagens de ônibus da linha Itaúna-Belo Horizonte. Eram pelo menos três ho- ras em estradas malconservadas, com direito a uma única parada em Juatuba. Para poupá-la do desconforto, seu ma- rido Chico Belchior, funcionário da Cooperativa de Leite, sempre conseguia autorização para que ela fosse de carona no caminhão de leite. Um dia, ela me convidou. Lá fui eu, feliz da vida, na boleia do caminhão, entre ela e o moto- rista, rumo à casa da minha avó. Até hoje, quando lembro disso, rio por dentro. Na adolescência, comecei a visitar Belo Horizonte com meu pai e, aos poucos, conheci a cidade além dos muros da casa da minha avó. Minha prima Nini, já moça, mora- va na capital porque os pais viviam em Caeté. Nos fins de semana, ela me levava para passear. Íamos ver as vitrines da Avenida Afonso Pena, assistir às matinês e lanchar na Camponesa, a confeitaria mais famosa da Rua da Bahia. O Xodó, queridinho da juventude na Praça da Liberdade, era famoso pelo cachorro-quente e pelo sundae, servido em taças com pequenas colheres coloridas que eu achava tão bonitas que comecei a colecionar. À noite, a Praça Raul Soares era outra atração. A fon- te luminosa era um espetáculo mágico aos meus olhos. No alto dos edifícios, painéis piscavam sem parar. Num deles,
•117 um dedão acionava o êmbolo, enchendo e esvaziando uma caneta tinteiro azul, num movimento contínuo. Aquilo me impressionava demais. Tudo era novidade para mim, por- que Itaúna não tinha nada tão atraente. Dos passeios pelo interior, lembro-me de um em es- pecial: uma pequena viagem ao Morro da Onça, em Rio Manso, com minha avó Lindoca e minha tia-avó Nair. Eu ainda era pequena e fiquei animada por um motivo inu- sitado: dormir em um colchão de palha — capricho da tia Nair. Na véspera, passamos por Juatuba, na casa do tio-avô Mário, para desfrutar do delicioso almoço preparado por sua esposa, Albertina. Tio Mário era alegre e brincalhão. Cumprimentava a todos com seu bordão: “Como vai, Tris- teza?”. Padrinho do Ricardo, a quem sempre presenteava com um dinheirinho nas visitas, o “Mário Tristeza” não escapava ao assédio dos demais sobrinhos, de olhos gordos nas suas generosas moedinhas. Rio de Janeiro Só realizei meu sonho de conhecer o Rio de Janeiro aos 17 anos, numa excursão com as colegas da Escola Normal, antes da formatura. Quem nos acompanhou foi Dona Ye- dda Machado, professora do Colégio Santana, Lauro, seu marido, e José Augusto Gonçalves, nosso professor de Es- tudos Sociais. Fomos em um ônibus cedido pela Polícia Mi- litar de Minas Gerais, mas não saímos no horário previsto — só no dia seguinte. Ao chegar, fomos direto para o Mara- canã, onde nos alojamos. Cansadas, conseguimos dormir apesar do calorão. No outro dia, praia! Aos olhos dos cariocas bronzeados, des- cemos em fila do ônibus da PM, mocinhas branquelas do
118• interior de Minas, algumas — como eu — vendo o mar pela primeira vez. Não tive coragem de entrar na água. Um pro- videncial baldinho resolveu o problema: molhei o corpo e senti o gostinho da água salgada. Como se não bastasse esse constrangimento, uma colega mais afoita quase se afogou. O salva-vidas agiu rápido e trouxe nossa companheira de volta, para alívio geral. À tarde, cumprimos o tradicional roteiro turístico: Pão de Açúcar, Corcovado, Floresta da Tijuca, Igreja da Can- delária, Confeitaria Colombo… até sobrou tempo para um cinema que exibia o musical My Fair Lady. O calor não deu trégua. Dona Yedda sabia de tudo o que era bom no Rio. Mulher ativa, hoje com 101 anos, é a professora mais antiga de Itaúna. Começou a dar aula aos quinze e dedicou a vida a formar gerações. “Ensinar é semear para a eternidade”, declarou ao ser homenageada pela Prefeitura como sím- bolo do magistério da cidade. Além de tudo isso, foi ela a responsável pela minha estreia, há quase 60 anos, nas cal- çadas da Cidade Maravilhosa. Passei a visitar o Rio de Janeiro com frequência muitos anos depois. Ficava hospedada no apartamento da minha irmã Cleusa, já casada, em Botafogo, próximo a um dos grandes cartões-postais da capital carioca: a Baía de Gua- nabara. No vizinho e tranquilo bairro da Urca, a compa- nhia do eterno rei da Jovem Guarda, Roberto Carlos. Co- pacabana, Leme, Largo do Machado, Laranjeiras, Catete… foram pedaços do Rio que passaram pela minha vida. Sempre gostei de teatros e shows. Foram muitos os espetáculos inesquecíveis com minha irmã. Lembro de uma noite em que fomos assistir a um show de Dó- ris Monteiro, em Copacabana. No repertório da can- tora, clássicos da MPB e da bossa nova: Mocinho Boni-
•119 to, Conversa de Botequim, A Banca do Distinto, É Isso Aí, Palhaçada, Samba Triste… tudo em interpretação suave e charmosa que agradava em cheio aos não tão jovens. Adorei! Rafael, meu sobrinho, com suas habituais tira- das, ironizava: — Hoje é a noite das pelancas. Espírito Santo Nunca gostei de viajar sozinha, ainda mais agora, quando estou mais velha. Há décadas, o vizinho estado do Espírito Santo tornou-se um refúgio especial para os mineiros. Não fugimos à regra e, sempre que possível, ía- mos de carro, admirando as formações rochosas em via- gens demoradas. Assim que chegávamos, tomávamos o rumo de Guarapari, Nova Almeida, Anchieta. A melhor escolha, porém, era Meaípe, praia ideal para levar crianças por causa do mar calmo. Sempre alugáva- mos a mesma casa e frequentávamos o mesmo restaurante, famoso pela moqueca capixaba. Meaípe passou a ser nos- so destino preferido para as férias. Numa dessas viagens, levei minha mãe para conhecer o Convento da Penha, em Vila Velha, um dos santuários mais antigos do país. Goiás Quando minha irmã Cleusa morou em Goiânia, cidade ainda pequena, com muitas casas sem muros e gramados na frente, como a dela, fomos conhecer Trindade, a cidade mais próxima, onde se encontra a Basílica do Divino Pai Eterno. É um lugar de grande peregrinação de fiéis. Co- nhecer esse lugar foi uma experiência cultural e religiosa
120• Fotos: Álbum de família Em Roma, especialmente para ver o Papa Francisco num Domingo de Páscoa • Portugal com Simone: tudo o que eu queria • Um giro por Buenos Aires, Argentina • Rio de Janeiro: contemplando a Enseada de Botafogo
•121 Nos EUA, com Maria José e Vaninha • Com Marilene, às margens do Sena, Paris • Em frente à Casa Branca • No inverno francês • "Batendo um papo" com Lewis Carrol no Central Park, NY • Passeio de trem para Palm Beach, Flórida
122• muito importante para nós. Meus filhos eram pequenos. Ficamos alguns dias e fomos conhecer a Pousada do Rio Quente, em Caldas Novas. As águas termais, correntes e quentes em qualquer época do ano, passando de um poço para outro, são muito agradáveis. Não precisávamos sair da pousada: ali tinha tudo para divertir e passar o dia com conforto. Achei um luxo e voltamos várias vezes. Paraná e Santa Catarina Em 1986, fui mais longe, em excursão com alunos do Colégio Santo Antônio, onde Simone, minha filha, es- tudava. O responsável pela excursão foi o coordenador Kafunga, professor de biologia, e a secretária Cristina, frequentadores como eu da Cantina Baltazar. Sempre quis conhecer o Sul do Brasil e, nessa oportunidade, con- segui um lugar no ônibus. Seguimos para o Paraná, onde ficamos dois ou três dias conhecendo Curitiba. Nos regis- tros dessa viagem, ficaram as deliciosas massas e polen- tas da Família Madalosso, em Santa Felicidade. Curitiba é conhecida pelas boas soluções urbanas, jardins e pas- seios bem cuidados. Aproveitei para visitar o Museu do Expedicionário. De Curitiba, fomos conhecer o Porto de Paranaguá, a cidade mais antiga e a principal do litoral paranaense. A viagem pela Serra do Mar, acompanhan- do a exuberância da Mata Atlântica, é inesquecível, assim como um frio na barriga por causa da altitude e das pas- sagens estreitas em alguns pontos. Blumenau é a melhor tradução da influência germâ- nica em Santa Catarina. Visitamos a cidade para conhe- cer o comércio de artesanato local. Fiquei admirando a variedade de produtos e vi um caminho de mesa bege
•123 com bordado muito bonito, mas inacabado. A vendedo- ra me explicou que se tratava de um gabarito para servir de orientação às bordadeiras. Comprei o pano grosso e os apetrechos necessários para concluir o trabalho. Nem acreditei quando ficou pronto. De minha passagem por Blumenau, guardei esta recordação. Na volta, demos uma esticada até o Uruguai, sem passar por Montevidéu. Estados Unidos Viajei algumas vezes para o exterior. A primeira foi para Nova Iorque, na década de 90, com a saudosa Ma- ria José. Ficamos hospedadas na casa da Vânia Freitas, em New Jersey. Todos os dias, ao longo de três semanas, ía- mos de metrô para Manhattan, desembarcando na esta- ção das Torres Gêmeas. Vaninha ia trabalhar e nós subía- mos a 5ª Avenida para bater perna e fazer compras o dia todo. Aproveitei minha viagem e trouxe muita roupa para vender, dentro do limite permitido, é claro. Vendi tudo e consegui pagar grande parte das minhas despesas. No roteiro, os famosos pontos turísticos da ilha: Empire State, Times Square, Catedral de St. Patrick’s, Central Park e uma subida em um dos muitos arranha-céus com vista panorâmica para a Estátua da Liberdade. A viagem incluiu um fim de semana em Delaware e Washington D.C., com passada obrigatória pela Casa Branca. Em julho de 2016, foi a vez de conhecer Miami, a con- vite do meu filho Léo, em companhia dos netos. Geórgia, minha nora, Luisa e Gabriel já estavam por lá. Chegamos ao apartamento à noite, na região de Sunny Isles. O jan- tar já estava quase pronto. No dia seguinte, fui conhecer a praia. Havia uma que possuía um horário especial para
124• levar os cachorros. Essa eu não sabia, mas Gabriel, muito sabido, me punha a par dos costumes locais, como se fosse meu guia. No dia 19 de julho, cantamos os parabéns pelos 3 anos de Luisa, com a presença de amigos. Na programação, estava uma ida a West Palm Beach, para onde fomos de trem, a pedido das crianças. No cami- nho, um café da manhã típico americano e um passeio pela cidade que durou o dia todo. Voltamos para casa no fim da tarde, levando algumas sacolas de lembranças. Miami, como se sabe, é sinônimo de compras. Um shopping pró- ximo e a céu aberto chamado Bal Harbour, com grande oferta de restaurantes, foi a solução mais prática para fe- char a lista de lembrancinhas e encomendas. Antes de voltar ao Brasil, fui conhecer Miami Beach. Na Ocean Drive, com sua arquitetura em estilo Tropical Déco, a forte presença da cultura caribenha, sobretu- do cubana. Muitas lojas, boas músicas e um clima quase nostálgico dos anos 50. Argentina Com Simone, fui a Buenos Aires. Chegamos pela manhã e fomos direto conhecer a Plaza de Mayo, a Casa Rosada e a Catedral Metropolitana. Percorremos a Avenida 9 de Julho, uma das principais da cidade, para ver o Obelisco. À noite, jantamos num ótimo restaurante perto do hotel, no Centro, em rua movimentada. Porém, segundo os aler- tas, mantivemos vigilância redobrada para evitar assaltos ou tentativas de golpe a turistas. Por pouco não caímos em um. Os dissabores, porém, foram recompensados pela be- leza da capital argentina, em especial os bairros da Reco- leta (e seu cemitério) e Palermo. Não ficou nenhum ponto
•125 turístico para trás: Café Tortoni, Feira de San Telmo, o Ca- minito, onde passamos uma tarde nos bares assistindo a shows de tango e saboreando pratos típicos. França Quando menos esperava, surgiu a oportunidade de realizar um sonho antigo: conhecer Paris. O convite veio da minha irmã Marilene. O dia amanhecia quando chegamos, em novembro; estava frio e havia uma tênue neblina na estrada a caminho da cidade. Durante o tra- jeto, quando surgiram as primeiras edificações, fiquei encantada com a arquitetura clássica. Aquele percurso até chegarmos ao hotel foi uma antevisão da maravilha que veria pela frente. Fiquei hospedada na Île Saint-Louis, um distrito antigo, tranquilo e muito charmoso para passear e comprar lem- brancinhas, localizado atrás da Catedral de Notre-Dame. As avenidas da cidade estavam cobertas de folhas de acá- cias, formando lindos tapetes matizados de cores vibran- tes: amarelas, vermelhas e alaranjadas. Achei tão lindas que não resisti à vontade de trazer algumas de lembrança, que guardei por muitos anos dentro de um livro. O frio já estava intenso, pedindo casacos mais pesados e sobreposição de roupas. Durante dez dias passeamos mui- to e conseguimos visitar quase todos os pontos turísticos mais conhecidos, como o Louvre, Montmartre, Torre Eif- fel, Praça da República, Arco do Triunfo e a Casa da Ópera Garnier, com seus camarins. Adoro história e fui também à Capela Expiatória. Ao lado, está a Conciergerie, local onde Maria Antonieta ficou presa até sua execução. A cela onde a rainha esteve confinada está mantida até hoje com seus
126• objetos pessoais. Seu aspecto é melancólico, sombrio. O cenário representa a última noite de uma condenada. A Cidade Luz estava ainda mais iluminada à espe- ra do Natal. A Place de la Concorde, por exemplo, ti- nha uma roda-gigante toda iluminada. Fomos à Ga- leria Lafayette, um luxo para poucos, fora dos nossos padrões, assim como a Champs-Élysées, avenida com as melhores vitrines. O Jardim de Luxemburgo tam- bém é deslumbrante. Tiramos um dia inteiro para visi- tar os imperdíveis Palácio de Versalhes e o Petit Trianon. Foi uma viagem inesquecível, guardada em fotos e nas mi- nhas memórias. Portugal e Itália Conhecer Portugal era tudo que eu queria: pela simpa- tia nutrida por aquele país, pelos laços históricos e cultu- rais, pelo sotaque, pelo sentimento de religiosidade, pelas músicas que cantam as belezas das cidades, dos rios, das paisagens. Em março de 2018, viajei a convite de Simone e Marconílio para passar meu aniversário em Lisboa. Lisboa, velha cidade, cheia de encanto e beleza, Lisboa d’ou- tras eras, dos cinco réis, das festas, das seculares procissões, dos populares pregões matinais que já não voltam mais. No primeiro passeio, em carro alugado, fomos à Torre de Belém e, ali perto, aproveitei para degustar o autên- tico Pastel de Belém. Nosso roteiro incluiu ainda os tra- dicionais bairros da Alfama, Baixa e Chiado. Visitamos também cidades próximas, como Óbidos, Cascais e Sintra. As noites eram reservadas aos shows de fado, regados a
•127 um bom vinho e pratos típicos da rica culinária local. Meu aniversário de 72 anos foi comemorado no Restaurante Laurentina em jantar surpresa promovido por Simone, com direito a efusivos “Parabéns pra Você”, com sotaque português da clientela presente. De Lisboa, partimos para a cidade do Porto. No trajeto, lindas casinhas com floreiras, ruas estreitas, pés de frutas nas ruas e nos quintais, exalando um aroma gostoso: Al- cobaça, Mosteiro de Santa Maria, Coimbra… Na tradicio- nal universidade, um estudante me emprestou sua beca para uma selfie. No Porto, mais algumas rodadas de pratos da excepcional culinária portuguesa, além dos excelentes vinhos, direto das diversas caves centenárias. Em Braga, pudemos testemunhar a forte presença do catolicismo na sociedade portuguesa, transferida ao povo brasileiro nos anos de colonização. Na procissão do Do- mingo de Ramos a que assistimos, não faltaram banda de música e cânticos dos fiéis, com uma liturgia bem dife- rente, linda. Ainda em Braga, fomos ao Santuário Bom Je- sus do Monte, muito procurado por turistas pela beleza da basílica em estilo barroco. Para alcançar o topo, enfrentei 376 degraus, mais 93 até o Adro. De Porto, viajamos de avião para Roma. Nos hospeda- mos num hotel nas imediações do Vaticano. Foram pou- cos dias, mas o bastante para conhecermos o Coliseu, a Fontana di Trevi e a Piazza di Spagna. Aguardamos a che- gada do domingo para assistir à tão aguardada Missa de Páscoa. Tive o privilégio de ver a beleza da celebração, o hino de alegria, Aleluia! Papa Francisco andando, aben- çoando e cumprimentando as pessoas que lhe estendiam as mãos. Para coroar o abençoado domingo, uma oração na Basílica de São Pedro. Meu sonho foi realizado!
128• Presente para a futura bisavó Álbum de família
Ser avó é uma experiência transformadora, uma emo- ção que transcende o tempo e se manifesta de forma profunda e única, um revival da maternidade, com mais leveza e sabedoria. Netos são prismas refletindo cores, colorindo a vida da família, em explosão de alegria. Ne- tos nos ensinam coisas extraordinárias, a partir de suas perspectivas e compreensão do mundo. Só quem tem netos é capaz de entender a dimensão desse sentimento. Shhh. Shhh, não precisa acordar Eu queria apenas te beijar Olhar para você mais uma vez Para te levar comigo Lá onde eu vou cantar. Versos da canção de ninar Berceuse, composta por David Gategno e interpretada por Céline Dion, no álbum D’Elles. ef
130• DANIEL VÍTOR BRENO MARIANA NETOS
•131 ALICE ANA TERESA GABRIEL LUISA Fotos: Álbum de família
132• Daniel Daniel foi o meu primeiro neto. Trouxe muita alegria para nossa família: primeiro neto, primeiro sobrinho, primeiro bisneto. Nasceu e morou em Itaúna nos pri- meiros anos de vida. Eu esperava ansiosa pelos finais de semana para pegá-lo no colo, acarinhar e brincar. Era engraçadinho ouvi-lo imitar o som do carro em movi- mento. Eu pedia que repetisse, e ele fazia isso até ador- mecer. Foi uma criança tranquila, apaixonada por jogos de tabuleiro, livros e dinossauros. Aos cinco anos, já havia decorado o nome de todos os dinossauros de um dos volumes da enciclopédia do avô Waldyr. Saiu cedo de casa para estudar Engenharia Metalúrgica em Ouro Preto e, desde então, sempre mo- rou fora. Quando estava na República Federal Reino de Baco, como calouro, me preocupava vê-lo nas condições de “bixo”. Adoecia tanto que ganhou o apelido de “Maldi- posto”. A distância nunca arrefeceu nosso vínculo. Da- niel é carinhoso, gentil e afetuoso. Notícias e demons- trações de amor são constantes. Ele adora uma chamada de vídeo… Vítor Um ano e três meses depois de Daniel, chegou Vítor para aumentar nossa felicidade e ser o fiel companheiro do irmão. Sempre foi uma criança ativa, esperta, curio- sa e independente. Suas brincadeiras preferidas envol- viam pedaços de pau que viravam espadas, lutas de su- per-heróis e passeios a cavalo. Já era um sinal de seu
•133 espírito aventureiro, confirmado na vida adulta pelo gosto por esportes radicais. Meu neto Vítor tem objeti- vos, fé e amor. Sua força interior e coragem são admi- ráveis. Gosta de ir à missa, tem fé e busca sempre seu crescimento espiritual. Formou-se em Engenharia Mecânica pelo Cefet/MG e, com seu perfil comunicativo e determinado, logo se destacou na área comercial de commodities. Nunca sei onde está, pois vive viajando, seja a trabalho ou lazer. Quando menos espero, vejo uma foto sua do outro lado do mundo. Vítor é um astro em movimento. Alice A primeira das netas, foi a que mais esteve pre- sente na minha casa. Por morar sempre perto, pas- sávamos as tardes juntas fazendo tarefas escolares. Sempre foi carinhosa, sensível, talentosa e muito lin- da. Sua pele branquinha e cabelos negros me remetem aos contos de fadas. Não por acaso, sua primeira gran- de festa de aniversário teve como tema Alice no País das Maravilhas. Formou-se em Publicidade e Propaganda, mas des- de cedo sabia que seu caminho seria as artes cênicas. Estudou teatro, participou de apresentações no Colégio Marista e descobriu seu talento para maquiagem, trans- formando-o em profissão. Faz bolos e pudins com perfeição — ótimo para mim! Sem contar que é quem me socorre nas minhas dificul- dades tecnológicas. Hoje, Alice mora comigo e é uma grande companheira para assistir séries e filmes na TV.
134• Ana Teresa Sempre estudiosa, inteligente e organizada. Desde adolescente gostava de trabalhar e ganhar seu dinheiri- nho. Boa aluna, conciliava estudos e trabalho. Lembro- -me de quando me ligou para contar uma novidade: ha- via aceitado um trabalho temporário na escola de música Villa Lobos. Estava radiante. Perguntei como conseguiu, já que morava em Nova Lima e a escola era em Belo Hori- zonte. Respondeu que uma professora a indicou. Aos poucos, acumulou experiências: fotografou even- tos, passou por agências de publicidade e hoje trabalha em uma startup, feliz e realizada. Fez ensino médio no Sebrae, formação técnica em Administração e, ao se mudar para Florianópolis, cursou graduação na mesma área. Entusiasmo, liderança e dedicação são as palavras que descrevem essa neta tão querida. Breno Menino forte, observador, olhar marcante desde pe- queno. Mais calado, introspectivo, mas sempre atencioso e verdadeiro. Aos cinco anos, sua festa de aniversário foi uma grande comemoração com amigos e família. Mas ele gostava mesmo era de comemorar em São Paulo, assis- tindo ao Grande Prêmio de Fórmula 1. Quando atingiu a maioridade, chegou de surpresa em minha casa com duas long necks para um brinde, só nós dois. Fiquei emocionada com esse gesto de carinho, que guardarei para sempre. Quando peço ajuda, me atende com paciência e gentileza. Sempre faz questão de me acompanhar até em casa quando nos encontramos pelas
•135 ruas, carregando minhas sacolas. Formou-se em Direito pela PUC/MG e tudo indica que será um grande advogado. Mariana Mariana é vibrante. Desde criança, decidida, criativa e inovadora. Sempre soube o que queria. Escolhia seus ves- tidos e, com suas caras e bocas, mostrava seu mundo in- terior. Os temas das festas de aniversário eram escolhidos por ela, assim como a decoração do bolo. Na festa de oito anos, vestiu-se de Cinderela: vestido azul e bolo com uma almofada e sapatinho de salto. Vivia cercada de amigas para ajudar na decoração. Para Mariana, tudo era festa. Gosta de literatura, teatro, música, cinema e even- tos culturais. Sempre que pode, me acompanha. Temos gostos em comum. Sempre me presenteia com livros — um dos últimos foi Nó de Víboras, de François Mauriac, que explora a complexidade da alma humana. Hoje cursa Geografia na UFMG, faz estágio e sempre arruma tempo para me visitar. Momentos preciosos para colocar a con- versa em dia. Mariana, desde cedo, mostrou a que veio. Gabriel Em 2013, ano em que o Atlético Mineiro foi campeão da Libertadores, nasceu Gabriel, torcedor apaixonado pelo Galo. Sua paixão é o futebol. Coleciona camisas de times do mundo todo — seu presente preferido. Gos- ta de ir ao estádio ver seu time do coração. Ama espor- tes em geral. Aprendeu a nadar cedo, fez tênis, futebol e judô. Algumas festas de aniversário foram em campi- nhos, com times Atlético e Cruzeiro. Depois do jogo, era
136• hora de cantar parabéns e devorar os docinhos. Gabriel já pensa no futuro: deseja estudar Gestão Esportiva. Ainda tem tempo para decidir. É um menino encantador, que cativa a todos. Seus olhos azuis me fascinam. Luisa É a quarta neta que tomei nos braços. Tem nove anos. Linda, mimosa como uma flor. Aprende tudo com rapi- dez. Tem seu tablet, como toda criança da idade. Celular ainda não ganhou, mas já fotografa muito bem — me- lhor do que eu — e até me corrige na hora da pose. Desde pequena gostava de cantar e inventava pa- lavras que ninguém entendia, mas todos batiam pal- mas. Lembro-me de uma: “cachoeira”, que ela pronun- ciava fazendo gestos com os bracinhos, imitando água jorrando. — Canta mais, Luli, eu pedia, e ela cantava. Adora dançar. Já fez balé clássico e agora dança urbana. No encerra- mento das aulas, apresenta-se nos teatros de Belo Hori- zonte. Eu e os avós maternos sempre vamos, chegamos cedo para sentar nas primeiras filas e ver nossa neta bem de perto. Quando nos vê, acena alegremente. Marina (17.09.1992 – 16.11.1992) Marina, estrela fugaz , chuva de estrela cadente, ra- diante, adormecida com a magia de Wolfang Amadeus Mozart. Nosso amor atravessa o tempo, o espaço e o véu. “Brilha, brilha, estrelinha lá no céu pequenina, solitária se conduz pelo céu com sua luz”. Quero ver você bailar, quero ver você brilhar.
•137 Anunciação A manhã de um sábado ensolarado, dia 13 de setembro de 2025, prometia uma linda reunião em família. Saí de casa mais cedo para um café muito especial às 9 horas, em Casa Branca, na casa da minha filha Simone, com meu neto Daniel e sua noiva Germana, que acabavam de che- gar de uma viagem a Nova Iorque. Acordei às sete horas e, às pressas, juntei numa sacola tudo que precisaria para passar dois dias com eles. Vítor já tinha ido na sexta-feira. Sabia que aquele encontro seria maravilhoso para matar as saudades e ouvir as novidades, principalmente as histórias da viagem e os preparativos para o casamento, que aconteceria no fim de novembro. A conversa rendeu um pouco, mas eles queriam falar de outros assuntos. Até que Germana trouxe uma caixi- nha com um laço e disse, com aquele sotaque gostoso de paraibana: — Trouxemos um presente para a senhora. Recebi a caixinha e um cartão e fiquei sem saber o que abrir primeiro. Ouvi então: — Abra a caixinha. Era um bico de neném! Soltei uma gargalhada espon- tânea, tomada pela alegria e emoção. As palavras do car- tão confirmavam: era a anunciação da chegada da minha primeira bisneta. O inesperado presente foi concebido no Brasil, no dia 18 de agosto. Minha primeira bisneta chegará em abril do próximo ano. Quanta alegria para nossa família! Simo- ne será avó, Vítor ganhará a primeira sobrinha. Quando Alice chegou e recebeu a notícia, derramou lágrimas de emoção e disse: "Vou ganhar uma sobrinha!".
138• Sandra Ferreira
•139 Foram décadas como professora e servidora pública. Hoje, aposentada, olho para frente com serenidade: quero cuidar do meu corpo e da minha mente de forma natural, valorizar a alimentação saudável, caminhar ao ar livre e manter a alegria que sempre me acompanhou. Já criei meus filhos, vejo meus netos crescendo e sonho com os bisnetos que virão. Ao mesmo tempo, aprendo a lidar com a saudade dos irmãos e amigos que partiram, guardando deles as lembranças mais bonitas. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou. Do poema Com licença poética, do livro Bagagem, de Adélia Prado, 1976. ef
140• Duas aposentadorias e uma vitória Aposentei-me duas vezes num intervalo de 16 anos. A primeira aposentadoria foi em 1990, como professora, e já tinha ganhado meu primeiro neto. Comecei a dar aulas muito jovem, com 19 anos, e a regra para aposen- tadoria de professora era especial: o tempo de serviço exigido das mulheres era de 25 anos. O magistério é um sacerdócio desgastante. Assim que cumpri os requisitos, afastei-me. Fui para casa descan- sar e ter mais tempo para me dedicar aos filhos. Depois de um tempo, achei que era muito nova para encerrar minha carreira profissional. Meus proventos de aposen- tadoria eram reduzidos, pois professores da rede pública sempre foram desvalorizados e mal pagos. Foi então que resolvi estudar para concursos públi- cos. O primeiro foi para o Tribunal Federal de Justiça. Assim que o edital foi publicado, fiz minha inscrição para um cargo da área-meio, ou seja, serviços adminis- trativos, que tinha o menor número de vagas. Não sendo advogada, era o que eu podia fazer. Obtive boa pontua- ção, fui classificada, mas o prazo de validade venceu e não fui nomeada. Continuei estudando até passar no concurso do Tri- bunal de Contas de Minas Gerais, para o cargo de Au- xiliar de Controle Externo. Fui aprovada, mas tive que esperar quase quatro anos para ser nomeada. Após oito anos cuidando do controle da tramitação dos processos, ofereceram-me outra função, bem menos burocrática: revisora de textos na Revista do Tribunal. Gostei muito desse período no Tribunal de Contas. Era um trabalho interessante. Ao mesmo tempo que traba-
•141 lhava, aprendia também. Li muitos artigos da Controla- doria-Geral da União e do Ministério Público de Contas. Em 2014, após um curso realizado no TCE, recebi meu Certificado de Pós-Graduação Lato Sensu — Espe- cialização em Controle Externo da Gestão Pública Con- temporânea, emitido pela Pontifícia Universidade Cató- lica de Minas. Em 2016, após um turbilhão que a vida me reservou sem que eu esperasse, resolvi antecipar minha aposen- tadoria, que poderia acontecer em 2021. Muitas mudan- ças aconteciam naquela ocasião. “Mulher é desdobrável: eu sou.” A frase da poetisa Adélia Prado se encaixa com perfeição no meu perfil. Sou uma pessoa flexível, mas obstinada e persistente. Mesmo perante obstáculos, luto pelos meus direitos e objetivos. Olhando pelo retrovisor, volto ao dia em que fui me apresentar no setor de Recursos Humanos para tomar as providências de posse ao cargo para o qual fui nomeada. Ao ser indagada se eu estava acumulando cargo público, respondi que não, mas recebia proventos de aposenta- doria. Ouvi então que eu não teria o direito, uma vez que a acumulação de um cargo de professor só era possível com um cargo técnico-científico, e citaram o artigo 37 da Administração Pública, que eu já sabia de cor. Eu já tinha estudado Direito Administrativo, matéria obriga- tória em concursos públicos. A conselho de um advogado da família, cogitei impe- trar um mandado de segurança, o que acabou não sen- do necessário. Comecei a trabalhar, ainda em condições incertas. Meu processo percorreu por várias instâncias administrativas e jurídicas, passando pela Procuradoria do Estado, até cair nas mãos da Ministra Carmem Lú-
142• cia, do STF, que dois dias depois decidiu a meu favor e ar- quivou a ação. Comentário da minha neta Alice: “A Car- minha arrasou!”. Ao fim e ao cabo, tudo terminou bem. C’est la vie! Qui ne risque rien, n’a rien. Os sustos que a vida nos dá Quando menos se espera, a vida nos surpreende. No ano de 2016, no meio da manhã, recebi a notícia de que meu filho Léo, com 36 anos, estava no hospital Biocor, mas que não era nada grave. Quando cheguei, ele estava lúcido e tomei conhecimento do ocorrido: ao se levantar, sentiu tontura e a visão escureceu, percebendo que iria desfalecer. Foi levado ao hospital para consulta e, à tarde, teve alta. Porém, na manhã seguinte, não acordou bem — a fala estava enrolada e sentia tonturas. Foi um dia horrível, comprido e angustiante. No final da tarde, após outra consulta com cardiologista, foi enca- minhado ao hospital Semper para fazer uma ressonância magnética. A espera pelo resultado foi uma eternidade. Léo havia sofrido um AVC isquêmico do lado esquer- do, há mais de 18 horas, prejudicando sua fala e movi- mentos dos membros inferiores — o que recuperou com fisioterapia e fonoaudiologia. Do Semper, fomos imedia- tamente para o hospital Madre Teresa, onde ele ficou in- ternado por cerca de uma semana. Ficamos abalados. Tão novo, com dois filhos pequenos: um com três anos e uma bebê de três meses. O que aliviou esse momento foram as muitas manifestações de carinho de seus amigos, que não são poucos. Após a investigação das possíveis causas, ouvimos pela primeira vez o termo Forame Oval Patente (FOP), uma pa-
•143 tologia congênita que muitas pessoas têm e vivem sem complicações, muitas vezes sem saber que nasceram as- sim. O Dr. Edmundo Clarindo de Oliveira, estudioso do tema, explicou-me que o forame é um orifício entre os átrios que não fecha após o nascimento, o que normal- mente ocorre até o primeiro ano de vida. A consequência dessa condição é que o sangue arterial pode formar um coágulo e passar direto para o cérebro. Um novo exame foi feito para detectar o risco de ou- tro evento semelhante. O resultado determinaria a indi- cação de um procedimento cirúrgico para fechar as abas dos átrios. A cirurgia foi realizada com sucesso, com o im- plante de uma prótese importada para fechar os orifícios. Léo está ótimo, e agradeço a Deus por sua saúde. Em 2018, mais um susto. Em uma consulta de rotina com minha ginecologista de muitos anos, Dra. Leda Ca- porali de Oliveira, foi identificado um cisto que, aparente- mente, seria retirado no consultório mesmo. Ela, porém, recomendou novos exames. Fui encaminhada ao hospital Otaviano Neves, fiz o exame solicitado e o material foi para biópsia. Despreocupada, voltei ao consultório com minha filha Simone, após alguns dias, para ouvir o resultado que a médica já sabia de antemão. Na verdade, o cisto era be- nigno, mas havia um tumor no endométrio — este sim, maligno. Caso de cirurgia, portanto. Como é natural, meus filhos ficaram preocupados e ansio- sos, mas, por algum motivo, eu estava tranquila. Sentia que tudo ia correr bem. Indicaram-me três oncologistas que aten- diam pelo meu plano de saúde. Procurei o primeiro da lista: Dr. Humberto Bitencourt Pinheiro, ginecologista, obstetra e onco- logista. Após dois meses, num sábado de outubro, fui submeti- da a uma histerectomia total laparoscópica.
144• Quando pensavam que eu iria para a UTI, com leito já reservado e meus filhos avisados, surpreenderam- -se: fui direto para o apartamento. Simone passou a noite comigo e tudo correu tão bem que, no domingo pela manhã, tive alta. O acompanhante escalado para o dia foi dispensado. Durante cinco anos, fiz acompa- nhamento e estou completamente curada. Agradeço ao Senhor por mais essa vitória. Pandemia e capsulite Em fevereiro de 2020, o mundo ficou sabendo da ameaça de um vírus desconhecido que estava matando pessoas. Em pouco tempo, o número de casos letais não deixou dúvidas: tratava-se de uma pandemia causada pelo coronavírus. A medicina não estava preparada para combater o vírus letal. Não havia vacinas, nem medica- mentos; faltava tudo — máscaras de proteção, oxigênio, álcool para esterilização. Os infectologistas davam entrevistas explicando os sintomas e recomendando cuidados. Apesar da indife- rença de algumas autoridades negacionistas, que minimi- zaram o problema, a sociedade entendeu que era preciso acreditar na Ciência e respeitar as medidas de isolamento, até a descoberta da vacina milagrosa. Muitas famílias se instalaram em sítios e fazendas; o home office foi a solução para que a economia não entrasse em colapso. Eu passava o dia assistindo televisão, com medo de sair às ruas, caminhar livremente e exercitar o corpo. Então, meu organismo começou a dar sinais de que algo não es- tava bem. Passei a sentir dores cada vez mais intensas no ombro direito. Nenhum remédio aliviava meu sofrimento;
•145 não encontrava posição para dormir. Meus movimentos ficaram ainda mais limitados. Com toda a proteção exigida pelas autoridades sani- tárias, submeti-me a sessões de fisioterapia, sem resul- tados — só piorei com os exercícios. Um exame clínico apontou que o problema era uma capsulite adesiva. “Seu ombro está congelado”, explicou o doutor, meu conter- râneo. A cápsula articular do meu ombro direito, por um motivo ignorado, tinha inflamado, causando espessa- mento e afetando o movimento do braço. O tratamento seria demorado. O melhor remédio? Paciência. Poderia durar dois anos ou mais. E tome fisioterapia! Fiz mais de uma centena de sessões. Com a ameaça do coronavírus, agora combinada à capsulite, considerei a hipótese de uma depressão, de- vido à preocupação, medo e ansiedade. Pouco a pouco fui melhorando, mas, em 2023, com a pandemia debela- da, veio uma recaída — desta vez no ombro esquerdo. Foi mais um longo período de tratamento fisioterápico. Hoje faço regularmente exercícios de alongamento associados a treino em academia, o que recomendo a todos, sobre- tudo aos da minha idade. A tempestade e o silêncio O ano de 2020 foi avassalador. No dia 29 de janeiro, recebi a notícia de que meu irmão Clênio estava inter- nado em Itaúna devido a um AVC e seria transferido para Belo Horizonte. Eu deveria esperá-lo no Hospital Mater Dei. Eu e Guilherme, que já estava em Belo Horizonte, nos encontramos para aguardar a ambulância na entrada da emergência. Foi um daqueles dias em que tudo pare-
146• cia dar errado. Não conseguimos falar com nosso irmão. Ele foi levado imediatamente para a UTI, enquanto nós permanecíamos na sala de espera, aguardando notícias. Aquela noite foi dramática, não apenas para nossa família. Belo Horizonte foi castigada por um repentino temporal, quase um dilúvio. A situação era caótica: en- xurradas arrastando carros, árvores derrubadas, o bairro de Lourdes destruído — uma cena nunca vista. As ruas mergulhadas em breu, numa completa escuridão. A energia elétrica foi interrompida, e o gerador do hospital entrou em funcionamento, permitindo a realização dos procedimentos. A sucessão de acontecimentos inesperados foi deses- peradora. Parecia uma eternidade a espera por informa- ções do bloco cirúrgico. Depois de horas angustiantes, Dra. Juliana, neurologista e nora de nossa irmã Marilene, veio nos informar que a cirurgia ainda não havia termi- nado, mas o caso era muito grave e Clênio estava “en- carcerado”. Não sabíamos o que significava aquele ter- mo. Nunca tivemos um caso semelhante na família. Era nosso irmão de 66 anos, o primeiro a adoecer. Juliana, condoída, escolhia palavras amenas para nos confortar. Disse que não deveríamos permanecer no hospital, pois não seria possível vê-lo. Só no dia seguinte a equipe daria o boletim. Nossa cunhada Celinha chegou no dia seguinte e não arredou o pé do hospital, nem quando poderíamos reve- zar com ela para um descanso. Dedicada e zelosa, cuidou incansavelmente do marido durante quatro anos, até o dia 29 de fevereiro de 2024.
•147 EPÍLOGO Uma reunião de família e amigos Meu livro parece uma grande reunião de parentes e amigos, todos reunidos numa sala, ouvindo meus casos — sempre longos, cheios de detalhes. Ao decidir narrar minha vida, engendrei um processo que não se enquadra em nenhum gênero literário. Prefiro chamá-lo de narrativa híbrida, fruto do trabalho de uma corajosa aventureira. Uma história repleta de derivações. A loquacidade sempre foi um traço que me distinguiu. Conversar muito me dá satisfação. Com o passar dos anos, percebi que a ansiedade talvez tenha sido a causa do encadeamento acelerado de ideias no meu discurso inicial, até que pessoas da família co- meçaram a me advertir que meu comportamento estava fora do padrão. Até então, eu não tinha autopercepção desse estado emocional. Foi assim que procurei uma psicóloga, que me sub- meteu a uma análise comportamental e me diagnosticou com hipomania. Depois de algumas sessões, passei a ter mais cuidado e hoje me esforço para ser mais concisa e objetiva nas conversas. A busca pelo autoconhecimento e pela evolução cons- ciente é uma atitude que prezo nos meus relacionamen- tos interpessoais.
148• Escrever foi um exercício literário que me permitiu dar vazão àquilo que estava adormecido e que, por algum motivo inconsciente, eu queria expressar. Criei coragem, e minha pulsão de vida deu vida ao meu livro. Espero que alguém me ouça por meio da leitura e que ela seja envolvente, pois foi escrita com alma e entusiasmo. Após meses revisitando o passado, revirando o baú de memórias, sentimentos e saudades, chego ao momento de concluir esse desafio. Está na hora de terminar essa longa história: quase oito décadas, entre 1946 e 2025. A ampulheta do tempo cumpre sua função com preci- são e rigidez. Encerro aqui essas lembranças, na certeza de que, daqui a instantes, começa mais um novo capítulo da minha vida. Não sabemos ao certo o que a vida nos reserva, mas já tenho três momentos marcantes à vista: Em 29 de novembro, casarei meu primeiro neto. Mi- nha filha Simone organiza, com muita alegria, a festa de Daniel e Germana. Pelo pouco que sei, será uma lin- da celebração. No próximo ano, provavelmente em abril, poucas se- manas após o lançamento deste livro, chegará Catarina. Serei bisavó aos 80 anos! Logo depois, em maio de 2026, iremos todos para Florianópolis para o casamento de Ana Teresa e Filipe — agora, a primeira neta a se casar. E assim a vida vai acontecendo. Um eterno devir. Fe- cho estas páginas com a certeza de que a vida não se en- cerra em memórias: ela se reinventa a cada amanhecer, e eu sigo pronta para escrever, no coração, os capítulos que ainda virão. Belo Horizonte, dezembro de 2025.
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Copyright @ Maria Lúcia Teixeira de Melo Direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19.2.1998 Impresso no Brasil 2026 Foi feito o depósito legal Edição e projeto gráfico: Ricardo Melo Digitação e organização de texto: Simone Melo Impressão: Companhia Editora de Pernambuco - CEPE Fevereiro de 2026. Melo, Maria Lúcia Teixeira de Relíquias / Maria Lúcia Teixeira de Melo. — 1. ed. — Belo Horizonte, MG : Editora, 2026. ISBN 000-00-0000-000-0 1. Mémorias I. Título. Índices para catálogo sistemático: 1. Biografia : Mmsmsmmssm B869.3 Fulana de Tal - Bibliotecária - CRB-1/3129 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) 00-000000.0
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