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COMO ENVELHECEM MULHERES QUILOMBOLAS DO RECÔNCAVO DA BAHIA? Daniele Neres Fraga Jacimara Souza Santana Saberes, desafios e estratégias de cuidado no territórioMãe Bernadete Pacífico, liderança do Quilombo Engenho da Ponte, em Simões-Ba

FICHA CATALOGRÁFICA (SOLICITADA)

Esta cartilha nasceu a partir da escuta e das experiências de 10 mulheres idosas quilombolas do Recôncavo da Bahia, com idade média de 64 anos, que compartilharam suas histórias, saberes e formas de cuidar da saúde. A cartilha reuniu resultados do estudo Envelhecimento e Condições de Saúde de Idosas Quilombolas do Recôncavo da Bahia, desenvolvido no Mestrado Profissional em Saúde da População Negra e Indígena da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). A pesquisa buscou conhecer como a raça, o gênero, condições de vida, a situação econômica e o lugar onde vivem podem influenciar as experiências de saúde e envelhecimento. POR QUE ESTA CARTILHA? 1

Para muitas mulheres, envelhecer está relacionado às doenças, às dores, às limitações físicas e às mudanças na saúde. Mas, segundo as quilombolas, envelhecer também é continuar vivendo, aprendendo, acumulando histórias e experiências. As histórias compartilhadas mostram que envelhecer vai muito além da passagem do tempo. É um processo construído ao longo da vida, marcado pelo trabalho, pelo cuidado, pela resistência, pela ancestralidade e pelo pertencimento ao território. Envelhecer também é carregar histórias, preservar saberes e continuar fazendo parte da comunidade. ENVELHECER Mara da Ponte, liderança do Quilombo Engenho da Ponte/Cachoeira-BA Fonte: Arquivo pessoal. In: Brasil de Fato (2026).. 2

Dificuldade no acesso à especialistas As mulheres falaram sobre:OS DESAFIOS PARA ENVELHECER Demora para realização de exames Dificuldade de acesso à transpore Falta de medicamentos Ausência de rede de esgotamento sanitário Conflitos para a proteção do território A rezadeira Maria Valdelice Mota Costa, falando sobre as folhas para banho e consumo. Fonte: Rafaela Araújo/Folhapress. 3

A VIDA INTEIRA CUIDANDO DOS OUTROS Desde muito jovens, essas mulheres trabalharam na agricutura, cuidaram da casa, criaram os filhos, acompanharam familiares doentes e permaneceram exercendo o papel de cuidadoras mesmo após envelhecer. "Qual é essa avó que não cuida dos pioi?" (Participante 07) Cuidar sempre fez parte da vida dessas mulheres.Da esquerda para direita: Jucilene Viana, 43, Jorlane Cabral, 38, Agda Soares de Jesus, 40, Rosângela Viana Jovelino, 49, e Edmeia Batista Costa, 36, guias da Rota da Liberdade no Quilombo Kaonge, município de Cachoeira, Recôncavo Baiano. Fonte: Rafaela Araújo/Folhapress (2024). 4

“Roça" “Lenha" "Água" "Filhos" "Merenda escolar" "Agricultura"O TRABALHO TAMBÉM ENVELHECE O CORPO A pesquisa mostrou que muitas mulheres iniciaram o trabalho ainda na infância. Essas vivências podem impactar nas dores e nas limitações físicas descritas no curso do envelhecimento. Sobretudo porque mulheres geramente estao expostas à duplas jornadas de trabalho, se dividindo entre o remunerado e o reprodutivo. “Preocupação" 5Rosângela, quilombola da comunidade Kaonge, Cachoeira-Ba (Araújo, 2024)

O TERRITÓRIO TAMBÉM CUIDAO território não é apenas o lugar onde essas mulheres moram.O que dizem os estudos? Para a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), proteger o território significa proteger a vida, a cultura e a saúde das comunidades quilombolas.É nele que vivem:as famíliasos saberesa agriculturaa memóriaa ancestralidadea cultura quilombola6

As mulheres utilizam plantas cultivadas em seus quintais para preparar chás antes de recorrer aos medicamentos. Esses conhecimentos foram aprendidos com mães, avós e bisavós. TERRA E CURACamomilaHibiscoHortelãErva-doceTapete de oxaláFolha de louroCapim-santoFolha de MangaBoldoFolha de abacateFolha de amoraMelissa 7

O território representa muito mais que um pedaço de terra. Ele guarda a história das famílias, os alimentos produzidos, as plantas medicinais, a cultura e a identidade quilombola. Quando o território é ameaçado, também são ameaçadas a saúde e a qualidade de vida da comunidade.DEFENDER A TERRA É DEFENDER A VIDA8

RaízesAncestralidadeTerritórioFamíliaResistênciaCuidadoPertencimentoSaúdeSabedoriaMemóriaEsperançaESSAS MULHERES ENSINAM SOBRE: Mulheres do Quilombo Kaonge, Cachoeira - BA Fonte: Rafaela Araújo/Folhapress (2024). 9

O QUE PODE SER CONTRIBUIR PARA O ENVELHECIMENTO E SAÚDE DESSAS MULHERES? Ampliação do acesso aos serviços de saúde; Garantia de transporte para consultas e exames; Fortalecerimento da Atenção Primária à Saúde; Reconhecimento e valorização dos saberes tradicionais e do trabalho reprodutivo; Fornecimento regular de medicamentos; Proteção dos territórios quilombolas; Promoção de políticas públicas longitudinais voltadas ao envelhecimento das quilombolas. Através das vozes das participantes e das problemáticas encontradas, o estudo apontou caminhos importantes: 10

ENVELHECER SENDO MULHER QUILOMBOLA Envelhecer em território quilombola é muito mais do que viver muitos anos. É carregar memórias, cultivar saberes, , proteger o território e manter viva uma história construída por muitas gerações, sobretudo por mãos femininas. Conhecer essas histórias é um passo importante para construir políticas públicas mais justas, promover o cuidado em saúde e valorizar o protagonismo das mulheres quilombolas.Dona Valdevina (Valdevina Maria de Jesus Santos), do Quilombo do Pinheiro, Itacaré–BA. Fonte: Resistência Quilombola (2025). 11

REFERÊNCIAS ARAÚJO, R. Rota da Liberdade: programa de turismo por quilombos do Recôncavo Baiano. Folhapress, 28 fev. 2024. Fotografia. Disponível em: Folha de S.Paulo. Fotografia. Acesso em: 05 ago. 2026. BRASIL DE FATO. Mara da Ponte e a força do coletivo de mulheres no Quilombo Engenho da Ponte. Brasil de Fato, Salvador, 17 mar. 2026. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2026/03/17/mara-da-ponte-e- a-forca-do-coletivo-de-mulheres-no-quilombo-engenho-da-ponte/. Acesso em: 05 ago. 2026. COORDENAÇÃO NACIONAL DE ARTICULAÇÃO DAS COMUNIDADES NEGRAS RURAIS QUILOMBOLAS (CONAQ). Plantas medicinais: entenda a importância e significado cultural para os quilombolas. [S. l.]: CONAQ, 2025. Disponível em: https://conaq.org.br/plantas-medicinais-entenda-e- significado-cultural-para-os-quilombolas/. Acesso em: 23 jul. 2026. DIMENSTEIN, M. et al. Desigualdades, racismos e saúde mental em uma comunidade quilombola rural. Amazônica – Revista de Antropologia, Belém, v. 12, n. 1, p. 205–229, 2020. Disponível em: https://periodicos.ufpa.br/index.php/amazonica/article/view/8303. Acesso em: 5 set. 2025. INSTITUTO DE SAÚDE COLETIVA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA (ISC/UFBA). Mãe Bernadete – nota de indignação e pesar. Salvador, 18 ago. 2023. Fotografia. Disponível em: Acesso em: 13 ago. 2026. KALACHE, A. et al. Envelhecimento, velhices e interseccionalidades. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, Rio de Janeiro, v. 26, 2023. DOI: https://doi.org/10.1590/1981-22562023026.230249.pt. Acesso em: 10 nov. 2024. PIRES, J.; TEIXEIRA, G. Dona Maria, liderança do Quilombo Rio dos Macacos. [S. l.]: Quilombo Rio dos Macacos – O filme, [s. d.]. Fotografia. Disponível em: https://youtu.be/-c0GXT1ICis?si=6-P9ZqsH_7OZ-IHT. Acesso em: 13 ago. 2026. Resistência Quilombola. Dona Valdevina – Valdevina Maria de Jesus Santos. Disponível em: Resistência Quilombola. Acesso em: 02 ago. 2026.