LIANÇAS NOVA 12 07 2026

EXPEDIENTE LIANÇAS Revista da Associação Piauiense de Psicanálise Ano 1 | N° 1 | 2026 | Teresina - Piauí Editor-Chefe: Lázaro Santos Tavares (Psicanalista e Analista Didata) Conselho Editorial: Aurenice Pinheiro Tavares Lizanete Caedoso Santos Maria Helena Barbosa Chiappetta Nathecio Nathanael dos Santos Quizânior de Oliveira Andrade Foto da Capa: Evoca a topologia borromeana. Idealização da Capa: Lázaro Tavares Sede Social: Rua Lisandro Nogueira, 1625, Edifício Susana Center, Sala 18, Centro, Teresina, PI. CEP: 64.000-200 Periodicidade: Semenstral Contato: escolafreudianadeteresina@gmail.com

LIANÇAS Revista da Associação Piauiense de Psicanálise |Ano 1 | N° 1 | 2026 | Teresina - Piauí DIRETRIZES TÉCNICAS (REFERÊNCIA: IPA, EBP, EBP-PI) A LIANÇAS adota critérios de excelência inspirados nas maiores escolas de transmissão (IPA, AMP): 1. PROCESSO DE AVALIAÇÃO: Sistema de revisão cega por pares, garantindo a imparcialidade e o rigor científico. 2. ÉTICA CLÍNICA: Seguindo a Proposição de 1967 de Lacan e as diretrizes éticas nacionais, o sigilo sobre relatos clínicos é absoluto. 3. CRITÉRIOS DE INDEXAÇÃO: Trabalhamos com normas ABNT atualizadas para futura indexação em bases como PePSIC e Scielo. Os artigos são de total responsabilidade dos autores. FICHA CATALOGRÁFICA REVISTA LIANÇAS, Teresina, Associação Piauiense de Psicanálise, ano 1, n. 01, jul. 2026. 188 p. Semestral. ISSN: XXXX-XXXX – 28 x 21cm 1. Psicanálise – periódico

SUMÁRIO Editorial | 5 Carta-Convite: Chamada de Trabalhos | 7 Temáticos I Formação em Psicanálise no Brasil: O Labirinto da Autorização | 8 Lázaro Santos Tavares Explorando a Histeria Através da Perspectiva Psicanalítica de Freud | 24 Maria Helena Barbosa Chiappetta Resenha Crítica Psicanálise no Buteko | 37 Lazaro Tavares Temáticos II “Flutua, não afunda”: Freud e Psicanálise no Brasil nos periódicos O Cruzeiro e Revista da Semana nas décadas de 1920 e 1930 | 55 Leslye Bombonatto Ursini A Loucura e a Lei: Interlocuções entre o Direito Penal e a Psicanálise na Constituição do Sujeito | 88 José Itamar Soares Júnior Expressões do Ser Sexual na Puberdade: uma Visão Psicanálitica | 109 Larisse Mendes de Lemos O Inconsciente Freudiano: Tópicas, Fenômenos Lacunares e Mecanismos de Defesas | 117 Lázaro Tavares Desafios contemporâneos na clínica psicanalítica: uma revisão bibliográfica sobre inovações e práticas na área da saúde | 123 Quizânior de Oliveira Andrade A Clínica Psicanalítica Contemporânea do Autismo: Fundamentos Teóricos, Abordagens do Corpo e a Construção do Sujeito | 136 Lázaro Tavares Escrita do Sintoma na Hiperconectividade: do Mal-estar Coletivo à Letra do Sujeito | 157 Antonia Cristiana Soares Apolônio Andrade O arquetipo da mãe na série televisiva the big bang theory a partir de uma visão psicanalítica | 166 Wêsley William Alves de Oliveira Os feminismos na Psicanálise: uma Aliança Necessariamente Tensa Contra a Lógica Patriarcal | 180 Lázaro Tavares Aos colaboradores Normas para apresentação de trabalhos | 185 Nota Editorial | 188

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 5 EDITORIAL LIANÇAS surge não apenas como um registro, mas como um ato político e clínico no coração do Piauí. Em um cená- rio onde a psicanálise enfrenta os desafios da pluralidade sem instâncias unificadas, este periódico se firma como um baluarte do rigor freudiano e da subversão lacania- na. A psicanálise, desde Freud, nunca se pretendeu um saber isolado. Ela se produz no entre-lugar, na transferência e, funda- mentalmente, na escrita. A revista Lianças, órgão oficial de difusão científica da nossa instituição, nasce sob a égide do rigor e da necessidade de formalizar a experiência clínica e teórica produzida não apenas em solo piauiense, mas expandindo suas fron- teiras para todo o Brasil e para as comuni- dades internacionais, articulando o saber clínico com os desafios do nosso tempo. É nesse lugar, como resultado de um esforço coletivo para formalizar o saber pro- duzido pela Associação Piauiense de Psi- canálise (APP) que o o inconsciente é tra- tado em sua dignidade de saber não- sabido, percorrendo a trilha dos fenôme- nos lacunares, até as patologias contempo- râneas do corpo-falante. Esta edição da Lianças propõe um mapeamento desse desejo em suas mais diversas vertentes. Nossas páginas percor- rem o labirinto da formação e da autorização em um campo plural, revisitam a recepção histórica de Freud no Brasil — como nas páginas do Cruzeiro e da Revista da Semana nas décadas de 1920 e 1930 — e interrogam a histeria e a clínica do autismo com o rigor que a contemporaneidade exi- ge. Das trilhas dos fenômenos lacunares à escrita do sintoma na era da hiperconecti- vidade, nossos autores lançam luz sobre as tensões entre o feminino e a lógica patriar- cal, as expressões sexuais na puberdade e as interlocuções necessárias entre a loucu- ra, a lei e o direito penal. Até mesmo os arquétipos da cultura pop, como o da mãe em The Big Bang Theory, servem aqui como espelhos para nossas reflexões psicanalíti- cas.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Editorial | Lázaro Tavares 6 Editor-chefe: Lázaro Tavares Que as reflexões contidas nesta edição se- jam, portanto, um convite ao rigor da prá- tica clínica e ao exercício permanente da leitura dos impasses da contemporaneida- de. O trabalho com o inconsciente é um processo que se renova a cada sessão, a cada estudo e a cada escrita. Seguimos, as- sim, sustentando a ética da psicanálise em sua potência de transformar o sintoma em invenção.Convidamos o leitor a percorrer as marcas desse entalhe inicial, onde cada texto aqui presente reflete o esforço de formalizar o saber e o diálogo constante com a sociedade. O nome "Lianças" não é casual. Ele evoca a topologia borromeana — o enlace necessário entre o Re- al, o Simbólico e o Imaginário — que sustenta não apenas o sujeito e os nós que o constituem, mas tam- bém o compromisso ético de enla- çar a teoria com as questões pre- mentes da contemporaneidade e a ética do nosso fazer. Todo esse saber, contudo, ganha vida e pulsação no movimento da Psicanálise no Buteko, onde a teoria desce do pedestal acadêmico para encontrar o sujeito na mesa do bar, na esquina, na cidade. É esse encontro que nos recorda que a psicanáli- se é, antes de tudo, um exercício de vida e de cidade. Ao longo destas páginas, revisitamos a transição do modelo topográfico para o estrutural, reconhecendo que o inconsci- ente não é um lugar remoto, mas um campo de manifestações constantes que exigem do analista uma posição técnica rigorosa. Compreender as defesas do Ego não é apenas um exercício de classifica- ção; é, fundamentalmente, reconhecer as trilhas que o sujeito traça para tentar pre- servar sua subjetividade diante da angús- tia.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 7 Carta-Convite: Chamada de Trabalhos Revista Lianças (Edição nº 2) Prezados colegas e pesquisadores, A Revista Lianças, publicação oficial da Associação Piauiense de Psicanálise (APP), tem a satisfação de anunciar a abertura do período de submissão de trabalhos para a sua segunda edição, programada para o segundo semestre de 2026. Neste segundo número, propomos um espaço de interlocução aberto e plural. A psicanálise, enquanto campo de saber e prática, exige uma constante renovação de seu olhar sobre os fenômenos do mundo. Seja a partir da escuta clínica no consultório, da investigação teórica ou das incidências da psicanálise nas instituições e nos laços sociais, o nosso compromisso é com o rigor científico e com a sustentação da ética que nos norteia. Para esta edição, não delimitamos um tema restrito. Entendemos que a vitalidade de uma revista de psi- canálise reside justamente na diversidade das perguntas e das trilhas de pesquisa que seus colaboradores decidem percorrer. Convidamos psicanalistas, estudantes e pesquisadores a submeterem suas reflexões, relatos de experiência, revisões teóricas e críticas a este espaço de difusão de conhecimento. A Revista Lianças deseja ser um ponto de encontro, um convite ao debate necessário para o amadureci- mento da nossa profissão em nosso estado e para a sustentação de um pensamento psicanalítico vivo frente aos desafios contemporâneos. Agradecemos antecipadamente a todos que, ao submeterem seus textos, tornam possível a construção deste projeto coletivo. Orientações para submissão: ✔ Prazo final para envio: 16 de outubro de 2026. ✔ Envio de propostas: As submissões e dúvidas devem ser encaminhadas para o e-mail: escolafreudianadeteresina@gmail.com. ✔ Normas de publicação: Conforme publicado nesta Edição – páginas: 185. Contamos com a sua colaboração para tornar este segundo número uma referência fundamental em nos- sa produção acadêmica e clínica. Atenciosamente, Editor-Chefe: Lázaro Santos Tavares Conselho Editorial: Aurenice Pinheiro, Lizanete Cardoso, Maria Helena B. Chiappetta, Nathecio Na- thanael dos Santos e Quizânior de Oliveira Andrade

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ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 9 FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE NO BRASIL: o labirinto da autorização em um campo plural e sem instâncias unificadas de validação PSYCHOANALYTIC TRAINING IN BRAZIL: the labyrinth of authorization in a plural field without unified validation bodies Lázaro Santos Tavares Psicanalista. Membro da Escola Freudiana – Seção Teresina (EFPT) e da Associação Brasileira de Bacharéis em Psicanálise – ABBP (em processo de alteração estatutária para Associação Brasileira de Bacharéis em Estudos Teóricos Psicanalíticos e Sociais – ABBETPS, em resposta à Portaria SERES/MEC nº 3/2026). Além do trabalho clínico e de analista didata e supervisão, dedica-se à transmissão da psicanálise no seu consultório, na formação em psicanálise e na EFPT, Associação Piauiense de Psicanálise (APP), coordenando Seminários, Cartéis, Forma- ções e Eventos diversos. E-mail: lazarotavares.es@gmail.com | escolafreudianadeteresina@gmail.com "O que exijo é que não possa exercer a psicanálise alguém que não tenha conquista- do, por meio de uma determinada preparação, o direito a uma tal atividade." Sigmund Freud "Façam como eu, não me imitem." Jacques Lacan RESUMO Este artigo investiga o complexo problema da formação do psicanalista no Brasil, situado em um cam- po plural e desprovido de uma instância central de validação. Partindo da provocação lacaniana de que "o psicanalista se autoriza de si mesmo", analisamos a tensão constitutiva entre esta assunção subjetiva e a necessária inserção em comunidades discursivas e instituições que reconhecem o ato analítico. Car- tografamos o mosaico institucional brasileiro – que inclui a tradição da International

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Formação em Psicanálise no Brasil | Lázaro Tavares 10 Psychoanalytical Association (IPA), as escolas lacanianas filiadas à Associação Mundial de Psicanálise (AMP), sociedades independentes e outras linhagens teóricas –, destacando os riscos de dogmatização e as disputas pelo capital simbólico. Examinamos ainda o recente fenômeno dos bacharelados em Psica- nálise e sua reconfiguração pelo Ministério da Educação (Portaria SERES/MEC nº 3/2026), analisando sua interface e tensão com os fundamentos éticos da formação clínica. Concluímos que a formação psicanalítica autêntica deve sustentar-se em princípios que equilibrem a transmissão de um saber consti- tuído com a abertura à singularidade e à responsabilidade subjetiva, aceitando a pluralidade como con- dição permanente e produtiva do campo. Palavras-chave: Formação em Psicanálise; Autorização; Instituições Psicanalíticas; Lacan; Brasil; Ba- charelado em Psicanálise. ABSTRACT This article investigates the complex problem of psychoanalyst training in Brazil, situated within a plural field lacking a central validation body. Starting from the Lacanian provocation that "the psychoanalyst authorizes himself," we analyze the constitutive tension between this subjective assumption and the necessary insertion into discursive communities and institutions that recognize the analytical act. We map the Brazilian institutional mosaic—which includes the tradition of the International Psychoanalyti- cal Association (IPA), Lacanian schools affiliated with the World Association of Psychoanalysis (WAP), independent societies, and other theoretical lineages—highlighting the risks of dogmatization and dis- putes over symbolic capital. Furthermore, we examine the recent phenomenon of Bachelor's degrees in Psychoanalysis and their reconfiguration by the Ministry of Education (Ordinance SERES/MEC No. 3/2026), analyzing their interface and tension with the ethical foundations of clinical training. We con- clude that authentic psychoanalytic training must be sustained by principles that balance the transmissi- on of established knowledge with an openness to singularity and subjective responsibility, accepting plurality as a permanent and productive condition of the field. Keywords: Psychoanalytic Training; Authorization; Psychoanalytic Institutions; Lacan; Brazil; Bache- lor’s Degree in Psychoanalysis.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Formação em Psicanálise no Brasil | Lázaro Tavares 11 INTRODUÇÃO: UMA PERGUNTA QUE ECOA COMO SINTOMA A psicanálise, desde seu nascimento nas mãos de Sigmund Freud, carrega consigo uma interro- gação que ecoa como um sintoma estrutural: como se transmite? Como se forma um psicana- lista? Em A questão da análise leiga (1926), Freud já debatia os critérios para a prática, defendendo a análise pessoal como eixo central, porém inse- rindo-a em um contexto de formação que privi- legiava, em sua época, o campo médico. Dife- rente de disciplinas com paradigmas unificados e protocolos de certificação universalmente reco- nhecidos, a psicanálise se constituiu, a partir de suas próprias cisões e desenvolvimentos teóri- cos, como um campo plural, marcado por diver- gências técnicas e uma proliferação de modelos institucionais. No Brasil, este panorama se complexifica ainda mais pela assimilação criativa e, por vezes, sin- crética, de diferentes linhagens – freudiana clás- sica, kleiniana, winnicottiana, lacaniana, junguia- na –, cada uma trazendo seus próprios critérios de formação e validação. O que temos é menos um campo unificado e mais um arquipélago de ilhas teóricas, cada uma com sua língua, seus ritos de iniciação e suas formas de reconheci- mento. Este artigo se propõe a investigar o intrincado problema da formação psicanalítica no contexto brasileiro contemporâneo, tomando como fio condutor a célebre e paradoxal afirmação de Jacques Lacan (1967) de que "o psicanalista se autoriza de si mesmo". Partimos do pressuposto de que essa "autorização de si" não opera no vazio, mas em um campo denso e conflictivo, desprovido de uma instância soberana ou de um padrão-ouro de validação. Nosso objetivo é mapear este labirinto, anali- sando a tensão constitutiva entre a assunção subjetiva e solitária do ato analítico e a necessá- ria inserção do analista em uma comunidade discursiva e institucional que o reconheça. Ques- tionamos: em um cenário onde coexistimos com a tradição regulatória da International Psychoa- nalytical Association (IPA), com o rigoroso dis- positivo do passe das escolas lacanianas filiadas à Associação Mundial de Psicanálise (AMP), com institutos independentes de diversas orientações e com a influência de grandes intérpretes que ocupam o lugar de referência quase canôni- ca, como pensar uma formação que seja, ao mesmo tempo, ética, rigorosa e aberta à singula- ridade? A investigação percorrerá as dimensões ética, epistemológica e político-institucional deste de- safio, argumentando que a própria vitalidade da psicanálise depende de sua capacidade de susten- tar essa pluralidade sem recair no dogmatismo sectário ou na anomia relativista. Meu percurso por esse labirinto – como analista em formação, depois como praticante, e hoje como alguém implicado na transmissão – me fez testemunhar de perto essas tensões, que tentarei articular

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Formação em Psicanálise no Brasil | Lázaro Tavares 12 aqui não apenas como problemas teóricos, mas como experiências vivas do campo. 1. A AUTORIZAÇÃO ENTRE O SUJEITO E O OUTRO: O ENIGMA LACANIANO E SUAS CONTRADIÇÕES VIVAS O ponto de partida inevitável para qualquer dis- cussão contemporânea sobre autorização é a provocação lacaniana. Ao declarar que "o psica- nalista se autoriza de si mesmo", Lacan (1967) realizava um gesto ético e político radical contra o que via como a burocratização e o "didatismo" do modelo formativo da IPA. Para ele, a autori- zação última não poderia vir de um diploma, de uma comissão de ensino ou da análise com um didata credenciado. Sua fonte teria de ser a pró- pria experiência transformadora da psicanálise, o encontro com o real do inconsciente que convo- ca o sujeito a uma posição nova – a de analista. Entretanto, como bem elucidam Roudinesco (1994) e Quinet (2002), essa fórmula é apenas uma metade da equação. Lacan imediatamente a complementa com a necessidade dos outros. O psicanalista "se autoriza de si mesmo... e são vários os outros que o certificam". Este "certifi- car" dos outros não é uma validação administra- tiva, mas um reconhecimento que se dá no pró- prio campo da psicanálise, através da escuta dos pares, da transmissão em ato e da inserção em uma escola. A escola, para Lacan, não seria uma instância de poder, mas um "instrumento" de trabalho, um lugar onde o saber psicanalítico – que é um saber não-todo, em errância – pode circular e ser confrontado (LACAN, 1967). O paradoxo, portanto, está montado: a autori- zação é um ato intransferível e solitário, mas que só faz sentido no interior de um laço social es- pecífico, o da comunidade analítica. Essa tensão é a pedra angular da formação. Ela impede tanto a ilusão do autodidatismo absoluto, que ignora a necessária transmissão de um saber constituído, quanto a submissão passiva a uma instituição que pretenda conceder, ela mesma, a autoriza- ção. Um exemplo clínico me marcou profundamen- te: atendi um homem que havia passado por três "análises" anteriores com profissionais de dife- rentes instituições. Ele me disse: "Todos tinham títulos, currículos impressionantes... mas escuta- vam mais a teoria do que a mim". Este caso condensa o risco: quando a filiação institucional ou a acumulação de títulos substitui a escuta singular, perdemos o núcleo ético da psicanálise. A autorização real se dá na capacidade de sus- tentar a falta, não na exibição de um saber pleno. No cenário brasileiro, esta concepção foi assimi- lada de formas diversas pelas instituições lacani- anas, gerando uma rica e por vezes acirrada dis- cussão interna sobre a fidelidade ao dispositivo e seus desvios. A figura de Jacques-Alain Miller, principal sistematizador do ensino de Lacan e líder da AMP, tornou-se central nesse processo, levantando a questão, como apontado no debate interno, de se a leitura mil- leriana não teria se tornado, para muitos, uma nova ortodoxia a ser "imitada", na contramão do

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Formação em Psicanálise no Brasil | Lázaro Tavares 13 próprio alerta de Lacan: "podem me seguir, mas não me imitem" (LACAN, 1967). Este alerta era um veto explícito à identificação imaginária e uma defesa da criação singular a partir do encontro com o inconsciente – pro- blema que permanece vivo e desafiador para a formação lacaniana hoje. Vejo isso em supervi- sões: candidatos que repetem fórmulas lacania- nas como mantras, mas tremem diante do real de um caso que não se dobra à teoria. Um anali- sante em silêncio persistente, por exemplo, pode desmontar anos de leitura teórica se o analista não tiver encontrado, em sua própria análise, um modo singular de habitar o não-saber. 2. O MAPA DAS INSTITUIÇÕES: IPA, AMP, INDEPENDENTES E A PLURA- LIDADE QUE NOS CONSTITUI Se a autorização envolve, necessariamente, a relação com os "outros" do campo psicanalítico, é imprescindível cartografar quem são e como se organizam esses outros no Brasil. Longe de um panorama monolítico, o que se observa é um ecossistema complexo e estratificado, onde diferentes tradições e modelos institucionais coexistem, competem e, por vezes, dialogam. A escolha por uma dessas vias não é meramente técnica; é uma opção ético-clínica que define uma trajetória formativa e uma inserção no de- bate psicanalítico. O modelo histórico e de maior capilaridade in- ternacional é o da International Psychoanalytical Association (IPA). Fundada pelo próptio Freud, a IPA estabeleceu um padrão de formação es- truturado e regulado, buscando ser a herdeira institucional do legado freudiano. Seu tripé clás- sico – análise pessoal com um analista didata, supervisão de casos (controle) e cursos teóricos sistemáticos –pode ser visto como uma formali- zação e expansão das indicações esboçadas por Freud sobre a formação. No Brasil, este modelo se consolidou através das diversas sociedades componentes da IPA, como as seções da Socie- dade Brasileira de Psicanálise (SBP), que por décadas representaram o padrão de excelência e legitimidade no campo (COSTA, 1994). Sua força reside na padronização internacional, que garante um reconhecimento mútuo entre socie- dades, e em uma tradição clínica sólida, forte- mente ancorada nas contribuições pós- freudianas. Contudo, foi justamente contra o que conside- rava os excessos burocráticos e a "hipernormali- zação" desse modelo, visto por muitos como um desvio do espírito inicial freudiano, que Lacan se insurgiu, criticando a transformação do analista em um produto de um "currículo" (LACAN, 1967). Em oposição direta a este paradigma, o lacanis- mo institucionalizado, principalmente através da Associação Mundial de Psicanálise (AMP), pro- pôs uma alternativa radical. Suas escolas, como a Escola Brasileira de Psicanálise (EBP), deslocam o eixo da formação da acumulação de créditos para a experiência subjetiva da análise e sua transmissão via dispositivo do passe. A forma- ção é concebida como um processo contínuo e

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Formação em Psicanálise no Brasil | Lázaro Tavares 14 menos programático, centrado no estudo direto da obra de Freud e Lacan, nos cartéis (grupos de trabalho) e na apresentação de casos clínicos. A autorização, como visto, tem seu momento de cristalização no passe, que visa atestar diante da comunidade a passagem de analisante a analista (MILLER, 1998). Contudo, como apontado por críticos internos e externos, este modelo não está imune a riscos. A centralidade da figura de Lacan e a leitura canô- nica de Miller podem, em certos contextos, gerar uma ortodoxia tão rígida quanto a que se pre- tendia combater, transformando a adesão a cer- tos significantes-mestres em novo critério de validação informal. Para além deste binômio, um terceiro eixo, vas- to e heterogêneo, é formado pelas instituições independentes e por outras tradições teóricas. Aqui se incluem: ● Sociedades psicanalíticas inde- pendentes, muitas com décadas de tra- dição e prestígio local (como o Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro), que de- senvolveram seus próprios currículos e critérios de formação, sem filiação in- ternacional. Elas representam uma res- posta autóctone e adaptada ao contexto brasileiro (FIGUEIREDO, 2004). ● A tradição da psicanálise relacio- nal e winnicottiana, que, embora tenha raízes na IPA, muitas vezes se organiza em núcleos e institutos específicos, en- fatizando a teoria do amadurecimento pessoal, a situação analítica como cam- po bipessoal e a importância do ambien- te. Sua formação tende a integrar, com peso considerável, a supervisão vivencial e o estudo da contratransferência. ● A influência da Psicologia Analítica de C.G. Jung, que constitui um campo pa- ralelo ao freudiano, com institutos de formação próprios e critérios específi- cos, mantendo um diálogo complexo, por vezes de aproximação e por vezes de demarcação, com a psicanálise. ● Correntes minoritárias ou regionais, co- mo a influência do modelo uruguaio (de orientação mais social e comunitária), que encontrou ressonância em alguns grupos do sul do Brasil. Diante deste mapa multifacetado, a pergunta "qual modelo seguir?" se impõe ao candidato. A resposta, conforme argumentamos, não pode ser prescritiva. A escolha é, em si, um ato que já envolve uma leitura do campo e uma identifica- ção preliminar com uma certa ética e uma certa concepção de cura e de sujeito. Não há um mo- delo "verdadeiro" ou "mais sério" a priori. A seriedade reside na coerência interna do pro- jeto formativo, no rigor de seus dispositivos (sejam eles formais ou não), na transparência de seu funcionamento e, sobretudo, em sua capaci- dade de produzir analistas que pensem e não apenas reproduzam dogmas. A pluralidade, por- tanto, não é um acidente ou uma degeneração do campo, mas sua condição de existência e

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Formação em Psicanálise no Brasil | Lázaro Tavares 15 fonte permanente de vitalidade e questionamen- to. 3. A LUTA PELO SIGNIFICANTE- MESTRE: QUANDO OS INTÉRPRETES SE TORNAM ÍDOLOS Em um campo desprovido de uma instância central de validação e pulverizado em múltiplas tradições, a questão do poder e da autoridade intelectual não se dissolve; antes, migra e serefra- ta em micro-esferas de influência. Surge, assim, uma figura paradoxal e crucial: a do grande in- térprete ou teórico-referência. No Brasil, nomes como Antônio Quinet, Christian Dunker, Maria Rita Kehl, Contardo Calligaris, Jurandir Freire Costa, entre outros, cumprem uma função am- bígua. Eles são, por um lado, porta-vozes essenciais – responsáveis pela tradução, sistematização e atualização criativa de teorias complexas (seja de Freud, Lacan, Winnicott ou da interface com as ciências humanas). Suas obras são pilares de formação, e seus seminários, eventos de trans- missão viva do pensamento psicanalítico. Por outro lado, é precisamente neste lugar de transmissão privilegiada que se instala um risco sutil, porém real: o da cristalização de uma nova ortodoxia. Quando a leitura particular de um autor – por mais brilhante que seja – é tomada não como uma interpretação, mas co- mo *a* interpretação definitiva de Freud ou Lacan, fecham-se as vias da invenção. O pensa- mento do mestre-fundador é substituído pelo corpus do mestre-intérprete. Dunker (2015), ao analisar a cultura do espetáculo, poderia nos ajudar a pensar neste fenômeno como uma "es- petacularização do saber", onde a autoridade carismática do teórico pode ofuscar o laborioso e menos glamoroso trabalho de leitura direta e elaboração clínica singular. Este processo gera o que podemos chamar, com Birman (1991), de "micro-dogmatismos". Den- tro de uma mesma escola ou tradição, formam- se subgrupos definidos pela adesão a este ou aquele intérprete. A fidelidade deixa de ser ao texto freudiano ou ao real da experiência clínica para ser a um discurso consolidado. A conse- quência para a formação é grave: em vez de se formar para pensar a partir da psicanálise, for- ma-se para pensar como determinado autor. Vejo isso na clínica: um analista que atende uma mulher com graves inibições profissionais. Em vez de escutar a singularidade de seu sofrimento, ele aplica literalmente uma leitura de determina- do autor sobre "a mulher e o gozo suplemen- tar". O resultado? A paciente se sente mais in- compreendida do que acolhida. A teoria, quando dogmatizada, pode se tornar uma vio- lência epistêmica. A famosa advertência de Lacan – "podem me seguir, mas não me imitem" – é, assim, dupla- mente traída: imita-se Lacan através da imitação de seu principal comentador. A autorização, que deveria brotar de um ato singular, corre o risco de se tornar uma outorga discursiva, uma con- cessão simbólica do grupo que compartilha a mesma leitura canônica.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Formação em Psicanálise no Brasil | Lázaro Tavares 16 Este fenômeno não é exclusivo do campo laca- niano. Na tradição da IPA ou nas linhas inde- pendentes, figuras fundadoras locais ou teóricos internacionais de grande influência (um Win- nicott, um Kohut, um Bion) podem ocupar um lugar similar de referência quase sacralizada. A luta, portanto, não é contra os intérpretes – eles são indispensáveis –, mas contra a preguiça do pensamento que eles, involuntariamente, podem fomentar. A verdadeira formação psicanalítica, nesse sen- tido, deve incluir uma crítica da transmissão. Ela precisa ensinar o candidato a servir-se dos intér- pretes como bengalas provisórias para, em se- guida, caminhar com seus próprios pés, arris- cando suas próprias leituras e construindo suas próprias teorizações a partir do enigma da clíni- ca. O desafio é institucionalizar a dúvida e a heterodoxia como valores formativos, em vez da mera reprodução de um saber estabelecido. 4. A ILUSÃO DA REGULAMENTAÇÃO: QUANDO A BUSCA POR GARANTIAS TRAI A ÉTICA ANALÍTICA Diante da pluralidade e dos conflitos inerentes ao campo, surge uma demanda por ordem, por critérios claros que possam distinguir o "legíti- mo" do "ilegítimo", o "sério" do "charlatão". Esta demanda se expressa em dois movimentos aparentemente opostos, mas que compartilham a mesma raiz: o desconforto com a falta de um fundamento último de validação. De um lado, está o apelo por uma regulamentação profissio nal externa, que tenta transplantar para a psica- nálise lógicas de outras profissões da saúde. De outro, está a tentação interna de fechamento sectário, onde uma instituição ou corrente se autoproclama guardiã da "verdadeira" psicanáli- se. A primeira via, a da regulamentação oficial por conselhos profissionais, esbarra no núcleo ético da psicanálise. Como bem argumenta Dunker (2015), a psicanálise não é uma techné aplicável por protocolos, mas uma prática que se redefine a cada caso, cujo instrumento é a subjetividade do próprio analista. Sua transmissão é inextrica- velmente ligada à experiência pessoal da análise, algo que escapa à lógica da certificação de com- petências técnicas. Qualquer tentativa de regu- lamenta ção estatal ou conselhal tende, portanto, a engessar a formação em currículos padroniza- dos, esvaziando sua dimensão ética e transfor- macional. Movimentos como a "Articulação da Psicanáli- se" no Brasil muitas vezes surgem como respos- tas políticas a ameaças de regulamentação exter- na, buscando preservar a especificidade do cam- po, mas sem o poder (nem a intenção, em sua maioria) de se tornar uma instância reguladora unificada. São espaços de diálogo e defesa políti- ca, não de outorga de diplomas válidos. A segunda via, mais sutil e talvez mais perigosa, é a auto-regulação dogmática. É aqui que retor- namos à pergunta central: "Então, qual é a ver- dade?" No vácuo de uma resposta universal, algumas instituições ou correntes respondem: "A nossa". É quando uma escola, seja da IPA,

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Formação em Psicanálise no Brasil | Lázaro Tavares 17 da AMP ou independente, passa a operar com a lógica do "fora daqui não há salvação". Nesse regime, a autorização deixa de ser um processo dialético (de si mesmo *e* dos outros) para tornar-se uma concessão grupal, condicio- nada à adesão incondicional a um corpo doutri- nário, a uma leitura canônica ou a uma figura de autoridade. Os Fóruns do Campo Lacaniano, por exemplo, são um dispositivo típico dessa tensão. Eles cumprem a importante função de criar coesão discursiva e política em torno de certos princípios, articulando uma presença no mundo. No entanto, como apontam críticos, podem também funcionar como máquinas de uniformização do pensamento, onde a divergên- cia é lida como desfiliação, e a "certificação" simbólica passa pela fala conforme os significan- tes-mestres do grupo (ROSA, 2003). A verdade psicanalítica, nesse contexto, precisa ser radicalmente distinguida de qualquer verdade doutrinária. A verdade que interessa à psicanálise é a verdade do sujeito do inconsciente, uma verdade que é sempre singular, parcial, e que se revela no ato da fala em transferência. Ela não pode ser possuída por uma instituição. Uma formação que se pretenda ética, portanto, deve renunciar à ânsia de ser a "detentora da verdade". Seu papel é muito mais humilde e, ao mesmo tempo, mais complexo: fornecer as fer- ramentas (teóricas, clínicas, éticas) para que cada futuro analista possa, em sua prática singular, construir a verdade de seus pacientes e sustentar a responsabilidade por seu próprio ato. A "regu- lação" desejável não é a do dogma, mas a de uma comunidade de trabalho que, justamente por saber que não detém a verdade, se mantém aberta ao debate, à crítica e à invenção contínua de seus próprios fundamentos. 5. POR UMA ÉTICA DA TRANSMISSÃO NA PLURALIDADE: PRINCÍPIOS PARA UMA FORMAÇÃO ABERTA Diante do labirinto cartografado – a tensão en- tre autorização solitária e reconhecimento cole- tivo, a pluralidade de modelos institucionais, o risco da dogmatização em torno de intérpretes e a ilusão de uma regulação unificadora –, resta a questão prática: como operar? Como formar psicanalistas neste cenário? Propomos que a resposta não está na busca por um novo modelo único e salvador, mas na ado- ção de uma ética da transmissão que possa ori- entar práticas formativas dentro de qualquer tradição séria. Esta ética se sustentaria em alguns pilares fundamentais, que funcionam como antí- dotos aos riscos identificados. 1. O Primado da Experiência da Análise Pesso- al: Este é o núcleo irredutível. Qualquer forma- ção que relegue a análise pessoal a um mero requisito formal trai seu fundamento. A análise deve ser o eixo a partir do qual todo o resto – teoria, supervisão, transmissão – ganha sentido. É nela que se experimenta, na carne, o que é o inconsciente, a transferência e a posição do ana- lista. Ela é o único "lugar" de onde pode surgir a autorização "de si mesmo". Uma formação ética, portanto, deve protegê-la de qualquer contami

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Formação em Psicanálise no Brasil | Lázaro Tavares 18 nação didática ou avaliativa, preservando seu caráter estritamente confidencial e não instru- mentalizável. 2. A Leitura Direta como Desafio à Doxa: Para combater a dependência de intérpretes e a for- mação de dogmas locais, a formação deve insis- tir, obstinadamente, na leitura direta e renovada dos textos fundadores (Freud, e dentro de cada tradição, seus autores canônicos, como Lacan, Klein, Winnicott). O estudo em cartéis, grupos ou seminários deve estimular a leitura crítica e pessoal, e não a simples assimilação de um co- mentário. A pergunta "o que você leu no texto?" deve preceder e fundamentar a pergunta "o que fulano disse sobre o texto?". 3. A Clínica como Campo de Invenção e Verifi- cação: A teoria deve estar a serviço da compre- ensão da clínica, e não o contrário. A formação precisa criar espaços protegidos, porém desafia- dores, para a apresentação e discussão de casos clínicos, onde a incerteza, o impasse e o ato ana- lítico singular possam ser pensados. É na con- frontação com o real da prática que as teorias são postas à prova e reinventadas. A supervisão, nesse sentido, não pode ser um espaço de mera aplicação de técnicas, mas de reflexão ética so- bre a direção do tratamento. 4. A Inserção em uma Comunidade Crítica, não Idolatrada: O futuro analista precisa ser inserido em uma comunidade de pares. No entanto, essa comunidade deve se configurar menos como um "nós" identitário contra um "eles", e mais como uma rede de trabalho onde o debate e a diver- gência são valorizados. Uma escola ou sociedade séria é aquela que tolera e fomenta perguntas inconvenientes, que não sacraliza seus líderes e que se reconhece como parte de um campo mais amplo e plural. Dispositivos que visam apenas a coesão e a replicação de um discurso são esté- reis. 5. A Assunção da Responsabilidade como Hori- zonte: Por fim, toda a formação deve convergir para este ponto: habilitar o sujeito a assumir a responsabilidade por seu próprio ato como ana- lista. Isso significa sair da posição confortável (ou angustiante) do "estudante" ou "filiado" para ocupar, com os recursos que construiu, o lugar vacilante e solitário da escuta. A formação não outorga essa responsabilidade; ela, no máximo, prepara o terreno para que o sujeito possa, um dia, tomá-la para si. Em síntese, formar psicanalistas em um campo plural não é um problema a ser superado, mas a condição mesma da formação psicanalítica au- têntica. Aceitar essa condição significa abrir mão da fantasia de um saber total e de uma garantia institucional infalível. Significa apostar em uma transmissão que, ao invés de reproduzir certezas, produza a capacidade de suportar a incerteza, interrogar as tradições e inventar, a cada vez, uma resposta clínica que seja digna do nome de psicanálise. O verdadeiro critério de validação, no fim das contas, não está em um selo na parede, mas na qualidade do trabalho analítico que se sustenta no tempo e na capacidade de transmitir – não um dogma –, mas a paixão pelo inconsciente e o respeito pela singularidade do sujeito.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Formação em Psicanálise no Brasil | Lázaro Tavares 19 6. UM NOVO DESAFIO INSTITUCIO- NAL: O MEC, OS BACHARELADOS E A POLÍTICA DO CAMPO A reflexão sobre a formação em psicanálise no Brasil deve incorporar um fenômeno recente e de impacto direto no cenário cartografado: a criação, autorização e posterior reconfiguração de cursos de graduação (bacharelado) em Psica- nálise por instituições de ensino superior, sob a égide do Ministério da Educação (MEC). Este desenvolvimento introduz um ator com um tipo de autoridade distinta – o Estado, via regu- lamentação educacional – no já complexo jogo de forças do campo psicanalítico. Conforme amplamente noticiado, a partir de 2021, com o pioneiro lançamento do Bacharela- do em Psicanálise na modalidade EaD pelo Cen- tro Universitário Internacional (UNINTER) (UNINTER, 2022), diversas Instituições de En- sino Superior (IES) passaram a ofertar tal gradu- ação, atraindo tanto profissionais já atuantes quanto iniciantes. O objetivo declarado era "formar profissionais capacitados para atuar no mercado, contribuir e atender às necessidades de saúde mental da população" (UNINTER, 2022, p. 1). Em janeiro de 2026, uma alteração normativa do MEC redefiniu radicalmente este cenário. A Portaria SERES/MEC nº 3, de 23 de janeiro de 2026, fundamentada na Nota Técnica nº 6/2025/DIREG/SERES, reclassificou a no- menclatura e, sobretudo, os objetivos e aplica- ções desses cursos (BRASIL, 2026). Em vez de formar "psicanalistas" em sentido estrito, a nova diretriz os orienta para a formação em áreas como "Estudos Teóricos Psicanalíticos e Sociais", com ênfase em pesquisa, extensão e atuação em contextos interdisciplinares, explici- tamente distanciando o título da prática clínica privativa da análise. Independentemente desta mudança de nomen- clatura, o que se observa é o nascimento da pri- meira graduação no Brasil voltada a uma área psicanalítica. Este fato deve ser lido como um ganho histórico para a psicanálise, e não como uma ameaça. A academia passa a oferecer um solo de transmissão que não possui "senhor" ou "dono", democratizando o saber e fortale- cendo o espírito psicanalítico no país através de um rigor acadêmico que oxigena o campo. Este movimento estatal, pressionado por setores do próprio campo psicanalítico, coloca questões prementes que reverberam nos temas centrais deste artigo. Em primeiro lugar, a questão da autorização. Um diploma de bacharel, mesmo na antiga mo- dalidade, não pode e não pretende substituir o processo de autorização ética descrito por Lacan (1967). Ele confere uma qualificação acadêmica, um conhecimento teórico extenso sobre a histó- ria e os conceitos da psicanálise. No entanto, a autorização para a prática clínica psicanalítica – o ato de dirigir uma cura pelo manejo da transfe- rência – continua a residir no trinômio indissoci- ável: análise pessoal, supervisão e estudo teóri- co-clínico aprofundado, processos que trans

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Formação em Psicanálise no Brasil | Lázaro Tavares 20 cendem em muito a grade curricular de uma graduação. Aqui, o bacharelado em área psicanalítica atua como um potente suporte para um dos pilares do tripé: a teoria. O egresso que busca a clínica não o faz pelo poder do diploma, mas por um desejo de saber que foi despertado e fundamen- tado na graduação, inserindo-se no tripé com uma base já amadurecida. O risco, aqui, seria a confusão entre dois regis- tros: o da formação acadêmica (transmissão de um saber sobre) e o da formação profissional analítica (constituição de uma posição subjetiva a partir de). Um exemplo: atendi um egresso de um desses bacharelados que, apesar de um co- nhecimento enciclopédico sobre Freud e Lacan, não conseguia escutar o silêncio de um paciente. Ele queria "aplicar" conceitos, não se permitir ser afetado pela transferência. Sua formação acadêmica era valiosa, mas insuficiente para a posição de analista. Em segundo lugar, a mudança evidencia uma luta política pela definição das fronteiras do campo. A pressão de grupos de psicanalistas junto ao MEC, conforme atestado nos debates públicos que antecederam a portaria, pode ser lida como uma estratégia de monopólio simbóli- co (BOURDIEU, 1989), um esforço para con- trolar quem pode ingressar no mercado e sob quais critérios. Muitas dessas reações, marcadas por um "levan- tar de pedras" e indignação institucional, reve- lam um sintoma de resistência: o medo da perda de regalias e o temor de uma concorrência de mercado sob o disfarce de zelo ético. A psicaná- lise ganha ao ser levada à universidade, e a per- seguição a esse movimento parece ignorar que a formação clínica séria sempre exigirá o tripé, independentemente do diploma inicial. Finalmente, o fenômeno dos bacharelados e sua regulação levantam a pergunta: como ficam os egressos? Aqueles que concluíram o curso sob a antiga denominação possuem um ferramental teórico específico. Sua inserção no "universo da psicanálise" não é vedada, mas é mediada. Eles não saem autorizados como analistas, mas saem como portadores de um saber universitário so- bre a psicanálise. Seu caminho para a prática clínica analítica permanece o mesmo de qual- quer outro candidato: a via íngreme e singular da análise pessoal e da inserção em uma escola ou sociedade séria, onde seu saber acadêmico será um valioso, porém insuficiente, ponto de parti- da. A mudança do MEC, nesse sentido, atua como um corretivo que tenta recolocar a formação clínica em seu lugar próprio: fora da lógica da escolarização universal e da captura por uma racionalidade puramente mercantil. Contudo, essa regulação não apaga o fato de que esses novos bacharéis estão aptos a se inserir na transmissão e na pesquisa, sentindo-se autoriza- dos pelo conhecimento, mas conscientes de que a clínica exige o percurso artesanal do tripé. Este episódio recente confirma a tese central de que o campo é um campo de forças em constan- te disputa. A tentativa de regulação via MEC é mais uma jogada nesse tabuleiro, que não resol

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Formação em Psicanálise no Brasil | Lázaro Tavares 21 ve, mas desloca as questões fundamentais. Ela não cria uma instância unificada de validação clínica; apenas regula um tipo específico de títu- lo acadêmico. A verdadeira formação do analis- ta, seu habitus e sua autorização, continua a ser negociada no interior do próprio campo psica- nalítico, no embate entre suas tradições, suas instituições e a ética irredutível do ato analítico. O diploma de bacharel, portanto, torna-se mais um elemento a ser interpretado e posicionado nesse labirinto, mas não sua chave de saída. CONCLUSÃO: A AUTORIZAÇÃO COMO ATO EM CURSO E O INACABAMENTO DA TRANSMISSÃO O percurso deste artigo nos levou a atravessar o complexo território da formação psicanalítica no Brasil, guiados pela interrogação sobre como formar analistas em um campo plural e despro- vido de instâncias unificadas de validação. Longe de encontrar uma resposta definitiva ou um mo- delo ideal, o que se revelou foi um campo de tensões constitutivas e irredutíveis. A provocação lacaniana da autorização "de si mesmo" (LACAN, 1967) mostrou-se não como uma solução, mas como a enunciação precisa do próprio problema: um ato subjetivo que, no entanto, só adquire significação no interior de um laço social e de uma tradição de pensamento que o antecedem e o ultrapassam. Vimos que este laço social se manifesta em um mosaico institucional – da IPA à AMP, das sociedades independentes às diversas linhagens teóricas –, onde nenhuma sigla pode reivindicar, por si só, o monopólio da seriedade ou da verdade. A "verdade" em jogo na psicanálise, concluímos, não é uma doutrina a ser possuída por uma es- cola, mas um processo de fala e escuta que des- vela a verdade singular do sujeito. O fenômeno recente da regulação dos bachare- lados pelo MEC (BRASIL, 2026) emergiu como um exemplo paradigmático dessa dinâmica de forças. Representa a primeira graduação no Bra- sil voltada a uma área psicanalítica, o que consti- tui um ganho inegável para a difusão do saber. É necessário notar que a resistência de certas insti- tuições a este avanço muitas vezes camufla um corporativismo defensivo, um receio de que a academia democratize o que antes era restrito a pequenos círculos. Contudo, essa intervenção estatal, por mais que altere nomenclaturas e currículos para "Estudos Teóricos", não toca no núcleo ético da autoriza- ção analítica. Ela apenas desloca a questão, rea- firmando que a via real para a prática clínica continua sendo a via estreita da análise pessoal, da supervisão e do pertencimento a uma comu- nidade de trabalho viva e crítica. O bacharel não vem para suplantar o tripé; ele vem para ser in- serido nele, autorizando-se como pesquisador e teórico, e buscando no tripé a sustentação ne- cessária para o ato clínico. Diante destes riscos e desafios, propusemos que o caminho ético reside em assumir a pluralidade como condição. Princípios que coloquem a ex- periência intransferível da análise pessoal no

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Formação em Psicanálise no Brasil | Lázaro Tavares 22 centro; que promovam a leitura direta e crítica dos textos; e que fomentem comunidades aber- tas ao debate. Assim, a formação do psicanalista não se con- clui com um título, um passe ou uma portaria ministerial. Ela é, em sua essência, um processo inacabado. Formar-se é aprender a habitar as tensões do campo: entre a tradição e a invenção, entre o saber universitário e o real do inconsci- ente. A psicanálise, enquanto disciplina viva, depende desta transmissão que não se fecha. Ela sobrevive no gesto sempre renovado de autori- zação pelo qual um sujeito, atravessado por sua própria análise e agora também fundamentado por uma graduação sólida, decide colocar-se a escutar o inconsciente do outro. Este gesto, sempre singular, é o verdadeiro nú- cleo ético da psicanálise – e o seu mais desafia- dor legado. Aceitar que a formação é um labirin- to sem mapa definitivo, enriquecido agora por novas rotas acadêmicas, é o primeiro passo para começar a percorrê-lo. REFERÊNCIAS BIRMAN, J. Cartografia do movimento psicanalítico no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991. BOURDIEU, P. O poder simbólico. Tradução Fer- nando Tomaz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Re- gulação e Supervisão da Educação Superi- or. *Portaria SERES/MEC nº 3, de 23 de janeiro de 2026*. Processo SEI nº 23000.054577/2025-01. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 24 jan. 2026. COSTA, J. F. História da psicanálise no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1994. DUNKER, C. I. L. Estrutura e constituição da clínica psicanalítica: uma arqueologia das práticas de cura, psicoterapia e tratamento. São Paulo: An- nablume, 2015. FIGUEIREDO, A. C. Instituições psicanalíticas: história, estrutura e função. São Paulo: Escuta, 2004. FREIRE COSTA, J. O vestígio e a aura: corpo e consumismo na moral do espetáculo. Rio de Janei- ro: Garamond, 2006. FREUD, S. A questão da análise leiga: Conversas com uma pessoa imparcial. Edição Standard Brasi- leira das Obras Psicológicas Completas de Sig- mund Freud, v. XX. Rio de Janeiro: Imago, 1996 [1926]. LACAN, J. Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In: ______. Outros Escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 248-264. MILLER, J.-A. O nexo histórico da École de la Cause Freudienne com a IPA. Opção Lacaniana, São Paulo, n. 23, p. 7-13, 1998. QUINET, A. *As 4+1 condições da análise*. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002. ROSA, M. D. Lacan e a instituição: a formação do psicanalista. São Paulo: Via Lettera, 2003. ROUDINESCO, E. História da psicanálise na França: a batalha dos cem anos. Tradução de Marco Margarido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994. UNINTER. Centro Universitário Internacio- nal. Bacharelado em Psicanálise EaD: projeto peda- gógico do curso. Curitiba: UNINTER, 2022.

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ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 24 EXPLORANDO A HISTERIA ATRAVÉS DA PERSPECTIVA PSICANALÍTI- CA DE FREUD Maria Helena Barbosa Chiappetta Artigo apresentado como requisito parcial à conclusão da disciplina de TCC Defesa do Curso de Bacharelado em Psicanálise, Setor da Saúde, do Centro Universitário Internacional UNINTER. Orientador(a)/Professor(a): Prof. David Charles Da Rocha, Esp. RESUMO Este artigo revisita criticamente o lugar da histeria na construção da psicanálise freudiana, explorando suas bases teóricas, seu papel revolucionário na clínica do inconsciente e suas reverberações na interpre- tação de sintomas psicossomáticos atuais. Por meio de uma metodologia teórico-exploratória e revisão documental crítica de fontes primárias e secundárias, analisam-se as contribuições de Freud para a com- preensão da histeria, desde os casos clínicos emblemáticos até os constructos teóricos como recalque, conversão e simbolização. Discute-se ainda a transição da teoria do trauma para a valorização das fantasi- as infantis e a relevância da abordagem psicanalítica para a compreensão de transtornos contemporâneos, como ansiedades difusas e somatizações. Conclui-se que, embora a apresentação dos sintomas tenha se transformado, a lógica histérica permanece como categoria crítica para interpretar a linguagem cifrada do inconsciente e seus modos de inscrição na cultura, reforçando a atualidade do legado freudiano. Palavras-chave: Histeria. Psicanálise. Freud. Inconsciente. Sintoma. ABSTRACT This article critically revisits the place of hysteria in the construction of Freudian psychoanalysis, explo- ring its theoretical foundations, its revolutionary role in the clinic of the unconscious, and its reverbera- tions in the interpretation of current psychosomatic symptoms. Through a theoretical-exploratory me- thodology and critical documentary review of primary and secondary sources, Freud's contributions to the understanding of hysteria are analyzed, from emblematic clinical cases to theoretical constructs such as repression, conversion, and symbolization. The transition from the theory of trauma to the apprecia- tion of infantile fantasies and the relevance of the psychoanalytic approach for understanding contempo- rary disorders, such as diffuse anxieties and somatizations, are also discussed. It is concluded that, al- though the presentation of symptoms has transformed, the hysterical logic remains as a critical category to interpret the encoded language of the unconscious and its modes of inscription in culture, reinforcing the timeliness of the Freudian legacy. Keywords: Hysteria. Psychoanalysis. Freud. Unconscious. Symptom.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Explorando a Histeria | Maria Helena Barbosa Chiappetta 25 INTRODUÇÃO A histeria é um fenômeno que, ao longo dos séculos, tem provocado perplexida- de tanto na medicina quanto na cultura. Foi a partir desse enigma clínico que Sigmund Freud encontrou o ponto de partida para edificar a Psicanálise. Em seu percurso, marcado por in- fluências decisivas como o aprendizado com Jean- Martin Charcot e a parceria com Josef Breuer, Freud percebeu nos sintomas histéricos um modo singular de expressão do inconsciente. A escuta cuidadosa de pacientes com paralisias sem causa aparente, amnésias e manifestações conversivas levou-o a reconhecer a estreita ligação entre corpo e mente, inaugurando uma forma inédita de tra- tamento: o uso da palavra como instrumento de acesso e elaboração dos conflitos reprimidos. A centralidade que Freud atribu- iu à sexualidade como eixo da vida psíquica foi, desde o início, alvo de controvérsias. Ao relacio- nar os sintomas histéricos a desejos inconscientes de natureza sexual, ele desafiou os padrões morais e científicos de seu tempo, provocando reações intensas e obrigando-se a revisar constantemente suas formulações. Diante das críticas, o autor reformulou seus conceitos, deslocando o foco da teoria do trauma para a importância das fantasias infantis, demonstrando uma postura intelectual marcada pela reflexão crítica e pela disposição em repensar suas próprias descobertas. A presente investigação propõe revisitar a histeria não como um vestígio de um passado médico, mas como um espelho da subjeti- vidade humana e de suas tensões mais profundas. Ao retomar as formulações freudianas, busca-se evidenciar que a Psicanálise ultrapassa a simples classificação de patologias: ela se apresenta como uma forma de leitura do inconsciente, capaz de decifrar o que se expressa sob a forma de sintomas, lapsos e silêncios. Preservar essa herança teórica é também manter viva a possibilidade de compreen- der, nas manifestações contemporâneas do sofri- mento, o mesmo enredo de opressão, desejo e resistência que a histeria outrora revelou. Parte-se do pressuposto de que os sintomas histéricos clássicos descritos por Freud como paralisias, afonias e amnésias, não desapareceram, mas sofreram significativas trans- formações semânticas e clínicas ao longo do século XX. Na atualidade, manifestações como a síndrome do pânico, os transtornos alimentares e as somatizações indefinidas ocupam um lugar análogo ao da histeria oitocentista, funcionando como expressões codificadas de um mal-estar que resiste à verbalização direta (LIMA, 2019). Com- preender essa transição sintomática exige não apenas um retorno às fontes freudianas, mas também um diálogo com abordagens contempo- râneas que repensam a relação entre corpo e linguagem. A própria noção de crise histéri- ca, outrora caracterizada por dramatizações cor- porais espetaculares, parece ter se internalizado em uma sociedade que privilegia o controle emo- cional e a performance eficiente. Enquanto as pacientes de Charcot e Freud encenavam seu sofrimento de modo visceral e teatral, os sujeitos

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Explorando a Histeria | Maria Helena Barbosa Chiappetta 26 contemporâneos tendem a produzir sintomas mais silenciosos e internalizados, porém igual- mente debilitantes (VIEIRA, 2021). Essa migra- ção do sintoma para formas menos evidentes constitui um dos maiores desafios para a clínica psicanalítica atual. Além disso, a dimensão cultural e política da histeria merece especial atenção. Desde seus primórdios, o diagnóstico esteve intrinsecamente ligado a construções de gênero e a dispositivos de poder que patologizavam corpos e desejos femininos (SHOWALTER, 1985). Investigar a histeria significa, portanto, analisar criticamente como a medicina e a psicanálise participaram dessa história, mas também como ofereceram ferramentas para desconstruir estig- mas e ouvir as verdades subjetivas que os sinto- mas encobrem. O estudo se justifica, ainda, pela necessidade de contrapor visões reducionistas que atribuem o declínio do diagnóstico de histeria a supostos "equívocos" freudianos. Argumenta-se aqui que o desaparecimento do termo nos manu- ais diagnósticos oficiais diz mais sobre transfor- mações nos regimes de verdade médica e sobre novas formas de gestão do sofrimento do que sobre o fim efetivo da estrutura histérica (ROU- DINESCO, 2018). A psicanálise, ao manter viva essa categoria, resiste à dessubjetivação do sofri- mento psíquico. Por fim, este trabalho ambiciona demonstrar que a histeria freudiana permanece um instrumento teórico-clínico indispensável para decifrar as encenações do inconsciente em nosso tempo. Seu legado não se restringe ao passado, mas ilumina as formas pelas quais o sujeito conti- nua a negociar com o desejo, a lei e o impossível, produzindo sintomas que são, ao mesmo tempo, armadilhas e armadilhas e tentativas de cura. A aposta é a de que revisitar a histeria significa fortalecer uma clínica da singularidade em tempos de padronização diagnóstica. 1 METODOLOGIA Este estudo é estruturado como uma investigação teórico-exploratória, baseada em uma revisão documental crítica de fontes primá- rias e secundárias, com o propósito de examinar a histeria a partir do arcabouço teórico freudiano. O enfoque recai sobre três eixos interligados: os fundamentos epistemológicos da psicanálise, seu papel na reconfiguração da clínica das neuroses e suas conexões com manifestações psicossomáti- cas contemporâneas. A opção por uma abordagem qualitativa de caráter hermenêutico justifica-se pela natureza interpretativa do objeto, que de- manda não apenas a catalogação de teorias, mas a compreensão dos sentidos históricos e culturais fundamentados no conceito de histeria. Conforme assinala Minayo (2001), metodologias qualitativas permitem transcender o mero relato, engajando-se em uma análisecrítica que considera contextos sociopolíticos e subjetivos. A seleção das fontes priorizou obras canônicas de Freud (como Estudos sobre a

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Explorando a Histeria | Maria Helena Barbosa Chiappetta 27 histeria e Fragmento da análise de um caso de histeria), articuladas a análises críticas de autores contemporâneos que revisitam seu legado. A busca foi conduzida entre 2010 e 2024 em bases eletrônicas como SciELO, Portal CAPES e Pub- Med, além de livros e capítulos de livros disponí- veis em acervos físicos e digitais. Utilizaram-se descritores combinados, tais como: “histeria” AND “psicanálise”; “Freud” AND “transtorno conversivo”; “psicossomática” AND “recalque”; “transtornos de sintomas somáticos” AND “DSM-5/CID-11”. Como critérios de inclusão, consideraram-se: (a) publicações em português, inglês ou espanhol; (b) textos com abordagem psicanalítica ou que dialogassem criticamente com a psiquiatria nosográfica; (c) materiais publicados no período definido; (d) artigos, livros, capítulos e dissertações com texto completo disponível. Foram excluídos: (a) resumos simples de congres- so; (b) editoriais, notas técnicas sem discussão conceitual; (c) trabalhos duplicados entre bases. Após a leitura de títulos e resumos (screening inicial), 02 registros foram selecionados para leitura na íntegra, resultando em um corpus final de 01 texto que compuseram a análise interpreta- tiva. Para a análise do corpus, foi ado- tada a análise temática reflexiva, inspirada no referencial de Braun & Clarke (2006) e adaptada ao contexto de uma revisão teórico-documental. O procedimento foi conduzido integralmente pela autora deste estudo, seguindo etapas sistemáticas: (1) familiarização com o material, por meio de leitura flutuante e repetida dos textos seleciona dos, com anotação livre de impressões iniciais em diário de pesquisa; (2) codificação inicial, na qual trechos relacionados à histeria, ao corpo, à nosografia psiquiátrica (DSM-5/CID-11) e às manifestações psicossomáticas contemporâ- neas foram destacados e nomeados com códigos descritivos, tais como “desaparecimento da histe- ria nos manuais”, “migração sintomática para o corpo”, “dessubjetivação do diagnóstico”, “histe- ria e gênero” e “histeria e performatividade do sofrimento”; (3) agrupamento dos códigos em temas mais amplos, que deram origem a três eixos temáticos centrais: (a) fundamentos epistemológi- cos da histeria na obra freudiana; (b) reconfigura- ção da clínica das neuroses e da categoria histeria na psiquiatria contemporânea; (c) manifestações psicossomáticas atuais que dialogam com a lógica histérica; (4) revisão e refinamento dos temas, verificando a coerência interna de cada eixo e sua articulação com o problema de pesqui- sa; e (5) redação da síntese interpretativa, em que os temas foram articulados à literatura psicanalíti- ca e às contribuições de autores contemporâneos, buscando explicitar convergências, tensões e lacunas teóricas. A rigorosidade metodológica foi fortalecida pelo uso de um diário reflexivo, no qual foram registrados possíveis vieses da pesquisadora e decisões analíti- cas ao longo do processo. 2. REVISÃO DE LITERATURA Conceito de Histeria na Psicanálise

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Explorando a Histeria | Maria Helena Barbosa Chiappetta 28 A palavra histeria, de origem grega hystera (útero), era originalmente associada a distúrbios considerados exclusivos das mulheres. Historicamente, a histeria era vista como uma questão feminina, ligada às parteiras e aos conhe- cimentos sobre sexualidade feminina (RANGEL, 2008). Charcot, psiquiatra francês, contestou essa visão ao estudar pacientes histéricas no Hospital de Salpêtrière, desvinculando a patologia da exclu- sividade feminina e investigando seus sintomas por meio da hipnose. A abordagem freudiana da histe- ria, entre 1888 e 1893, redefiniu sua origem como traumática, mas com causas sexuais, especialmen- te relacionadas a abusos na infância. Freud desen- volveu conceitos fundamentais para a compreen- são da histeria, como o recalque, a ab-reação, a defesa, a resistência e a conversão, mostrando como a energia libidinal se manifestava de manei- ra somática com significado simbólico (RAN- GEL, 2008). Ele descreve os sintomas histéricos como substitutos de desejos reprimidos, uma transcrição de processos psíquicos negados pelo recalque. Para compreender a histeria, é essencial entender sua relação com a constituição neurótica. No desenvolvimento psicossexual, a criança inicialmente se percebe como o objeto de desejo da mãe, identificando-se com o falo. Esse estágio, chamado de narcisismo primário, é segui- do pela intervenção do pai imaginário, que intro- duz a noção de castração. Esse processo é viven- ciado de forma única por cada indivíduo, resul- tando em diferentes estruturas de discurso, como neurose obsessiva ou histeria (GARCIA-ROZA, 1985). Na estrutura histérica, a transição ocorre quando a criança percebe que não é o falo, mas que alguém o possui. Este momento é central na dinâmica histérica, marcando a busca constante pela conquista do falo, visto como injustamente negado (DOR, 1991). O sujeito histérico, sentin- do-se privado, delega seu desejo ao Outro, acredi- tando que este detém as respostas para seus ques- tionamentos. Nasio (1991) aborda o desejo in- satisfeito da histérica como uma defesa contra o temor do gozo pleno, que poderia levá-la à loucu- ra ou aniquilação. Assim, ela cria e mantém fanta- sias que confirmam sua crença na impossibilidade de satisfação, como uma forma de proteção con- tra o gozo que tanto teme. A histeria, contudo, não pode ser dissociada de sua função histórica na regulação dos corpos e na construção social do gênero. Ao longo dos séculos, seu diagnóstico consistiu em uma ferramenta de controle e patologização da feminilidade, endossando narrativas científicas que naturalizavam a fragilidade psíquica das mu- lheres (SHOWALTER, 1985). A medicina do século XIX, ao codificar o sofrimento feminino em termos como fúria uterina, forjou uma cone- xão artificial entre o útero e a instabilidade mental, restringindo drasticamente a agência feminina e reforçando sua reclusão ao espaço doméstico. A histeria também pode ser compreendida como uma forma de resistência

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Explorando a Histeria | Maria Helena Barbosa Chiappetta 29 inconsciente a um ordenamento social opressivo. Ao produzir sintomas corporais inexplicáveis, as mulheres do século XIX encontravam, ainda que de modo distorcido, uma via de expressão para desejos e angústias que não podiam ser verbaliza- dos em uma sociedade patriarcal. Nesse sentido, o corpo histérico falava o que a consciência não podia admitir, constituindo-se como um protesto silencioso contra as restrições impostas ao gênero feminino (BERNHEIMER, 1985). A dimensão performática da his- teria merece igual destaque. Os ataques teatrais, as paralisias conversivas e os dramas emocionais encenados pelas pacientes de Charcot e Freud não eram meras simulações, mas sim uma encenação daquilo que a cultura da época esperava de uma "mulher doente". A histeria, portanto, não era apenas um distúrbio individual, mas um fenôme- no intersubjetivo, no qual o médico e a paciente cumpriam papéis sociais preestabelecidos (GOL- DSTEIN, 1987). Com o declínio do diagnóstico de histeria no século XX, assistimos à dispersão de seus sintomas em novas categorias nosográfi- cas. A síndrome do pânico, a fibromialgia e os transtornos de somatização herdam a lógica da conversão histérica, transferindo para o corpo um sofrimento que a mente não consegue elaborar simbolicamente. A persistência desses quadros na atualidade sugere que, embora o rótulo tenha caído em desuso, a estrutura subjetiva que lhe dava sustentação per- manece atuante (MILLER, 2006). Por fim, é fundamental reconhe- cer que a histeria não é um patrimônio exclusivo da psicanálise, mas um fenômeno que dialoga com diversas áreas do conhecimento. A filosofia, a sociologia e os estudos de gênero têm contribu- ído para desnaturalizar o conceito, revelando suas imbricações com o poder, a sexualidade e a nor- matização dos corpos. Essa abordagem multidis- ciplinar enriquece a compreensão da histeria, transformando-a de um mero diagnóstico clínico em um sintoma privilegiado da cultura (LACA- PRA, 2001). 2.1 EXPLORANDO AS DESCOBERTAS E O LEGADO DE FREUD A trajetória intelectual de Freud revela um percurso marcado por contradições e escolhas pragmáticas. Inicialmente dedicado à pesquisa fisiológica, suas aspirações foram redire- cionadas por circunstâncias materiais. Foi no contexto clínico que se deparou com os estudos de Charcot, cujo trabalho com pacientes histéri- cos desafiava noções estanques entre orgânico e psíquico. Charcot, ao associar sintomas somáticos a representações emocionais cristalizadas, ofere- ceu a Freud um modelo para pensar a histeria não como simulação, mas como linguagem cifrada do corpo (RANGEL, 2008). A imersão no ambiente parisien- se e posteriormente em Nancy, onde testemu- nhou os experimentos de Bernheim com hipnose, consolidaram sua desconfiança em relação às explicações puramente neurológicas. No entanto, foi em Viena, por meio da amizade com Josef

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Explorando a Histeria | Maria Helena Barbosa Chiappetta 30 Breuer, que Freud encontrou o caso seminal que moldaria sua clínica: o de Anna O. A jovem, cujos sintomas emergiram durante os cuidados ao pai enfermo, tornou-se emblemática ao demonstrar como a fala, sob hipnose, podia dissolver mani- festações corporais. Breuer, ao relatar o caso, destacou o método catártico: a liberação de afetos retidos através da rememoração de eventos trau- máticos (FREUD; BREUER, 1895). A parceria entre Freud e Breuer, porém, foi tão produtiva quanto efêmera. En- quanto Breuer via na hipnose um recurso técnico, Freud enxergava nela uma janela para o inconsci- ente. Essa divergência tornou-se irreconciliável com a publicação dos Estudos sobre a Histeria (1895), obra na qual Freud insistiu na etiologia sexual da neurose, contrariando a cautela de Breuer. O cerne teórico da obra reside na noção de trauma psíquico, eventos infantis de carga afetiva insuportável, excluídos da consciên- cia e convertidos em sintomas corporais. Freud e Breuer argumentavam que, sob hipnose, essas memórias isoladas podiam ser reinseridas no fluxo narrativo do paciente, dissipando sua força pato- gênica (RANGEL, 2008). O conceito de recalque, aqui embrionário, já sugeria um mecanismo ativo de defesa. Apesar do otimismo inicial, Freud logo questionou a hipnose. Em Estudos sobre a Histeria, relata casos como o de Elisabeth von R., cujas dores nas pernas se intensificaram durante a análise; paradoxo que o levou a substi- tuir a sugestão hipnótica pela associação livre, método que privilegiava a autonomia narrativa do paciente. Essa transição não foi apenas técnica, mas epistemológica. A genialidade de Freud residiu em transformar fracassos clínicos (a resistência dos pacientes, a intensificação de sintomas) em indí- cios de um inconsciente dinâmico, cuja lógica escapava às categorias médicas de seu tempo. Se Breuer foi o parceiro necessário, Charcot e Ber- nheim foram os interlocutores invisíveis de uma revolução que redesenhou os mapas da subjetivi- dade. (GREEN, 2005, p. 45). O método catártico, embora inovador, mostrou-se limitado ao depender exces- sivamente da sugestão e da relação vertical entre médico e paciente. Freud percebeu que a hipnose, ao contornar as resistências do ego, não permitia ao sujeito apropriar-se conscientemente dos conteúdos reprimidos, essenciais para uma cura duradoura. A descoberta de que muitos pacientes não eram hipnotizáveis ou resistiam ao procedi- mento sinalizou a necessidade de um novo en- quadre clínico, no qual a fala espontânea e a escuta flutuante ocupariam o centro do processo analítico (FREUD, 1914). A associação livre surgiu, então, não apenas como alternativa técnica, mas como pilar de uma nova concepção de sujeito. Ao abrir mão da direção consciente do discurso, Freud permitiu que o inconsciente se manifestasse em suas fissuras, nos lapsos, nos sonhos, nos atos falhos. Essa mudança radicalizou a aposta na existência de uma lógica própria do psiquismo, independente da vontade racional, e consolidou a

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Explorando a Histeria | Maria Helena Barbosa Chiappetta 31 psicanálise como prática distinta tanto da sugestão hipnótica quanto da neurologia organicista (GAY, 1989). Assim, a passagem da hipnose para a associação livre representou muito mais que um ajuste metodológico: foi a fundação de uma clínica baseada na escuta e na interpretação, na qual o paciente, antes objeto de sugestão, tornava-se sujeito de sua própria história. Concei- tos como resistência, transferência e inconsciente ganharam contornos definitivos nesse percurso, reafirmando a histeria não como um desvio pato- lógico, mas como expressão privilegiada dos conflitos psíquicos universais. 2.2 HISTERIA NOS TEMPOS ATUAIS A leitura comparativa entre Freud, Lacan e autores contemporâneos evidencia transformações profundas na compreensão da histeria. Freud concebia o sintoma histérico como a conversão corporal de desejos reprimidos, enquanto Lacan deslocou o foco da explicação médica para a estrutura do discurso, introduzindo a noção de histeria rígida e problematizando a centralidade do Nome-do-Pai. Nas últimas déca- das, pensadores como Harari (2015), Guimarães (2015) e Laurent (2013) ampliaram esse debate, observando que manifestações como anorexia, bulimia, síndrome do pânico e depressão configu- ram novas expressões do mal-estar histérico, nas quais corpo, linguagem e gozo se entrelaçam de forma ainda mais complexa. Esse movimento evidencia que, embora os sintomas mudem de forma e intensi- dade, a lógica histérica persiste, sempre tensio- nando os limites entre desejo e lei, corpo e signifi- cante. Tal comparação evita reduzir a histeria a um fenômeno do passado e reforça sua atualidade como categoria crítica para interpretar os modos contemporâneos de sofrimento psíquico. Eric Laurent propõe o conceito de histeria rígida de Lacan para articular os sinto- mas histéricos contemporâneos, que se manifes- tam mais por uma fenomenologia corporal do que por uma expressão inconsciente (HARARI, 2015). Isso marca uma separação entre linguagem e corpo na compreensão dos sintomas. Lacan indica que o sintoma his- térico carrega uma mensagem direcionada, um significado, mas também sugere que seu aspecto material aponta para algo sem sentido, dispensan- do a figura do Nome-do-Pai como um elemento interpretativo. Segundo Guimarães, o que se destaca na obra Dora de Cixous é a apresentação da histeria sem sentido, tornando-a incompreen- sível. Trata-se de uma histeria incompleta, uma Dora desprovida de sentido (GUIMARÃES, 2015). Laurent (2013) explica que Lacan redefine o conceito de material ao revisitar os conceitos de identificação propostos por Freud. Lacan argumenta que a histeria converge para a identificação com o traço do pai, não com o seu sintoma. Aqui, não se trata mais de participar no sintoma do outro, mas do próprio, tornando-o um parceiro sexual, ultrapassando o domínio de

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Explorando a Histeria | Maria Helena Barbosa Chiappetta 32 um saber acessível apenas pela escrita simbólica. Essa mudança na identificação histérica, que não se baseia mais na participação no sintoma do outro, permite a construção de um sintoma pelo real, tornando-o material (LAURENT, 2013). Esse sintoma pode então manifestar-se no corpo real, não ordenado pela cadeia significante, carac- terizando-se como um evento de corpo. No cenário atual, observa-se que a cultura do hiperconsumo e da superexposição midiática cria um terreno fértil para a proliferação de sintomas que ecoam a estrutura histérica, porém com novas configurações. As patologias do corpo, como os transtornos alimentares e as automutilações, podem ser lidas como respostas a um imperativo social de performatividade e trans- parência, onde o corpo é simultaneamente palco e prisão do sujeito (ROUDINESCO, 2018). Assim, propõe-se como hipótese plausível que a histeria não tenha desaparecido, mas sim migrado para o registro do visível e do espetacular, apropriando- se das linguagens e dos modos de expressão disponíveis em cada época, manifestando-se em fenômenos contemporâneos como anorexia, ataques de pânico e outras formas de sofrimento que se corporificam no limite entre o olhar do outro e a necessidade de reconhecimento. A relação dos sujeitos com a au- toridade também se transformou radicalmente. Se na virada do século XIX a figura paterna era o significante privilegiado da lei, hoje assistimos a uma pluralização de instâncias de autoridade das mídias sociais aos algoritmos que fragmentam e redistribuem o lugar do Outro. Nesse contexto, o questionamento histérico ao saber constituído se dirige agora a essas novas instâncias, produzindo sintomas que expressam um mal-estar difuso com as ormas contemporâneas de controle e vigilância (KEHL, 2020). A medicalização da vida e a bus- ca por soluções farmacológicas rápidas para o sofrimento psíquico representam outro eixo fundamental para pensar a histeria hoje. Muitas vezes, o diagnóstico de "transtorno de ansiedade" ou "depressão" ocupa o lugar que outrora fora da histeria, encapsulando uma queixa que, em sua origem, poderia ser decifrada como um conflito entre desejo e interdição. A psicanálise, nesse cenário, insiste em ouvir o sujeito para além do rótulo diagnóstico, buscando restituir a dimensão de verdade subjetiva que o sintoma encerra (SA- FATLE, 2016). Vale notar, ainda, que as próprias categorias diagnósticas sofreram significativas alterações. O desaparecimento do diagnóstico formal de “histeria” nos manuais psiquiátricos contemporâneos, em especial no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5ª edição (DSM-5; APA, 2013), que reorganiza esses qua- dros sob a categoria “transtornos de sintomas somáticos” e “transtorno de conversão (transtor- no neurológico funcional)”, e na Classificação Internacional de Doenças, 11ª edição (CID-11; OMS, 2019/2022), que também adota nomenclaturas equivalentes não significa o fim da estrutura histérica, mas sim uma mudança na forma de nomear e, frequentemente, dessubjetivar antigas manifestações de sofrimento. Cabe à clínica psicanalítica, portanto, reconhecer a per-

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Explorando a Histeria | Maria Helena Barbosa Chiappetta 33 manência da posição subjetiva histérica sob essas novas classificações, evitando que a rique za clínica e teórica desse constructo se perca em meio a descrições comportamentais e neuroquí- micas (CATANI, 2014). Na contemporaneidade, a histe- ria revela-se sob formas mais sutis e multifaceta- das, desafiando os modelos clássicos de compre- ensão e exigindo dos profissionais de saúde men- tal uma leitura renovada de seus sintomas. Dife- rentemente das manifestações neuróticas descritas por Freud, as expressões atuais do mal-estar psíquico apresentam-se com novas roupagens, frequentemente traduzidas em transtornos ali- mentares, como anorexia e bulimia, bem como em quadros de pânico, depressão e outras confi- gurações do sofrimento subjetivo. 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS A histeria, fenômeno que atravessa séculos como um espelho das angústias humanas, mantém-se paradoxalmente atual: se outrora foi a porta de entrada para a psicanálise, hoje revela-se um sintoma social das contradições da modernidade. Freud, ao decifrar seus enigmas, não apenas desvendou mecanismos do inconsciente, mas legou um método para interpretar o mal-estar que se transfigura com as eras. Se no século XIX as paralisias histéricas desafiavam a medicina, no século XXI a insatisfação crônica, seja no âmbito profissional, sexual ou existencial, assume seu lugar, expondo a persistência de uma dinâmica psíquica que recusa aplacar-se. A obsessão contemporânea por corpos esculpidos segundo padrões midiáticos inatingíveis não é mera vaidade: repete a lógica edípica de ser o objeto completo para o outro, idealizado na infância e impossibilitado na vida adulta. Como Freud assinalou, o Complexo de Édipo estrutura desejo e falta, mas a cultura atual, ao exaltar a autossuficiência, converte essa falta em vergonha. A negação da vulnerabilidade, vendida como empoderamento, gera uma solidão paradoxal: indivíduos conectados em redes, mas apartados de vínculos profundos, repetindo sin- tomas de isolamento que Freud identificaria como resistência à intimidade. Os dados sobre insatisfação se- xual e fragilidade nos relacionamentos não são acidentais; são gritos silenciosos de uma sociedade que patologiza a necessidade afetiva. A histeria, em sua nova roupagem, manifesta-se na exaustão de corpos que performam felicidade, na impotên- cia disfarçada de hiperatividade, e na ansiedade de nunca corresponder a ideais inalcançáveis. Como bem aponta Han (2022), vivemos em uma socie- dade do cansaço, onde a autoexploração substitui a repressão externa, e o desejo, antes proibido, torna-se obrigatório, aprisionando-nos em ciclos de insatisfação perpétua. Nesse cenário, a psicanálise freudiana oferece mais do que categorias diagnós- ticas; propõe uma escuta ética do sofrimento. Se a histeria clássica exigia a decifração de sintomas corporais, a contemporânea demanda que leiamos as entrelinhas de um mal-estar difuso, que se esconde sob discursos de otimismo e produtivi- dade. A lição freudiana persiste: o inconsciente não foi domesticado, apenas aprendeu novas linguagens.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Explorando a Histeria | Maria Helena Barbosa Chiappetta 34 Assim, conclui-se que a histeria permanece um farol crítico. Ela nos lembra que a busca por completude é uma ilusão, e que a saúde psíquica reside não na eliminação do conflito, mas na coragem de habitar nossa incompletude. Revi- sitar Freud, longe de ser um exercício arqueológi- co, é reconhecer que o desassossego histérico ainda fala, e que cabe a nós escutá-lo. REFERÊNCIAS BERNHEIMER, C.; KAHANE, C. (Org.). In Dora's Case: Freud – Hysteria – Feminism. 2nd ed. New York: Columbia University Press, 1985. BERTIN, C. A mulher em Viena nos tempos de Freud. Campinas: Papirus, 1990. BIRMAN, J. Arquivos do mal-estar e da resis- tência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012. BRAUN, V.; CLARKE, V. Using thematic analysis in psychology. Qualitative Research in Psycho- logy, London, v. 3, n. 2, p. 77-101, 2006. BREUER, J. e FREUD, S. Estudos sobre a histeria. In Obras Completas, vol II, Rio de Janeiro: Imago, 1969. CATANI, J. Histeria, transtornos somatoformes e sintomas somáticos: as múltiplas configurações do sofrimento psíquico no interior dos sistemas classificatórios. Jornal de Psicanálise, v. 47, n. 86, p. 115–134, 2014. COSTA, T. Histeria e contemporaneidade: uma leitura psicanalítica dos sintomas atuais. Revista de Psicanálise, v. 28, n. 2, p. 45-60, 2021. DOR, J. Estruturas e clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Taurus-Timbre, 1991. FOUCAULT, M. O nascimento da clínica. 6. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003. FREUD, S. Etiologia da histeria, 1896. In Obras Completas, vol III, Rio de Janeiro: Imago, 1969. FREUD, S. Fragmento da análise de um caso de histeria (O caso Dora), 1905. Rio de Janeiro: Imago, 1997. FREUD, S. Fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade, 1908. In Obras Completas, vol IX,Rio de Janeiro: Imago, 1969. FREUD, S. Uma criança é espancada - Uma contribuição ao estudo das perversões, 1919. In Obras Completas, vol XVII, Rio de Janeiro: Imago, 1969. FREUD, S. Um estudo autobiográfico, 1925. In Obras Completas, vol XX, Rio de Janeiro: Imago, 1969. FREUD, S. História do movimento psicanalí- tico, 1914. In Obras Completas, vol XIV, Rio de Janeiro: Imago, 1969. FREUD, S. A feminilidade. In Novas conferên- cias introdutórias da psicanálise, 1933. In Obras Completas, vol XVI, Rio de Janeiro: Imago, 1969. GARCIA-ROZA LA. Freud e inconsciente. 2 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. GAY, P. Freud: uma vida para o nosso tempo. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Com- panhia das Letras, 1989. GOLDSTEIN, J. Console and Classify: The French Psychiatric Profession in the Ninete- enth Century. Cambridge: Cambridge University Press, 1987. GREEN, A. Orientações para uma psicanálise contemporânea. Rio de Janeiro: Imago, 2008. GUIMARÃES, A. B. Z. Sobre o sintoma na histeria rígida: uma leitura a partir de “O retrato de Dora”, de Hélène Cixous. 2015. Dissertação (Mestrado em Psicologia) — Pontifí- cia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. Disponível em:

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Explorando a Histeria | Maria Helena Barbosa Chiappetta 35 https://www.maxwell.vrac.puc- rio.br/26490/26490.PDF HAN, B. -C. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2024. 126 p. HARARI, A. Histeria sem ao-menos-um. Opção Lacaniana online, ano VI, n. 17, 2015. LACAN, J. O Seminário - Livro 3, As Psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988. LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1980. LACAPRA, D. Writing History, Writing Trau- ma. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2001. LAURENT, É. A sociedade do sintoma: a psicanálise, hoje. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2007. LAURENT, É. A batalha do autismo: da clíni- ca à política. Rio de Janeiro: Zahar, 2014. LIMA, R. C. O corpo e seus enigmas: histeria e somatização na contemporaneidade. Revista Bra sileira de Psicanálise, v. 53, n. 2, p. 145-162, 2019. MILLER, J.-A. A histeria hoje. In: Opção Lacaniana, n. 46, 2006. MINAYO, M. C. S et al. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis: Vozes, 2001. NASIO, J. D. A Histeria: Teoria e clínica psica- nalítica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991. RANGEL, M. B. S. Histeria e Feminilidade. Dissertação de mestrado. Universidade Veiga de Almeida, Rio de Janeiro, 2008. ROUDINESCO, E.; PLON M. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. ROUDINESCO, E. Por que a psicanálise? Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2018. SILVA, H. C.; REY S. A beleza e a feminilida- de: Um olhar psicanalítico. Revista: Psicologia ciência e profissão. Vol. 31, n° 3, p. 554-567, Rio Grande do Sul, 2011. SHOWALTER, E. The Female Malady: Wo- men, Madness, and English Culture, 1830- 1980. New York: Pantheon Books, 1985. VIEIRA, M. A. Novas formas do mal-estar: a histeria na era digital. Psicanálise & Sociedade, v. 12, n. 1, p. 88-105, 2021. ZUCCHI, M. Esse estranho que nos habita: o corpo nas neuroses clássicas e atuais. Opção Lacaniana online, ano V, n. 4, 2014.

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ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 37 RESENHA CRÍTICA Psicanálise no Buteko Psicanálise no Buteko Um encontro despojado com a palavra. Tudo começou assim... Sobre a iniciativa - Uma realização da Escola Freudiana – Seção Teresina, que propõe uma série de diálogos ao longo de Encontros mensais. O conceito - Trata-se de um formato de encontro leve e acessível, cujo objetivo é debater temas de relevância social sob a perspectiva psicanalítica. A reunião ocor- re mensalmente em diferentes bares de Teresina. Nossa missão - Democratizar o acesso ao saber psicanalítico, aproximando a clí- nica de espaços públicos e descontraídos, fomentando diálogos fundamentais sobre a subjetividade humana. A escolha do "Buteko" - A escolha não é aleatória; é o lugar da verdade. É o es- paço do encontro sem máscaras, onde a palavra circula com liberdade e as defesas do ego são, por um breve momento, dei- xadas de lado. Segue a apresentação do Card de cada Encontro realizado com sua Temática e o articu- lador da palavra, da lógica, do sentido. Para cada Encontro é apre- sentado uma TEMÁTICA- em prol da transmissão da Psicanálise. Esta imagem (acima) é icônica e bem-humorada. O fato de o paciente estar literalmente deitado em um sofá de bar (relembrando o clássico divã) traz um elemento satírico muito forte, que brinca com o estereótipo da clínica.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Resenha Crítica | Lázaro Tavares 38 1. Resenha Crítica: O Que Nos Une - Reflexões sobre o Laço Social na Contem- poraneidade. Ao revisitar a trajetória dos encontros realizados no ciclo Psicanálise no Buteko, somos provocados por uma questão que, embora central na teoria, ganha contornos de urgência quando transposta para a praça pública: "O que nos une?" (nosso perimeiro Tema, nosso primeiro Evento). Em uma sociedade cada vez mais individualista e fragmentada pelo impacto dos algoritmos, a res- posta torna-se um exercício analítico necessário. Ao conectar essa interrogação aos desafios de nossa época — o desamparo crescente, a veloci- dade alucinante da informação e a necessária ma- nutenção da ética do analista —, estes encontros propõem uma reflexão profunda e autêntica. Não se trata de uma busca por respostas fáceis, mas de uma sustentação da pergunta freudiana e lacaniana em meio ao ruído cotidiano. Ao fim, a experiência desses encontros nos revela que a psi- canálise, quando levada ao "buteko" ou a qualquer espaço de debate, atua como um motor que pos- sibilita a união entre os sujeitos, não pela via da completude, mas pela via do desejo que nos con- voca ao laço. A premissa destes en- contros subverte a lógica do senso comum: o que nos une, efetivamente, não é o que temos em comum enquanto identidades ou gostos compartilhados, mas justamente o que partilhamos enquanto fal- ta ou sintoma. Sob essa perspectiva, o evento dei- xa de ser apenas uma pa- lestra e torna-se um dis- positivo de laço social.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Resenha Crítica | Lázaro Tavares 39 TEMA E REFLEXÃO: Psicanálise: O que nos une A proposta deste espaço é promover uma apro- ximação da psicanálise com as pessoas e debater questões da atualidade. O objetivo é aproximar a teoria do público por meio da conversa e do de- bate em torno de uma ideia, incentivando o rela- cionamento interpessoal em ambientes descontra- ídos. Chegou o tempo não apenas de revisar nossa me- todologia para induzir nossas "verdades", mas também de desenvolver novos enfoques que tor- nem possível estarmos abertos a novas ideias e, por sua vez, sermos capazes de avaliar sua utilida- de por meio de argumentações arraigadas. A música Levanta e Anda, do rapper Emicida, ilus- tra a realidade social, a superação de adversidades e a importância de acreditar nos sonhos: “Quem costuma vir de onde eu sou Às vezes não tem moti- vos pra seguir Então levanta e anda, vai, levanta e anda Mas eu sei que vai, que o sonho te traz Coisas que te faz prosseguir Então levanta e anda, vai, levanta e anda So- mos maior, nos basta só sonhar, seguir”. *Reflexão: Psicanalista Lázaro Tavares “O QUE NOS UNE” A afirmação “O que nos une – o que nos aproxima – são nossos afetos, convicções, ideias e paixões” é uma síntese poderosa da visão psicanalítica sobre a natureza das conexões humanas. Vamos desmembrar essa frase — (quem quiser falar um pouco, fale!) — e explorar suas implicações: Afetos: A psicanálise enfatiza o papel central dos afetos (emoções) em nossas relações. É através deles que estabelecemos vínculos pro- fundos. O amor, a raiva, a tristeza e a alegria moldam nossas interações e nos aproximam ou distanciam do outro. Convicções: Nossas crenças e valores pesso- ais funcionam como bússolas que orientam nossas vidas e escolhas. Quando encontramos pessoas que compartilham nossas convicções, sentimos um senso de pertencimento e cone- xão. Ideias: O intercâmbio, a discussão e o debate são fundamentais para a construção do conhe- cimento e para a formação de laços sociais. Compartilhar perspectivas nos permite expan- dir horizontes e conectar-nos com aqueles que pensam de forma semelhante. Paixões: A paixão é uma força motriz pode- rosa que nos impulsiona a agir, criar e nos re- lacionar com o mundo. Ao compartilhá-la, cri- amos um senso de comunidade e propósito.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Resenha Crítica | Lázaro Tavares 40 2. Resenha Crítica: Como sustentar o amor, sabendo que não se é o objeto exclusivo de desejo do outro? O amor, na contemporaneidade, frequentemente é capturado pela fantasia da completude e da exclusividade. Somos impulsionados por discursos românticos que prometem no "Outro" a cura para nossas faltas e o preenchimento de nosso vazio. No entanto, a psi- canálise nos convoca a uma travessia mais sóbria: o reconhecimento de que, na estrutura do desejo, não somos — nem poderíamos ser — o objeto exclusivo de desejo do outro. O impasse do desejo A questão central que sustenta este debate é a desilusão necessária do narcisismo. Lacan nos ensina que o desejo é, por definição, um desejo de falta. Quando exigimos do parceiro que ele nos tome co- mo seu único objeto de satisfação, estamos, na verdade, tentando negar a alteridade. O "não ser o objeto exclusivo" não é um sinal de fracasso amoroso, mas a própria condição de possibilidade de um amor que não se limite ao sufocamento ou à possessividade. A psicanálise nos ensina que: A identidade é construída nas relações: Não somos ilhas isoladas, mas seres sociais que se constituem através das interações. A linguagem é fundamental para a conexão: Através dela, expressamos sentimentos e dese- jos, estabelecendo pontes com o próximo. O inconsciente influencia nossas relações: Muitas vezes, nossas escolhas e comportamentos são pautados por processos inconscientes, que podem tanto facilitar quanto dificultar nossas conexões. Em resumo, a frase “O que nos une – o que nos aproxima – são nossos afetos, convic- ções, ideias e paixões” nos lembra que a humanidade é um tecido complexo e multi- facetado, onde as conexões são construídas a partir de um conjunto de elementos sub- jetivos e intersubjetivos. Ao compreendermos as forças que nos unem, podemos forta- lecer nossos vínculos e construir um mundo mais justo e solidário. Conclusão: O "Buteko" como cenário de verdade Em um ambi- ente como o "Buteko", onde a palavra circula sem a polidez das máscaras sociais, o tema ganha uma con- tundência especial. Ao debatermos essa impossibili- dade da exclusividade absoluta, propomos um des- vio: a aceitação da falta como a ponte que une dois sujeitos, e não como o abismo que os separa. Sus- tentar o amor, sabendo que não somos tudo para o para o outro, é, talvez, o ato mais radical de liberda- de que a psicanálise nos permite experimentar. O amor como abertura à alteridade Sustentar o amor, a partir dessa premissa, exige uma ética da responsabilidade e do de- sapego. Se o outro deseja algo além de mim, isso significa que ele é um sujeito vivo, do- tado de sua própria falta e de seu próprio campo de desejo. Amar, portanto, deixa de ser uma operação de posse e torna-se um ato de sustentar o espaço onde o outro pos- sa, também, ser um sujeito — e não apenas um espelho para as nossas projeções.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Resenha Crítica | Lázaro Tavares 41 Menos é mais! Prepare-se para um inverno colori- do 3. Resenha Crítica: Quem eu seria se não precisasse agradar ninguém? — Entre a Máscara e o Desejo Este tema é, talvez, o mais po- tente de todos os que tratamos, pois ele atinge em cheio a "cer- ca" que o sujeito constrói em torno de si mesmo para sobre- viver ao olhar do Outro. O questionamento proposto - quem eu seria se não pre- cisasse agradar ninguém? - não é apenas uma pergunta sobre liberdade, mas uma interrogação sobre a própria estrutura da subjetividade. O debate realizado trouxe à luz a fragilidade do "eu" que se sustenta, essencial- mente, pela via do agradar, da complacência e da inces- sante pelo busca reconhe- cimento. A discussão apontou que, frequentemente, o sujeito se aliena em um personagem desenhado para satisfazer as expectativas de pais, parceiros, instituições ou do olhar social. A pergunta, portanto, desvela o quanto do que chamamos de "eu" é, na verdade, uma construção rea- tiva ao desejo do outro. Se retirássemos a necessidade de agradar, o que restaria? O encontro indicou que, embora o medo do vazio seja imenso, é exatamente nesse ponto de desamparo que o desejo singular pode, pela primeira vez, ganhar contorno. O que a psicanálise ensina, e que ficou evidente nesta reflexão, é que a ética do analista visa exata- mente isso: levar o sujeito a sustentar o seu desejo para além da demanda alheia. Ser quem se é, sem a necessidade de agradar, não significa viver sem laços, mas sim sustentar o próprio desejo com a devida separação fren- te ao desejo do Outro. Ao final, o encontro nos deixou com a provocação de que o "eu" só começa, verdadeiramente, quando o sujei- to aceita o risco de desagradar para poder, finalmente, habitar a própria verdade.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Resenha Crítica | Lázaro Tavares 42 4. Resenha Crítica: O Tempo da Repetição e a Ilusão do Novo — O Fim do Ano como Sintoma. O encontro de novembro de 2025 propôs uma reflexão oportuna sobre o fenômeno cíclico que marca o fim do ano: a esperança desesperada de que a virada do calendário traga, por si só, uma ruptura com o passa- do. A discussão investigou como o desejo de "começar de novo" opera, frequente- mente, como uma ilusão que mascara o tempo da repetição — o automaton — que governa a subjetividade para além da conta- gem cronológica. O debate destacou que o fim do ano funciona, no imaginário co- letivo, como um sintoma. Ao projetarmos no futuro a ex- pectativa de uma transformação radical, tentamos contornar a angústia diante da repetição dos mesmos impasses, das mesmas escolhas e dos mesmos afetos. A psicanálise, ao contrário, convoca o sujei- to a reconhecer que não há "novo" capaz de apagar a marca do sujeito no seu próprio sintoma; o que há é a possibilidade de fazer algo diferente com o que se repete. A conclusão do encontro foi um convite à ética da análise: mais do que a busca por re- novações superficiais, trata-se de sustentar a interrogação sobre o que nos faz insistir, ano após ano, nas mesmas posições. O fim do ano, portanto, deixa de ser um marco de "mudança" para se tornar uma oportunida- de de reconhecer o desejo que insiste, para além das ilusões do calendário.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Resenha Crítica | Lázaro Tavares 43 5. Resenha Crítica: Entre a Demanda da Mãe e o Desejo da Mulher — O que resta quando a maternidade ocupa a cena? O debate sobre a tensão entre a função materna e a posição de mulher, trazido pelo Psicanálise no Buteko, desvelou um impasse fundamental da subjetividade feminina. A questão que norteia esta reflexão — o que resta da mulher quando nasce a mãe? — coloca em evidência a complexa sobreposição de registros que, embora convirjam no mesmo corpo, operam sob lógicas distin- tas. A discussão pontuou que, enquanto a de- manda da mãe é convocada pelo lugar do Outro — a criança como objeto que com- pleta uma falta —, o desejo da mulher per- manece, em essência, como algo que não se deixa capturar totalmente pela maternidade. O risco contemporâneo, apontado no encontro, é a identificação ab- soluta da mulher ao lugar de "Mãe- Ideal", uma armadilha que visa apagar a castração e sustentar um amor que, por pretender ser total, acaba por sufocar a própria dimen- são do desejo. A psicanálise ensina que a mulher não se esgota na maternidade. O que "resta" é jus- tamente o resto insuportável para o discur- so corrente: o desejo que não se dirige ao filho, mas que aponta para uma alteridade que não se deixa domesticar. O debate re- forçou que a ética da análise, neste contex- to, não visa incriminar a maternidade, mas libertar a mulher dessa sobreposição exaus- tiva, permitindo que ela sustente seu desejo para além da demanda materna. A conclu- são do encontro foi clara: é na sustentação dessa clivagem que a mulher encontra a possibilidade de respirar, protegendo seu desejo da engrenagem que a quer apenas como um objeto de cuidado.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Resenha Crítica | Lázaro Tavares 44 6. Resenha crítica: A Cultura do Narcisismo e a Inveja — O Preço da Compara- ção no Mundo Contemporâneo No encontro de setembro de 2025, o de- bate voltou-se para a articulação entre a "cultura do narcisismo" e o afeto da inveja, examinando como a lógica das redes sociais e a exibição constante da imagem pessoal têm exacerbado traços que, outrora, eram mais contidos no espa- ço privado. A discussão partiu da premissa de que vivemos em uma época que exige a "per- formance da felicidade", onde o narcisis- mo não se limita ao amor-próprio, mas configura-se como um esforço defensivo para sustentar uma imagem de completu- de frente ao olhar do outro. Nesse cená- rio, a inveja emerge não apenas como um desejo de ter o que o outro possui, mas como uma tentativa de destruir a diferença e a falta, na medida em que o sucesso alheio — amplificado pela tela — é perce- bido como uma afronta à própria insufici- ência. O encontro evidenciou que a inveja, na perspectiva psica- nalítica, é um afeto que ataca o laço social. Ao nos compararmos incessantemente com imagens idealizadas, o sujeito é ar- rastado para fora do seu próprio desejo, passando a medir sua existência pelo valor de troca e pela aprovação externa. A conclusão do debate destacou que a psicanálise atua como um antídoto a essa cultura ao convocar o sujeito a sair da comparação imaginária e retornar ao seu próprio desejo, único lugar onde a inveja perde a sua força paralisante.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Resenha Crítica | Lázaro Tavares 45 7. Resenha Crítica: Angústia de castração — O que nos torna civilizados A psicanálise nos convida a uma leitura incômoda sobre a civilização: o que chamamos de "cultura" ou "civilidade" não é o triunfo da bondade humana, mas o resultado de uma renúncia. A angústia de castra- ção, longe de ser um conceito puramente clínico ou arcaico, é a bússola que orienta nossa inserção no la- ço social. É através da aceitação (consciente ou não) da falta que o sujeito sai do registro do "tudo" e entra no re- gistro do possível. A castração como limite ao gozo A tese que sustenta este encontro é a de que a civili- zação exige uma interdição. Se o ser humano fosse capaz de satisfazer todos os seus desejos, não haveria encontro, apenas consumo. A angústia de castração funciona como o anteparo que barra o gozo desen- freado. Quando o sujeito se depara com a impossibi- lidade de ser o objeto pleno para o outro, ele é em- purrado para a cultura — para a troca, para a palavra e para a criação. O que nos torna "civilizados" é, por- tanto, a marca da falta que nos habita e nos obriga a negociar com a existência do outro. “Os nossos complexos são a fonte da nossa fraqueza; mas muitas vezes, eles também são a fonte da nossa força”. – Sigmund Freud – O avesso da civilidade Em tempos onde o discurso social prega a satisfação imediata e a eliminação de qualquer desconforto, a angústia de castração torna-se um alvo de ataque. Tentamos, a todo custo, negar a nossa finitude através de objetos, telas e narcisismos digitais. No entanto, a psicanálise nos lembra que a tentativa de negar a castração é, paradoxalmente, o que mais produz barbárie. Sem a mediação da falta, o outro torna-se um obstáculo a ser eliminado, e não um parceiro de diálogo. Conclusão: O Buteko como espaço de partilha da falta Debater a castração em um bar é um exercício de ética. Ao ocuparmos o "buteko" para falar sobre aquilo que nos limita, transformamos a angústia em um ponto comum. O bar, este espaço de encontros aleatórios e conversas que se perdem e se acham, é o cenário ideal para reconhecer que todos nós, à nossa maneira, carregamos a cicatriz da castração. Afinal, só con- seguimos brindar com o outro porque aceitamos que não somos completos, e que é exatamente nessa fenda que o humano se torna civilizado.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Resenha Crítica | Lázaro Tavares 46 8. Resenha Crítica: Psicanálise e Religião — A Fronteira entre o Sintoma e a Fé O encontro de junho de 2025 propôs um debate instigante sobre uma das tensões mais clássicas do pensamento freudiano: a relação entre a psi- canálise e o fenômeno religioso. Longe de pre- tender o esvaziamento da crença ou a defesa de um ateísmo dogmático, o debate buscou investi- gar como o sujeito contemporâneo transita entre o saber analítico e a verdade religiosa. A questão central que permeou a discussão foi: de que maneira o discurso religioso opera como uma forma de "ilusão" — no sentido freudiano — que visa proteger o sujeito do desamparo original? A psicanálise, ao abordar a religião, não a reduz a uma patologia, mas interroga como ela responde ao real da castração e à angústia inerente à exis- tência. O que se observou na reflexão trazida pelo en- contro foi que, enquanto a psicanálise convoca o sujeito a se responsabilizar pelo seu desejo e a in- terrogar o seu sintoma, muitas vertentes religiosas oferecem, por vezes, um fechamento de sentido que visa aplacar essa mesma angústia. No entanto, a discussão avançou para além desse embate, questionando se a ética do analista, em sua neutralidade, permite também um acolhi- mento da dimensão da fé como parte da singula- ridade do paciente, desde que esta não impeça a travessia do seu próprio fantasma. Ao final, o encontro de junho reforçou que o di- álogo entre psicanálise e religião é, em última ins- tância, um diálogo sobre o que o sujeito faz com o seu vazio. Se a religião busca preenchê-lo com a crença, a psicanálise propõe que é justamente a sustentação desse vazio que possibilita a ética do desejo. Este o tema permite uma reflexão fundamental sobre os limites e as interseções entre a experiência subjetiva e a fé. Escola Freudiana de Psicaná lise de Teresina

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Resenha Crítica | Lázaro Tavares 47 9. Resenha Crítica: Bebê Reborn — Entre o Objeto-Fetiche e a Busca pelo Falo Dentre as provocações trazidas pelos encontros de maio de 2025, o debate sobre o fenômeno dos "bebês reborn" destacou- se como um ponto de interrogação sobre as dinâmicas subjetivas na contemporaneida- de. A questão posta — seria o bebê reborn uma busca do falo? — abre uma via de in- vestigação sobre o lugar do objeto na economia do desejo. Ao analisar a perfeição técnica dessas bonecas, que mimetizam a vida com precisão quase per- turbadora, somos levados a questionar se o que está em jogo não é a tentativa de suturar, via fetiche, a falta estrutural que constitui o su- jeito. Se o falo, na psicanálise, representa aquilo que falta e que movimenta o desejo, o bebê re- born surge, neste contexto, como um objeto que promete uma presença plena, um "objeto-falo" que, paradoxalmente, tenta ocupar o vazio da castração. Diferente da criança real, que traz consigo a alteridade e a irrupção do imprevisto, o bebê re- born oferece uma satisfação silenciosa e sob controle. A discussão realizada no encontro de maio apontou que essa busca reflete um sintoma da nossa época: o esforço constante para evi- tar o encontro com a falta e com a diferença do outro. Assim, o debate não se resumiu a uma crítica de costumes, mas a uma análise profunda sobre como tentamos, através de objetos, contornar a angústia da falta que, em última análise, é o que nos mantém desejantes.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Resenha Crítica | Lázaro Tavares 48 10. Resenha Crítica: Relacionamento tóxico - uma busca do complemento D(N) o outro. O "Relacionamento Tóxico" como Busca Impossível de Complemen- to no Outro - A Fantasia da Com- pletude. A Lente Psicanalítica - A ilusão da realidade. O termo "relacionamento tóxico" tornou-se um lugar- comum no dis- curso contemporâneo, servindo fre- quentemente como um rótulo simpli- ficador para designar vínculos marca- dos pelo sofrimento, pela dependên- cia ou pelo exercício de uma domina- ção perversa. No entanto, para uma leitura psicanalítica, é imperativo des- construir essa noção de "toxicidade" — muitas vezes reduzida a uma falha de caráter do parceiro ou a uma di- nâmica de abuso óbvia — para inter- rogar o que, na estrutura do sujeito, sustenta e mantém a busca incessante por um "complemento" que, em úl- tima instância, é impossível.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Resenha Crítica | Lázaro Tavares 49 A Ilusão da Unidade A psicanálise, desde Freud e atraves- sando o ensino de Lacan, situa o desejo humano como efeito da castração e do corte simbólico. O sujeito não é uma unidade completa; ele é, constitutiva- mente, um sujeito faltante. O "relacio- namento tóxico", nesta perspectiva, pode ser lido como uma tentativa de- sesperada de negar essa falta. Quando um sujeito descreve sua rela- ção como "tóxica", mas permanece ne- la, revela-se a operação de uma fantasia onde o Outro ($A$) deveria ser aquele que provê a completude que o sujeito não encontra em si mesmo. Busca-se no parceiro não um sujeito, mas um "complemento" ($D(N)outro$) que venha tapar o buraco do real da exis- tência. O drama, porém, reside no fato de que o Outro, por ser também faltan- te, jamais poderá oferecer o que é de- mandado. O "Tóxico" como Fixação da Pul- são O que chamamos de toxicidade nos vínculos pode ser compreendido como uma modali- dade de satisfação pulsional que se engata no que é destrutivo. A repetição — o automa- ton — torna-se evidente: o sujeito volta ao mesmo lugar de dor. Nesse movimento, o parceiro não é amado pelo que é em sua alteridade, mas é investido como objeto que confirma a posição do sujeito no fantasma. A "toxicidade" é, então, o nome dado ao gozo que se obtém na queixa, na submissão ou na tentativa de controle absoluto sobre o outro. O parceiro "tóxico" acaba por ocupar o lugar do objeto que, embora faça sofrer, garante uma estabilidade à custa da anulação da própria subjetividade. A Ética da Diferença A saída psicanalítica para a asfixia desses víncu- los não passa por uma reeducação moral ou pela simples busca por "pessoas saudáveis", mas pela travessia da fantasia. Trata-se de reconhecer a radical alteridade do outro. O Outro não é um complemento; é, fundamentalmente, alguém com seu próprio desejo, para além das demandas de completude que lhe impomos. Aceitar a inexistência da relação sexual — na máxima lacaniana de que "não há relação sexual" — é o passo ético fundamental. Significa admitir que não há garantias de que o outro nos comple- tará ou nos entenderá plenamente. Ao renunciar à fantasia do "complemento", o sujeito abre espaço para que o amor, quando ocorre, seja um encontro entre dois seres faltantes, e não um conluio entre dois vazios tentando se preencher. Nota: Lianças: Esta resenha propõe que o "relacionamento tóxico" seja analisado não co- mo um erro externo, mas como um impasse estrutural da posição subjetiva frente ao desejo. Ao problematizar a demanda de completude, deslocamos o foco da "vítima" ou do "agressor" para a responsabilidade do sujeito sobre o que ele consente em sua própria economia de gozo.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Resenha Crítica | Lázaro Tavares 50 11. Resenha Crítica: Pulsão de Morte e a Relação com Esportes Radicais Esta resenha propõe uma leitura que re- tira a psicanálise do pedestal acadêmico sem trair seus fundamentos, utilizando a análise dos esportes radicais como via de entrada para discutir a economia pulsio- nal no contemporâneo. A clínica contemporânea tem se deparado com um fenômeno crescente: a busca deliberada pelo limite. Seja na prática de esportes radicais — onde o corpo é colocado à prova da gravidade e do risco — ou nas formas diversas de "abismo" que atravessam as subjetividades atuais, a psicanálise é convocada a responder. Frequentemente, a cultura popular e até setores da psicologia mal informada rotulam essas condutas sob a rubrica simplista da "pulsão de mor- te" (Todestrieb). Mas, será que saltar de um penhas- co ou buscar o perigo é, de fato, um desejo de fim? Desmistificando o "Destino Final" A primeira tarefa é esclarecer a confusão frequente que reduz a pulsão de morte ao desejo de não- exis- tir ou à autodestruição niilista. Em Freud, especial- mente a partir de Além do Princípio do Prazer (1920), a pulsão de morte não é o desejo de . morrer, mas a tendência do organismo a retornar a um estado anterior de ausência de tensão. Quando um atleta pratica um esporte extremo, ele não está necessariamente "buscando a morte". Pelo contrário, ele está buscando um excesso de vida. O corpo, imerso na aceleração do cotidiano ou na apa- tia da rotina, encontra no risco um "mais-além" da homeostase. É uma tentativa de forçar a saída do campo do sentido para um campo de pura intensidade. A pulsão de morte, aqui, opera como a força que rompe a proteção do Eu, permitindo ao sujeito sentir que "ainda está vivo" justamente porque o perigo o retira da anestesia da existência digital e automatizada.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Resenha Crítica | Lázaro Tavares 51 A Realidade por Trás da Tendência O que se esconde por trás da escalada dos esportes radicais não é apenas a busca pela adrenalina — um marcador biológico insuficiente para explicar o gesto humano —, mas uma resposta à falência dos suportes simbólicos tradicionais. Vivemos em uma sociedade que tenta higienizar a finitude. Ao eliminar o risco, eliminamos também a possibilidade de o sujeito se confrontar com a sua própria verdade. O esporte radical, nesse sentido, funciona como uma "cura pela experiência". Não é uma busca pelo fim, mas uma tentativa de ancorar a existência em algo que não seja puramente discursivo. No "buteko" da vida, diríamos: o sujeito precisa sentir o medo real para que o medo imaginário da angústia diária perca o seu poder paralisante. O Esporte como Escora A psicanálise precisa valorizar essa busca, não como uma patologia, mas como uma tentativa de amarração. O esporte radical, para muitos, opera como um sinthome: uma forma de costurar o re- al, o imaginário e o simbólico através da ação. Quando o corpo se lança ao abismo, ele busca, na verdade, uma borda. O risco é o que permite ao sujeito estabelecer uma fronteira entre ele e o nada. Em vez de condenar a pulsão de morte como o demônio da autodestruição, a psicanálise deve reconhecê-la como a potência que nos empurra para fora do conforto estagnado. O esportista radi- cal não é um suicida em potência; é um artífice que usa a vertigem para, por um instante, silenciar o ruído do supereu que exige perfeição e produtividade constantes. Conclusão Ao olharmos para esses fenômenos com o rigor que a Escola Freudiana exige, percebemos que o abismo não é o destino, mas o espelho. A pulsão de morte, quando bem mediada pela prática, torna- se a condição de possibilidade para a vitalidade. Desmistificar esse conceito é devolver ao sujeito a responsabilidade pelo seu próprio gozo. No fim das contas, a psicanálise no "buteko" é isso: entender que, entre o medo de cair e a vontade de voar, há um sujeito tentando, desesperadamente, habitar o próprio corpo.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Resenha Crítica | Lázaro Tavares 52 12. Resenha Crítica: A Construção da Identidade na era digital: como as redes sociais afetam a formação da identidade e a expressão do eu. A construção da identidade na contemporanei- dade atravessa um ponto de mutação sem prece- dentes. Se, para a psicanálise freudiana, a formação do "eu" era um processo mediado pelo olhar do ou- tro e pela estruturação do narcisismo, na era digital, esse olhar se tornou onipresente, quantificável e, pa- radoxalmente, alienante. Esta resenha propõe uma reflexão sobre como as redes sociais deixaram de ser meros espaços de sociabilidade para se tornarem os novos locus de estruturação subjetiva, onde a ex- pressão do eu se confunde com a performance para o mercado da visibilidade. A identidade, tradicionalmente concebida como um processo de sedimentação simbólica mediado pela palavra e pelo desejo do Outro, enfrenta, na era digi- tal, uma mutação radical. A proposta desta análise é investigar como as redes sociais, ao se tornarem a instância principal de validação da existência, afetam a formação da subjetividade e a expressão do Eu. O ponto central desta questão reside na passa- gem do "Eu" como construção do inconscien- te para o "Eu" como performance visual. Nas redes sociais, a identidade não se forma pelo reconhecimento em um laço social direto, mas através de um sistema algorítmico que impõe a necessidade de uma visibilidade constante. Esse fenômeno gera uma cisão na estrutura do sujeito: enquanto o Eu clínico é pautado pela falta e pela singularidade, o "Eu digital" é pau- tado pela completude aparente e pela demanda de aprovação imediata. A crítica fundamental que se impõe é que, ao buscarmos a construção da identidade por meio da exposição, criamos um paradoxo clí- nico. A expressão do Eu na rede não busca a subjetivação, mas a homologação. Ao trans- formar a própria vida em um catálogo de ima- gens, o sujeito acaba por alienar-se em sua própria vitrine, perdendo a dimensão da "ex- timidade" — aquele lugar onde o íntimo se torna público, mas preserva um núcleo de mis- tério. O que observamos é uma identidade que se torna líquida, vulnerável ao fluxo de likes e à descartabilidade dos conteúdos. Conclui-se que a era digital não anula a forma- ção da identidade, mas a submete a um novo imperativo ético. A formação do sujeito mo- derno não é mais apenas sobre o que ele diz, mas sobre como ele se apresenta ao mercado da visibilidade. Para a psicanálise, o desafio permanece inalterado em sua essência: resgatar o sujeito da sedução da imagem. A verdadeira construção da identidade deve resistir à trans- parência algorítmica e encontrar, na palavra e no silêncio do consultório, o ancoradouro que as telas, por sua natureza, não podem oferecer.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Resenha Crítica | Lázaro Tavares 53 . 13. Resenha Crítica: Reflexão apresentada pelo Psicnalista em Formação Cândido Coelho Neto. Psicanálise e a nova geração A psicanálise, desde suas origens com Sigmund Freud, tem evoluído para abordar as complexi- dades da mente humana e suas interações com a sociedade. Na era contemporânea, a nova gera- ção enfrenta desafios únicos que moldam sua psique de maneiras distintas. A rapidez das mu- danças tecnológicas, a globalização e a crescente presença das redes sociais têm um impacto pro- fundo na formação da identidade e das relações interpessoais. Neste contexto, a psicanálise se adapta para compreender e tratar as ansiedades e conflitos emergentes. A nova geração lida com questões de saúde mental como nunca antes, com um au- mento notável na conscientização sobre transtornos de ansiedade, depressão e outros. A psica- nálise oferece uma lente para examinar essas questões, destacando a importância do inconsciente e dos processos internos na formação das experiências individuais. Além disso, a diversidade cultural e a busca por identidades autênticas são temas centrais para os jovens de hoje. A psicanálise, ao explorar as dinâmicas familiares, traumas passados e influências socioculturais, ajuda a nova geração a navegar em um mundo em constante transformação. O papel dos psicanalistas torna-se crucial para auxiliar os jovens a encontrarem equilíbrio e bem- estar, promovendo um entendimento mais profundo de si mesmos e de suas relações. Nota A psicanálise continua a ser uma ferramenta valiosa na compreensão das complexas realidades psicológicas da nova geração, oferecendo insights e métodos terapêuticos adaptados às necessidades contemporâneas.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 54 “Flutua, não afunda”: Freud e Psicanálise no Brasil nos periódicos O Cruzeiro e Revista da Semana nas décadas de 1920 e 1930 Leslye Bombonatto Ursini

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 55 “Flutua, não afunda”: Freud e Psicanálise no Brasil nos periódicos O Cruzeiro e Revista da Semana nas décadas de 1920 e 1930 Leslye Bombonatto Ursini* Resumo Nos seus primeiros tempos de divulgação e de difusão no Brasil, a Psicanálise era assunto restrito ao meio acadêmico e em especial à Medicina e à Psiquiatria. Entre as décadas de 1920 e 1930, a Psi- canálise esteve estampada nas páginas das revistas periódicas O Cruzeiro e Revista da Semana e foi exposta e divulgada para um público amplo, o leitor comum. Nas revistas, a Psicanálise apareceu atrelada à Psiquiatria, ou como necessária à criminologia, como coadjuvante em tratamentos médi- cos diversos, como brincadeiras de interpretações dos sonhos e, também, a Psicanálise apareceu em mera menção em textos como se os atualizasse à nova "moda". Temas latentes na sociedade, naque- la época, foram associados ao assunto da Psicanálise ou abordados junto com ela: a eugenia, a raça, o caráter moral e hereditário, a virgindade, o casamento e a infidelidade, a educação dos filhos, a edu- cação sexual nas escolas, o feminicídio e outros assuntos. Em termos de controle da índole dos Su- jeitos e a fim de desenhar uma identidade nacional, foi feito algum uso político da Psicanálise por meio da divulgação da importância da educação sexual ligada à higienização moral. Alguns dos efei- tos possíveis da circulação do assunto da Psicanálise naquelas revistas foram dissociar o tratamento psicanalítico do tratamento da loucura e familiarizar o leitor comum com o vocabulário da Psicanáli- se e com o nome de Freud. Abstract “Fluctuates not sink”: Freud and Psychoanalysis in Brazil in the periodicals O Cruzeiro and Revista da Semana in the 1920s and 1930s — In its early days of dissemination and diffusion, Psychoanalysis in Brazil was a subject restricted to the academic environment and especially to Me- dicine and Psychiatry. Between the 1920s and 1930s, Psychoanalysis was impressed on the pages of the periodical magazines O Cruzeiro and Revista da Semana and was exposed and disseminated to a broad audience, the common reader. In magazines, Psychoanalysis appeared linked to Psychia- try, or as necessary to criminology, as an adjunct in various medical treatments, or as dream interpre- tation games and, also, Psychoanalysis appeared in mere mention in texts as if updating them to the new "fashion". Latent themes in society, at that time, were associated with the subject of Psychoa- nalysis or approached along with it: eugenics, race, moral and hereditary character, virginity, marriage and infidelity, education of children, sex education in schools, femicide and other issues. In terms of controlling the nature of the Subjects and in order to design a national identity, some political use was made of Psychoanalysis through the dissemination of the importance of sex education linked to moral hygiene. Some of the possible effects of the circulation of the subject of Psychoanalysis in those magazines were to dissociate psychoanalytic treatment from the treatment of madness and to familiarize the common reader with the vocabulary of Psychoanalysis and with the name of Freud. Résumé “Il est battu par les flots, mais ne sombre pas”: Freud et la psychanalyse au Brésil dans les périodiques O Cruzeiro et Revista da Semana dans les années 1920 et 1930 — À ses débuts de diffusion et de diffusion au Brésil, la psychanalyse était un sujet réservé au milieu universitaire et en particulier à la médecine et à la psychiatrie. Entre les années 1920 et 1930, la psychanalyse a été pré- sentée sur les pages des revues périodiques O Cruzeiro et Revista da Semana et a été exposée et diffusée à un large public, le lecteur commun. Dans les magazines, la Psychanalyse est apparue liée à la Psychiatrie, ou comme nécessaire à la criminologie, complément de divers traitements. * Antropóloga doutora pela Universidade Estadual de Campinas—Unicamp. Psicanalista.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 56 complément de divers traitements médicaux, est apparue sous la forme de blagues sur l'interpréta- tion des rêves et, aussi, la Psychanalyse est apparue en simple mention dans les textes comme si elle les mettait à jour à la nouvelle "mode". Des thèmes latents dans la société de l'époque étaient associ- és au sujet de la psychanalyse: l’eugénisme et la race, le caractère moral et héréditaire, le virginité, le mariage et l’infidélité, l'éducation des enfants, l’éducation sexuelle à l'école, le fémicide et autres pro- blèmes.En termes de contrôle de la nature des sujets et afin de concevoir une identité nationale, une certaine utilisation politique a été faite de la psychanalyse à travers la diffusion de l'importance de l'éducation sexuelle liée à l'hygiène morale. Certains des effets possibles de la circulation du sujet de la Psychanalyse dans ces revues ont été de dissocier le traitement psychanalytique du traitement de la folie et de familiariser le lecteur commun avec le vocabulaire de la Psychanalyse et avec le nom de Freud. Introdução O lema Fluctuat nec mergirtur, “Flutua, não afunda”, está no brasão da cidade de Paris, logo abaixo da figura de uma embarcação nas ondas. É a Paris da Idade Média com a vida às voltas do rio Sena e de economia mercantil: as ondas que sacodem nada afundam. Por ocasião dos ataques terroristas em série ocorridos em Paris, em novembro de 2015, aquele lema foi ressignificado. Em 1914, em versões com modificações feitas até 1924, Freud escreveu Contribuição à história do movimento psicanalítico e o primeiro capítulo tem a epígrafe Fluctuat nec mergitur. Nele, Freud repassa os seus avanços com a Psicanálise e, nisso, Freud pontua as crí- ticas dirigidas à Psicanálise e a si próprio. Freud revê a sua fala na conferência de 1909, na Amé- rica do Norte, em sua primeira fala pública so- bre a Psicanálise quando ele mesmo atribuíra a Joseph Breuer a criação da Psicanálise e, etão, corrige em 1914: não era Breuer o criador, co- mo afirmara naquela conferência, mas ele pró- prio, Freud, pois “as críticas e as injúrias” à Psicanálise não caem sobre Breuer, senão sobre “a minha cabeça”, diz ele (FREUD, [1914] 1965). Em linhas gerais, podemos apreender a Psicanálise proporcionada e construída pelas mãos de Freud como um meio para a cura do sofrimento Humano na busca para que a pul- são esteja em harmonia com o Ego. A técnica analítica se ocupa — na própria “prática analí- tica da cura” — dos efeitos que acompanham o sujeito até a vida adulta, das inscrições e en- gendramentos de um homem e de uma mu- lher em Sujeitos, “desde o nascimento até a liquidação do Édipo”. O Inconsciente e os seus efeitos, portanto, são o objeto e ofunda- mento da Psicanálise, de acordo com Louis Althusser, não a cura (ALTHUSSER, 1985, pp. 61-62). Existe, entre outras, a questão da institu- cionalização da Psicanálise e o “fechamento institucional” que a International Psychoa- nalytical Association — IPA, fundada em 1910, promoveu ao se constituir como uma instância burocrática e reguladora, tanto da formação de psicanalistas quanto da prática da psicanálise em âmbito mundial, levou a ci- sões1. Quanto à exigência da IPA do diploma de Medicina, Freud se posicionou desfavora- velmente, reafirmando não se tratar de uma questão de diploma, senão da experimentação do próprio Inconsciente do analista em análi- se, além dos conhecimentos teóricos para o exercício da Psicanálise (GUERINI & COS- TA, 2019, p. 15). A recusa da IPA da chamada “análise leiga” tenderia a transformar os psi- canalistas em “especialistas executores” em atuação coadjuvante aos médicos, o que foi apontado por Lacan, conforme observaram Guerini e Costa. Também, os psicanalistas norte-americanos ligados à IPA criticaram a noção de “pulsão de morte”, o que represen- tava, segundo Guerini e Costa, a negação da Psicanálise em si (ibidem). 1 a International Psychoanalysis Association— IPA surge no II Congresso de Psicanálise, aconte- cido em Nuremberg em 1910, Jung, já rompido com Freud, será o primeiro presidente da IPA e Otto Rank secretário. De acordo com Guerini e Costa, eram um católico e um ariano para desdize- rem que a Psicanálise fosse uma ciência judaica (GUERINI & COSTA, 2019, p. 14).

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 57 A transmissão da Psicanálise e o seu en- sino em universidades é outro tema recorrente. A questão paira, ao menos, na diferença entre o estudo “sobre a psicanálise” e a “prática” na formação do analista. A IPA vedava a formação de psicólogos psicanalistas e Ana Cristina Fi- gueiredo (FIGUEIREDO, 2008) nos conta como a Pontifícia Universidade Católica no Rio de Janeiro, na década de 1960, buscou formar “profissionais psicanalíticos” que, no entanto, não eram reconhecidos como psicanalistas na- quela época. Na atualidade, a transmissão em Psicanálise é acessada por todos os interessados com formações em diversas áreas e disciplinas2. De quantas críticas ou questionamentos — as sacudidas — tenham sido dirigidos à Psi- canálise, a Freud, aos discípulos e aos antago- nistas de Freud e, também, a outros psicanalis- tas e teóricos, não teremos em conta aqui. Po- rém, como no lema, elas teriam sido insuficien- temente capazes de aplacar a Psicanálise até os dias atuais. Essas mesmas questões — as diver- gências, as apropriações escusas e, inclusive os questionamentos quanto ao que é a Psicanálise e qual o seu objeto — alimentaram a própria Psicanálise, especialmente depois de 1909, se pudermos entender a conferência de Freud nos Estados Unidos como um marco simbólico da territorialização da Psicanálise para além de Vi- ena. Nas décadas de 1920 e de 1930, enquan- to no âmbito internacional e sob diversos aspec- tos, a Psicanálise estava em gestação- aprimoramento por parte de Freud e dos seus seguidores e antagonistas, no Brasil, a Psicanáli- se será apropriada por toda uma geração de psi- quiatras, entre as décadas de 1910 e 1940, se- gundo Rafael Dias de Castro, em tentativas de respostas à identidade nacional (CASTRO, 2015, p. 1453). É em meio a essa gestação que a Psica- nálise começa a ser difundida e tem disseminada a sua prática em terras brasileiras no eixo Rio de Janeiro—São Paulo, em uma época, como ob- servei em outra parte (URSINI, 2000), quando o imaginário civilizado expresso nas páginas d’O Cruzeiro titubeava entre a França e os Estados Unidos, entre o flanêur e o sportsman em um Bra- sil recém-saído formalmente do período da es- cravidão e mergulhado nas ideias de eugenia e de modernização, com a dura fórmula de que tais ideias seriam interdependentes. Este artigo aborda um período subse- quente ao início dos estudos em Psicanálise e de Freud no Brasil, após a publicação, no Brasil, da primeira dissertação sobre Psicanálise em 1914, de Genserico de Souza Pinto. O objetivo deste artigo é trazer um olhar acerca da circulação de algumas noções da Psicanálise por meio de duas das revistas periódicas mais proeminentes naque- le período no Brasil, a revista O Cruzeiro e a Revista da Semana, com a finalidade de mos- trar que a Psicanálise aparecia de diversas manei- ras e em contextos variados para um público ampliado nas páginas das revistas, enaquanto era difundia em círculos restritos ao meio acadêmico. Para tanto, foram consultados os acervos digitais das revistas O Cruzeiro e Revista da Semana3 disponíveis na hemeroteca da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro como uma maneira de demonstrar a amplitude de assuntos aos quais o tem Para olhar o assunto da Psicanálise nas revis- tas, é necessário um esfoço diferente: não se discutirá a análise leiga praticada por profissio- nais que não eram médicos, mas se tratará de um público amplo que toma contato com o assunto da Psicanálise nas páginas das revistas. 2 Na página da Sociedade Brasileira de Psicanálise— SBP, na Rede Mundial de Computadores, para a for- mação em Psicanálise consta que: a “formação psica- nalítica é oferecida a médicos e psicólogos graduados, registrados nos respectivos Conselhos Regionais” e a “aceitação de profissionais graduados em outras áreas do conhecimento humano ficará a critério da Comis- são de Ensino” (em https://www.sbpsp.org.br/formacao- psicanalitica/formacao/#conteudo, acessado em 05/01/2022). 3 Utilizei o termo de busca “psychanalyse” para ampli- ar as buscas além das menções exclusivamente a Freud e discípulos ou críticos (que o sistema lê, também, como “frevo”). De forma que o material analisado traz as vezes em que a Psicanálise aparece referida, mas não todas as ocasiões em que tenha bordada ou mes- mo aludida nas páginas das revistas.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 58 Quem eram esses leitores e leitoras? Os resul- tados imediatos são o vislumbre de outros ato- res, autores a falarem de Psicanálise e as no- ções de Psicanálise impressas e divulgadas nas revistas tendo como um primeiro — e benéfi- co, — efeito o distanciamento da imagem da Psicanálise do “tratamento de loucos”. 1 Psicanálise e seu campo nas suas primeiras décadas no Brasil Se pudermos indicar o ano de 1914 — com a publicação da dissertação em Medicina intitulada Da Psicoanalise: a sexualidade das nevroses (1914), do cearense Genserico de Souza Pinto — como uma data para a ins- tauração do campo da Psicanálise no País, não poderemos desconsiderar os esforços coletivos anteriores que o engendraram. Em 1899, no Brasil, os artigos de Freud são citados em conferências pela primeira vez por Juliano Moreira (1872-1933), negro e fun- dador da disciplina psiquiátrica no Brasil, o qual era professor na Faculdade de Medicina da Bahia (JACOBINA, 2014; CARRARA, 1996). Entre os precursores e pioneiros4 da Psicanálise no Brasil estão: o citado Juliano Moreira (Salvador e Rio de Janeiro), médico; Genserico de Souza Pinto (Ceará), médico, au- tor da já mencionada acima dissertação em 1914; Francisco Franco da Rocha5 (São Paulo), médico e autor da obra A doutrina pansexua- lista de Freud, 1920; João César de Castro6 (Rio Grande do Sul), com a tese Concepção freudiana das psico-neuroses, 19247; Durval Bellegarde Marcondes (São Paulo), psiquiatra e psicanalista, formado pela Faculdade de Medi- cina de São Paulo, viveu entre 1899 e 1981; Jú- lio Pires Porto Carrero, médico-militar, estudi- oso do alemão e inicia a clínica, no ano de 1923, em Psicanálise na Liga Brasileira de Higi- ene Mental (OLIVEIRA, 2002; SALIM, 2010; CARRARA, 1996, p. 161); Nise da Silveira, alagoana nascida em Maceió em 1905, estudou na Bahia e foi médica psiquiatra com trajetória marcada pelo “franco desacordo com o modo como eram tratados os esquizofrênicos asila- dos”, foi ela “uma inovadora nas técnicas de devolver a palavra aos 'loucos', de escutar a sua fala, de oferecer- lhes uma outra linguagem na qual se expressar - a das imagens” (CORRÊA, 2000); Arthur Ramos, referendado pela escola da Bahia, foi médico psiquiatra, antropólogo e folclorista, nascido em Pilar, no Estado de Alagoas em 1903, esteve interessado em estudar a loucura a partir da Psicianálise. Ligado à a Sociedade de Medicina Legal, Criminologia e Psiquiatria da Bahia. Arthur Ramos, em 1929, propôs a ori- entação das discussões naquela Sociedade para o controle “dos assuntos referentes à Psicanáli- se”, o que fez daquela Sociedade a “represen- tante oficial da Psicanálise junto à SBP” (ME- NEZES, 2014, p. 92). A Sociedade Brasileira de Psicanálise— SBP foi fundada, em São Paulo em 24 de ou- tubro de 1927, por Franco da Rocha e Durval Marcondes e foi a primeira sociedade psicanalí- tica na América Latina (JUNQUEIRA FILHO, 2000), tendo como seu presidente Francisco Franco da Rocha e como secretário 4 Sebastião Abrão Salim (SALIM, 2010) faz a dife- renciação entre pioneiros e precursores da Psicanálise no Brasil: os pioneiros interessados, logo de início no seu percurso, pela prática clínica e os precursores pe- las questões teóricas (idem). Entendo que essa distin- ção entre os esforços prático e teórico, identificada por Salim, se possa referir ao início da história da Psicanálise no Brasil. 5 Franco da Rocha era psiquiatra e nunca exerceu a Psicanálise. Com Durval Marcondes, fundou a pri- meira sociedade psicanalítica brasileira, a Sociedade Brasileira de Psicanálise —SBP, em São Paulo. Fran- co da Rocha escreveu O pansexualismo na dou- trina de Freud, Typografia Brasil de Rotschild que, publicado em 1920, teve grande sucesso (ROUDI- NESCO & PLON, 1998, p. 664). 6 João César de Castro e Martim Gomes foram precursores da Psicanálise em Porto Alegre, cujo movimento foi simultâneo ao Rio de Janeiro e a São Paulo, de acordo com Salim (SALIM, 2010), tendo os pioneiros se formado na Associação Psi- canalítica Argentina. 7 Foram essas três as primeiras publicações acadê- micas, com base nas teorias de Freud, sem reper- cussão expressiva no meio acadêmico ou cultural (SALIM, 2010).

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 59 Durval Marcondes; todos os discípulos de Juli- ano Moreira se tornaram membros da SBP (SALIM, 2010, p. 3). Para a fundação da SBP, Durval Marcondes reuniu médicos, artistas, educadores, escritores. Entre os nomes esta- vam: Franco da Rocha, que havia sido professor de Marcondes, Pedro de Alcântara Machado e Menotti Del Picchia. Em 1951, a SBP foi Marcondes, Pedro de Alcântara Machado e Menotti Del Picchia. Em 1951, a SBP foi chancelada pela International Psycho- analitic Association—IPA (MENEZES, 2014, p. 92). Nesse período de instauração do cam- po da Psicanálise no Brasil e da sua institucio- nalização, a Psicanálise andou próxima ou a partir da Psiquiatria e, de qualquer maneira, havia alguma confusão entre ambas que, de- pois, se dissipou; além do discurso higienista que imbuía a Psicanálise no Brasil naquele pe- ríodo (COUTO & SILVA, 2018, p. 3). O mé- todo psicanalítico, entre as décadas de 1920 e 1930, era utilizado “como mais um entre as técnicas de tratamento da psiquiatria”, observa Maria Odete Menezes (MENEZES, 2014). As intervenções no corpo dos pacientes (choques insulínicos e cardiozólicos, eletroconvulsotera- pia) estavam na base da terapêutica da Psiquia- tria com a relação médico-paciente ancorada na contenção e no asilamento. Já na Psicanáli- se, em contrário, a base terapêutica era a pró- pria relação médico-paciente. Diversos médi- cos psiquiatras, como Arthur Ramos, sugeri- ram a aplicação de ambas as técnicas (a labor- terapia, a endocrinoterapia e a choqueterapia juntamente com a Psicanálise ) “enquanto bus- cavam uma compreensão e aplicação do méto- do psicanalítico” (MENEZES, 2014, p. 95). Resta que a maior parte dos praticantes da Psi- canálise, os médicos, não se submetiam à análi- se naquela época. Afrânio Peixoto8, em 1918, introduziu as teses de Freud no seu curso de psiquiatria médico-legal ministrado na Faculdade de Me- dicina do Rio de Janeiro. Porém, o fez a partir de autores franceses, divulgando a Psicanálise em seus próprios estudos sem incorporá-la de todo nas suas clínicas, como o fazia a maior parte dos médicos que se aproximaram das te- orias de Freud (OLIVEIRA, 2002, p. 138)9. Tanto o estudo da Psicanálise pelo viés francês quanto o pouco conhecimento do alemão, no Brasil, foram apontados respectivamente por Medeiros de Albuquerque, em 1922, e por Franco da Ro- cha, em 1920, como obstáculos à difusão da Psicanálise no Brasil (OLIVEIRA, 2002, pp. 137-138). 8 Afrânio Peixoto (1876-1947), se formou na Facul- dade de Medicina da Bahia, foi discípulo de Raimun- do Nina Rodrigues. No Rio de Janeiro, trabalhou no Hospital Nacional de Alienados com Juliano Moreira e, também, participou da Liga Brasileira de Higiene Mental. 9 Figueiredo, na observação da discrepância entre a divulgação das teorias de Freud em estudos e a sua não adoção nas clínicas por parte dos estudiosos, se apoia em Jane Russo (RUSSO, 1998). 10 Medeiros e Albuquerque (José Joaquim de Cam- pos da Costa Medeiros e Albuquerque) viveu entre 1867 e 1934. Em 1924, publicou Os testes, em 1926, O hipnotismo, do que era adepto e divulga- dor, publicando artigos no Journal de Psycholo- gie Normale et Pathologique . Recifense, estu- dou em Portugal e, retornado ao Brasil, estudou com Emilio Goeldi e Silvio Romero; foi literato, professor, jornalista e diretor de vários jornais, foi deputado federal, ocupou a cadeira 22 da Academia Brasileira de Letras, autor da primeira reforma or- tográfica da língua portuguêsa no Brasil e autor do Hino da República. Interessado em Psicologia, fundou o peimeiro laboratório de Psicologia expe- rimental no país (BIBLIOTECA VIRTUAL DE PSICOLOGIA - BRASIL, s.d.). 11 Uma primeira tentativa fora feita em 1926 com a publicação de algumas páginas, por iniciativa do mé- dico Iago Pimentel, n’A Revista (BOTMANN, 2013, p. 159). Fundada por Carlos Drummond, Emí- lio Moura, Francisco Mastins de Almeida e Gregori- ano Canedo; com a direção de Francisco Martins de Almeida e Drummond; e entre redatores e colabora- dores: Pedro Nava, Emílio Moura, Gregoriano Ca- nedo, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, João Al- phonsus, Abgar Renault, Ronald de Carvalho e ou- tros. Era editada em Belo Horizonte e não ultrapas- sou a três números, sendo o último número em ja- neiro de 1926, onde consta “Sobre a Psycho-analyse, S. Freud”.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 60 A questão do idioma não se restringia somente ao maior ou menor acesso à teoria freudiana no original em alemão. A lígua fran- cesa, mais acessível, trazia o enviesamento francês que rechaçava o pansexualismo de Freud e a palavra “pansexualismo” possuía um sentido negativo na Europa, ao passo que no Brasil não (PLOTKIN, 2009, p. 67). Julio Pires Porto Carrero, em correspondência a Arthur Ramos, em 3 de janeiro de 1932, pro- cura acertar a tradução dos termos psicanalíti- cos na obra de Freud com a finalidade de esta- tizar tais termos na SBP para o segundo nú- mero da Revista Brasileira de Psychanalyse – Órgão da Sociedade Brasileira de Psychanalyse12, que não chegou a ser publi- cado: Devo dizer-lhe com franqueza que me re- pugna muito o “transferir”, pois que “transferência” traduz bem “Übertra- gung”. Outro termo, que na nossa no- menclatura recebeu tradução diversa da que a psicanálise emprega, é “trieb”. Tra- duzimo-la por “impulso”. O francês pos- sui apenas “impulsion” e “poussé”, aquela já empregada para significar a impulsão mórbida dos neuróticos coactos [neurose obsessiva], esta com o significado de “sur- to” ou “empuxo”; essa é a razão, parece- me, por que adotaram os franceses o neo- logismo “pulsion”; quanto a nós, porém, não estamos nesse impasse: de “treiben”, impeliu, “triebe”, impulso. Evidentemen- te, traduzir por instinto seria imprudente. Não sei se lhe agradará a nomenclatura da Sociedade; gostaria de ter o seu juízo. (Porto Carrero em carta a Arthur Ramos, 03/01/1932); transcrito em Rafael Dias de Castro (CASTRO, 2015, p. 1457). Antes, em 1914, havia sido publicado o primeiro livro sobre Psicanálise na França e a partir dele muito dos interessados em Psica- nálise tomaram contato com os conceitos de Freud. Intitulado La psychoanalyse des né- vroses et des psychoses, de Angelo Hesnard e Emmanuel Régis, com a tradução para o português publicada em 1923 — antes da tra- dução das Cinco lições... —, a obra apontava para uma latinização da Psicanálise em detri- mento das doutrinas germânicas (ibidem). No Brasil, segundo Plotkin, os médico foram mais receptivos e, em contrário aos médicos argen- tinos, o tema da sexualidade recebeu relevo porque a Psicanálise substituía, de alguma ma- neira, outras teorias que possuíam a sexualida- de em seu centro; dito de outra forma, “los brasileños enfatizaban lo que los argentinos reprimían” (PLOTKIN, 2009, p. 67). 2 Novidade e mudança O Movimento Modernista de 1922 se voltava para um nacionalismo “de raiz”, valo- rizando a lígua falada, a gente e os costumes no Brasil, moderno e tradicional poderiam es- tar misturados. Sendo as revistas, os folhetins e os jornais os únicos meio de comunicação e o rádio surgindo em 1922, temos que o público leitor, como apontou Souza (SOUZA, 2006), contava com a mídia impressa e o alcance da circulação dos impressos definiria o público leitor, dentre os quais, aqueles que soubesse ler. A abundãncia de fotografias nas revistas O Cruzeiro e Revista da Semana, na voga da fotorreportagem à época, pode ter ampliado o público das revistas, como indicou Ursini para O Cruzeiro. Pelas páginas d'O Cruzeiro, 12 O primeiro número da revista brasileira de psi- canálise data de junho de 1928 e foi uma iniciat iva de Durval Marcondes, cujo sumário contém: Ju- nho de 1928 - “A psicologia de Freud”, por Fran- co da Rocha; “Os mhytos e lendas na loucura”, Franco da Rocha; “Os nossos medos secretos”, J. Ralph; “O caráter do escolar segundo a psicanáli- se, Júlio Pires Porto Carreiro; “Um ‘sonho de exame’. Considerações sobre a ‘Casa de Pensão’ de Aluízio Azevedo”; “Brutos. Considerações psychanalyticas em torno de um facto historico”; e “Noticiario”. A finalidade da publicação era a de difundir a Psicanálise no meio intelectual e um se- gundo número chegou a ser gestado, mas não pu- blicado. De acordo com Marfinati e Abrão, após a única edição da revista em 1928; a sua edição vol- tou a acontecer em 1967 e, em 1975, a Sociedade Brasileira de Psicanálise—SBP de São Paulo pas- sou os direitos da revista para a Associação Brasi- leira de Psicanálise—ABP para fins de divulgação e sendo publicada até a atualidade (MARFINATI & ABRÃO, 2021).

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 61 a narrativa era a recomendação de que o tradi- cional-velho deveria ser abandonado, ao mesmo tempo em que reafirma os valores morais tradicionais de forma sistemática (UR- SINI, 2000). A revista O Cruzeiro, quando surge em 1928, se anuncia como nova, embora não seja tão diferente da Revista da Semana, edi- tada desde 1901, as olhando de longe na dis- tância dos anos e, também. O Cruzeiro ex- plorou os hábitos da gente do Rio e, talvez, a novidade d’O Cruzeiro estivesse no contraste que os leitores pudessem estabelecer entre a vida da gente do Rio estampada naquelas re- vistas e as suas próprias. Ao menos O Cru- zeiro, que trazia a novidade do corpo à mos- tra nas praias e o hábito de se frequentar praias, que antes eram frequentadas para ba- nhos terapêuticos ou pelos “capoeiras” em prática ilícita de jogarem a capoeira, poderia estabelecer algum contraste com o leitor mesmo que ele vivesse no Rio de Janeiro, pois o que a revista pretendceu trazer foi a novida- de nos costumes, como se sua mudança fosse inevitável junto com o crecimento das cida- des, em especial o Rio de Janeiro e São Paulo, com os “edifficios" e os “arranha-céos” que de seis passam a doze andares ou mais, como o Edifício Martinelli13 inaugurado em São Pau- lo em 1929; a arquitetura do “cimento arma- do” e uma verdadeira celebração da urbes e dos seus equipamentos estão entre as novida- des trazidas n’O Cruzeiro (URSINI, 2000). Ambas as revistas levam os assunto do Rio de Janeiro em suas páginas. A Revista da Se- mana circulava no Rio de Janeiro, já o O Cruzeiro, onde conseguisse chegar na sua cir- culação nacional. Na cena política, a mudança era contra a oligarquia em proveito de um Estado mo- derno, capaz de desenvolver suas forças pro- dutivas. Getúlio Vargas assume o poder por meio do golpe em 1930, o seu Governo Pro- visório, até a Constituição de 1934, já trazia as preocupações com alguns dos princípios da Administração Pública tidos na atualidade14: a eficiência, a economicidade e a impessoalida- de. Outras medidas foram continuadas na Constituição de 1937 no sentido do mérito do agente público com o bojetivo do mérito da técnica sobre as motivações políticas de cará- ter e inrteresses privados. O Estado transitou de uma política oligárquica para autoritária no período de 1930 a 1940 com Vargas, a Admi- nistração Pública passou do patrimonialismo para se tornar burocrática inspirada em prin- cípios weberianos, a sociedade passou de mer- cantil-senhorial para começar a se tornar capi- talista-industrial, segundo classificação de Bresser-Pereira. Nada foi tão simples ou bem- sucedido: a inspiração em Max Weber descon- siderava o caráter tradicional e patrimonial do Estado brasileiro; a reforma burocrática, em 1936, foi tardia e já era urgente a reforma ge- rencial, só tornada possível mais recentemente com a democracia mais tarce, já em tempos de globalização (BRESSER-PEREIRA, 2001). A Psicanálise abordada nas páginas das revistas compõe esse clima que se pretendeu de novidade para tão logo nela ser vislumbra- da alguma tentativa de controle sobre a moral, os costumes e índoles confundidas com ins- titnto. 3 Nas páginas d’O Cruzeiro e da Revista da Semana A Revista da Semana circulou entre 1900 e 195915. Nos seus primeiros anos, a revista era dedicada à figura masculina e, em 1915 — de- pois de ser vendida a três compradores,16 13 Planejado com doze andares e inaugurado em 1929, na cidade de São Paulo, depois, continuou a ser elevado a trinta andares. 14 No artigo 37 da Constituição Federal de 1988, vigente, e no artigo 2º da Lei nº 9.784 de 1999. 15 Fundada por Álvaro de Tefé, as primeiras edi- ções traziam logo acima do título o que o leitor encontrava em seu conteúdo: “Photographias, vis- tas instantâneas, desenhos e caricaturas”. Tão logo chegou ao público, em 20 de maio de 1900, a Re- vista da Semana foi vendida ao Jornal do Brasil com a ajuda de Medeiros e Albuquerque e Raul Pederneiras, de acordo com Nelson Werneck So- dré (SODRÉ, 1999, p. 297). 16 Em 1915, foi vendida a Carlos Malheiro Dias, Artur Brandão e Aureliano Machado (SODRÉ, 1999, p. 297).

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 62 entre eles Carlos Malheiro Dias quem, mais tarde, fundou a revista O Cruzeiro (URSINI, 2000) —, passou a trazer a imagem feminina. A mudança editorial migra dos políticos, cien- tistas, criminosos, médicos para as atrizes, o riso, a educação, a higiene, a saúde, os conse- lhos, a amabilidade, a “moça moderna”, o ca- samento e toda uma sorte de temas repousa- dos nas mulheres como se fossem intrínsecos a elas17. A revista contou com diversos cola- boradores renomados18 que, da mesma forma como se passou com O Cruzeiro, a referen- davam. O Cruzeiro circulou até 1989 chegan- do ao público em 10 de novembro de 1928, quando se autopronunciava “a mais moderna revista brasileira”, por causa das máquinas uti- lizadas na sua impressão, no uso de cores (uma página de cada cor: verde, azul, sépia) e a sua circulação nacional19. Com publicação se- manal, O Cruzeiro surge em uma época quando uma elite se sentia representada no discurso médico-sanitarista ao mesmo tempo em que uma população pobre passou a ser vista como perigo para a “boa sociedade”. Os “perigos” tinham nomes: eram “a sífilis, o dos prazeres do sexo, o das epidemias, o da dege- neração da raça — leia-se: dos brancos — e com ela a degeneração da civilização”. Nesse jogo de forças desiguais, porque mesclados às políticas públicas, o próprio discurso médico- sanitarista pleiteou se estabelecer e transpor- tou os problemas de ordem social ou jurídica para a ordem médica. Ou seja, “desordem so- cial e patologia clínica estavam sendo pensa- das juntas” (URSINI, 2000, pp. 30-31). Os trechos destacados das duas re- vistas e aqui reunidos, a seguir, podem dar a impressão de que o assunto “Psicanálise” to- masse a cena nas páginas de ambas as revistas, o que não é verdade, pois são poucas as ocor- rências relacionadas à Psicanálise20 Trazer os trechos das revistas, com algum fôlego, para es- te artigo tem as finalidades de mostrar para a leitora e para o leitor como as ideias associadas à Psicanálise apareceram naquelas revistas e, também, de dar a chance aos leitores de discor- darem das minhas observações. 3.1 O Cruzeiro1929 A revista O Cruzeiro (na época chamada apenas “Cruzeiro”) publicou, na edi- ção de 20 de abril de 1929, o registro feito por Menotti Del Picchia da homenagem ao palhaço Piolin sob o título “Piolin Moqueado: homena- gem dos artistas de São Paulo ao creador de um gênero artístico”. O almoço aconteceu em São Paulo, nas dependências do Mappin Stores, a loja de departamentos fundada em 1913 no Brasil (porém, era inglesa existindo desde o 17 Eliza Bachega Casadei (CASADEI, 1980) traz uma análise e, também, uma estatística da presen- ça dos temas e das imagens feminina e masculina na Revista da Semana. 18 Destaco, dentre os apoiadores da revista, Medei- ros e Albuquerque (José Joaquim de Campos da Costa Medeiros e Albuquerque) viveu entre 1867 e 1934. Em 1924, publicou Os testes, em 1926, O hipnotismo, do que era adepto e divulgador, pu- blicando artigos no Journal de Psychologie Normale et Pathologique . Recifense, estudou em Portugal e, retornado ao Rio de Janeiro, estu- dou com Emilio Goe ldi e Silvio Romero; foi lite- rato, professor, jornalista e diretor de vários jor- nais, foi deputado federal, ocupou a cadeira 22 da Academia Brasileira de Letras, autor da primeira reforma ortográfica da língua portuguesa no Brasil e autor do Hino da República. Foi vice-diretor do Ginásio Nacional (antigo Colégio Pedro II, assim renomeado pela nova República) nomeado por Benjamin Constant. Interessado em Psicologia, fundou o primeiro laboratório de Psicologia expe- rimental no país (BIBLIOTECA VIRTUAL DE PSICOLOGIA - BRASIL, s.d.). 19 Deve-se ter em mente que a navegação era qua- se de cabotagem à época e que as estradas não es- tavam ramificadas (URSINI, 2000). Desconheço a logística da distribuição da revista, o que seria uma interessante pesquisa. 20 Na pesquisa estatística no acervo digital da Bi- blioteca Nacional do Rio de Janeiro, onde as edi- ções das revistas foram pesquisadas, traz ao longo do período de existência da Revista da Sema na, por exemplo, 41 ocorrências para a palavra “psychanalyse” — e destas, 24 ocorrem na década de1920 — ao passo que para as palavras aleatori- amente escolhidas, a ocorrência é maior: “deputa- do”, 3.671 ocorrências e “beterraba”, 97; na revis- ta O Cruzeiro o mesmo acontece.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 63 século XVIII), com salão de chá, e que era o ponto de encontro das senhoras da sociedade das famílias dos barões do café. Piolin (Abe- lardo Pinto, que viveu entre 1897 e 1973), foi apontado pelos artistas modernistas como o criador de um gênero artístico e a ocasião foi uma homenagem dos artistas ligados ao Mo- vimento Antropofágico inaugurado em 1928, cujo propósito era canibalizar a arte eurocen- trada e dela retirar o que prestasse. No texto publicado n’O Cruzeiro, de autoria de Me- notti Del Picchia, estão mencionados alguns dos presentes no almoço: Tarcila do Amaral; Anita Malfatti; as esposas de Silva Telles, de Guilherme de Almeida e de Bejamin Péret21, este último mais tarde expulso por Getúlio Vargas em 1931. Entre outros presentes esta- va Antonietta Rudge22, quem organizara a homenagem a Piolin e ao seu encarnador Abe- lardo Pinto. Sem “seita, preconceito ou snobismo”, escreveu Del Picchia23 naquela edição d’O Cruzeiro, “o circo é matriz ingenua e limpa da arte scenica” e nele “há instincto e o instin- cto — mesmo que não tivesse em moda Freud — é a verdade nua e crua da alma hu- mana”. Nessa brevíssima alusão ao Inconsci- ente em analogia a uma verdade radical, Me- notti Del Picchia descreve Piolin alinhado à arte brasileira; esta que, “procurando suas ver- dades mais recondidas, deixa de ser um totem nas mãos das falsas ‘élites’ para adherir á indo- le exacta do nosso povo”. Diante do espetácu- lo de se ter Piolin, o personagem de artes mais democráticas, Menotti Del Picchia exorta os “caciques do pensamento paulista” a fazerem “a psycho-analyse publica desse recalcamento collectivo da admiração e do gozo espiritual”. Ao que parece, esse convite crítico pode ser interpretado dirigido, também (talvez, princi- palmente), aos presentes naquela ocasião de origem de famílias com tradição política e econômica, o próprio espaço do Mappin co- mo ponto de encontro da elite que se criticava e, também, alguns dos integrantes do movie- mento modernista que tinham origens na elite cafeeira. A capa d’O Cruzeiro daquela mesma edição de 20 de abril de 1929 d’O Cruzeiro é da Miss Brasil, Olga Bergamini de Sá, em pastel de Carlos Chambelland. Na seção “Dona na Sociedade”, o texto “A proclamação de ‘Miss Brasil’” traz algumas impressões acerca do concurso de Miss Brasil acontecido no estádio do Fluminense, no Rio de Janeiro, entre as quais, a observação do doutor Carneiro Aryosa, apontado “especialista em Psycha- nalyse” e que teria dito ele: “Eu acho que de- viam ter collocado o professor Porto Carrero no jury. Porque em Galveston quem decide, depois de tio Sam, é Freud...”. A referência de Ayrosa a Porto Carre- ro provavelmente se deveu à proximidade en- tre ambos que encabeçavam as atividades da sede da SBP no Rio de Janeiro desde 21 Benjamin Péret (1899-1959) era poeta francês que viveu no Brasil. 22 Pianista renomada, Antonietta Rudge (1885- 1974) era esposa de Charles Miller, quem introdu- ziu o futebol no Brasil, e viveu com Menotti Del Picchia a partir de 1934 até o falecimento dela (DACORSO & NOGUEIRA, 2011). 23 Paulo Menotti Del Picchia (1892-1988), paulista, advogado, ensaísta, pintor e ativo participante da Semana de Arte Moderna no Teatro Municipal de São Paulo entre 13 e 18 de feverei ro de 1922. En- tre os anos de 1920 e 1940 dirigiu o jornal A Noi- te (1911 -1957) e a revista quinzenal A Cigarra, foi vencedor do Prêmio Jabuti com a obra literária Juca Mulato (1917). As vertentes do modernismo com o manifesto do Pau-Brasil e o Manifesto An- tropofágico praticaram o nacionalismo crítico sob o comando de Oswald de Andrade; o Manifesto do Verde-Amarelismo (ou da Escola da Anta), que “traz sementes do nacionalismo fascista” e tem o comando de Plínio Salgado e dele participam Gui- lherme de Almeida, Menotti Del Picchia e Cassia- no Ricardo. A ambiguidade de filiação política — o Modernismo de orientação a promover rupturas no status-quo e o Integralismo, marcando a oposi- ção aos movimentos de esquerda e ao capital fi- nanceiro —, o fascínio pelo crescimento da cidade de São Paulo promovido pelo capital, talvez, tenham sido razões para Del Picchia ter sido “deixado de lado” pelo grupo modernista (DACORSO & NOGUEIRA, 2011).

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 64 fevereiro de 1929. Carneiro Aryosa24 havia trabalhado no Hospital de Alienados, entre 1918 e 1922 e, mais tarde, se tornou membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise—SBP- Seção Rio, fundada em 1927 por Porto Carre- ro e Juliano Moreira como uma “filial” da SBP de São Paulo. Em fevereiro de 1929, foi acor- dado25 que a sede da SBP estaria no Rio de Ja- neiro e não mais em São Paulo, onde ficaria “o primeiro dos Departamentos Estaduaes desta” (PORTO CARRERO, [1929] 2002, p. 156). A menção a Galveston (Texas, Esta- dos Unidos) é a referência ao concurso inter- nacional de Miss. No Brasil, havia o concurso de Miss Brasil criado e organizado pelo jornal A Noite, e em 1929, foi a primeira vez que uma representante brasileira, a Miss Brasil, foi para o concurso internacional em Galveston: Olga Bergamini de Sá, carioca, Miss Brasil- 1929, não ficou entre as dez candidatas classi- ficadas. Escreveu a Iracema, que assinava a seção “Cartas de Mulher”, n’O Cruzeiro em 22 de junho de 1929: “O que a cidade de No- va York viu desembarcar pelo braço do Con- sul do Brasil não foi uma vaidosa mulher bo- nita, mas sim uma recatada moça de familia, graciosa e quase timida” e o texto segue para trocadilhos da “honra da beleza” e “a beleza da honra”. Antes, em “’Miss Brasil’, symbolo nacional” publicado na edição de 27 de abril de 1929, Peregrino Junior26 escreveu que “desde a escola nos ensinam systematicamente exageros encantadores: que o Brasil é o país mais bello, mais forte, mais rico e maior do mundo”, e continuou: “a gente cresce com es- sas idéas no sub-consciente” e que, por isso, acreditaríamos ser a mulher mais bela do mundo a miss e que a ida dela a Galveston te- ria, portanto, “uma significação nacional” e “a Patria na berlinda”. Na seção “Cinelandia”, da revista O Cruzeiro, a atriz alemã Briguitte Hehn é elo- giada pela atuação no filme “Crisis”, de Pabst, com o seguinte comentário: uma “pellicula de psychologia moderna, que explica a infidelida- de feminina, de accordo com as teorias de Freud”. “Um homem inchoerente”, um conto “especial para Cruzeiro”, publicado em 18 de maio de 1929 (pp. 26, 27, 39), conta a história de um rapaz que possui uma doença e que re- siste bravamente às tentativas de penetrarem- lhe no Inconsciente porque é ele mesmo mé- dico e reconheceu o método quando quise- ram-lhe aplicar “o maravilhoso tratamento preconizado por Freud: a psychanalyse”. Es- tranhemente o tratamento aparece, nesse con- to, sem que seja, estabelecidos os termos com o paciente e, porconseguinte, a concordância deste. Os contos eram comuns na revista e, longos, ultrapassavam páginas. Esse conto, em particular, é de autoria de Elias Davidovich (1908-1998)27, russo naturalizado brasileiro, médico e tradutor que fez parte do grupo or- ganizado por Porto Carrero28 para traduzir Freud diretamente do alemão. Faziam parte do grupo: Moysés Gikovate e Odilon Gallotti além de Porto Carrero e de Elias Davidovich. Desde o primeiro número da revista O Cruzeiro, a seção “Carta de Mulher”, trazia o embate entre o o tradicional e o moderno, o campo e a cidade onde uma tia da roça e a uma moça moderna encenavam o velho e o novo. O jazz, o tango e o maxixe, o cabelo cortado curto, a boca pintada de 24 Carneiro Ayrosa atuou na Neurologia, Psiquiatria e Psicanálise (PORTO CARRERO, [1929] 2002) 25 Acordado entre: Juliano Moreira, Murillo de Campos, Deodato, Carneiro Ayrosa, Durval Mar- condes, Osorio Cesar e Porto Carrero (PORTO CARRERO, [1929] 2002). 26 João Peregrino da Rocha Fagundes Junior (1898-1983), de Natal, Rio Grande do Norte, jor- nalista e médico, se tornou membro da Academia Brasileira de Letras—ABL em 1945 (vide site da ABL). 27 Ilustrado por Carlos Chambelland (1884-1950), pintor, decorador trabalhando para o governo em trabalhos de decoração e em Pernambuco, entre 1912 e 1915, estuda os costumes locais e o seu in- teresse é despertado no que acredita estar ali man- tida a cultura intacta tipicamente regional (ITAÚ, 2015).

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 65 organizado por Porto Carrero28 para traduzir Freud diretamente do alemão. Faziam parte do grupo: Moysés Gikovate e Odilon Gallotti além de Porto Carrero e de Elias Davidovich. batom vermelho e o cigarro, uma flapper norte- americana eram as imagens encarnadas por Lucia, a sobrinha que viva no Rio de Janeiro e a sua antagonista, sua tia. Em 1929, Iracema, a tia, revela que sua sobrinha moderna não exis- tiu, explica que criou a personagem para alertar as mães acerca dos perigos da vida moderna e conta que diversas mães “dos estados” escre- veram à Iracema pedindo para cessar de publi- car esse “pernicioso exemplo” invejado por “moças que ainda se conservam fieis á antiga disciplina familiar” (URSINI, 2000, p. 62). É possível que nem mesmo Iracema existisse, pois este era o pseudônimo de Carlos Malheiro Dias na seção “Cartas de Mulher”, no plural, na Revista da Semana e que circulou entre 1914 e 1918 e em 1928 Carlos Malheiro Dias fundou O Cruzeiro (COUTO, 1992). Depois, a seção “Carta de Mulher” n’O Cruzeiro dei- xou de existir e deu lugar a “Carta ás mães”, uma seção adaptada dos escritos do “Professor Wilhelm Stekel de Viena”, dirigida à educação dos filhos (URSINI, 2000, p. 64). A adaptação de Stekel29 para O Cruzeiro é do Dr. Martinho Rocha Junior, médico com especialização na Faculdade de Berlim e, segundo Anderson Narciso (NARCISO, 2016, p. 109), quem teve a iniciativa de inserir o exame antromotétrico no ambiente escolar por volta de 1916, com a criação do Gabinete Antropométrico em São Paulo, que permitiria identificar os problemas de saúde do aluno e conhecê-lo melhor como prática aliada à inserção do ensino de higiêne na escola (NARCISO, 2016, p. 109). 1930 “O novo mundo que se descobriu! Im- pressionantes phenomenos da Vida Psychica”, texto escrito por De Mattos Pinto30, publicado n’O Cruzeiro em 3 de maio de 1930 (p. 15), que traz uma discussão com a Filosofia, a Psi- canálise e nela menciona Freud e Jung. A crítica anônima à aproximação que faz a literatura da Psicanálise aborda a “voga avassa- ladora dos romances freudianos”, na crônica in- titulada “A pathologia no romance”, publicada n’O Cruzeiro em 7 de junho de 1930. O texto afirma que a literatura, tanto o quanto a moda, estão sujeitas a variações, o que o texto diz ser benéfico, e pergunta: “a moda reclama assump- tos freudianos?”. A questão abordada no texto é o mercado literário e nele “os romancistas do nosso tempo descobriram na observação clinica um precioso filão” e, também, os editores: “qua- se sempre o exito do editor, é incomparavelmen- te maior que o do autor, que, depois de digerir varios manuaes de psichiatria e de psychacanaly- se, só consegue fazer rir ou médico em cujas mãos cai por acaso o seu romance”. 1933 A psychologia profunda ou psycha- nalyse é o título da mais recente, em 1933, obra de Julio Pires Porto Carrero que integra a coleção científica dirigida por Afrânio Peixoto e, também, o título do comentário, de página inteira, à obra de Porto Carrero publicado no frontispício da revista O Cruzeiro em 14 de janeiro de 1933. O comentário, assinado por Hernani de Irajá, situa Porto Carrero em rela- ção a Freud e à Psicanálise: “Ninguém poderá hoje em dia falar em psychanalyse no Brasil, sem citar o nome de Julio Porto Carrero”. O texto apresenta Porto Carrero como um estudioso apaixonado da obra de Freud e que por ter ele assimilado e compreendido “tão bem a doutrina do mestre de Viena (...) temos a impressão de ser a psycha psychanalyse crea- ção de Porto Carrero”. 28 O primeiro livro que publicou era intitulado En- saios de psicanálise, de 1929, cujo objetivo era do de divulgar a doutrina de Freud tanto aos especialis- tas quanto ao público leigo (BIBLIOTECA VIR- TUAL DE PSICOLOGIA - BRASIL, s.d.). Porto Carr ero nunca foi analisado, como todos os fundadores do freudismo no Brasil (ROUDINESCO & PLON, 1998, p. 594). 29 Stekel (1868-1940) era psiquiatra austríaco, um dos primeiros seguidores de Freud e frequentador da Sociedade Psicológica das Quartas-feiras, criada em 1902 e inicialmente, frequentada por Stekel, Federn, Graff e Reitler (CROMBERG, 2010). 30 Jornalista, também, colaborava com o Jornal da Manhã (PENJUN, 2020, p. 483).

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 66 Detalhe da página d’O Cruzeiro (14/01/1933) com o frontispício trazendo o título; notar o perfil da paisagem no Rio de Janeiro para a revista que se anunciava nacional. No seu comentário ao livro de Porto Carrero, Hernani de Irajá imagina reações dos leitores comuns que, “meio incréos, meio confiantes” se vão embrenhar “pela symbologia dos so- nhos com ares de advinhos ou decifradores de charadas”. O leitor “indigna-se, enraivece- se, diz para os visinhos: — Isto é uma barba- ridade, (...) sem nenhum fundamento!”, com- pleta o comentarista Hernani de Irajá: “Diz tudo isso, mas não larga o livro”. Ao témino da leitura do livro, segundo Hernani, pensari- am os leitores: “Têm graça esses medicos de hoje!”. O leigo em psychanalyse es- candalisa-se com a leitura explicativa do consciente e inconsciente, da crea- ção da censura e do recalcamento e mais recalcamentos e transferencias, para, no auge da admiração, corar de indignação ao topar com os comple- xos de O edipo e de castração. (Her- nani de Irajá em “A psychologia pro- funda ou psychanalyse”. (O Cruzei- ro, 14/01/1933). De forma polifônica, o texto de Hernani de Irajá possui vários endereçamentos. Ao co- mentar a obra de Porto Carrero, Irajá faz a dis- tinção do pansexualismo de Bleuer, difundido para a Psicanálise a partir de uma crítica de Bleuer a Freud, apontando erro nessa confusão. Provavelmente, Irajá dialoga com os estudiosos de Psicanálise a partir das obras francesas. Freud seria um quase gênio por sua sis- tematização da fenomenologia física e sexual (Irajá não menciona “psíquica”) para um equi- líbrio, comenta Irajá, capaz de chegar à gênese das “psychoneuroses, dos impulsos para o cri- me, a genese do artista, as sublimações”. Aqui entrevemos os empenhos depositados na Psi- canálise como uma resposta científica às maze- las sociais que transbordam o Sujeito e que es- tarão ligados à confiança na Psicanálise para moldar esses mesmos Sujeitos, desde a infân- cia, por meio da educação sexual. Diz Hernani de Irajá que Freud seria, de fato, gênio se a Psicanálise fosse aplicada “ás es- colas penaes e á sociologia”, equiparando Freud a Einstein, do qual já se devia o leitor ter ouvido antes e, com isso, já oferecendo aos leitores, como que estabelecido, o nível de ciência para a Psicanálise. No texto de Irajá publicado na revis- ta O Cruzeiro, os termos “recalcamento”, “psychoneuroses”, “impulsos”, “transferên- cias”, “complexo”, “consciente e inconsciente” corroboram para igualar os assuntos “Psicanáli- se” e “Ciência”, porque são termos técnicos, ao mesmo tempo em que familiariza o leitor ao vo- cabulário psicanalítico. Na edição d’O Cruzeiro de 12 de agosto de 1933, é publicada uma série de fotografias: Freud lendo um livro no jardim; Freud com dois dos seus filhos, Jean Martin e Ernest, que eram

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 67 tenentes do Exército Austríaco; um retrato de Freud aos sete anos de idade; fotografia da fa- chada do Instituto Freud em Berlim; a porta de entrada da sua casa com um cartaz do açougue vizinho com o preço da carne logo abaixo da plaqueta onde está escrito “Prof. D. Freud”; um panorama da rua Berggasse em Viena, onde Freud viveu até antes da Segunda Guerra. O ar- ranjo das imagens traz a atmosfera de penetra- ção na intimidade de Freud e o texto, já no seu início, informa que qualquer jornalista que se aproximasse teria a resposta de que ele, Freud, não recebe jornalistas. No entanto, as fotografias são de diversas datas e contextos mesclados em uma colagem e sobreposições que conferem um movimento onde não há: a rua Berggasse para- da, Freud recostado lendo um livro e estando praticamente imóvel em quatro “cliques”, Freud apoiado em um banco. A fotografia com os fi- lhos é de 1916, o retrato na idade de sete anos e outro os 76 anos, na ocasião da entrevista reali- zada pelo jornalista Nicolas Bandy31, publicada na revista francesa Vu e, depois, reescrita por Victor Perelet para O Cruzeiro em 1933. 1934 Em outra edição da revista, o livro Maria Antonietta, de Stefan Zweig, é anun- ciado na seção “Livros novos” d’O Cruzeiro em 20 de janeiro de 1934, em uma tradução de Medeiros e Albuquerque32. Zweig corres- pondia-se com Freud, que leu a obra de Zweig em 1931 e concordara com Zweig acerca da natureza da sugestão ainda não estar descoberta (ROUDINESCO & PLON, 1998, p. 510). Freud é outra obra de Zweig, que reúne ensaios. Austríaco, Zweig viveu no Brasil33, foi biógrafo, novelista e romancista dito n’O Cruzeiro “discipulo dileto de Freud”. Também, na seção “Livros Novos”, d’O Cruzeiro, em 31 de março de 1934, está anunciada a obra A Psychanalyse (Theoria sexual de Freud), de Angelo Hesnard (1886- 1969), postulante de uma Psicanálise cartesia- na. A propaganda da obra diz ser ela indispen- sável porque “permitte a formação de um juizo seguro sobre doutrina tão controvertida”. É pela via de uma crítica de Hasnard à obra de Freud que o pansexualismo foi lido e dissemi- nado para um maior número de leitores no francês que no alemão original de Freud. Ha- via, segundo Roudinesco e Plon, alguma ger- manofobia, após a Primeira Guerra, associada à obsceção pelo nacionalismo na França e ao antissemitismo. A ideia era a de “afrancesar” as teorias de Freud moldando-as a um “gênio la- tino”. Em lugar de ciência com proposições universais, a Psicanálise foi tratada como parti- cularizada como germânica da mesma forma a teoria da relatividade de Einstein (1879-1955) (ROUDINESCO & PLON, 1998, pp. 120, 250), Nobel de Física em 1921. As divergências rebateram na IPA no intuito de “francesar”, tam-bém, o vocabuário da Psicanálise, tendo no outro polo das cisões Loewenstein, Marie Bonaparte e Saussure (idem, p. 251). 31 Trata-se do jornalista Nicolas Brandy, da revista francesa Vu, especializada em fotojornalismo, em es- tética e movimentos artísticos, publicada na França entre 21 de março de 1928 e 5 de junho de 1940 (VEIGY & FRIZOT, 2009). O Cruzeiro, que se anunciava uma “Revista Semanal Illustrada”, certa- mente contou com a Vu como inspiração ou mesmo a Revista da Semana; pois, a norte-americana Life lançou o seu primeiro número em 23 de setembro de 1936. 32 José Joaquim de Campos da Costa Medeiros e Al- buquerque (1867-1934), publicou Os testes, em 1926, O hipnotismo, do que era adepto e divulga- dor, publicando artigos no Journal de Psychologie Normale et Pathologique. Recifense, estudou em Portugal e, retornado ao Brasil, estudou com Emilio Goeldi e Silvio Romero; foi literato, professor, jorna- lista e diretor de vários jornais, foi deputado federal, ocupou a cadeira 22 da Academia Brasileira de Le- tras, autor da primeira reforma ortográfica da língua portuguesa no Brasil e autor do Hino da Repúbli- ca. Interessado em Psicologia, fundou o primeiro la- boratório de Psicologia experimental no país (BI- BLIOTECA VIRTUAL DE PSICOLOGIA - BRA- SIL, s.d.). 33 Foi Zweig quem proporcionou o encontro em Vi- ena, o único, em 14 de maio de 1924, entre Freud e Romain Rolland (1866-1944), escritor francês admi- rado por Freud (ROUDINESCO & PLON, 1998, p. 667). Stefan Zweig (1881-1942), nasceu em Viena e se suicidou juntamente com sua esposa, na casa do casal em Petrópolis, no Estado do Rio de Janeiro, deprimido pela ascensão do nazismo na Europa (FIOCRUZ, 2019). A residência em que viveram e onde morreram é hoje aberta ao público.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 68 Publicação n’O Cruzeiro de 12 de agosto de 1933, a partir da fotorreportagem de Nicolas Brandy traduzida da revista francesa Vu.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 69 Na mesma coluna estão anunciadas as obras: Mulheres e monstros, de João de Mi- nas; a coletâna de contos Sino quebrado, de Alves da Ribeirinha (Antônio Augusto Pousa- da); Karl Marx, de Max Beer; Pirapora, de Afonso Schmidt; O cavalleiro de Itararé, de Plínio Salgado. Um texto sobre a “russa” Alla Petrowa — soldada do Exército Vermelho de Trabalhadores Camponeses (1918-1946), fun- dado por Trótski — e a particiapção das mulhe- res ladeia a coluna “Livros Novos”; e a página inteira tem entremeados os seguintes anúncios: Opilina, para opilação; Trepargyl, para sífilis e Odol, para o hálito. Na página anterior estão diversas receitas sob o título “O que fazer com o presunto” e na página atrás, fotografias em “Idéas sobre o conforto Moderno” trazem o ambiente da casa iluminado, paredes limpas de quadros. A sala de leitura possui a janela aos moldes do ar- quiteto Gregori Warchavchik (1896-1972): perfazen- do o canto sem pilastras e amplos vidros e, no caso des- sa janela, o canto é arredondado. Warchavchik chegou ao Brasil em 1923, no momento do “desrecalque loca- lista”, depois da Semana de Arte Moderna de 22, quando os polos vanguardistas italiano e francês mi- gram para o polo alemão (LIRA, 2007, pp. 158, 164). Detalhe de “Idéas sobre o conforto Moderno”; O Cruzeiro, 31/03/1934. Ainda, na edição de 31 de março de 1934, os hábitos ou as manias dos artistas de Hol- lywood são lidos a partir da teoria de Freud, quem é referido como “o mestre-papa em psycho-analyse”. O hábito de lavar as mãos “um desnecessario numero de vezes por dia” demonstra que o indivíduo “o faz as- sim porque ele sente no seu sub-consciente uma falta de limpeza moral” escreveu Ma- rius Swenderson, apresentado na revista como correspondente “especial de Hol- lywood para O Cruzeiro”, cujo título era “Diz-me teus habitos...”. O autor menciona não conhecer qualquer ator ou atriz em Hollywwod que possua tal hábito, senão o tamborilar dos dedos enquanto concedem entrevistas e outros tantos hábitos atribuin- do-os nominalmente a atores e atrizes da Broadway. A menção A Freud é fortuita, o importante no texto é a atmosfera de pro- ximidade e convivência com atros e estrelas de Hollywood; o cinema e a intimidade dos hollywoodianos eram assunto de grande in- teresse na revista. Em outras edições d’O Cruzeiro, Swenderson continua a relatar episódios seus com atrizes e a se referir a Freud. O detalhe é que “Marius Swender- son” era pseudônimo de Accioly Neto (BONADIO & GUIMARÃES, 2010), dire- tor d’O Cruzeiro naquele período.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 70 “A mulher no lar”, em 5 de maio de 1934 n’O Cruzeiro, traz trajes feminimos para esportes como o golf, a montaria e o tênis. Há a advertência: “a mulher, em todas as occasiões da sua vida, não deve esquecer de que é mu- lher” e emenda que “a masculinidade no sexo feminino, cheira a qualquer coisa de suspeito, que em Medicina tem uma classificação arran- jada por Freud”. Sem a explicação do que seria esse arranjo, os leitores podem interpretam como bem entendem e não têm maiores ele- mentos para discordarem ou concordarem da afirmação. Estando disponível, desde pelo me- nos 1905, em Um caso de histeria: três en- saior sobre a sexualidade e outros trabalhos, a percepção de Freud quanto à escolha de in- vestimento em um objeto de desejo distanciada da causalidade biológica fosse na homossexua- lidade ou na heterossexualidade. Em outra edição da revista, os ensaios da peça “Sexo” são objeto de uma reportagem n’O Cruzeiro em 27 de outubro de 1934. Diz a redação a revista que a peça “aborda um thema audacioso e de maior actualidade, o da sexuali- dade em sua em sua funcção social, á luz das conquistas experimentais de Freud”. A peça, um projeto do Teatro-escola34, era um “empre- endimento de cultura artistica que o governo confiou ao escriptor Renato Viana”35. 1937 Um conto policial Quentin Reynolds36 em que o protagonista é “interessado em psychanalyse”. Por entre diálogos, há a afirma- ção de que, uma vez revelada a importância do incosnciente não se poderá mais “negar o seu verdadeiro papel no psychismo humano”. A explicação sobre os sonhos é feita utilizando-se a imagem do vinho como “o reflexo perfeito das uvas que o produziram; tal como o sonho é reflexo dos pensamentos escondidos no in- consciente”. — E é isto que chama psychanalyse? — in- terrogou Kramer. / — Freud assim a cha- ma. Adler chama psychologia individual. Jung chama de psicologia analytica. O no- me não importa. Nossa sciencia é aquella que nos dá acesso á mente inconsciente. (O Cruzeiro, 16/01/1937) No restante do conto de título “O sonhador”, os sonhos são ensejos para inves- tigar a causa da morte de um rapaz. Na edição de 6 de março de 1937, “O que revela os nosso sonhos sonhos”, por Charles E. Griffing37, discorre sobre o in- consciente, “que é o seu verdadeiro ‘eu’”; as “normas de moral que não permittem a reali- zação do impulso inconsciente”; “livre asso- ciação” são os assuntos desfilados que, ao mesmo tempo, buscam explicar o que é a Psicanálise ao contar a história de uma se- nhora cujo filho se afastou dela para estudar fora. A lembrança do filho lhe dava frio, o que foi associado ao sonho de ser ela uma ave na arribação. Seguem-se outros exemplos de interpretações rápidas e associativas dos sonhos com temas sobre apaixonar-se por pessoa casada; o sonho de uma jovem em estar sendo perseguida por um animal selva- gem associado à sua exitação em “acceder á côrte que há tempos lhe vinha fazendo um rapaz para uma entrevista amorosa” e que o sonho lhe traria o conflito entre “a necessi- dade de 34 O projeto, que consistia em formação de artis- tas com montagens em várias cidades, foi uma iniciativa do governo federal e da prefeitura do Rio de Janeiro e durou entre 1934 e 1935. Embo- ra uma iniciativa isolada, que não tenha alcançado o sucesso esperado, que tenha havido acusações de irre gularidades com financiamentos e que se tenha constituído a partir de relações pessoais, enumera Angélica Camargo, tal iniciativa teve o mérito de abrir espaço para o teatro, avalia Ca- margo. Pois artistas e empresários efetuavam pedidos de apoio, cujas demandas eram repassa- das para o Ministro Gustavo Capanema e, poste- riormente, em 1936, se criou a Comissão de Tea- tro Nacional (CAMARGO, 2011). 35 Renato Viana (1894-1953), do Rio de Janeiro, foi ator e diretor teatral, escreveu uma peça no ano da Semana de Arte Moderna, em 1922 e buscou mudar a cena e o processo da produção teatral entre as décadas de 1920 e 1930 no Brasil (ITAÚ, 2021). 36 Provavelmente o jornalista norte-americano que viveu de 1902 até meados da década de 1960.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ur- sini 71 se conervar fiel ás regras de moral” e o “moti- vo sexual” incosnciente de que o moço “aca- baria por se apossar della”. Vê-se que um ins- trumento fundamental na Psicanálise, como a interpretação dos sonhos, foi apropriado pelo ideário cultural e moral da época na perpspec- tiva do autor. Por fim, a Psicanálise, naquele texto, é atrelada à Psicologia e encapsulada na interpretação dos sonhos: “toda uma escola de psychologia tem hoje como uma de suas columnas mestras a analyse e a interpretação dos sonhos — a psychanalyse!”. Em outra edição d’O Cruzeiro, o corpo de uma mulher morta a bala deixado sobre os trilhos é partido em duas partes por um trem, cujo maquinista não conseguira pa- rar a tempo. É a história verídica contada na revista sob o título “O monstro prehistorico”, em 16 de outubro de 1937. Era Mildred Alli- son Rexroat, uma jovem professora de tango vítima de Henry Spencer (Harry Burke), o assassino em série que iria a julgamento con- forme anunciado pelo Morning Press, jornal de Santa Bárbara na Califórnia, nos Estados Unidos, em 16 de outubro de 1913. O texto d’O Cruzeiro diz ter sido o trigésimo crime de Harry Burke. O assassino foi executado, no entanto, paira a dúvida se teria sido mesmo ele o autor, pois Burke associava o seu nome a roubos e a assassinatos refinados que aconte- ceram antes de Mildred e enquanto ele estive- ra preso (SCOTT, 2007, pp. 26-29). N’O Cruzeiro, está indicado brevemente a cone- xão possível do tema com a Psicanálise ou com a Psiquiatria, onde “a criminologia teria campo suficiente para um perfeito estudo sobre as caracteristicas do criminoso nato”. O assassino confesso manifestaria stir simple (agi- tação simples), conforme indicado no Mor- ning Press, ali definido como “o delírio des- crito como insanidade penitenciária”. De acordo com Erving Goffman, as instituições totais imputam chances a certas manifestações de afastamento da situação em que o sujeito vive, sejam hospitais, campos de concentração, prisões, conventos e mesmo marinheiros em navios e soldados de guerra em trabalho. Segundo Goffman, tal afasta- mento manifesto é um ajustamento à situação presente do indivíduo naquelas circunstâncias (GOFFMAN, 1974 [1961], p. 59). Novamente, o tema da aliança entre a criminologia e a Psicanálise é abordado nas páginas d’O Cruzeiro na mesma edição de 16 de outubro de 1937. O cenário é a quietude, o azul e a repetição dos dias na ilha de Fernando de Noronha, onde havia um presídio e “á falta de outros assumptos, a imaginação dos prisio- neiros põe-se a fabricar lendas curiosas. O texto é intitulado “A lenda da Alamôa” (“ale- môa”): nas noites escuras uma chama, uma imagem feminina com cabelos louros, se move nos rochedos e nunca para; quando parar, ali será encontrado um tesouro escondido pelos holandeses planejando voltar ao Brasil. Seria o fantasma de uma moça morta, enquanto ela dançava, pelo noivo ciumento, o qual ficou interno no presídio na ilha. As lendas, diz O Cruzeiro, “encertam conceitos philosophicos de valor para os estudiosos de psychanalyse e criminologia”. A título de contextualização histórica e nas páginas da revista onde o tema da Psicanálise na revista, em meio a uma variedade de asssun- tos em O Cruzeiro e, também, as referências históricas desses outros tema, é importante olhar o que ladeia o texto aque aborda a Psica- nálise. Ao redor do texto sobre a lenda, na pá- gina 55, está a exortação aos leitores a ajudarem as missões salesianas no Brasil: “enquanto os pastores protestantes percorrem a immensa bacia amazonica, utillizando-se de lanchas a gazolina (...), nossos missionarios mal têm para comprar um pangaré velho e cansado”. Com o título “As missões salesianas em Matto Gros- so”, é dito que a trilha deixada por Rondon foi aproveitada para a “victoria de Christo entre os pagãos”, estes, no caso, os indígenas: “trinta annos de intenso trabalho e sacrifício foram necessários para dominar a idolatria bororó”38. O mérito é dado ao padre Poli na “pacificação” dos indígenas. As instalações das missões, às margens do Rio das Mortes foram 37 De certo Charles Eldridge Griffin, que viveu até 1914.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 72 Sangradouro e Meruri, territórios dos indígenas Xavante, que não são mencionados ali no texto. Aos indígenas foram ensinadas “a nossa reli- gião”, diz O Cruzeiro, “nosso idioma e os nos- sos bons costumes”. As famílias indígenas eram retiradas das aldeias para as missões, aos jovens ensinavam trabalhar em “officinas mecanicas, de carpintaria, de olaria, etc.” e depois devolvi- das às aldeias. As plantações de milho, arroz e outras seriam formas tanto de “civilizar” como de “desenvolver” os indígenas. O que é descrito no texto é o franco processo de assimilação desastroso para a saúde (os Xavante possuem altos índices de diabetes na atualidade por causa das intervenções na sua dieta tradicional) e para a atuonomia e autoderteminação dos povos indígenas (porque foram “desautorizados” em suas escolhas). A assimilação de uma cultura à outra praticada pela igreja em conjunto com o Esta- do, tem ali no texto o exemplo histórico da formação de uma reserva de mão de obra para os projetos de interiorização difundidos no Estado Novo (1937-1945) por Getúlio Vargas e, depois, reeditadas sob o integracionismo de Juscelino Kubitschek na década de 1950. Cassi- ano Ricardo publicou, em 1940, Marcha para o Oeste, com a ideia de desenvolvimento de reigões consideradas não habitadas a despeito das populações indígenas. A campanha, na ver- dade, se chamou “Rumo ao Oste”, publicada pelo General Rondon em 1942. Antes, em 1926, Cassiano Ricardo havia participado do movimento verde-amarelismo — em conjunto com Plínio Salgado e dele participam Guilher- me de Almeida e Menotti Del Picchia — em um nacionalismo na esteira da Semana de Arte Moderna de 1922, porém, que trazia laivos de fascismo (DACORSO & NOGUEIRA, 2011), como já mencionado em outra parte neste arti- go. O hata yoga é comparado à Psicanálise em publicação na edição de 27 de novembro de 1937 d’O Cruzeiro, cuja chamada é o título “Para viver duzentos anos” e o que parece ser alguma incongruência na comparação por ana- logia, pois o hata yoga, é dito, “comporta uma severa disciplina sexual” ao passo que a Psica- nálise não tem como finalidade sua própria disciplinar Sujeitos. Outros crimes reais são relatados em “Ro- bert Irwin não é um louco”, na edição d’O Cruzeiro em 17 de dezembro de 1937 em episódio que ficou conhecido como “a Páscoa sangrenta de 1937”. Robert George Irwin estava sob tratamento psiquiátrico e obcecado por serpentes, pediu para a esposa, de quem estava separado, posar para ele: queria fazer uma escultura de mulher-serpente. Ela aceitou e não tendo marcado uma data, Irwin foi procurá-la planejando matá-la. Na casa da mãe da esposa estavam apenas esta, a irmã da esposa e um empregado da família. Ocorreu a Irwin que as duas mulheres seriam as respon- sáveis por sua separaração. Irwing matou as três pessoas, antes, violentou as duas mulheres e de Verônica, que era modelo em Nova Ior- que e sua cunhada, fez um molde do seu rosto e, também, esculpiu o rosto dela em um sabão no banheiro. Irwin havia recebido a recomen- dação de “uma cura psychanalitica”. O assassi- no teria procurado um psiquiatra na véspera do crime “para confessar certas obsessões que são classicas em psychanalyse, elle quis ‘preparar’ alilbis psychologicos”. As discussões giraram em torno de se planejar um “crime perfeito”, como se vangloriou Irwin, se não seria isso a prova mesma da demência, argumento esse utilizado pelo advogado da defesa. Irwin foi condenado a 270 anos de reclusão prisional. 3.2 Revista da Semana A Revista da Semana é mais antiga que O Cruzeiro, porém, o termo “psychanaly- se” aparecerá na década de 1920 na revista, antes, se falava em psychologia, não raro abor- dando hereditariedade e raça. 1921 Na edição de 19 de março de 1921: “É puramente emotiva a sua pseudo-molestia”. Assim começa a resposta dada pelo doutor Veiga Lima39 ao consulente com o pseudônimo “Paulista” na seção “Consultório Médico” da Revista da Semana. E continua: 38 Indígenas Bororo.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 73 (...) um tratamento novo é o da Analyse psychica, segundo o metho- do de Breuer e Freud. Este methodo demonstra a origem emotiva de todas as psychoses funccionaes, emoção provocada por distúrbios da esfera sexual, especialmente na puberdade. Chamaram a Analyse psychica de cu- ra cathartica. Como consequencia da pratica da Analyse psychica fundou-se a escola da psycho-analyse de Freud, que teve origem em Vienna! O seu caso parece ser de inversão somática. (Veiga Lima, Revista da Semana, seção Consultório Médico, 19/03/1921). 1923 Em outra edição da revista, em 19 de setembro de 1923, à consulta feita por Da Silva (Maranhão), o Dr, Veiga Lima receita injeções de soro lipotônicos e outros medi- camentos, indica a sua posologia e aconselha: “é preciso observar a (...) auto-suggestão” (...). A influencia do inconsciente do domínio da vida psychica é objecto da psychanalyse, methodo de Freud” e completa Veiga Lima: “tudo girando em torno do instincto sexual”. Note-se que as cartas ou o assunto das consultas não são publicados na revista. Por meio das repostas se pode inferir que as consultas versariam sobre a impotência sexu- al masculina, os problemas gastrointestinais, o excesso de peso e outros. Havia indicações de tratamento e receitas. É surpreendente que o diagnóstico dos sintomas fosse ofere- cido ou cogitado nas respostas às cartas. Por vezes, a resposta era: “Só com exame”. A frequência das respostas em torno da Psica- nálise é pequena comparada aos outros temas diversos nas respostas naquela seção. 1930 Em outro número da Revista da Semana, dois povos são comparados: o napolitano e o carioca; ambos felizes em contemplar a exube- rância da natureza que os cerca, mas diferentes nessa percepção ao ponto de que “qualquer profano em assumpto de psychanalyse, ven- doa-as [culturas] juntas, logo notaria a diferen- ça”, diz o autor Yantok40. O texto segue tra- zendo historietas, fala de comidas de um e de outro e termina alinhando as diferenças em que um povo se expressa por dentro e o outro por fora. Na página de abertura da edição de 13 de dezembro de 1930 da Revista da Semana, dirigida por Aureliano Machado, os assuntos relacionados a Freud são alinhados ao esno- bismo e à extravagancia. A poesia não tem sexo, porque nasce do cé- rebro, provém do coração, por toque subtil de um divino momento de éstro ou por effei- to magico de uma effusão sentimental. O verso, sendo uma resonancia cósmica, que faz estremecer as raizes profundas do sêr, é uma força que vence o instinto e actúa fóra da materia contingente, sem differenciação de condição sexual, salvo se quiserem, por sno- bismo extravagante, coloca-la nos domínios de Freud, ídolo de nosso tempo... (Saul de Navarro, em “O dia dos poetas”, Revista da Semana, na página de abertura da publicação de 13/12/1930) 1932 Na coluna “Livros recebidos”, seção “Livros Novos”, na Revista da Semana, des- tinada à divulgação de diversas obras, em 16 de janeiro de 1932, está anunciada a publicação, em português, de Cinco lições de Psycha- nalyse, de Freud, originalmente publicada em 1910 em alemão. A coluna traz outras obras: 39 Carlos da Veiga Lima (filho de José Faustino da Veiga Lima, médico), era médico clínico no Rio de Janeiro e, segundo Rafael Dias Castro (CAS- TRO, 2015, p. 72), foi inspetor de ensino no Liceu de Humanidades, em Campos (RJ) em 1922 e aparecia em eventos sociais noticiados junto a “juízes, deputados e outras personalidades apresentadas na Coluna Social, do Jornal O Paiz”. Veiga Lima participou da cerimônia do início da construção da Colônia de Alienados de Jacarepa- guá, no Rio de Janeiro, em 1920. Era, também, escritor ( ibidem).

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 74 Poemas, de Oscar Ferreira Junior, Chanaan, de Graça Aranha, O despertar do gigante Sul Americano, de Bernardino Vireira, entre outros. A seção traz outras obras que mere- ceram pequenas resenhas: um livro de con- tos, outro de geografia geral e Dostoievsky com Os pobres diabos. Na mesma seção, mas em em 13 de agosto de 1932, é anunciado Para compre- ender Freud, publicado em 1931, livro de Gastão Pereira da Silva (1896 – 1987)41. O comentário na seção apresenta a obra como “o trabalho de Freud em synthese”; aponta-o como oportuno “nesta hora em que o estudo da Psychologia adquire todos os dias novos aspectos, como chave para a solução de pro- blemas pedagogicos, medicos, juridicos, in- dustriaes etc.” e recomenda que o livro deve ser consultado “como iniciação indispensavel à Psychanalyse”. Ladeia a seção “Livros No- vos”, nessa edição da Revista da Semana, uma coluna intitulada “Creanças”. Nela, apa- recem fotografias dos filhos e netos de pes- soas proeminetes à época, como o neto de Ruy Barbosa. Embora a figura feminina te- nha passado a povoar a Revista da Semana após 1915, como dito atrás neste artigo, ho- mens concretos continuam a celebrar ho- mens concretos na revista. Saul Navarro42 escreve na Revista da Semana em 19 março de 1932 “O milagre de um genio”. Aborda Goethe e diz que a litera- tura e a Filosofia já teriam explicado antes de Freud “a significação” dos nossos sonhos e decifrado a “esphinge sexual”; e que um “sur- to pre-psycho-analytico” teria feito de uma “velha e ingenua lenda medieval uma impere- civel realidade symbolica”, se referindo, de certo, à figura mitológica de Mefistófeles, em Fausto de Goethe, crítica do autor pode ser estendida ao Complexo de Édipo, conceito fundador43 na Psicanálise e baseado na lenda grega. Saul de Navarro assina a crônica “Uma en- trevista a La Fontaine”, na Revista da Se- mana, em 26 de março de 1932, que, em vista do recente decreto44 que proibira o Jogo do Bicho, Navarro diz ter ido ao zoológico em Vila Isabel, na cidade do Rio de Janeiro, para ouvir os vinte e cinco bichos relaciona- dos ao jogo. Um a um dos bichos ofereceu o seu depoimento em face do tal decreto. Em alusão à prática de se jogar em determinado bicho a partir do sonho ou com um bicho ou com algumas circunstâncias que, interpreta- das venham a indicar um ou mais bichos, Navarro menciona Freud de maneira fortuita no fecho da sua crônica: “Quanto a mim, estou tranquillo e satisfeito, porque já posso dispensar o Freud para a interpretação dos sonhos”. 40 Max Cesarino Yantok (1881-1964), foi car- tunista, chargista, pintor e violinista, fundou o jornal italiano de humor Monsignor Perrelli. O seu pai era descendente de ciganos e Yan- tonk nasceu em uma aldeia indígena perto de Passo Fundo no Rio Grande do Sul (ITAÚ, 2022). Provavelmente indígenas Kaingáng, que vivem naquela região. 41 Embora tenha atuado ativamente na divulga- ção da Psicanálise, Gastão Pereira da Silva, não se filiou a quaisquer instituições de formação psicanalítica, o caráter elitista dessas institui- ções foi denunciado por ele, que é nome mar- ginalizado pelas tais instituições (SANTOS & MANDELBAUM, 2019, p. 4). Gastão publi- cou ao menos doze livros tanto em Psicanálise como romances com o tema entre 1933 e 1985. 42 Saul de Navarro era o pseudônimo literário de Álvaro Henrique Moreira de Souza (1890- 1945), ele foi fiscal do Tesouro no Espírito Santo (de 1925 a 1930) e fundou, junto a ou- tros, a Academia Espírito - santense de Letras em 1921, onde foi empossado em 1925. Com o Golpe Militar, em outubro de 193 0, perdeu o emprego da mesma forma que tantos outros acadêmicos. Era colaborador de periódicos e de diários, entre esses: O Brasil, a Gazeta de Notícias, A Razão, O Dia, A Notícia, a re- vista Ilustração Brasileira, a Revista do Bra- sil e a Revista da Semana. Colaborou com revistas estrangeiras: Plumadas, da Venezuela, Nuestra America, Buenos Aires, Hero, Cuba e America Latina, Equador. (RIBEIRO, 2021; ACADEMIA ESPÍRITO-SANTENSE DE LETRAS, 2022).

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 75 Em uma espécie de colagem de imagens diversas de fotografias de mulheres, em 16 de abril de 1932, “O eterno feminino tem no sex- appeal a sua origem adorável”. Assim começa a crônica com o título “Sex Appeal”, para partir de Eva, Greta Garbo, Salomés que dançam “sem os sete véus” para abordar o cinema hol- lywoodiano como uma “paisagem”, um “encan- to panoramico da nossa libido” e em cada “pel- licula magica (...) espreita-nos o severo Freud”. A mulher é “a ultima invenção de Satan” e o “sex-appeal representa o jogo subtil do instinc- to”, “o desejo que não pode ser recalcado, a galanteria erógena sob o leve disfarce da coquet- terie”. Continua: “Estamos voltando ao realismo magnífico do amor, que foi uma alegria divina na Hellade45”, à “festa dos sentidos nos dias floridos da Renascença” e à “pompa colorida nas noites de Versalhes”. Assina “FAN”. Um texto bobo e que encaixa sorteadamente as pala- vras do vocalário da Psicanálise: libido, instinto e recalque. É interessante a conexão entre o cine- ma e a Psicanálise. Benjamin Ferreira46, em 29 de outubro de 1932, responde para Alaôr Varela, do Ceará: “tudo o quanto o senhor tem se basêa em com- plexos psycho-sexuaes, que remontam muito longe em sua juventude”. O respondente explica que os fatores que deprimiriam o consulente, e que este provavelmente indicara em sua carta, são “infundados” pois “herda-se o caracter ner- voso, a predisposição; porém não a psychoneu- rose. Não há um determinante fatal na neuraste- nia”. Explica que na “moderna escola” de Viena, “Freud e seus continuadores, tem demonstrado (...) o infundado dessa suposição que represen- tava até agora o modo de ver dos clássicos”. O consulente é aconselhado a fazer um exame médico não para excluir possibilidades, mas para identificar se não existiria um “factor somatico determinante de perturbações nervosas”, tais como a “lues” (ou sífilis), problemas no apare- lho digestivo, tuberculose e problemas em gân- dulas “de secreção interna”. Aconselha, ainda: “Veja um médico capaz de lhe ministrar uma cura psychotherapica e procure no sport o revi- goramento do seu physico”. Por fim, apresenta a informação de que na sensação de inferioridade “se baseou Alfred Adler para fundar a sua theo- ria sobre a origem das psychonevroses”. Na edição de 31 de dezembro de 1932, há os sonhos de uma amiga da mulher identificada “Laura (Bahia)”, que faz a con- sulta, dos quais “ela [a amiga] se levanta e diz aos gritos que está sendo agredida, forçada, mutilada”. Aqui, uma descrição das manifes- tações é apresentada aos leitores e a portado- ra de tais manifestações é referida por “pa- ciente”. Benjamin Ferreira 43 O complexo de Édipo tem as primeiras formu- lações já em 1897, em carta de Freud a Fliess, e aparecerá referido em A interpretação dos so- nhos (1900) e formulado em 1924. A castração será articulada à pulsão de morte mais tarde, quando a ideia assume o caráter de conceito fun- dador (MOREIRA, 2004). 44 Trata-se do Decreto nº 21.143, de 10 de março de 1932 (revogado), assinado pelo Chefe do Go- verno Provisório Getúlio Vargas, à época Minis- tro de Estado dos Negócios da Fazenda. A nor- ma definiu o que era a loteria e regulamentou as loterias federais e estaduais revogando toda a legislação existente sobre loterias considerando-a contraditória e considerando o alastramento dos jogos de azar “altamente nocivo à economia pri- vada e aos bons costumes, incumbindo aos pode- res públicos o dever de reprimi-los”. A disposição contra o Jogo do Bicho mereceu quatro parágra- fos no artigo 15 do decreto; o jogo foi considera- do contravenção inafiançável a abranger: os seus empreendedores ou banqueiros; aqueles que comprassem, vendessem ou distribuíssem bilhete e papeis; e qualquer um que promovesse ou facili- tasse direta ou indiretamente o seu curso; penas e multas foram previstas. A venda de bilhetes de loterias estrangeiras em território nacional, tam- bém, teve sua proibição e penalidade dispostas no artigo 8º daquele decreto. 45 Nome com o qual se designava a maior parte continental da Grécia. 46 Consta endereço para o envio de correspondên- cias, à praça Marechal Floriano nº 7, no edifício Odeon, nominais ao Dr. Benjamin Ferreira; em notícia na Revista da Semana, de 02/09/1939, ele aparecerá na revista em recepção a representante da Hungria juntamente com Negrão de Lima, então Ministro da Justiça-interino.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 76 (...) um factor essencial da for- mação do sonho é uma vontade inconsciente (...) um desejo in- fantil recalcado que consegue exprimir-se durante o somno (...) uma modalidade de realização de desejos que porventura nem mais são conscientes, recalcados que foram por serem ou parece- rem irrealizáveis, inconvenientes, anti-sociaes. Junto a isso, Benjamim Ferreira expõe ao público leitor que o trabalho do “medico psycho-analysta” na interpretação do sonho é o de identificar “os pensamentos latentes que o determinam” e continua: “além dos pesade- los e outros elementos da neurose terá o mé- dico que fazer indagações sobre o ambiente em que se desenvolveu e vive a sua amigui- nha”. 1933 No rastro da Primeira Guerra, “A vingança dos judeus” é o título do texto de 1º de julho de 1933 na Revista da Semana, que traz retratos, feitos e referências às teorias de judeus célebres: Einsten, Henri Heine, Karl Marx, Max Nordau, Henri Bergson, Trotsky e Freud. Nessa mesma edição, no conto de Saul de Navarro, “O sorriso do passado”, há uma referência breve a Freud associando-o ao jazz. Já o jazz era a “calamidade conse- quente da grande guerra”, escreveu Navarro. Outros ritmos novos, como o maxixe, o fox- trot, o tango e o samba eram vistos e propa- lados como novidades quase insanas, tam- bém, n’O Cruzeiro; fosse pelos ritmos que- brados, fosse pela junção dos corpos ao dan- çar (URSINI, 2000). Outra história: um homem convida o amigo para conhecer sua noiva. Se encontram e o casal leva o irmão pequeno dela. Seguem diá- logos acerca de não se sair sozinhos para que os outros não falem mal, não entrar em café fecha- do porque não seria decente para a noiva e o narrador — que é o convidado — descreve a noiva do amigo uma estúpida. É essa persona- gem quem puxará o assunto da Psicanálise e falará de Freud durante o encontro no conto intitulado “A noiva”, de Enrique Jardi- el Poncela47, publicado na Revista da Semana em 22 de julho de 1933. Escragnolle Doria (1869-1948)48, em “Bom Retiro Estudante”, publicado em 12 de agosto de 1933, conta a história do Conselhei- ro Luiz Pedreira do Couto Ferraz (1818- 1886)49 e seus estudos em Direito, tendo entre os mestres Cabral, “o excêntrico”, descrito como “o mattogrosense de tantos talentos quanto excentricidades que se adiantaram á moderna psychanalise”. Se no conto anteiror a Psicanálise é apresentada ao leitor pela perso- nagem “estúpida”, agora, com um personagem real, a Psicanálise é da ordem das excentricida- des. A literatura teria cumprido o seu papel imaginativo diante da impossibilidade de se de- finir a vida, escreveu De Mattos Pinto na Revis- ta da Semana, sob o título “A descoberta do século XX” em 24 de novembro de 1934. Com as novas descobertas de Freud, quem “revelou a riqueza do inconsciente, com a psychanalyse”; as descobertas de Pende, na endocrinologia; e de Einstein, com a teoria da relatividade, diz De Matto Pinto que a literatura é “assaltada por violentas idéas, que alteraram o sentido do ho- mem e do mundo”, o que chamou de “crise”: “a literatura não sabe como applicar na poesia e no romance o novo pensamento das cousas”. A descoberta da humanidade é a de começar a “ter consciencia do seu destino”. Por vezes, e não são raras nas publicações tanto na Revista da Semana quanto n’O Cruzeiro, os nomes de cientistas são associados muito livremente uns aos outros e Freud surge em meio a eles. 47 Enrique Jardiel Poncela (1901-1952) escritor espa- nhol com diversas obras humorísticas (IBACACHE, 2016). 48 O Arquivo Nacional é depositário do acervo doado pela viúva, Doria foi escritor, professor de História. Formado em Ciências Jurídicas e Sociais (1890), cola- borou com vários jornais. 49 Foi Presidente das Províncias do Espírito Santo e do Rio de Janeiro e Ministro dos Negócios do Império.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 77 1934 Note-se que o Inconsciente, de Freud, leva o nome de Subconsciente, de Pierre Janet (Revista da Semana, 02/06/1934. Vale observa a menção a Nicola Pende colocado em linha ombreada a Freud e a Eis- ten naquele texto na Revista da Semana. Ni- cola Pende, a partir da Biologia Criminal, leva à investigação da delinquência nata na associa- ção do genótipo e do fenótipo em uma meto- dologia que percorre quatro itens, proposta em 1921, como descreve Elaine Maria Geral- do dos Santos (2008) sobre o neolombrosia- nismo na década de 1930. São os itens: a mor- fologia — a massa corporal, as proporções, a genital, o sistema respiratório e outros eram examinados e medidos segundo padrões esta- belecidos para o biotipo racial; a dinâmica humoral — fórmula endócrina e grupo san- guíneo com o fim de ser mensurado quanto tempo o sujeito levaria para manifestar irrita- bilidade; a intelectividade — considerada o espíri- to dos indivíduos pelos criminalistas, tinha em conta: os pensamentos sintético e analítico, a capacidade de atenção, a memória, a lógica como manifestações de inteligência; e, por fim, a moral — herança moral e patológica, o desenvolvimen- to ético por meio dos instintos, senso crítico e outros tópicos influenciados pela Psicanálise de Freud para relacionar as manifestações dos indi- víduos em sociedade (SANTOS, 2008, p. 48). Com o título “A melancolia do poeta”, na Revista da Semana de 29 de dezembro de 1934, Orvacio Santamaria50 conta de Charles Baudelaire (1821-1867) que, por dois anos, “entregou-se em Paris á mais perniciosa ociosidade” dispendendo seu tempo “em orgias, em mesas de tabernas, com mulheres perdidas e bebedores invetera-

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 78 dos”. Interpreta Santamaria que “esse lapso vazio da sua vida, como é de prever, teve muita influ- encia desastrada no seu futuro”. Enviado ao Ori- ente para missões comerciais por seu padrasto, cujo intuito teria sido o de “arrancá-lo áquella vida inutil”, Baudelaire teria emendado, nas terras estrangeiras, o seu estilo boêmio e aceitado aque- la viagem tão somente para conhecer as terras distantes do Oriente, os seus “hábitos bizarros” e “as suas mulheres extravagantes”. A haitiana Je- anne Duval acompanhou Baudelaire no retorno a Paris, escreveu Santamaria: “recolheu para a sua companhia uma negra (...). A preta Duval e o haschich, somados á sua hereditariedade [aponta doenças de idade do pai e a diferença de idade com a mãe, que poderia “ser neta do esposo”], (...) e mais a imensa desorientação da sua infância (...), falta de observação dos pais e dos mestres” e, somado a isso, o que “de ruim se accumulara no seu inconsciente, completaram-lhe a defeitu- osa formação moral e intelectual”. 1935 Em “Chiromancia por sport...”, publicado em 26 de janeiro de 1935, Magdala da Gama Oliveira (1908-1978) explica o que um ou uma quiromante precisa fazer e escreveu: “assim como devemos fazer uso da psychologia e da psychanalyse, sem esquecermos a physiomomia e a graphologia”, a quiromancia seria um “es- cudo”, escreveu, “para que melhor possamos nos precaver contra certos seres que de nós se approximam (...)”. No rol de advinhações, estão a grafologia e a fisionomia como meios de se entrever personalidades e disposições ao come- timento de crimes. Magdala era uma mulher de elite, branca e assinava uma coluna de crítica musical no Diário Carioca51, na década de 193052. Suas impressões sobre o samba eram terríveis, como anotaram Linaia Palacio e Laura Galli: “músicas tolas” com “gente do morro” e outros comentários lhe renderam o samba “Pra quê discutir com Madame” em 1945 (PALACIO & GALLI, 2021). Na mesma página em que está publicado o texto sobre a quiromancia, há uma fotografia da Fa- zenda Victória, em Botucatu (SP), acompanhada somente da legenda, com o título “Nossa Terra”, como se a fotografia e a legenda curta falassem por si, dada a importância daquela fazenda para a cafeicultura paulista. A fazenda pertenceu, pelo menos até 1995, aos herdeiros do Conde de Serra Negra53. Conforme Antunes, a Fazenda Victória ou Serra Negra, próxima à ferrovia Sorocabana, era a primeira parada da mão de obra imigrante, para os colonos serem distribuídos dali a outras fazendas (ANTUNES, 2021, p. 79). A época da fotografia publicada na Revista da Semana é a da importância daquela fazenda e, e como ficará evidente mais tarde na história, é o período do declínio da cultura cafeeira no Brasil. Racismo e lombrosianismo vão sendo misturados à convicção de que se é possível “de- sentortar” o talo desde o começo, em uma con- fusão entre o que fosse moldável, inato, ou o que fosse nato e, sobretudo, um evento que fizesse aflorar a índole, o instinto nos Sujeitos adultos. Para isso, com a inspiração na Psicanálise, bus- cam pela infância: Os pequenos “doentes moraes” existem muito mais do que se pensa. Mesmo nas familias muito normaes, póde-se encon- trar algum. Accidente de raça, porque to- da a ascendencia tem sua parte de seg- mentos bons ou máus. Ou accidente oc- casional: queda, doença, choque. É preci- so tão pouco para desequilibrar um jo- vem ente, e desvial-o no moral como no physico! (“Conselhos sociaes”; sem auto- ria indicada; Revista da Semana, 08/06/1935) 50 Santamaria era escritor, publicou Cesar: Vida de Caio Julio Cesar, em 1939, Rio de Janeiro, editora Irmãos Pongetti. 51 Editado entre 1930 e 1939. 52 No final da década de 1920, Magdala da Gama Oliveira é anotada no jornal A manhã (1925-1953) em coro, como violinista, executando marchas nupci- ais em casamento e, também, como organizadora de salões literários, musicais e festas no Departamento Feminino do Fluminense Futebol Club. 53 Vide Decreto nº 40.303, de 8 de setembro de 1995.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 79 A responsabilidade da observância moral de um indivíduo disponibilizado ao convívio social, ao final das contas, racai sobre a família e nesta, sobre as mães. Em 8 de ju- nho de 1935, na seção “Jornal das Famílias: modas, costuras e bordados - a vida no lar - receitas e conselhos práticos – economia do- méstica e alimentação”, a coluna “Conselhos sociaes”, após alertar a iminência dos “desvi- os”, como indicados acima, os pais são convi- dados a tomarem providências. Pais que não sabem como agir, “aquelles que não sabem nem prever nem ver, para aquelles que acham tudo de bom nos seus filhos ou para aquelles que só vêem tudo máus”, aqueles que “viam innocentes manias, saberão o que fazer: o mé- dico psychiatra”. A Psicanálise aparece como coadjuvante do tratamento psiquiátrico nesse texto na Revista da Semana. 1936 O pseudônimo masculino, George Sand, servia para a aceitação da escritora fran- cesa Aurore Dupin (1804-1876) no meio lite- rário na França do século XIX. O texto publi- cado na Revista da Semana. Em 22 de feve- reiro de 1936, não leva assinatura e aborda a imaginação da escritora em suas obras, lugar onde não havia repressão. A sua história pes- soal, descrita na revista, é pontuada por vários amantes, dentre os quais Chopin. A palavra Psicanálise aparece somente no título: “As mulheres celebres num traço de Psychanalyse” e no texto são imaginados desejos, vontades, angústias, sentimentos de culpa, conflitos para Sand que revelariam “os motivos profundos e occultos de que os estudiosos no assumpto devem prevalecer-se para esclarecer a tragédia amorosa dessa mulher inesquecível”. É traça- do um “perfil psychologico” de George Sand e o seu livro Memorias é mencionado indi- cando que nele o leitor encotraria, diz o texto, em “imagens litterarias” as “’reminiscencias recalcadas’ que afloram disfarçadas”; tudo em uma certa justaposição indesejável entre auto- ra e obra. Embora o texto não trate da Psica- nálise, ele percorre seu vocabulário e vai ane- xando sentidos e juízo de valores a circuns- tâncias da vida de Sand. Ainda sobre George Sand, outro texto, há um comentário de Saul de Navarro na Revista da Semana, em 4 de outubro de 1930, em “O romantismo dos cabellos longos...”, Nele, Geor- ge Sand é apontada como uma das primeiras a usar os cabelos curtos e a explicação é a de que, tendo ela poucos recuros, o que “não a deixavam exhibir as toilettes necessarias á sua posição de mulher elegante”, adotou trajes masculinos e não podia, por isso, deixar os cabelos além dos om- bros. É dito, ainda, que os cabelos curtos lhe renderam “brigas violentas com Jules Sandeau, o seu comanheiro de momento”. Temos, assim, uma associação em cadeia entre a vida com amantes, os cabelos curtos e os trajes masculinos. No que fosse possível identificar tais escolhas como libertárias para a mulher do século XIX — como Sand, e mesmo para as mulheres do século XX contemporâneas à revista —, no texto está indicado não se tratar de escolhas, mas da falta de opções diante de recursos financeiros limitados... reafirmando, por negação, uma única imagem de mulher em detrimento de outras. 1937 Os conhecimentos de grafologia de Ra- phael Schermann (1879-1945)54 e a sua utilização nas investigações policiais é o assunto do texto publicado na Revista da Semana, em 18 de setembro de 1937, com o título “Servindo á Me- dicina”. Os “phenomenos sobrenaturaes” provo- cam curiosidade, diz o texto, e “Freud, o demo- nio viennense, descobriu nos sonhos, nas dobras da psychanalyse, universos ignorados”. Naquele momento, Paris voltaria a sua atenção para Schermann nas investigações criminais, segundo o texto que, conforme dali se depreende, compa- ra a interpretação dos sonhos à interpretação das caligrafias: “A psychographia de Schermann pode prestar serviços interessantes ainda entre as cre- anças”, diz o texto. 1938 Da Vinci, Freud, Eva e Noé são trazi- dos juntos no texto conjugado a fotografias de mulheres com animais. O assunto é a “attrac- ção irresistível entre as féras e as Mulheres” sob o título “A Bella e a Féra”, publicado na Revista da Semana em 29 de janeiro de 1938. Um “amor caprichoso” das mulheres por animais de estimação é atribuído ao inte- resse da Psicologia e da Psicanálise em uma brevíssima menção a ambas as ciências sem

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 80 quaisquer endereçamentos ao lugar do afeto, por exemplo. Um quadro cômico, na edição de 9 de abril de 1938, traz uma mulher sentada em uma cadeira diante da mesa do mèdico: “Dou- tor, desejava que o senhor interpretasse o meu sonho desta noite. Sonhei que estava sentada entre Clark Gable e Robert Taylor, e que tinha a meus pés o camondongo Mickey”. Ao longo de uma página e meia da Revista da Semana, o conto “Psychanalyse”, de H. J. Magog, um dos pseudônimos do ro- mancista francês Henri-Georges Jeanne (1877-1947), descreve um encontro. Em uma festa, a moça pergunta se o rapaz continua com o seus “grandes estudos” e envolvido em “essa sciencia... ou essa mystificação (...) essa psychanalyse”. O rapaz foi à tal festa esperan- do encontrar a moça, por quem é apaixonado e que, antes, havia oferecido uma consulta à moça que recusara na ocasião, mas que, agora na festa, aceitava: “Villemandre conduziu a linda creatura até a uma poltrona, a bôa dis- tância do bar: — Conte-me o seu último so- nho”. O diagnóstico é apresentado de pronto, ali mesmo na festa: “neurasthenia que leva as suas victimas, sorrateiramente, á loucura. Dei- xe-se amar. Ame!”. Diante das insinuações do rapaz de que esse amor seria ele próprio, a moça corta-o, saindo e deixando-o sozinho. 1939 “A morte do creador da psychanalyse” é o título da notícia em meia coluna na Revista da Semana na edição de 30 de setembro de 1939, sete dias após o falecimento de Freud (1856-1939). “O sábio Sigmund Freud, chamado ‘o propheta do sub-consciente’, fundador de uma escola scientifica que encontrou alumnos em todo o mundio civili- zado, acaba de fallecer aos oitenta e quatro annos de idade”: assim é o obituário de Freud na revista. Freud é comparado a Marie Curie, Nobel em química em 1911, cujas investigações científicas, afirma o texto, não se encerram com as suas mor- tes. À Anna Freud e aos discíplulos de Freud é endereçada a continuidade das suas inverstigações; entre os disípulos de Freud, diz o texto, estariam “os mais apaixonados” que “vêem na psychanalyse a sciencia que encerra a ‘explicação total do mun- do’”. A notícia da morte de Freud não teve re- levo na Revista da Semana e apareceu em uma coluna estreita dividindo o espaço com a fotogra- fia da escultura “Mulher ajoelhada”, de Celso Antonio, exibida na Feira de Nova Iorque Na composição da página, o título grande é outro assunto: “O passarinho da felicidade”, uma crô- nica de Saul de Navarro sobre o realejo e os pa- pelotes da sorte. 4 Abordagens e usos da Psicanálise n’O Cruzeiro e na Revista da Semana Podemos identificar a Psicanálise sendo trazida nas páginas d’O Cruzeiro e da Revista da Semana sob cinco situações: ● em anúncios de livros e de consultórios para o atendimento; ● em menções fortuitas e rápidas (piadas, gra- cejos ou mesmo uma menção inusitada, sem muita conexão com o assunto); ● em contos, cujos diálogos falam da Psicaná- lise, abordam o seu método por vezes de formas bastante improvisadas com o foco na dinâmica dos personagens do conto e não nos critérios e teoria da Psicanálise à época; ● em reportagens, que são poucas e a maior parte dos textos não trazem assuntos data- dos e não são notícias; e ● em crônicas sobre quaisquer assuntos que são o apanágio dos escritores, geralmente renomados e já colaboradores de outros pe- riódicos e diários, portanto, conhecdidos do público leitor. Os assuntos abordados em ambas as revistas podiam vir seguidos do complemento: “á luz das conquistas experimentais de Freud”, “de accordo com as teorias de Freud” ou “nos domínios de Freud”. Ainda, com se viu, a Psicanálise podia estar indicada apenas no título, como se vestisse todo um conteúdo sobre algum assunto seguinte. Em conjunto com a menção à “psychanalyse” ou em lugar disso, em várias ocasiões o vocabulário da Psicanálise foi escrito nos textos nas revistas: libido, recalque, transferência, angústia, pulsão e instinto foram os termos mais frequentes. 54 Da Cracóvia, viveu em Viena a partir de 1910..

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 81 Os assuntos abordados em ambas as revistas podiam vir seguidos do complemento: “á luz das conquistas experimentais de Freud”, “de accordo com as teorias de Freud” ou “nos domínios de Freud”. Ainda, com se viu, a Psicanálise podia estar indicada apenas no título, como se vestisse todo um conteúdo sobre algum assunto seguinte. Em conjunto com a menção à “psychanalyse” ou em lugar disso, em várias ocasiões o vocabulário da Psicanálise foi escrito nos textos nas revistas: libido, recalque, transferência, angústia, pulsão e instinto foram os termos mais frequentes. A impressão que se tem é que qual- quer menção à Psicanálise, ao seu vocabulário, a Freud e aos seus discípulos ou antagonistas acabavam por trazer algo tido como novo às revistas e, também, fazia as vezes da “atualiza- ção” dos escritores e dos conteúdos que eles apresentavam, como se estivessem ou pare- cessem estar pari passu com as novidades da época. Assim, o escritor que sempre abordas- se a literatura, por exemplo, leria Baudelaire e Goethe — suas obras ou vidas particulares — sob as lentes da Psicanálise; o mesmo se pas- sando com o assunto do cinema e as vidas de estrelas e astros. Nisso, emitiam opiniões acerca da Psicanálise e aliavam a Psicanálise aos temas e às suas próprias visões acerca da raça, das relações de gênero, da moral, da reli- giosidade, dos costumes e assim por diante. Os autores dos textos nas revistas se debatiam com a novidade da Psicanálise. A Psicanálise era vista como uma “moda” na edição de 24 de se- tembro de 1924, da revista mensal America Bra- sileira55. E a novidade que trazia, o Inconsciente, era apontada como já existindo antes do alemão Freud desde desde o psicólogo e psiquiatra fran- cês Pierre Janet (1859-1947)56 como “subconsci- ente”. Menotti Del Picchia, também, menciona que Freud é uma moda e que o instinto, para Del Picchia, seria a própria verdade humana, na edi- ção d’O Cruzeiro de 20 de abril de 1929, acima comentada no episódio da homenagem dos Mo- dernistas ao palhaço Piolim. Saul de Navarro, na Revista da Semana em 29 de julho de 1933, ecreveu que “a psychologia já passou de moda. Bourget57 não interessa mais. E o proprio Berg son58 foi desbancado por Freud”. Antes, na mesma revista em 19 março de 1932, Navarro disse que a literatura e a Filosofia já haviam decifrado os sonhos e a “esphinge sexual” ante- riormente a Freud. Ainda, há a onda dos romances freudia- nos, em uma espécie de denúncia anônima, como trancrevi nos trechos da revista O Cruzeiro, na edição de 7 de junho de 1930, de que os roman- cista encontraram um filão na observação clínica e quem ganharia mais com aquela “voga avassala- dora” seriam os editores. Uma crítica é feita, naquele texto, quanto à falta de propriedade dos romances freudianos, cujos autores digeririam manuais de psiquiatria e de Psicanálise produzin- do resultados que fariam os médicos rir. Rafael Dias de Castro nos oferece um exemplo de como as aproximações da Psicanálise por parte de al- guns escritores das revistas se podem ter dado: fala de Carlos Dias Fernandes (1874-1942), inte- lectual que teria contato com a Psicanálise a partir das palestras de Antônio Austregésilo, quem havia sido orientador de Genserico de Souza Pinto, na primeira dissertação em Psicanálise no Brasil em 1914. Dias Fernandes quis abordar a Psicanálise no jornal O Paiz, o que foi publicado em 5 de dezembro de 1925, e recorreu a Austregésilo, quem lhe ofereceu um texo base com a autoriza- ção da sua utilização (CASTRO, 2015, p. 74). Ao abrir aquela edição d’O Paiz, nos deparamos com o título “A psychanalyse, Explicação dos sonhos. De Breuer a Freud. ‘As forças curativas do espíri- to’, do professor Austregesilo”. Temos que as revistas O Cruzeiro e Revista da Semana não inauguram o assunto da Psicanálise na imprensa, mas o seu público, diferentemente dos jornais, era a família; o que pode ter envie- sado as conexões feitas com com a Psicanálise a partir dos assuntos na linha editorial já existente para aquelas revistas: cinema, relacionamento 55 Editada no Rio de Janeiro entre 1922 e 1924, pro- vavelmente surgida em dezembro de 1921 (acervo da hemeroteca da Biblioteca Nacional do Rio de Janei- ro). 56 No caso de Janet, a abordagem se fazia como sub- consciente (LAPLANCHE & PONTIALIS, 1991, p. 494). 57 Paul Bourget (1852-1935), francês, autor de ro- mances psicológicos. 58 Provavelmente Henri Bergson (1859-1941), filósofo francês, Nobel de Literatura em 1927.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 82 amorosos, seção de cartas e consultas diversas e outras. Além do perfil dos escritores, vários deles conhecidos do público já de outros im- pressos diários e periódicos. Uma diferença entre O Cruzeiro e a Revista da Semana é que esta última explorou bastante, quase co- mo uma campanha, os cuidados com a índole e a moral dos adultos falando da necessidade de cui- dar, formatar, as ciranças, os filhos. Ideário ali- nhado a políticas de “civilização” e de moderni- zação do Brasil, ou, quem saberia?, o contrário: atuando na divulgação de tais políticas. 5 Considerações finais Podemos ter a Psicanálise abordada sob três grande tópicos nas revistas O Cruzeiro e Revis- ta da Semana, como segue no esquema na figura abaixo t e o r i a d o I n c o n s c i e n t e t e o

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 83 Os sonhos e as suas interpretações são uma porta de entrada nas revistas para partir deles e querer aproximar a Psicanálise da criminologia, da quiromancia, da grafolo- gia e de uma sorte de adivinhações, se afas- tando em muito da Psicanálise. Ao mesmo tempo, é aponta uma ciência que se ocupa se- riamente dos sonhos. O Inconsciente aparece invariavel- mente como um lugar para a observação da mente humana, embora tenha uma ou outra crítica de literatos que dizem terem-no já acessado tanto a literatura como a Filosofia; sem a devida ressalva da distinção entre a fic- ção e a vida psíquica de indivíduos. Na cons- tatação de que o Inconsciente é passível de análise, que há doenças em que a via da in- vestigação do Inconsciente é legítima, os tex- tos endereçam tais esforços científicos ora para a Medicina, ora para a Psiquiatria, ora para a Psicanálise, ora para a Psicologia; por vezes marcadas as vertentes francesa e alemã, na mais da vez ignoradas. O assunto da da vida sexual foi atre- lado a uma função social, aos projetos já enunciados por Porto Carrero para a educa- ção sexual nas escolas, em presídios. Há a propriação do tema sexo e da sexualidade pa- ra uma higienização moral que permitiria o desenvolvimento da nação. O pansexualismo mereceu um texto em O Cruzeiro, em 14 de janeiro de 1933, para diferenciar o viés fran- cês de Hesnard na crítica feita por ele a Freud. Diversas áreas, setores e atores se avizi- nharam da Psicanálise no período abordado pelo presente a artigo, entre as décadas de 1920 e de 1930: a literatura, artistas e escritores do Movi- mento Modernista, os projetos de educação sexu- al, a ideologia da eugenia se enlaçaram com as teorias e proposições psicanalíticas para desenvol- ver as próprias reflexões ou projetos59. Um aspec- to na difusão da Psicanálise, observado por Ana Cristina Figueiredo (FIGUEIREDO, 1984), é o risco da descaracterização da Psicanálise e, tam- bém, o seu uso em projetos políticos; na sequên- cia do movimento de difusão, segundo a autora, acaba ocorrendo alguma disseminação da Psicaná- lise ao mesmo tempo em que os critérios quanto à aplicação, quanto a quem pode ou não praticar a Psicanálise acabam sofrendo um recrudescimento em restrições. Ana Figueiredo trata do assunto percorrendo as décadas de 1960, 1970 e 1980, 59 No Movimento Modernista sob interpreta- ções da Psicanálise, Mário de Andrade escreveu “Pau- liceia desvairada” em 1922; mais tarde, em 1950, Oswald de Andrade tece críticas quanto aos valores morais impregnes na obra de Freud; na educação nas escolas, Porto Carrero entende, entre 1927 e 1928, que é urgente proceder à educação sexual de crianças e diz ser um “pecado” o mestre e o médico não se aproxi- marem da Psicanálise e ignorarem-na (OLIVEIRA, 2002, pp. 134,141,150); a eugenia teve lugar em toda a América Latina no período entre as duas grandes guerras, como afirma Nancy Leys Stepan — associada a congressos, à legislação, à saúde materna, ao direito de família, ao controle de doenças “infectológicas” e à imigração (STEPAN, 2004, p. 33). 60 Quanto a medidas higienistas que, também, vão alcançar discursos de higienização moral, étnica, eugênica e de costumes. Porto Carrero, um dos pre- cursores da Psicanálise no Brasil, era membro da Comissão Central Brasileira de Eugenia, criada por Renato Kehl em 1931, “cuja tarefa era promover a eugenia e fazer lobby pela legislação eugênica entre os membros da Assembleia Constituinte” que prepararia a nova Constituição Federal (STEPAN, 2004, pp. 372- 373). “Roquette-Pinto e Kehl foram convidados para integrar uma comissão especial organizada dentro do Ministério do Trabalho para consultoria sobre eugenia e problemas de imigração”. Roquette-Pinto havia sido diretor do Museu Nacional de Antropologia, entre 1926 e 1936; foi o presidente do Primeiro Congresso Brasileiro de Eugenia, em 1929 e suas opiniões, certa- mente, devem ter tido grande peso por sua posição, observou Stepan (STEPAN, 2004, pp. 362,373). Cabe anotar que Kehl percebeu a confusão entre eugenia e saneamento feita pelo público, o que o frustrou em fins da década de 1920 e início da seguinte (STEPAN, 2004, p. 365). Mais tarde, explicou ele, que a aliança com os sanitaristas favorecera a campanha eugêni- ca no seu início, nos conta Stepan, em uma época em que “o conhecimento público sobre eugenia e hereditariedade era pequeno, e para ele próprio não estava muito clara a distinção entre sanea- mento e eugenia”. Depois disso, partiu para provocações aos sanitaristas, por uma via racista, afirmando que reforma higiênica alguma seria capaz de “alterar o estoque hereditário do Brasil” (ibidem).

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 “Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 84 investigando a Psicanálise e o seu campo no Rio de Janeiro. Mas podemos observar uma mesma dinâmica, em termos das impreci- sões das bordas do campo da Psicanálise naquele período de constituição do campo da Psicanálise no Brasil, nas experimenta- ções das técnicas, na sua aplicação e nos seus avizinhamentos60. Atente-se que a difusão da Psicaná- lise no seu campo de constituição, forma- ção, prática, difusão e divulgação, não se confunde com a divulgação da Psicanálise nas revistas. O que as revistas fizeram, e como vimos não apenas O Cruzeiro e a Revista da Semana, foi divulgar o assunto da Psicanálise e familiarizar o leitor ao seu vocabulário, ao nome de Freud, dos seus seguidores e antagonistas e, com sorte, reti- rar de algum leitor ou leitora alguma reis- tência ao assunto. O vocabulário técnico, o método por vezes descrito com seriedade podem ter logrado, aos olhos do leitor, a confiança no novo conhecimento. Esse é um aspecto interessante da Psicanálise nas páginas das revistas. Outro aspecto interes- sante é que outros atores, independente- mente de serem médicos, puderam falar de Psicanálise ou tiveram uma ideia sobre ela e também uma opinião, de que podemos dis- cordar. Outro aspecto é o da Psicanálise aparecer desvinculada do tratamento de loucos, apesar de que a fórmula não fosse muito melhor, pois se pretendeu o auxílio da Psicanálise para “curar” ou se “evitar” alguma patologia social conectada à eugenia, à hereditariedade, a doenças infecciosas, à pobreza. Além do risco das apropriações da Psicanálise a projetos de governos e a utili- zação do assunto da Psicanálise para as per- formances de escritorres em suas carreiras particulares, há a questão das conexões que são feitas nos textos que mesclam as teori- as, o vocabulário da Psicanálise aos pré juí- zos dos próprios escritores nas revistas que podem ter reforçado ou revitalizado pre- conceitos e convicções nos leitores. Tam- bém, os higienistas e os psiquiatras preten- deram encampar a Psicanálise sob os seus próprios propósitos e discursos. Foram di- versos setores hábeis em enviesar e esgarçar os sentidos da Psicanálise naquele período e menos tinta foi gasta nas revistas para o so- frimento e para as angústias humana. De qualquer maneira, tais turbulências podem ter servido como balizadores para o percur- so da Psicanálise no Brasil. Obras Citadas ACADEMIA ESPÍRITO-SANTENSE DE LETRAS, 2022. Patronos acadêmicos. [Online] Available at: https://www.ael.org.br/patronos_e_academ icos/cadeira_04.html ALTHUSSER, L., 1985. Freud e Lacan - Marx e Freud: introdulção crítica-histórica. Rio de Janeiro: Graal. AN T UNES, B. L., 2021. A agroindústria cafeeira de Botucatu-SP: análise heurística da Fazenda Serra Negra. Bauru: (Dissertação) UNESP. BIBLIOTECA VIRTUAL DE PSICOLOGIA - BRASIL, s.d. São Paulo: Conselho Federal de Paicologia/Instituto de Psicologia da Universi- dade de São Paulo-USP/ReBAP. BONADIO, M. C. & GUIMARÃES, M. E. A., 2010. Alceu Penna e a construção de um estilo Brasileiro: modas e figurinos. Horizontes Antropológicos, Volume 16. N. 33. BOTMANN, D., 2013. Curiosidades freudia- nas (1931-1969). Belas infiéis, Volume 2. N. 2, pp. 159-173. B BRESSER-PEREIRA, L. c., 2001. Do Estado patrimonial ao gerencial. Em: Brasil: um século de transformações. São Paulo: Companhia das Le- tras. C CAMARGO, A. R., 2011. O amparo ao teatro durante o governo Vargas: uma discussão so- bre a concessão de subvenções (1930-1945). Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011. C CARRARA, S., 1996. Tributo a vênus: a luta contra a sífilis no Brasil, da passagem do século aos anos 40. Rio de Janeiro: FIOCRUZ.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 “Flutua, não afunda” | Leslye Bombonatto Ursini 85 CASADEI, E. B., 1980. Questões de consumo e a feminização da Revista da Semana. Z Cultural – Revista do programa avançado de cultura contemporânea. CASTRO, R. D., 2015. Correspondência de Julio Porto-Carrero a Arthur Ramos: a Socie- dade Brasileira de Psicanálise e a preocupação com a tradução dos termos psicanalíticos, dé- cadas de 1920 e 1930. História, Ciência, Saúde- Manguinhos, Volume 22. N. 4. CORRÊA, M., 2000. Cartas Freudianas. Comci- ência - Revista eletrônica de jornalismo científico. Dos- siê: A Interpretação dos Sonhos-100 anos. COUTO, D. P. & SILVA, M. L., 2018. A Psicanálise de crianças no Brasil: um relato histórico. Psicologia em pesquisa, Volume 12. N. 3. COUTO, I. S. d., 1992. As cartas de Iracema. Em: A Crônica. s.l.:s.n. CROMBERG, R. U., 2010. Primeiras psicanalistas. Percurso, Volume 45 - Psicanálise: formação e instituições. DACORSO, S. T. d. M. e. & NOGUEIRA, N. H., 2011. Paulo Menotti Del Picchia: sob um soslaio da psicanálise. Estudos de Psicanálise, Volume 35. FIGUEIREDO, A. C., 2008. Psicanálise e universidade: reflexões sobre uma conjunção ainda possível. Fractal Revista de Psicologia, Vo- lume 20. N. 1. FIGUEIREDO, A. C. C. d., 1984. Estratégias de difusão do Moviemnto Psicanalítico no Rio de Janeiro, 1970-1983. Rio de Janeiro: PUC- RIO/Departamento de Psicologia (Disserta- ção). FIOCRUZ, 2019. Em 23 de fevereiro de 1942, Stefan Zweig e esposa cometiam suicídio em Petrópolis. Manguinhos: história, ciências, saúde, fevereir. FREUD, S., [1914] 1965. Contribution à l’histoire du mouvement psychanalytique. Paris: Éditions Pa- yot. GOFFMAN, E., 1974 [1961]. Manicômios, pri- sões e conventos. São Paulo: Perspectiva. GUERINI, L. R. & COSTA, M. J. d. A., 2019. A história e o resto: oscilações clínico-políticas da psicanálise e sua chegada no Brasil. Mnemo- sine, Volume 15. n. 2. IBACACHE, T. I. V., 2016. Oliverio Girondo Y Enrique Jardiel Poncela: un diálogo entre humor y decadencia. Episteme, Volume N. 6, pp. 37-46. ITAÚ, 2015. Carlos Chamberlland. Em: Enci clopedia Itaú Cultural. São Paulo: Itaú Cultural. ITAÚ, 2021. Renato Viana. Em: Enciclopedia Itaú Cultural [online]. São Paulo: Itaú Cultural. ITAÚ, 2022. Max Cesarino Yantok. Em: Enci Clo pédia Itaú Cultural [online]. São Paulo: Itaú Cultural. JACOBINA, R. R., 2014. Nem clima nem raça: a visão médico-social do acadêmico Juliano Moreira sobre a sífilis maligna precoce. Revista Baiana de Saúde Pública, Volume 38. N. 2. JUNQUEIRA FILHO, L. C. U., 2000. A Psi- canálise no Brasil. Comciência - Revista eletrônica de jornalismo científico. Dossiê: A Interpretação dos So- nhos-100 anos. LAPLANCHE, J. & PONTIALIS, J. B., 1991. Vocabulário de Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes. LIRA, J. T. C. d., 2007. Gregori Warchavchik, 1917-1927. Novos estudos, Volume 78, pp. 145- 167. MARFINATI, A. C. & ABRÃO, J. L. F., 2021. Autismos e psicanálise brasileira - práticas e reflexões. São Paulo: Appris. MENEZES, M. O. d. S., 2014. Arthur Ramos e a psicanálise na Bahia. Analytica - Revista de Psi canálise, Volume 3. N. 4. MOREIRA, J. d. O., 2004. Édipo em Freud: o movimento de uma teoria. Psicologia em estudo, pp. 219-227. NARCISO, A. J. d. A., 2016. A medicina vai à escola: ideias e práticas de saúde nos grupos esco lares em Juiz de Fora, Minas Gerais (1906-1929) Rio de Janeiro: Fiocruz (Dissertação).

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ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Loucura e a Lei | José Itamar Soares Júnior 88 A LOUCURA E A LEI: INTERLOCUÇÕES ENTRE O DIREITO PENAL E A PSICANÁLISE NA CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO José Itamar Soares Júnior Artigo de revisão apresentado como requisito parcial à conclusão da Formação e Pós- graduação em Psicanálise - Faculdade de Educação do Piauí / Escola Freudiana de Psica- nálise de Teresina. RESUMO O presente artigo analisa as interlocuções entre o Direito Penal e a Psicanálise, tendo como eixo central a loucura e a constituição do sujeito. Busca-se compreender como o discurso jurídico e o discurso psicana- lítico se articulam na definição da responsabilidade, da culpa e da norma, especialmente quando o sujeito é atravessado pela experiência psicótica. A modernidade jurídica construiu o sujeito racional como base da imputabilidade penal, relegando a loucura ao campo da anormalidade e da tutela. A Psicanálise, desde Freud, ao contrário, introduziu a noção de inconsciente e deslocou o problema da razão para o da lin- guagem e do desejo. Conclui-se que a interlocução entre Direito Penal e Psicanálise revela a insuficiência de uma racionalidade puramente normativa e convida à construção de uma prática jurídica mais humana, capaz de considerar o sujeito em sua dimensão simbólica e desejante. A loucura, longe de ser mero obje- to de exclusão, emerge como experiência que interroga os limites do Direito e reintroduz a ética no cen- tro da justiça. Palavras-chave: Direito Penal; Psicanálise; Loucura; Responsabilidade; Ética; Sujeito. ABSTRACT This article analyzes the dialogue between Criminal Law and Psychoanalysis, focusing on madness and the constitution of the subject. The article seeks to understand how legal discourse and psychoanalytic discourse articulate in defining responsibility, guilt, and the norm, especially when the subject is affected by psychotic experiences. Legal modernity constructed the rational subject as the basis of criminal liabi- lity, relegating madness to the realm of abnormality and protection. Psychoanalysis, since Freud, on the contrary, has introduced the notion of the unconscious and shifted the problem from reason to that of language and desire. The conclusion is that the dialogue between Criminal Law and Psychoanalysis re- veals the insufficiency of a purely normative rationality and invites the construction of a more humane legal practice, capable of considering the subject in its symbolic and desiring dimension. Madness, far from being a mere object of exclusion, emerges as an experience that questions the limits of law and reintroduces ethics at the center of justice. Keywords: Criminal Law; Psychoanalysis; Madness; Responsibility; Ethics; Subject

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Loucura e a Lei | José Itamar Soares Júnior 89 1. INTRODUÇÃO O presente trabalho tem por objetivo analisar as interlocuções entre o Direito Penal e a Psi- canálise, com ênfase na forma como ambos os campos tratam a questão da loucura e da cons- tituição do sujeito. A escolha do tema decorre da necessidade de problematizar o modelo racionalista que sustenta o discurso jurídico moderno, segundo o qual o sujeito é concebi- do como plenamente consciente, dotado de vontade livre e capaz de autodeterminação moral. Essa concepção, ainda hegemônica na dogmática penal, exclui de sua estrutura a di- mensão inconsciente que constitui o sujeito humano e o atravessamento do desejo e da linguagem em suas ações. A relação entre o Direito e a loucura foi, histo- ricamente, marcada pela exclusão e pela pato- logização. A partir do século XVIII, o louco deixou de ser considerado apenas uma figura mística ou marginal para se tornar objeto de saber e de controle social, especialmente após o surgimento do asilo e das instituições de con- finamento. Michel Foucault, em História da Loucura e Vigiar e Punir, demonstra que o nas- cimento da racionalidade moderna implicou a segregação daquilo que ela própria definia co- mo irracional, instaurando uma fronteira sim- bólica entre o homem da razão e o homem da desrazão. Essa operação histórica produziu uma verdade jurídica e médica sobre o louco: ele passou a ser visto como irresponsável, peri- goso e incapaz, reduzido à condição de objeto de tutela. A Psicanálise, inaugurada por Sigmund Freud e radicalizada por Jacques Lacan, rompe com essa tradição ao recolocar a loucura no campo da linguagem e do sujeito. Ao reconhecer o inconsciente como estruturado pela linguagem, a Psicanálise desvela que o sujeito não se con- funde com a consciência e que o ato humano carrega dimensões simbólicas que ultrapassam a racionalidade jurídica. A loucura, sob essa ótica, não é simples ausência de razão, mas uma forma singular de relação com a Lei, uma tentativa de reinscrever-se simbolicamente em um laço que, por alguma falha, foi rompido. Nesse sentido, o Direito Penal, ao fundar-se na ideia de culpa consciente e na possibilidade de compreensão do ilícito, enfrenta o desafio de lidar com um sujeito que escapa à normativi- dade da razão. A questão da imputabilidade penal dos indivíduos acometidos por transtor- nos psíquicos, por exemplo, revela a tensão entre o discurso jurídico, que busca objetivida- de e certeza, e a Psicanálise, que reconhece o sujeito como dividido, inconsciente e marcado pela falta. Compreender esse embate é essenci- al para repensar o conceito de responsabilida- de, não como mera adequação normativa, mas como implicação ética do sujeito em seu pró- prio ato. A análise proposta neste trabalho não pretende dissolver as fronteiras entre Direito e Psicanáli- se, mas construir uma interlocução crítica e produtiva. Pretende-se demonstrar que a in- trodução da escuta psicanalítica no campo jurí-

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Loucura e a Lei | José Itamar Soares Júnior 90 dico não anula a função da norma, mas a hu- maniza, restituindo ao sujeito o direito à pala- vra, ao reconhecimento e à responsabilização simbólica. A escolha do tema justifica-se, em primeiro lugar, pela formação jurídica e pela experiência docente do autor, que leciona no curso de Ba- charelado em Direito, na disciplina de Direito Penal, o que propicia contato constante com os fundamentos dogmáticos e filosóficos que sustentam a noção moderna de responsabilida- de criminal. Soma-se a isso a atuação profissi- onal como perito criminal da Polícia Civil, na qual se observa, cotidianamente, a tensão entre o discurso técnico-científico da prova pericial e as dimensões subjetivas que emergem nas prá- ticas investigativas e judiciais. Essa dupla inser- ção, tanto acadêmica como profissional, ofere- ce uma posição privilegiada para refletir sobre a interface entre Direito e Psicanálise, especi- almente no que se refere à presença da loucura e da subjetividade no campo penal. A vivência prática com casos que envolvem sofrimento psíquico, atos infracionais e conflitos éticos no exercício pericial reforça a relevância de repen- sar as bases simbólicas da responsabilidade penal e de aproximar o discurso jurídico da escuta do sujeito, propósito central deste traba- lho. 2. METODOLOGIA A metodologia adotada neste trabalho funda- menta-se em uma abordagem teórico- analítica de natureza qualitativa, estruturada a partir de pesquisa bibliográfica e análise conceitual. Considerando que o objeto do estudo se situa na interface entre o Direito Penal e a Psicanáli- se, a opção metodológica mais adequada é aquela que privilegia a interpretação crítica e o exame hermenêutico dos discursos teóricos que sustentam essas áreas do saber. A pesquisa é de caráter essencialmente teórico e bibliográfico, construída a partir da leitura, interpretação e confrontação de obras clássicas e contemporâneas de referência nos campos do Direito, da Psicanálise, da Filosofia e da Criminologia crítica. A natureza qualitativa do estudo decorre da ênfase na compreensão e na interpretação dos sentidos que os conceitos de lei, culpa, loucura e sujeito assumem em cada tradição discursiva, em lugar de uma aborda- gem quantitativa ou empírica. O método de investigação é dedutivo e inter- pretativo. Parte-se de pressupostos teóricos gerais, para, a partir deles, examinar de que forma tais categorias se articulam e se tensio- nam na prática penal e nas concepções de res- ponsabilidade. Essa orientação dedutiva, no entanto, não se limita à aplicação de teorias preexistentes, mas busca compreender o modo como elas se transformam mutuamente quan- do colocadas em diálogo interdisciplinar. O movimento interpretativo, por sua vez, consti- tui a base da análise hermenêutica empregada, já que o objeto de estudo envolve conceitos simbólicos e discursivos cuja apreensão depen- de do exame de significados, contextos e im- plicações éticas. O percurso metodológico desenvolveu-se em

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Loucura e a Lei | José Itamar Soares Júnior 91 três etapas complementares. A primeira consis- tiu no levantamento e seleção da bibliografia pertinente, contemplando autores fundamen- tais como Sigmund Freud, Jacques Lacan, Mi- chel Foucault, Vladimir Safatle, Christian Dun- ker, Franco Basaglia, Luigi Ferrajoli e Joel Bir- man, entre outros. Essa revisão permitiu esta- belecer os alicerces teóricos para compreender a construção histórica da racionalidade jurídica moderna, o nascimento do discurso psiquiátri- co e a emergência da Psicanálise como discurso sobre o sujeito e a Lei. A segunda etapa compreendeu a análise inter- pretativa e comparativa das categorias centrais de ambos os campos. No âmbito jurídico, fo- ram estudados os conceitos de culpabilidade, imputabilidade e pena, bem como o papel da norma na constituição do sujeito de direitos. Na Psicanálise, examinaram-se as noções de inconsciente, desejo, gozo, foraclusão, ética e escuta, considerando suas implicações na com- preensão do ato, da transgressão e da respon- sabilidade subjetiva. A leitura cruzada desses conceitos permitiu observar tanto as conver- gências quanto as divergências entre as duas disciplinas, especialmente no que concerne à tensão entre o universal da norma e a singula- ridade do sujeito. A terceira etapa consistiu na elaboração da síntese crítica e na articulação interdisciplinar dos resultados teóricos. Buscou-se construir um discurso analítico que não reduzisse o Di- reito à Psicologia nem a Psicanálise à Medicina Legal, mas que reconhecesse a autonomia epis- temológica de cada campo, preservando suas diferenças enquanto permite o diálogo ético entre ambos. Essa síntese se orientou pelo princípio de que a Lei jurídica e a Lei simbóli- ca, embora distintas, partilham a mesma estru- tura de linguagem e limite. Ambas instauram o campo do desejo e da interdição, e é nessa intersecção que se pode compreender o lugar da loucura e da responsabilidade. A base epistemológica da pesquisa é a herme- nêutica crítica, inspirada na tradição filosófica contemporânea que compreende o conheci- mento como interpretação situada. O diálogo entre Direito e Psicanálise é aqui compreendi- do como um exercício de leitura mútua: o Di- reito lê a Psicanálise para reconhecer seus pró- prios limites e o inconsciente que o atravessa; a Psicanálise lê o Direito para compreender co- mo a Lei estrutura o desejo e o laço social. Trata-se, portanto, de uma metodologia que privilegia a escuta e a abertura à alteridade, princípios que também se refletem na postura ética do pesquisador diante do objeto estuda- do. Ao adotar esse percurso metodológico, o pre- sente trabalho pretende contribuir para o avan- ço da reflexão crítica sobre o modo como o discurso jurídico lida com a diferença, o sofri- mento e a loucura. Mais do que buscar respos- tas definitivas, o objetivo é sustentar o campo da pergunta: como o Direito pode reconhecer o sujeito do inconsciente sem abdicar de sua função normativa? E como a Psicanálise pode intervir eticamente no campo jurídico sem transformar a Lei em mero sintoma? Essas questões constituem o próprio horizonte me-

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Loucura e a Lei | José Itamar Soares Júnior 92 todológico do estudo, reafirmando que a inter- locução entre Direito e Psicanálise é um exer- cício de travessia, no qual o conhecimento se constrói no movimento de escuta e de reflexão sobre os limites da razão e da norma. 3. REVISÃO DE LITERATURA 3.1. A LOUCURA E O NASCIMENTO DA RAZÃO JURÍDICA MODERNA A constituição da racionalidade jurídica mo- derna está intimamente vinculada à forma co- mo a sociedade ocidental tratou a loucura. O processo de institucionalização do Direito Pe- nal, enquanto expressão da razão estatal e da ordem normativa, não pode ser compreendido sem considerar o movimento paralelo de ex- clusão daquilo que o pensamento moderno denominou de “desrazão”. A formação do sujeito jurídico racional é, ao mesmo tempo, a negação simbólica do sujeito louco. Michel Foucault, ao reconstruir a genealogia da loucura na História da Loucura na Idade Clássica, demonstra que a separação entre razão e desra- zão não é natural, mas histórica. Antes do sé- culo XVII, o louco era uma figura social ambí- gua, muitas vezes inserida na vida coletiva, na arte ou na religião. A partir da modernidade, no entanto, ele se torna objeto de confinamen- to, vigilância e correção. O chamado “grande internamento”, movimento que culminou na criação das casas de trabalho e hospitais gerais, marca o momento em que o louco deixa de ser sujeito de palavra para tornar-se corpo a ser disciplinado. Essa exclusão, longe de ser apenas um fenô- meno médico, foi também jurídico e moral. A loucura passou a ser tratada como ruptura da ordem e ameaça à racionalidade do Estado. O internamento e a punição tornaram-se instru- mentos complementares de um mesmo poder: aquele que visa restabelecer a normalidade pela exclusão da diferença. O discurso jurídico mo- derno, ao pretender fundar-se na razão univer- sal, construiu-se sobre o silenciamento do ou- tro da razão — o louco, o criminoso, o desvia- do. No contexto iluminista, o sujeito de direitos é concebido como indivíduo dotado de vontade livre e racionalidade plena. Essa imagem, pre- sente em Kant e Rousseau, fundamenta o prin- cípio da responsabilidade penal. Aquele que conhece a lei e pode determinar-se conforme ela é imputável; aquele que não o pode é exclu- ído do campo da culpa. Surge, assim, o para- doxo da modernidade: o Direito, em nome da liberdade, produz novas formas de exclusão. Ao longo do século XIX, esse paradigma raci- onalista foi reforçado pela ascensão do positi- vismo. O pensamento jurídico de Cesare Lom- broso e Enrico Ferri introduziu no Direito Penal uma perspectiva biologizante, que redu- zia o crime à expressão de degenerações here- ditárias ou patologias morais. A figura do “criminoso nato” espelha a do “louco perigo- so”: ambos são classificados como corpos des- viantes a serem observados, catalogados e neu- tralizados. O saber jurídico passa a dialogar com o saber médico, inaugurando o campo da psiquiatria forense.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Loucura e a Lei | José Itamar Soares Júnior 93 Essa aliança entre Direito e medicina produziu uma nova forma de controle social. Como observa Giorgio Agamben, a modernidade jurídica operou a transformação da vida em objeto de poder, o que ele denomina biopolítica. O corpo do louco, do criminoso e do doente mental é capturado por um poder que não apenas proíbe, mas administra a vida. A inter- nação, a perícia e a medida de segurança são expressões dessa captura: o Direito passa a gerir a vida nua, isto é, a vida reduzida à sua dimensão biológica e desprovida de voz. Pierre Legendre aprofunda essa leitura ao mos- trar que o Direito não é apenas um sistema de normas, mas também um sistema de crenças. Toda ordem jurídica funda-se em uma ficção simbólica, uma narrativa que organiza o desejo social. O sujeito jurídico moderno é o herdeiro dessa ficção: aquele que se submete à Lei para ser reconhecido como sujeito. A loucura, ao escapar dessa inscrição simbólica, ameaça o próprio edifício da Lei. Por isso, a exclusão do louco é também um gesto de reafirmação do poder normativo. Assim, o nascimento da razão jurídica moderna coincide com a constituição de um dispositivo de exclusão que separa os sujeitos aptos à cida- dania dos sujeitos da tutela. A loucura é confi- nada ao espaço médico-jurídico e tratada como não-sujeito de direitos. A figura do perito subs- titui a do confessor, e a linguagem da medicina ocupa o lugar do discurso ético. O processo penal torna-se o palco de uma dupla autoridade — a do juiz e a do psiquiatra — ambas legiti- madas pela pretensão de representar a verdade. A racionalidade penal moderna, portanto, não apenas julga o ato, mas também classifica o sujeito. O Direito deixa de interrogar a inten- ção e passa a interrogar a personalidade. O criminoso e o louco tornam-se tipos sociais, categorias de saber que justificam a intervenção do Estado. A medida de segurança, nesse sen- tido, é a expressão máxima do poder discipli- nar: ela não pune, mas corrige; não castiga, mas vigia. 3.1.1 O dispositivo da exclusão e a arqueologia da loucura A noção foucaultiana de “dispositivo” é fun- damental para compreender a articulação entre Direito, poder e loucura. Um dispositivo é um conjunto heterogêneo de práticas, discursos e instituições que produzem efeitos de verdade e de subjetivação. O dispositivo da exclusão or- ganiza o campo social ao delimitar o que é racional e o que deve ser silenciado. O hospital psiquiátrico, o manicômio judiciário e a prisão são expressões materiais desse dispo- sitivo. Nesses espaços, o sujeito é reduzido a objeto de saber e de controle. O silêncio im- posto à loucura é, paradoxalmente, o que a faz falar sob a forma do sintoma. O internamento é uma técnica de governo das almas, uma for- ma de traduzir o sofrimento em diagnóstico e de substituir o conflito simbólico pela classifi- cação médica. A arqueologia da loucura, proposta por Fou- cault, revela que o internamento do louco não visava à cura, mas à manutenção da ordem. O que estava em jogo não era o tratamento, mas

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Loucura e a Lei | José Itamar Soares Júnior 94 a moral. A exclusão da loucura, assim, é o es- pelho no qual a razão moderna se reconhece. 3.1.2 O poder disciplinar e a medicalização do desvio O século XIX testemunhou a consolidação do poder disciplinar, caracterizado por Foucault como uma nova tecnologia de poder. Diferente do poder soberano, que se exerce pelo direito de punir e matar, o poder disciplinar atua pelo controle dos corpos e pela vigilância perma- nente. O hospital, a escola, a fábrica e a prisão consti- tuem redes de observação e normatização. O sujeito é formado e controlado ao mesmo tempo. No campo penal, essa lógica se traduz na passagem do suplício à correção: punir dei- xa de ser um espetáculo e torna-se um proces- so pedagógico. A medicalização do desvio representa a fase final dessa transformação. A punição passa a ser legitimada não apenas pela moral, mas pela ciência. O crime é tratado como patologia; o castigo, como terapia. O resultado é a fusão entre poder jurídico e poder médico, que dá origem ao Estado tutelar. Ao definir o louco como inimputável, o Direi- to Penal moderno reafirma a lógica da tutela. O sujeito psicótico é excluído da ordem jurídi- ca em nome da proteção social, mas sua exclu- são se converte em perpetuação do confina- mento. O hospital de custódia torna-se o espa- ço emblemático dessa ambiguidade: lugar de não-punição e de não-liberdade. Em síntese, o nascimento da razão jurídica moderna coincide com a fundação de uma política da normalidade. A loucura é separada da razão, o delírio é transformado em sintoma, e o sujeito é reduzido àquilo que deve ser cor- rigido. O Direito Penal, ao operar nesse regis- tro, corre o risco de converter-se em instru- mento de medicalização e controle, perdendo de vista a dimensão simbólica e ética que cons- titui o humano. 3.2 O SUJEITO DO INCONSCIENTE E A ESTRUTURA PSICÓTICA A emergência da Psicanálise, no final do século XIX, produziu uma ruptura epistemológica profunda em relação à concepção moderna de sujeito. Se o Direito moderno se constrói sobre a noção de consciência e racionalidade, a Psi- canálise revela um sujeito atravessado pelo inconsciente, dividido entre saber e não saber, razão e desejo. Essa transformação implica não apenas uma nova forma de compreender o comportamento humano, mas também uma reconfiguração ética da responsabilidade e da culpa. A partir de Freud e, posteriormente, de Lacan, o sujeito deixa de ser entendido como entidade substancial e passa a ser concebido como efei- to de linguagem. Essa virada implica que o sujeito não é anterior à Lei, mas constituído por ela. A Lei, na Psicanálise, não é apenas uma norma jurídica, mas uma estrutura simbó- lica que delimita o desejo e torna possível a convivência humana. Assim, compreender a loucura, sob o olhar psicanalítico, significa

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Loucura e a Lei | José Itamar Soares Júnior 95 compreender uma falha na relação entre o su- jeito e essa Lei simbólica que o funda. 3.2.1 Freud e a descoberta do inconsciente Sigmund Freud inaugura, com a Psicanálise, uma revolução no modo de pensar o sujeito. Ao afirmar que o inconsciente é estruturado como um sistema dotado de lógica própria, ele rompe com a tradição filosófica e jurídica que via o homem como senhor de sua razão e de sua vontade. O inconsciente, longe de ser um depósito de irracionalidades, é uma instância de saber, um saber que fala por meio dos sonhos, dos sintomas, dos atos falhos e dos lapsos de linguagem. Essa concepção freudiana tem implicações diretas para o campo jurídico. O ato, que para o Direito é expressão da vontade consciente, para a Psicanálise pode ser também manifesta- ção de um conflito inconsciente. A responsabi- lidade, portanto, não se limita ao plano da in- tenção, mas inclui dimensões desconhecidas do próprio sujeito. Freud observou que o sintoma é uma forma- ção de compromisso entre desejo e proibição. Ele condensa uma verdade reprimida que re- torna sob forma disfarçada. Nessa perspectiva, a loucura não é ausência de razão, mas uma tentativa de reorganização do mundo simbóli- co. O sujeito psicótico, ao delirar, constrói uma nova ordem significante para suportar a inva- são do real. O célebre caso Schreber, analisado por Freud em 1911, é paradigmático para compreender essa dinâmica. Daniel Paul Schreber, juiz ale- mão que desenvolveu um delírio de persegui- ção e de transformação corporal, acreditava estar sendo submetido a forças divinas que visavam regenerar a humanidade. Freud perce- beu nesse delírio não uma simples desrazão, mas uma lógica de sentido: Schreber buscava restituir, através do delírio, uma coerência sim- bólica perdida. A partir desse caso, Freud formula uma hipó- tese essencial: na psicose, há uma ruptura na relação do sujeito com a realidade, resultante da recusa de um significante fundamental — a figura paterna como representante da Lei. O delírio, portanto, é uma tentativa de cura, uma reconstrução imaginária daquilo que se perdeu. Essa leitura confere à loucura uma dignidade simbólica que o discurso jurídico tradicional havia negado. 3.2.2 Lacan: a foraclusão do Nome-do-Pai e a Lei simbólica Jacques Lacan retoma e radicaliza a descoberta freudiana, deslocando o centro da teoria do inconsciente para a estrutura da linguagem. Para ele, “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, o que significa que o sujeito é efeito do significante. Diferentemente da psi- cologia do ego, que concebe o indivíduo como um todo unitário, Lacan mostra que o sujeito é uma divisão, uma fenda produzida pela entrada na linguagem. No ensino de Lacan, a loucura não é definida por déficit cognitivo, mas por uma falha estru- tural na inscrição do sujeito na Lei simbólica. Essa Lei é representada, no modelo lacaniano,

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Loucura e a Lei | José Itamar Soares Júnior 96 pelo “Nome-do-Pai”, o significante que garan- te a mediação entre o desejo e a Lei, introdu- zindo o sujeito na ordem simbólica da cultura. Quando o Nome-do-Pai é foracluído, isto é, excluído do campo simbólico, o sujeito perde essa mediação. O significante que deveria an- corar o sentido retorna no real sob forma de alucinação ou delírio. A psicose, portanto, não é ausência de linguagem, mas excesso de real: uma invasão do sentido que o sujeito tenta dominar através do discurso delirante. Essa concepção lacaniana tem grande relevân- cia para o Direito Penal. A imputabilidade jurí- dica parte do pressuposto de que o sujeito re- conhece a lei e pode agir de acordo com ela. Na psicose, entretanto, a Lei não é reconhecida no plano simbólico; ela se manifesta como comando exterior, voz persecutória ou imposi- ção divina. O psicótico não é inimputável por- que ignora a norma, mas porque a experimenta de forma radical e despida de mediação. O que se perde, na psicose, é justamente a dis- tância simbólica que permite ao sujeito situar- se diante da Lei. O delírio surge como uma tentativa de reintroduzir essa distância, criando um sistema de significações que substitui o laço social. Nesse sentido, a exclusão jurídica do louco como inimputável reproduz, no plano institucional, a mesma falha estrutural que o delírio tenta reparar: a ausência de escuta, de simbolização e de reconhecimento. 3.2.3 A loucura como linguagem A partir de Freud e Lacan, a Psicanálise propõe uma virada conceitual: a loucura não é ausência de linguagem, mas linguagem em estado puro. O delírio é uma produção de sentido, ainda que singular e muitas vezes incompreensível ao olhar social. Escutar o louco é, portanto, reco- nhecer que há um sujeito em sua fala. Um su- jeito que tenta nomear o indizível. Essa concepção desafia profundamente o Di- reito Penal, que se estrutura sobre o ideal de clareza e racionalidade. O discurso jurídico busca eliminar ambiguidades, enquanto o dis- curso analítico reconhece que a verdade do sujeito é sempre fragmentada. A fala do louco, que para o Direito é ruído, para a Psicanálise é testemunho. Christian Dunker observa que o ato analítico se define por sustentar o lugar da fala, permi- tindo que o sujeito se responsabilize simboli- camente por seu sintoma. Essa ética da escuta pode inspirar o campo jurídico a repensar o modo como se relaciona com a loucura. Ao invés de classificar, o Direito poderia escutar; ao invés de excluir, poderia reconhecer. A loucura, enquanto linguagem, denuncia os limites da razão jurídica moderna. Ela revela que o sujeito não é inteiramente capturado pela norma e que há sempre um resto de sentido que escapa ao controle da lei. Nesse resto, ha- bita o inconsciente, o lugar onde a verdade fala, ainda que de modo tortuoso. Assim, compreender a loucura à luz da Psica- nálise não significa dissolver a responsabilida- de, mas reinscrevê-la em outro registro: o da responsabilidade pelo próprio dizer. Escutar o louco é oferecer-lhe a possibilidade de reconci- liação com a Lei simbólica, não pela coerção,

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Loucura e a Lei | José Itamar Soares Júnior 97 mas pela palavra. 3.3 DIREITO PENAL, RESPONSABILIDA- DE E GOZO A responsabilidade penal constitui um dos pilares fundamentais do sistema jurídico mo- derno. Desde o Iluminismo, a noção de culpa e de imputabilidade se apoia na crença de que o homem é capaz de compreender o caráter ilíci- to de sua conduta e de agir conforme essa compreensão. A estrutura do Direito Penal, portanto, repousa sobre a imagem de um sujei- to racional, consciente e livre. No entanto, a Psicanálise, ao introduzir o inconsciente, sub- verte essa lógica ao demonstrar que a ação humana é atravessada por desejos, pulsões e formações simbólicas que escapam ao controle da consciência. O ato, para o Direito, é o ponto de chegada da vontade; para a Psicanálise, é o ponto de emer- gência do inconsciente. O crime, nesse sentido, não é apenas uma infração à norma, mas pode ser também um modo de dizer algo que o su- jeito não conseguiu simbolizar de outra forma. A dimensão ética que a Psicanálise introduz no campo jurídico não visa à absolvição, mas à responsabilização subjetiva: trata-se de permitir que o sujeito reconheça o desejo implicado em seu ato. 3.3.1 A culpabilidade jurídica e a culpabilidade ética O conceito de culpabilidade no Direito Penal está vinculado à capacidade de autodetermina- ção. Para que haja culpa, é necessário que o agente possua consciência do ilícito e possibili- dade de agir de modo diverso. Essa concepção se ancora em um modelo racionalista de sujei- to, derivado da filosofia moral kantiana, que associa a liberdade à obediência à razão. A Psicanálise, por sua vez, introduz uma nova perspectiva sobre a culpa. Freud demonstrou que o sentimento de culpa antecede o ato e está relacionado à ambivalência pulsional que estrutura o sujeito. Em O mal-estar na civilização, o autor mostra que a civilização se sustenta sobre a repressão do desejo e que a culpa é o preço da renúncia pulsional. O sujeito é atra- vessado por um conflito entre o princípio do prazer e as exigências da Lei, conflito que constitui sua própria condição de ser civilizado. A culpabilidade ética, nesse sentido, não se refere à violação de uma norma externa, mas à recusa de reconhecer o próprio desejo. Lacan retoma essa ideia ao afirmar que “a única coisa de que se pode ser culpado é de ceder de seu desejo”. Essa frase, extraída do Seminário 7 – A Ética da Psicanálise, traduz uma concepção radi- cal de responsabilidade: o sujeito é responsável não pelo que faz em conformidade com a norma, mas pelo que faz de si mesmo ao dese- jar. No campo penal, essa concepção desloca a questão da imputabilidade. O inimputável, sob a ótica da Psicanálise, não é aquele que está isento de responsabilidade, mas aquele que ainda não pôde se reconhecer em seu ato. O trabalho analítico não visa, portanto, à punição ou à absolvição, mas à produção de um lugar simbólico a partir do qual o sujeito possa se

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Loucura e a Lei | José Itamar Soares Júnior 98 implicar em sua própria história. Essa distinção entre culpabilidade jurídica e ética revela que a Psicanálise não nega a res- ponsabilidade, mas a reinscreve em outro pla- no. O Direito busca garantir a ordem; a Psica- nálise, a verdade do sujeito. Ambas se encon- tram quando se reconhece que o ato humano não pode ser reduzido à intenção consciente. 3.3.2 O ato, o desejo e o inconsciente O ato ocupa um lugar central tanto na Psicaná- lise quanto no Direito. No primeiro, o ato é expressão do inconsciente; no segundo, é a materialização da vontade. No entanto, há uma diferença decisiva: para o Direito, o ato é algo a ser avaliado e punido; para a Psicanálise, algo a ser interpretado. O ato analítico, segundo Lacan, é aquele que produz um novo saber sobre o desejo. Quando o sujeito realiza um ato, ele se confronta com aquilo que há de mais singular em sua relação com a Lei. O crime, nesse sentido, pode ser compreendido como um modo de inscrever o sujeito na Lei simbólica, ainda que de forma distorcida. A noção de ato falho — introduzida por Freud — permite compreender que as ações humanas são portadoras de sentido inconsciente. O ato criminoso pode ser, em alguns casos, uma ten- tativa de resolver simbolicamente uma falta, uma resposta ao vazio estrutural do sujeito. Isso não implica justificá-lo, mas reconhecer que ele carrega uma verdade subjetiva que o discurso jurídico tende a silenciar. A distinção entre ato e ação é fundamental. A ação é calculada, intencional; o ato, ao contrá- rio, irrompe como algo que excede o sujeito. Ele é da ordem do acontecimento, do trauma e do desejo. Quando o Direito pretende com- preender o ato apenas pela lógica da intenção, ele desconsidera a dimensão inconsciente que o constitui. A Psicanálise convida o Direito a reconhecer que a responsabilidade não depende da consci- ência plena, mas da posição subjetiva que o indivíduo ocupa diante do que fez. Mesmo o sujeito psicótico, embora possa ser declarado inimputável, pode encontrar, por meio da escu- ta e da palavra, um lugar de responsabilização simbólica. Trata-se de uma responsabilidade que não se confunde com a penal, mas que diz respeito à possibilidade de assumir o próprio dizer. 3.3.3 O gozo e a lei: entre punição e desejo O conceito de gozo, formulado por Lacan, é decisivo para compreender a relação entre o sujeito e a Lei. O gozo é a dimensão de prazer paradoxal que acompanha a transgressão, o excesso que ultrapassa o princípio do prazer e que se vincula à pulsão de morte. Ele não se confunde com o prazer; é, antes, um sofrimen- to prazeroso, uma satisfação que advém do próprio confronto com a Lei. No campo penal, o gozo aparece tanto no su- jeito infrator quanto na própria sociedade pu- nitiva. Para o delinquente, a transgressão pode representar uma forma de gozo, isto é, uma tentativa de confrontar-se com a Lei e de afir-

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Loucura e a Lei | José Itamar Soares Júnior 99 mar uma posição de existência frente ao Ou- tro. Para a coletividade, a punição cumpre também uma função de gozo social: punir o outro é reafirmar a própria normalidade. Foucault, em Vigiar e Punir, mostra que o casti- go moderno, ao substituir o suplício pelo en- carceramento, não aboliu o prazer do controle. A sociedade disciplinar continua a gozar da punição, ainda que sob a máscara da reabilita- ção. O gozo da punição é o gozo da ordem: o prazer de ver o desvio ser reconduzido à nor- ma. A Psicanálise permite compreender que o Di- reito, ao aplicar a pena, não atua apenas racio- nalmente, mas também de forma pulsional. O desejo de punir é, muitas vezes, expressão de uma necessidade inconsciente de manter o Outro em posição de culpado. A função sim- bólica da pena deveria ser, contudo, a de res- taurar a Lei enquanto significante, e não apenas satisfazer o gozo da vingança. Essa compreensão abre espaço para uma ética da justiça que ultrapasse o binarismo entre castigo e absolvição. Reconhecer o gozo que habita a Lei é reconhecer que o Direito não é neutro e que todo julgamento é também atra- vessado por paixões, medos e identificações. A Psicanálise, ao trazer à luz esses elementos, não destrói o Direito, mas o humaniza. 3.3.4 A responsabilidade como laço com a Lei A noção de responsabilidade, na perspectiva psicanalítica, ultrapassa o campo jurídico e se inscreve na dimensão simbólica do sujeito. Ser responsável é responder por aquilo que se diz, e não apenas pelo que se faz. Lacan indica que o sujeito só existe quando responde ao chama- do da Lei simbólica. Essa resposta pode se dar pela obediência, pela transgressão ou pelo sin- toma; o que importa é o reconhecimento da Lei como instância constitutiva. No Direito Penal, a responsabilidade é medida por critérios de imputabilidade; na Psicanálise, ela se mede pela posição subjetiva frente ao desejo. Mesmo o sujeito em surto psicótico, ao falar, pode ser reconduzido a um lugar simbó- lico de responsabilidade, ainda que não jurídi- co. O que a Psicanálise propõe é uma respon- sabilização pela palavra, uma forma de reinscri- ção na Lei através da escuta. Dessa forma, o encontro entre Direito e Psica- nálise no campo da responsabilidade não é um confronto, mas uma possibilidade de diálogo ético. O Direito busca garantir a ordem social; a Psicanálise, a verdade do sujeito. Ambas se encontram no reconhecimento de que a Lei não é apenas uma norma, mas um significante que organiza o desejo e sustenta o laço social. 3.4 A PENA, O PODER E O GOZO COLE- TIVO A pena constitui, dentro da lógica penal mo- derna, o mecanismo simbólico por excelência de reafirmação da Lei. É por meio dela que o Estado manifesta sua autoridade, delimita o permitido e o proibido e reafirma o pacto soci- al ameaçado pela transgressão. No entanto, como demonstra Michel Foucault, a pena não é apenas uma técnica de correção, mas também

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Loucura e a Lei | José Itamar Soares Júnior 100 um instrumento de poder. Por trás da raciona- lidade punitiva que se apresenta como legítima e necessária, há um conjunto de práticas e sa- beres que disciplinam, vigiam e normalizam os corpos e as condutas. A Psicanálise, por sua vez, introduz um olhar que ultrapassa a superfície moral ou jurídica da punição, revelando a dimensão pulsional e inconsciente que nela se inscreve. A relação entre o sujeito e a Lei é marcada pelo gozo, uma satisfação paradoxal que acompanha tanto o ato de transgredir quanto o ato de punir. Desse modo, a pena, para além de sua função jurídica, também desempenha um papel simbó- lico e libidinal na manutenção da coesão social. 3.4.1 O castigo como dispositivo de normaliza- ção A transformação histórica da pena, do suplício público ao encarceramento, reflete a mudança nas formas de exercício do poder. Foucault, em Vigiar e Punir, demonstra que a execução pública, espetáculo de dor e de soberania, foi substituída, no século XIX, por mecanismos mais sutis e contínuos de vigilância e correção. O suplício, que antes inscrevia no corpo o po- der do soberano, cedeu lugar ao controle per- manente dos comportamentos, à observação e à classificação dos indivíduos. O castigo moderno não busca mais o espetácu- lo da dor, mas a produção da docilidade. A prisão, a escola, o hospital e a fábrica torna- ram-se instituições exemplares desse novo modelo disciplinar. Cada uma delas opera pela vigilância, pela normatização e pela repetição, produzindo sujeitos conformes ao ideal de produtividade e de utilidade social. A pena, nesse contexto, não é apenas uma resposta ao crime, mas um dispositivo pedagógico e políti- co que molda subjetividades. O Direito Penal, sob a égide dessa racionalida- de disciplinar, assumiu a função de normalizar o desvio. O criminoso deixou de ser apenas aquele que violou a Lei, tornando-se aquele que precisa ser “corrigido” e “reabilitado”. O discurso jurídico passou a dialogar com o dis- curso médico e psicológico, buscando, no inte- rior da ciência, justificativas para o controle da conduta. Assim, o castigo moderno é também uma forma de saber: ele classifica, diagnostica e individualiza o sujeito, transformando-o em objeto de observação e experimentação. Essa dinâmica evidencia o que Foucault de- nomina “sociedade disciplinar”, na qual o po- der se infiltra nas práticas cotidianas e nos dis- cursos científicos. A pena, longe de ser um simples instrumento de justiça, torna-se um mecanismo de manutenção da ordem simbóli- ca. Punir, nesse sentido, é ensinar a obediência, reproduzindo o ideal de um sujeito dócil e ra- cional. A medicalização da punição, característica dos sistemas penais contemporâneos, reforça essa lógica de controle. O preso, o delinquente ou o louco são tratados como objetos de interven- ção técnica. Essa mutação discursiva, embora aparente humanização, encobre a continuidade da exclusão. O castigo é apenas deslocado do corpo físico para o corpo psíquico, mantendo- se a mesma estrutura de subordinação.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Loucura e a Lei | José Itamar Soares Júnior 101 3.4.2 O gozo social da punição e a função sim- bólica da pena A Psicanálise, ao introduzir a noção de gozo, permite compreender o aspecto libidinal da punição. O gozo, para Lacan, é o prazer para- doxal que advém do encontro com a Lei e com o limite. Ao mesmo tempo em que o sujeito sofre com a interdição, ele retira dela uma sa- tisfação inconsciente. A Lei, ao proibir, tam- bém produz desejo, e é dessa tensão que se alimenta o laço social. No campo penal, esse fenômeno se manifesta de duas maneiras complementares. De um lado, o infrator encontra, no ato de transgredir, uma forma de confrontar-se com a Lei e de afirmar sua existência diante do Outro. O cri- me pode ser lido como uma tentativa de inscri- ção simbólica. De outro lado, a sociedade, ao punir, também goza. O espetáculo da punição, mesmo quando mediado pela linguagem jurídi- ca, satisfaz uma necessidade inconsciente de reafirmar o poder da norma e de expulsar sim- bolicamente o mal. Vladimir Safatle e Christian Dunker, ao refleti- rem sobre a cultura punitiva contemporânea, observam que a sociedade moderna substituiu o suplício físico pelo prazer da vigilância. O gozo coletivo da punição se expressa na satis- fação moral e midiática de ver o outro reduzi- do à condição de culpado. As redes sociais, os tribunais e a opinião pública tornam- se arenas desse gozo: a punição não é apenas aplicada, é encenada. A função simbólica da pena, porém, deveria ser outra. Para além do castigo, a pena tem a função de restituir o valor da Lei enquanto estrutura simbólica que organiza o desejo. Quando a punição se reduz à satisfação do gozo, a Lei perde sua dimensão ética e trans- forma-se em mera retaliação. O desafio con- temporâneo consiste, portanto, em restituir à pena seu caráter simbólico e educativo, sem que isso signifique submeter o sujeito à humi- lhação. A leitura psicanalítica da punição revela que o excesso de gozo destrói o laço social. Quando o Direito se torna veículo da vingança, ele dei- xa de operar como mediador do desejo e passa a atuar como instrumento de destruição simbó- lica. Punir, nesse contexto, deixa de ser resta- belecer a justiça e passa a ser gozar da exclusão. Michel Foucault já havia advertido que o poder punitivo, mesmo quando revestido de legalida- de, tende a reproduzir o mesmo mal que pre- tende combater. A sociedade disciplinar, ao gozar da punição, legitima o controle e a vigi- lância permanentes. A Psicanálise, ao contrário, propõe uma ética do limite: reconhecer que o gozo é inevitável, mas que ele deve ser simbo- lizado, inscrito na Lei. Essa articulação entre Direito e Psicanálise permite repensar a própria finalidade da pena. Não se trata apenas de retribuir o mal com o mal, nem de corrigir o desvio pela técnica, mas de oferecer ao sujeito a possibilidade de reen- contrar-se com a Lei simbólica — a Lei que proíbe, mas também sustenta o desejo. A puni- ção, assim compreendida, deixa de ser mera

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Loucura e a Lei | José Itamar Soares Júnior 102 coerção e torna-se oportunidade de responsa- bilização subjetiva. 3.4.3 O poder, a culpa e o espetáculo contem- porâneo O contexto contemporâneo revela uma inten- sificação das formas de exposição e espetacula- rização da culpa. O tribunal midiático substitui o julgamento racional pela catarse coletiva. O infrator, antes sujeito de direitos, converte-se em objeto de indignação pública. Essa teatrali- zação da punição, como nota Safatle, expressa a dimensão afetiva e pulsional do poder. A culpa é exibida como espetáculo moral e o castigo, como prova de justiça. A Psicanálise oferece uma leitura alternativa: a pulsão punitiva coletiva é um modo de negar o próprio mal-estar da civilização. Projetando sobre o outro o que não suporta em si, a soci- edade encontra na punição um mecanismo de expiação simbólica. O delinquente é o deposi- tário do mal que o grupo não quer reconhecer. O castigo, então, opera como ritual de purifi- cação. Nessa perspectiva, o gozo coletivo da pena revela a dificuldade de lidar com a falta consti- tutiva que atravessa o sujeito e o laço social. Punir o outro é, em última instância, punir a própria falta. A ética psicanalítica propõe o caminho inverso: reconhecer a falta, simbolizá- la e, com isso, reinscrever o sujeito e o coletivo na dimensão do desejo e não da destruição. Em síntese, a análise da pena sob o prisma da Psicanálise e da crítica foucaultiana permite compreender que o castigo moderno não é apenas um mecanismo jurídico, mas também um discurso sobre o corpo, o desejo e o poder. Ele atua como tecnologia de normalização, mas também como cena de gozo. Entre o Di- reito e a Psicanálise, a questão não é abolir a pena, mas restituir-lhe seu valor simbólico, de modo que ela não destrua o sujeito, mas possi- bilite a reconciliação entre a Lei e o desejo. 3.5 ÉTICA, ESCUTA E SUJEITO DE DI- REITOS A aproximação entre o Direito e a Psicanálise, quando pensada sob o prisma da ética, revela um ponto de encontro singular entre dois dis- cursos que, à primeira vista, parecem inconcili- áveis. O Direito, fundado na universalidade da norma, opera a partir de uma lógica objetiva, voltada para a generalização e a aplicação da lei. A Psicanálise, ao contrário, parte da singu- laridade do sujeito e da irrupção do inconscien- te, lugar onde a universalidade se desfaz em particularidade. Apesar dessas diferenças epistemológicas, am- bos os campos compartilham um mesmo desa- fio ético: como tratar o sujeito em sua dimen- são de alteridade, sem reduzi-lo a um objeto de tutela ou a um número na estatística judicial. A ética da Psicanálise e a ética jurídica se cruzam nesse ponto, ainda que por caminhos distintos. 3.5.1 A ética da Psicanálise e o imperativo do desejo A ética freudiana, e posteriormente lacaniana, funda-se na ideia de que o sujeito é atravessado

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Loucura e a Lei | José Itamar Soares Júnior 103 pelo desejo e pela falta. Freud mostrou que o mal-estar é inerente à vida civilizada, uma vez que o sujeito precisa renunciar a parte de seu gozo para viver em sociedade. A Lei, nesse sentido, não é apenas restrição, mas também condição de possibilidade do laço social. Lacan retoma essa leitura e propõe uma ética que não se orienta pelo bem, mas pelo desejo. Em A Ética da Psicanálise, ele afirma que a única coisa de que o sujeito pode ser culpado é de ceder de seu desejo. Esse enunciado sinteti- za a radicalidade de uma ética que não se pauta pela moral, mas pela fidelidade ao que há de mais singular no sujeito. O dever ético, portan- to, não é o de obedecer à norma, mas o de responder ao próprio desejo de forma respon- sável, reconhecendo que toda escolha implica perda. A ética da Psicanálise não pretende substituir o Direito, mas tensioná-lo. Enquanto o Direito busca a coerência entre norma e conduta, a Psicanálise busca a verdade do sujeito. Essa diferença é fundamental: a ética jurídica se or- ganiza em torno do dever-ser, ao passo que a ética psicanalítica se organiza em torno do ser- faltante. O sujeito ético, na Psicanálise, é aque- le que reconhece sua falta e, ainda assim, se posiciona diante do desejo. Essa concepção oferece uma alternativa à mo- ral jurídica, frequentemente fundada em ideais de correção e retribuição. Ao invés de punir o sujeito pelo que ele fez, a ética da Psicanálise propõe responsabilizá-lo pelo que ele é diante de seu desejo. Essa forma de responsabilidade não se confunde com a imputabilidade penal, mas implica reconhecer que o sujeito é sempre mais do que seu ato. 3.5.2 O sujeito de direitos e o reconhecimento simbólico O Direito moderno, ao construir o sujeito de direitos, estabeleceu um ideal de autonomia e racionalidade. O indivíduo é reconhecido co- mo sujeito jurídico na medida em que é capaz de compreender a norma e de agir segundo ela. No entanto, essa concepção exclui, historica- mente, aqueles que não se enquadram nesse modelo, os loucos, os incapazes, os considera- dos “anormais”. A Psicanálise, ao contrário, propõe uma con- cepção de sujeito que não depende da razão, mas da palavra. Ser sujeito, para a Psicanálise, é ser falante, ou seja, é estar inserido em uma rede simbólica que dá sentido à existência. Mesmo aquele que delira, que fala “fora do sentido comum”, ainda assim fala, e é nessa fala que o sujeito se constitui. Ao trazer o sujeito de volta ao campo da lin- guagem, a Psicanálise oferece ao Direito uma nova possibilidade de reconhecimento. O su- jeito psicótico, muitas vezes reduzido à catego- ria de inimputável, pode ser reinscrito na Lei simbólica não pelo castigo, mas pela escuta. Essa escuta não é terapêutica no sentido clíni- co, mas política no sentido ético: ela restabele- ce o laço entre o sujeito e o Outro, entre o indivíduo e a comunidade. O reconhecimento jurídico da pessoa com transtorno mental, previsto em legislações co- mo a Lei nº 10.216/2001 (Lei da Reforma Psi-

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Loucura e a Lei | José Itamar Soares Júnior 104 quiátrica), representa um avanço nesse sentido. Ao substituir o paradigma do isolamento pelo da inclusão, o Direito aproxima-se, ainda que parcialmente, da ética da Psicanálise. A loucura deixa de ser mero objeto de tutela e passa a ser reconhecida como modo singular de existência. No entanto, essa transformação normativa só se concretiza plenamente quando acompanha- da de uma escuta efetiva. Sem escuta, o Direito corre o risco de reproduzir, sob nova roupa- gem, o mesmo dispositivo de exclusão que pretende superar. Escutar o sujeito significa reconhecer que há uma verdade no sofrimento, e que essa verdade não é redutível à norma ou ao diagnóstico. O sujeito de direitos, à luz da Psicanálise, é aquele que, mesmo falhando em corresponder ao ideal de racionalidade, ainda assim é convo- cado a responder por sua palavra. A escuta jurídica, inspirada na ética psicanalítica, deve permitir que o sujeito seja ouvido não como objeto de perícia, mas como portador de senti- do.Escuta, ética e justiça simbólica A escuta psicanalítica oferece ao campo jurídi- co uma nova dimensão de justiça. Diferente da justiça distributiva ou retributiva, a justiça sim- bólica propõe o reconhecimento da singulari- dade como valor. A função da escuta é abrir espaço para o que não cabe na norma, acolher o excesso que o Direito não pode codificar. Christian Dunker observa que o ato de escutar implica sustentar o sujeito em sua posição de fala, sem antecipar o sentido de seu discurso. Essa disposição à escuta é, ao mesmo tempo, ética e política, pois reconhece que a verdade é sempre uma construção compartilhada. O ana- lista, nesse contexto, é aquele que ocupa o lu- gar de quem suporta a fala do outro sem que- rer completá-la. Aplicada ao campo jurídico, essa ética da escu- ta pode transformar o modo como a justiça se relaciona com a diferença. Em vez de silenciar o louco ou de medicalizá-lo, o Direito pode escutá-lo como sujeito de linguagem, capaz de produzir sentido sobre sua própria experiência. Essa mudança de paradigma exige que o poder judicial e as instituições jurídicas reconheçam os limites do saber técnico e abram-se à alteri- dade. A escuta, nesse sentido, não é mero instrumen- to de humanização, mas uma prática de resti- tuição simbólica. Escutar é reinscrever o sujei- to no laço social e oferecer-lhe a possibilidade de responder por seu dizer. Essa responsabili- dade simbólica, que não se confunde com a penal, é o ponto de convergência entre a ética da Psicanálise e o princípio da dignidade hu- mana. A justiça simbólica, inspirada na Psicanálise, não busca corrigir o sujeito, mas permitir que ele se reconheça na própria falta. Essa forma de justiça é mais próxima da ética do desejo do que da moral da obediência. Ela entende que o laço social se sustenta não pela uniformidade, mas pela diferença, e que o verdadeiro sentido da Lei é garantir um espaço para o sujeito falar. 3.5.3 Ética, direito e o limite da razão A interlocução entre Direito e Psicanálise, ao

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Loucura e a Lei | José Itamar Soares Júnior 105 ser pensada a partir da ética, revela que o pon- to de encontro entre ambos é justamente o limite. O Direito se depara com seu limite ao tentar legislar sobre o que é da ordem do in- consciente; a Psicanálise encontra o seu ao reconhecer que o desejo não se traduz inte- gralmente em norma. No espaço entre esses dois limites, emerge o sujeito, aquele que, mesmo falhando, tenta responder à Lei. A ética, para a Psicanálise, não é um conjunto de regras, mas uma prática de sustentação do desejo. Para o Direito, ela é a condição de legi- timidade do poder. Quando esses dois campos se cruzam, produzem uma possibilidade inédita de justiça: aquela que não se contenta com a reparação do dano, mas busca o reconheci- mento do sujeito em sua singularidade. Assim, a escuta psicanalítica aplicada ao campo jurídico não visa dissolver a responsabilidade, mas ampliá-la. Ao reconhecer o sujeito em sua divisão e em sua fala, o Direito se aproxima de uma ética que não julga para punir, mas para compreender. Essa é, talvez, a tarefa mais desa- fiadora e necessária da justiça contemporânea: ouvir o outro sem silenciá-lo, punir sem gozar, e reconhecer que a Lei, para ser justa, precisa também saber escutar. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS A presente pesquisa buscou investigar as inter- locuções entre o Direito Penal e a Psicanálise, tomando a loucura e a constituição do sujeito como eixos centrais de problematização. Par- tiu-se da hipótese de que o Direito moderno, ao erigir o sujeito racional como fundamento da responsabilidade penal, produziu, simulta- neamente, a exclusão simbólica da loucura, relegando-a ao campo da tutela e da patologi- zação. A Psicanálise, por sua vez, ao introduzir a noção de inconsciente e a dimensão simbóli- ca da Lei, propôs um deslocamento ético e epistemológico capaz de recolocar o louco no lugar de sujeito, ainda que atravessado pelo desamparo e pela diferença. Ao longo do desenvolvimento do trabalho, observou-se que a racionalidade jurídica mo- derna foi construída sobre um processo histó- rico de exclusão. A partir da análise foucaultia- na, verificou-se que o nascimento da razão jurídica coincide com o surgimento dos dispo- sitivos de confinamento e de normalização social. O Direito, ao se aliar ao saber médico, consolidou uma forma de poder que, sob o pretexto de proteger a sociedade, reafirmou a exclusão do sujeito da diferença. A contribuição freudiana e lacaniana, examina- da nas seções seguintes, revelou que a loucura não é ausência de razão, mas outra forma de relação com a Lei. Freud mostrou que o sujeito é estruturado pelo inconsciente, e que o sinto- ma, o delírio e o ato criminoso são formas de linguagem pelas quais o sujeito tenta dar senti- do à própria falta. Lacan, ao introduzir a noção de foraclusão do Nome-do-Pai, demonstrou que a psicose é resultado da falha na inscrição simbólica da Lei, e que o delírio é uma tentati- va de reconstruir esse laço. Essas formulações permitem compreender a loucura não como incapacidade, mas como modo singular de

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Loucura e a Lei | José Itamar Soares Júnior 106 existência simbólica. No campo do Direito Penal, essa leitura impli- ca repensar os conceitos de culpa, responsabi- lidade e imputabilidade. A culpabilidade jurídi- ca, centrada na consciência e na vontade, mos- tra-se insuficiente para abarcar a complexidade do sujeito do inconsciente. A Psicanálise pro- põe, em contrapartida, a ideia de culpabilidade ética, na qual o sujeito é convocado a respon- der por seu desejo, e não apenas por sua con- duta. Essa perspectiva não elimina a responsa- bilidade, mas a reinscreve em um registro sim- bólico, permitindo que o sujeito seja reconhe- cido em sua singularidade e não apenas em sua infração. A reflexão sobre a pena e o gozo coletivo de- monstrou que o castigo moderno, longe de ser instrumento puramente racional, cumpre tam- bém uma função libidinal e simbólica. A socie- dade punitiva contemporânea, ao transformar a punição em espetáculo, revela sua própria de- pendência do gozo da exclusão. A Psicanálise, ao desvelar esse mecanismo, propõe uma ética do limite: reconhecer o gozo que atravessa o ato de punir e reinscrevê-lo na Lei simbólica, de modo que a justiça não se converta em vin- gança. Por fim, a discussão sobre ética, escuta e sujei- to de direitos evidenciou que o verdadeiro de- safio do Direito contemporâneo não é apenas aplicar a norma, mas escutar o sujeito. A ética da Psicanálise, ao privilegiar o desejo e a pala- vra, oferece ao campo jurídico uma possibili- dade de transformação profunda. Escutar o sujeito da loucura é reconhecê-lo como porta- dor de sentido e devolver-lhe o lugar que a razão moderna lhe subtraiu: o lugar de sujeito de linguagem e de Lei. Assim, a interlocução entre Direito e Psicanáli- se permite vislumbrar uma justiça mais humana e simbólica. Uma justiça que não se limita à correção da conduta, mas que busca compre- ender o sofrimento e o desejo que a atraves- sam. Uma justiça que reconhece que o sujeito não é totalmente senhor de seus atos, mas ain- da assim é responsável por eles, na medida em que pode dar-lhes sentido. O diálogo entre esses dois campos não signifi- ca diluição de fronteiras, mas reconhecimento de limites e possibilidades. O Direito precisa da Psicanálise para lembrar-se de que a Lei é tam- bém uma estrutura de linguagem, e a Psicanáli- se precisa do Direito para lembrar- se de que o desejo só se sustenta no laço social. Entre a norma e o desejo, entre o crime e o sintoma e entre a punição e a escuta, encontram-se o sujeito, dividido, falante e, sobretudo, humano. Dessa forma, conclui-se que o encontro entre o Direito Penal e a Psicanálise, mediado pela reflexão sobre a loucura, não tem como propó- sito dissolver o ordenamento jurídico, mas humanizá-lo. A escuta psicanalítica, aplicada ao campo jurídico, não substitui a norma, mas introduz nela uma dimensão ética capaz de resgatar o sujeito da exclusão e reinscrevê-lo na Lei simbólica. É nesse espaço de tensão que se pode construir uma justiça verdadeiramente comprometida com a dignidade humana e com o reconhecimento da diferença como funda- mento do laço social.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Loucura e a Lei | José Itamar Soares Júnior 107 REFERÊNCIAS BASAGLIA, Franco. A instituição negada: relato de um hospital psiquiátrico. Tradução de Maria Thereza de Mello. Rio de Janeiro: Graal, 1985. BIRMAN, Joel. O sujeito na contemporaneidade: espaço, dor e desalento na atualidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012. BRASIL. Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001. Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 9 abr. 2001. Disponível em: ttps://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10216.htm. Acesso em: 24 out. 2025. DUNKER, Christian Ingo Lenz. Estrutura e constituição da clínica psicanalítica: uma arqueologia das práticas de cura, psicoterapia e tratamento. São Paulo: Annablume, 2011.UNKER, Christian Ingo Lenz; SAFATLE, Vla- dimir. O cálculo neurótico do gozo: clínica, política e cultura no capitalismo contemporâneo. Belo Horizonte: Autênti- ca, 2016.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Expressões do Ser Sexual | Larisse Mendes de Lemos 108 EXPRESSÕES DO SER SEXUAL NA PUBERDADE: UMA VISÃO PSICANÁLITICA Larisse Mendes de Lemos Artigo de revisão apresentado como requisito parcial à conclusão da Formação e Pós-graduação em Psi- canálise - Faculdade de Educação do Piauí / Escola Freudiana de Psicanálise de Teresina. RESUMO O artigo explora a diversidade de expressões do ser jovem, em suas descobertas quanto à sexualidade na puberdade a partir da visão psicanalítica. O trabalho destaca a infância como uma fase determinante para esse processo de formação do ser sexual. Dessa forma, ressalta-se a importância de uma educação sexual e intervenções adequadas. Palavra-chave: Sexualidade. Puberdade. Psicanálise. ABSTRACT The article explores the diversity of expressions of being young, in its discoveries regarding sexuality, in puberty, under a psychoanalytic perspective, highlighting childhood as a determining phase. From this research we conclude the importance of sexual education and appropriate interventions. Keywords: Sexuality, Puberty, Psychoanalysis. 1 INTRODUÇÃO Compreender a sexualidade na puberdade é ter a noção de que o sujeito está em um processo imbuído de uma série de mudanças. Que vão além do crescimento físico e maturação sexual. As condicionantes que envolvem a sexualidade na puberdade são voltadas para os aspectos psicológicos, construção da subjetividade em suas identificações, dimensões emocionais, afe- tivas e simbólicas que influência a forma como o sujeito se percebe e se relaciona. Dessa forma, a sexualidade nesse período é um fator determinante para esse ser social, que se identifica, se relaciona e se expressa no mundo.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Expressões do Ser Sexual | Larisse Mendes de Lemos 109 Essa fase, marca o retorno das pulsões infantis, que antes eram dispersas e parciais, que, agora, se concentram também nas genitálias. Moarci(2017, p.3 ), considera que “Freud res- salta que uma das principais dificuldades do aparelho psíquico, é abandonar um modelo de funcionamento em benefício de outro’’. Nessa etapa, o ser jovem é confrontado com intensas transformações corporais e psíquicas: surgem as fantasias, impulsos e conflitos que ressignificam as experiências na infância, especialmente aque- las relacionadas ao Complexo de Édipo, con- forme Narsio(2005): O Édipo é a experiência vivida por uma criança de cerca de quatro anos que, absorvida por um desejo sexual incontrolável, tem de apren- der a limitar seus impulsos e ajustá- lo aos limites do seu corpo imatu- ro, aos limites de sua consciência nascente, aos limites do medo e, finalmente aos limites de uma lei tácita que lhe ordena que pare de tomar seus pais por objetos sexuais (Narsio, 2005, p 12). A vinculação edipiana permite o ser traçar as posições de gênero em sua configuração mental e nas incorporações das expressões, que se ma- nifestam independentemente do sexo biológico, mas, sim, de inscrições do seu inconsciente na dinâmica de suas fantasias e desejos. O ser em sua orientação sexual, vivencia uma sexualidade fluida. Constituída em cada etapa do desenvolvimento psicossexual, quais sejam: oral, anal, fálica, pré genital e genital. Essas etapas são atravessadas por fantasias, idealizações e identificações em suas primeiras relações, ou seja, as parentais. Essas orientações sexuais de desejo, estão organizadas em: hete- rossexual, homossexual, bissexual, pansexual, assexual, entre outras. O sujeito desejante na etapa do amadurecimen- to biológico e sexual, se encontra em processo de desenvolvimento mental e corporal, que se refere aos órgãos genitais e o aumento dos ní- veis hormonais. Essa fase marca as condições que transformam o corpo físico inclinado para as suas primeiras relações com o outro e consi- go mesmo. O despertar pelo próprio corpo e o corpo do outro nas suas primeiras relações sexuais, não se destinam apenas para o ato sexual, mas, sim pelas suas questões emocionais, como a busca por afeto, construção da autoimagem, autoes- tima e o surgimento de novos sentimentos. Muitos dos seus comportamentos estão ligados à sexualidade, ela está no centro do seu psi- quismo. Freud traz a existência da sexualidade desde a infância, considerando que cada uma das fases tem suas características especificas em que se manifestam de acordo com a maturação e vivência de cada indivíduo. Em torno dos processos psicossexuais vivenci- ados na puberdade, as influências externas se sobressaem. A exemplo de normas familiares, valores religiosos, pressão de grupos sociais, mídias, redes sociais, falta ou a presença de educação sexual, que são fatores que retardam ou antecipam o início dessas primeiras experi- ências, as quais refletem na forma como o ser jovem se percebe e lida com a sua sexualidade.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Expressões do Ser Sexual | Larisse Mendes de Lemos 110 Partindo desses diálogos, o artigo tem como objetivo explorar a diversidade de expressões do ser jovem, em suas descobertas quanto à sexualidade no período da puberdade. O trabalho aborda o ser sexual em suas relações nas diversidades de sua sexualidade que inclui gênero, identidade e orientação sexual que permitem as primeiras relações do ser em con- tato com o outro, auxiliando na formação de sua identidade e subjetividade no meio em que se insere. A pesquisa visa em ampliar a perspectiva da sexualidade na puberdade nas contribuições psicanalíticas. Ressaltando a constituição identi- tária e subjetiva desse ser jovem, em simbolizar suas emoções e afetos, através de regulações, organizações de seus ideais e identificação dos seus próprios desejos. Ao destacar esses diálogos, constata-se que a experiências do ser jovem na etapa de seu de- senvolvimento sexual, necessita de um olhar em que legitime a sua existência, mas, que por outro lado, seja orientada a partir de práticas e discussões que proporcionem um ambiente seguro para que possa expressar sua forma de ser. Para isso, o estudo observa que o processo de construção sexual do ser jovem deve ser acom- panhado através de percepções e orientações. Para que o ser sexual possa compreender seus limites e fronteiras no mundo em que se insere. Desse modo, ao estabelecer um ambiente de escuta e orientação, evidencia-se uma responsa- bilidade afetiva que é ligada a sentimentos de respeito e consideração a esse outro em cena no construto dessa intimidade, no compartilhar dessas expectativas e vulnerabilidades. A orientação sexual na puberdade, não estimula a prática sexual, mas auxilia o desenvolvimento das próprias ferramentas desse Eu, em se pro- teger, na regulação emocional e autônoma, quebrando os tabus, culpas e julgamentos exis- tentes a essa temática. O início da vida sexual dos brasileiros, se- gundo o Ministério da Saúde, ocorre na fa- se da adolescência a média de idade da pri- meira relação sexual no Brasil é de 14,9 anos, sendo que as mulheres iniciam mais tardiamente do que os homens.’’ (Baptista et. al, 2015 p. 3) Os métodos contraceptivos, não menos impor- tante, são os principais aliados em prevenções contra as ISTs e das gravidezes indesejadas. A informação do local adequado de acolhimento e intervenções médicas é de grande relevância nessas situações 2 METODOLOGIA Este trabalho se trata de uma pesquisa explica- tiva, com procedimentos em uma de caráter qualitativo e cunho bibliográfico. O público alvo da pesquisa, são pessoas na fase da puber- dade, vivenciando sua sexualidade. Para o desenvolvimento do estudo, foram feitas leituras e fichamentos de artigos, revistas e li- vros referentes a temática abordada. Para a consulta e leituras de referências biblio- gráficas, utilizou-se meios técnicos de estudo encontrados no Scielo e Google Acadêmico, anco-

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Expressões do Ser Sexual | Larisse Mendes de Lemos 111 rados em uma em assuntos voltados para a se- xualidade, puberdade e psicanálise. Com foco na diversidade de expressões do ser jovem, suas descobertas quanto à sexualidade no período da puberdade e suas determinações na inscrição psíquica. A metodologia tem bases teóricas em comprovação das informações le- vantadas com referenciais bibliográficos pauta- das nos pensamentos de Sigmund Freud(1905), Narsio(2007), Judith Bluter(2002) e Eric Ericksson(2002). Segundo Gil (2007), a pesquisa explicativa, pre- ocupa-se em identificar os fatores que determi- nam ou que contribuem para a ocorrência dos fenômenos. De acordo com Fonseca (2002), a pesquisa possibilita uma aproximação e um entendimento da realidade a investigar, como um processo permanentemente inacabado. 3 REVISÃO DE LITERATURA Nesta seção objetiva-se discutir acerca dos pro- cessos voltados para o desenvolvimento sexual do jovem no período da puberdade. Nesse sen- tido, os apontamentos se concentram em con- tribuições teóricas as quais direcionam para as compreensões que se referem à sexualidade e à puberdade a partir do viés psicanalítico. 3. 1 O ser jovem e os grupos sociais de identi- ficações O ser sexual em sua identidade de gênero passa por um momento de identificações, com o masculino, com o feminino ou com nenhum deles, que é denominado de o não binário. Segundo Butler (2003, p.21), ‘’ o gênero são os significados culturais assumidos pelo corpo sexual’’. Nesse levantamento, reflete-se que o gênero é uma condição apreendida, que o ser na condição masculina e feminina são elemen- tos de uma construção social, chamados de gênero binário. A autora enfatiza a dissociação do sexo e gêne- ro em sua interdependência, em que ambos não precisam necessariamente ser correspondentes, como as diversas expressões do ser não binário, que são: gênero fluído, agênero, queer, neutrois, andrógine, trasfeminina, transmaculino, xeno- gênero e demigênero. Logo, essas nomenclaturas abrem espaço para as discussões de atração ou do desejo do indi- víduo. Segundo Louro (2001), o grande desafio dos Estudos Queer é assumir tanto que as posi- ções de gênero e sexuais são múltiplas, e é im- possível lidar com elas apoiadas em esquemas binários: homem/mulher, masculino/feminino, heterossexual/homossexual, quanto admitir que as fronteiras vêm sendo constantemente atra- vessadas e que o lugar social no qual alguns sujeitos vivem, é exatamente a fronteira. Discorrendo sobre a multiplicidades das posi- ções ou orientações sexuais que são elas: hete- rossexual\, homossexual, bissexual e assexual, é onde o jovem orienta suas energias libidinais, o despertar dos seus desejos voltado ao outro. Na obra de Além do princípio do prazer (1920), de Sigmund Freud, menciona sobre as organiza- ções mentais, instintos de prazer e os instintos

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Expressões do Ser Sexual | Larisse Mendes de Lemos 112 da realidade onde ambos influenciam a vida psíquica do sujeito. Entende-se que o princípio de prazer é próprio de um método primário de funcionamento por parte do aparelho mental, mas que, do ponto de vista da autopreservação do organismo entre as dificuldades do mundo externo, ele é, desde o início, ineficaz e até mesmo altamente perigoso. Surge, assim o princípio da realidade que não abandona a intenção de fundamentalmente obter prazer. Não obstante, exige e efetua o adiamento da satisfação, o abandono de uma série de possibilidades de obtê-la, e a tolerância temporária do desprazer como uma etapa no longo e indireto caminho para o prazer. Contu- do, o princípio de prazer persiste por longo tempo como o método de funcionamento em- pregado pelos instintos sexuais, que são difíceis de “educar”, e, partindo desses instintos, ou do próprio ego, com frequência consegue vencer o princípio de realidade, em detrimento do orga- nismo como um todo. A realidade, é que lidar com o desprazer não é muito confortável, em especial para os jovens, que em sua maioria agem pelas emoções dos impulsos. Sobre esse aspecto, Freud(1905) dis- corre que trata-se de: Uma sensação de tensão tem necessari- amente o caráter de desprazer. É deci- sivo para mim, o fato de tal sensação trazer consigo o impulso para a mu- dança da situação psíquica, de atuar de forma instigadora o que é inteiramente alheio a natureza do prazer que sente (Freud, 1905, p. 123). As adequações comportamentais que o ser se- xual na puberdade vai se dispondo em agir em acordo com as regras impostas do seu meio, isso acaba, registrando inscrições na sua psique, com suas fixações e compulsões, que são de- senvolvidas nas fases psicossexuais, menciona- das no tópico posterior. 3. 2 O ser sexual na psicanálise Freud (1905), dividiu o desenvolvimento hu- mano em fases psicossexuais, oral, anal, fálica e genital. O ser sexual na puberdade, comumente situa-se entre a fase fálica e latente genital, a primeira fase citada, é onde o indivíduo desloca sua energia libidinal para outros objetos, é o despertar para o mundo, além de si(autoerotismo), investindo sua energia ao so- cial e a seu intelecto e ao mundo externo. Na segunda, é onde o sujeito reconhece o outro como objeto de desejo, ou seja, é onde o domí- nio na zona genital prevalece. Na chegada des- sas fases, o sujeito está vivenciando ao mesmo tempo muitas questões do seu íntimo, a primei- ra em suas questões de subjetividade, constru- ção e formação da personalidade e o self, que trata-se do modo próprio de comportamento ou caráter particular de alguém, de acordo com a maneira como essa pessoa o expressa. O seu Eu e suas diferenças e semelhanças, muitas ve- zes transferências com o Outro, ou seja, suas identificações interpessoais. É através desses processos que o sujeito vai se encaixando no mundo:

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Expressões do Ser Sexual | Larisse Mendes de Lemos 113 Visto que no momento de amadu- recer, surgem vários desafios e co- branças internas e externas, que vão demandar desse indivíduo um papel ativo na sua vida, de tomada de escolhas, muitas vezes por in- fluências sociais ou pelo seu Eu da infância (Erikson, 1968 Apud, Ve- rissimo 2002, p. 4) Mas é a partir desse ponto que o adolescente vai se identificando. Formando sua identidade e se expressando por meio dela, com o seu modo de vestir, pensar e a agir a partir de seus aspec- tos culturais e sociais. E, assim, potencializando sua busca constante de autoconhecimento. É a partir da relação com o Outro, juntamente com as transformações corporais e mentais, que vai amadurecendo a sua sexualidade. Dessa maneira, a sexualidade do ser jovem na visão psicanalítica se apropria na investigação e nas compreensões dos comportamentos do sujeito que estão intimamente ligados a sua infância. De acordo com Freud(1905), A sexualidade na Etiologia das Neuroses (1898a), por exemplo, se pronuncia ora a favor, ora contra ela. De um lado, afirma que as cri- anças são “capazes de todas as funções sexuais psíquicas e de mui- tas das somáticas” e que é errôneo supor que sua vida sexual só come- ce na puberdade. De outro lado, entretanto, declara que “a organi- zação e a evolução da espécie hu- mana buscam evitar qualquer ativi- dade sexual considerável na infân- cia”, que as forças motoras sexuais dos seres humanos devem ser ar- mazenadas e somente liberadas na puberdade, e que isso explica por que as experiências sexuais infantis estão fadadas a ser patogênicas (Freud, 1905 p. 80). As infinitas formas de desejos, muitas vezes são manifestadas e logo censuradas, especialmente quando acontece nas primeiras fases psicosse- xuais do ser. Período esse, que a energia libidi- nal está direcionada às figuras de apegos afeti- vas, como por exemplo, pelo pai ou mãe, é o momento que se inicia o Complexo de Édipo, um dos termos pilares para a psicanálise. No complexo de Édipo, é o ponto de partida para o processo de sexuação e da formação subjetiva. É onde o sujeito terá a noção do masculino e feminino, conforme os papéis de cada um e o contato com as primeiras castra- ções. A fase desse ser sexual tem seu início nos seus 4 anos de idade, a qual corresponde a fase fálica. Narsio (2007, p.12), afirma que ‘’ o Édipo não é apenas uma crise sexual de crescimento, é tam- bém a fantasia que essa crise molda o inconsci- ente infantil’’. O édipo atuando como o organizador da subje- tividade, e regulador da posição do desejo, na ação limitadora de uma das figuras desse trian- gulo(pai-filho-mãe), por via de regra represen- tada pela figura paterna, aquele que detém o poder da lei, que impõe regras, proibições e interdições, provoca no sujeito a angustia de castração, onde a criança percebe que a satisfa- ção plena é impossível, levando-a reprimir al- guns de seus desejos. Segundo Cabas (1980), a castração de que fala a psicanálise não se reduz à perda do pênis, tão somente corresponde a uma falta que se inscre-

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Expressões do Ser Sexual | Larisse Mendes de Lemos 114 ve no psiquismo como motor para acionar os desejos frente à realização. Segundo Lacan (apud. Aberti; Silva, 2019, p.6) “a sexualidade está, sem nenhuma dúvida, no centro de tudo que se passa no inconsciente. Mas está no centro por ser uma falta”. O sujei- to sexual em sua infinitude, é um ser faltante, carregado de desejos, que precisa se conectar com seu objeto, que necessita do mesmo para sua satisfação de prazer ou desprazer. Na psicanálise, a mediação dos conflitos entre o desejos e as normas, são movimentados e estru- turados nas instâncias psíquicas (id, ego e supe- rego). O ego, como princípio da realidade, é o principal mediador de equilíbrio das duas for- ças, que agem sobre as influencias pulsionais de desejos primitivos do id, visando gozar a qual- quer custo. Em contrapartida, o superego entra em cena, punindo\regulando e contornando as formas aceitáveis, moralmente falando, de gozar. Se inscreve no inconsciente sobre internalizações, sobre limites, proibições, se instaurando como uma figura autoritária. Os objetos de amor na linguagem psicanalítica, não se referem necessariamente do erotismo, mas, sim, associado há uma questão de espelho, de se identificar por aquele objeto, que idealiza para torna-se semelhante ao mesmo. É o início da vida sexual do sujeito, é onde ele entende que sua mãe não possui o falo, mas, sim, o pai. Nessa visão, o despertar dos desejos, seja ele, pelo ser masculino ou pelo feminino, está ligado com a identificação da figura mater- na e paterna. Em todos os seus aspectos e características de comportamento que ambos, socialmente repre- sentam, é como o sujeito vai vivenciar esse con- tato, que será um fator determinante para sua sexualidade com o outro. Representada na he- terossexualidade, homossexualidade, bissexua- lidade. Na primeira, o sujeito tem como identificação o seu objeto oposto, que em padrões de normas comportamentais se desenvolve uma figura masculina ativa nessa relação. Na segunda, a identificação com o objeto seme- lhante. Na bissexualidade, o sujeito se identifica com os dois objetos, de certo modo, investindo em ambos os sexos. O objeto investido de de- sejo sempre será familiar para o sujeito. Desse modo, as expressões da sexualidade do ser jovem se modelam e se desenvolve a partir da relação edipiana, no despertar pelo o Outro, através de suas experiências culturais e subjeti- vas que intercede na sua maneira de existir. Nesse sentido, a forma de como o esse sujeito se percebe no mundo é continuamente constru- ída na articulação entre suas vivencias internas e os significados sociais que moldam seus víncu- los e modo de relacionar diante do Outro. CONSIDERAÇÕES FINAIS O estudo expande o conhecimento sobre a sexualidade na puberdade. Além de apresentar o quanto a sexualidade é determinante na vida psíquica desse ser jovem, movido por instintos

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Expressões do Ser Sexual | Larisse Mendes de Lemos 115 e carregado de energias que direcionam para o seu processo de identificação consigo mesmo e com o outro. As contribuições psicanalíticas esclarecem so- bre esse ser sexual que busca constantemente o gozo, e que resiste em lidar com as castrações. Portanto, observa-se que a puberdade marca um processo de transformação do seu Eu, seja ela na formação da sua identidade ou assumin- do novos papéis sociais, bem como o enfren- tamento do luto pela transição das metas sexu- ais e abandono do aparelho sexual infantil. Dessa forma, percebe-se que o ser sexual em seu processo de formação possui novos traços sociais e físicos que potencializam uma matura- ção para uma modelagem mais adulta e erotiza- da, abrindo espaço para a entrada do Outro, que se faz importante em toda sua construção social. Como o modo de se relacionar e as ex- pressões de seu desejos e identificações. A centralidade da pesquisa está na fase da pu- berdade, em suas relações nas diversidades de sua sexualidade que inclui gênero, identidade, orientação sexual e primeiras relações do ser em contato com o outro, em seus vínculos e relaci- onamentos. A partir da análise das características da forma- ção da sexualidade na puberdade, ressalta-se sobre algumas intervenções para direcionar o ser sexual na passagem dessa fase, com uma educação sexual adequada, com a finalidade de informar. As intervenções devem ser pautadas na forma- ção saudável dessa sexualidade, com direciona- mentos educativos, construção ou fortalecimen- to do vínculo familiar, nas habilidades sociais, e, se necessário, a ajuda de um profissional capaci- tado, como professores, psicólogos e psicanalis- tas. As aplicações de técnicas com base ética de cada profissão, devem ser expostas com res- ponsabilidade para abordarem aspectos emoci- onais em uma escuta acolhedora, promover diálogos estrutura dos, explorando a identidade e o autoconheci- mento para simbolização de suas vivências, seguindo a desconstrução de crenças e influên- cias, que se expressam de forma disfuncional e adoecida na vida mental e física desse ser sexu- al, guiando uma nova maneira de relacionar. O sintoma na psicanalise surge como um sinal que dá sentido aquilo que grita dentro de si, não só como uma expressão dolorosa, do que é reprimido e censurado, mas como uma forma de funcionar e se adequar diante da sua própria realidade. Destacando um dos profissionais para conduzir essa intervenção, temos o psicanalista, susten- tado pela ética do não saber, embasado no tripé de sua formação, em teoria, análise e supervi- são. Na escuta desse ser jovem que vivencia a pu- berdade, deve-se considerar os impactos des- pertados nessa fase e suas reedições de fantasias infantis. Além de sustentar o espaço que acolha esse lugar de transição, bem como atentar-se como se deu a ruptura da relação de seu primei-

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Expressões do Ser Sexual | Larisse Mendes de Lemos 116 ro objeto de amor e de como essas questões refletem atualmente em sua vida. A análise passa se tornar um meio para esse sujeito se encontrar em sua própria maneira de existir, respeitando seus processos de matura- ção, movimentos de separação e pertencimen- tos, reduzindo suas angustias, reconhecendo sua subjetividade e autonomia emocional. REFERÊNCIAS ALBERTI, Sonia; SILVA, Heloene Ferreira da. Sexualidade e questão de gênero na adoles- cência: contribuições psicanalíticas. Psicolo- gia: teoria e pesquisa. v. 35. e. 35434, 2019. pp. 1-11. BAPTISTA, Curi et. al . Início da vida sexual entre adolescentes (10 a 14 anos) e comporta- mentos em saúde. Rev Bras Epidimiol. v 18, n 1, pp 1-18. jan/mar. 2015. BUTLER, Judith. Problemas de gênero: femi- nismo e subversão da identidade Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Bra- sileira,2003. FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a sexuali- dade, análise, fragmentaria de uma histeria (‘’ o caso de Dora) e outro textos. Companhia das letras. v 6, 1901-1905. GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisas. 5. ed. São Paulo: Altas, 2008. NARSIO, J.-D. Édipo: o complexo do qual nenhuma criança escapa. São Pau- lo:Zahar,2007. ISBN978-85-7110-972-8. OLIVEIRA, H. M; Hanke, B. C. Adolescer na Contemporaneidade: uma crise dentro da cri- se. Agora. Rio de Janeiro, v. 20 e n. 2, mai/ago, 2017. RAMOS, Francisco, Farias de. Reflexão sobre a homossexualidade masculina. Arq. bras. Psic. Rio de Janeiro, v. 38, n. 3, pp. 101-108, jul./set. 1986. VERÍSSIMO, R. Desenvolvimento psicossocial Erik Erikson. Psicopatologia geral Porto. Faculdade de medicina do Porto. 2002

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 O Inconsciente Freudiano | Lázaro Santos Tavares 117 O INCONSCIENTE FREUDIANO: TÓPICAS, FENÔMENOS LACUNARES E MECANISMOS DE DEFESAS. Lázaro Tavares RESUMO: Este artigo pretende mostrar o surgimento do Inconsciente Freudiano, sua natureza e função, conforme especificado na topografia metapsicológica da psicanálise e sua importância para a compreensão da Psique (realidade psíquica do indivíduo), em que o modelo topológico da mente (1ª Tópica) é apresentado, no qual, verifica-se que o ser humano, no entanto, não se dá conta de todo esse processo de geração e liberação de ener- gia. Para explicar esse fato, Freud descreve três níveis de consciência. Em seguida, a 2ª Tópica é criada, como Modelo estrutural da persona- lidade (1923), onde o aparelho psíquico se organiza em três estruturas. Assim, pretende mostrar que a teoria psicanalítica de Freud é composta por uma parte empírica - a sua escu- ta dos fatos clínicos - e outra, especulativa - a metapsicologia. Todavia, a partir de Freud, o inconsciente recebe um lugar conceitual inédi- to, comportando também repercussões clínicas originais. A partir da 2ª tópica, Freud passa a compreender fenômenos que ocorriam nos sistemas pré-consciente e consciente como manifestações do inconsciente e conceitua tais fenômenos como fenômenos lacunares. Freud nos diz que o caminho do inconsciente está nas lacunas das manifestações conscientes. Os fenômenos lacunares são indicadores da ver- dade do inconsciente e de sua existência. Palavras-chave: Inconsciente freudiano. Tó- picas freudianas. Fenômenos lacunares. Meta- psicologia. ABSTRACT: This article intends to show the emergence of the Freudian Unconscious, its nature and function, as specified in the metap- sychological topography of psychoanalysis and its importance for the understanding of the Psyche (the individual's psychic reality), in which the topological model of the mind (1st Topic) is presented, in which it is verified that human beings, however, are not aware of this entire process of energy generation and rele- ase. To explain this fact, Freud describes three levels of consciousness. Subsequently, the 2nd Topic is created, as a structural model of per- sonality (1923), where the psychic apparatus is organized into three structures. Thus, it in- tends to show that Freud's psychoanalytic the- ory is composed of an empirical part - his lis- tening to clinical facts - and another, speculati- ve one - metapsychology. However, from Freud onwards, the unconscious receives an unprecedented conceptual place, also invol- ving original clinical repercussions. From the 2nd topic, Freud begins to understand phe- nomena that occurred in the pre-conscious and conscious systems as manifestations of the

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 O Inconsciente Freudiano | Lázaro Santos Tavares 118 unconscious and conceptualizes such pheno- mena as lacunary phenomena. Freud tells us that the path of the unconscious lies in the gaps of conscious manifestations. Lacunary phenomena are indicators of the truth of the unconscious and its existence. Keywords: Freudian unconscious. Freudian topography. Lacunary phenomena. Metap- sychology. 1. Introdução: A Gênese do Concei- to de Inconsciente e o Modelo To- pográfico Para compreendermos a psicanálise, é necessário retroceder ao momento anterior a Freud, quando não se falava em inconsciente. Os estudiosos da época referiam-se apenas à consciência, considerando esta como o ponto de divisão entre mente e o que não era mental (BALDWIN, 1901), pensando o inconsciente como lugar de caos, misticismo e ilógico, sen- do apenas um lugar abaixo da consciência (TAVARES, 2019). Após os estudos freudia- nos, passou-se a pensar em uma estrutura teó- rica, possibilitando dessa maneira, construir hipóteses que pudessem responder questões relacionadas à clínica (TAVARES, 2019). Considerando-o como um sistema psíquico capaz de exprimir os processos mentais dos bebês e dos primitivos, através de imagens mnêmicas, representando os instintos, algo da ordem do desejo, o conhecimento do apare- lho psíquico proposto por Freud expõe a ne- cessidade de uma escuta qualificada e, em su- ma, conhecimento sistematizado e eficaz (TAVARES, 2019). A divisão da mente está especificada nas tópicas de Freud, as quais intitula como primeira tópica ou “modelo topográfico” e segunda tópica ou “modelo estrutural”. Orga- nizado, o aparelho psíquico ganha identidade, lugar, função e representatividade. A expres- são tópica vem do grego “topos” que significa “lugar”, e assim, cada identidade proposta nos modelos ocupa um lugar na mente, com fun- ções específicas que, virtualizadas, apresen- tam-se como “aparelho”. A partir de tais estu- dos, Freud desenvolveu a primeira tópica da psicanálise, onde o aparelho psíquico era visto como um lugar virtual ou demarcado com funções específicas e divididas em três estân- cias ou classes: o inconsciente, considerado o ponto de entrada do aparelho psíquico, regido pelo princípio do prazer; o pré-consciente, o filtro por onde passam os conteúdos que de- vem ou não ser direcionados para a consciên- cia; e o consciente, lugar da representação da palavra, instância regida pelo princípio da rea- lidade e responsável pelo contato com o mundo exterior. Segundo Freud, o consciente é somente uma pequena parte da mente, incluindo tudo aquilo de que estamos cientes num dado mo- mento. Do ponto de vista tópico, o sistema percepção-consciência está situado na perife- ria do aparelho psíquico, recebendo, ao mes- mo tempo, as informações do mundo exterior

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 O Inconsciente Freudiano | Lázaro Santos Tavares 119 e as provenientes do interior (TAVARES, 2019). O pré-consciente foi concebido como articulado com o consciente e funciona como uma espécie de barreira que seleciona aquilo que pode ou não passar para o consciente. O pré-consciente seria uma parte do inconscien- te que pode tornar-se consciente com relativa facilidade, ou seja, seus conteúdos são acessí- veis, podem ser evocados e trazidos à consci- ência (TAVARES, 2019). O sistema inconsci- ente designa a parte mais arcaica do aparelho psíquico. Segundo Freud, por herança genéti- ca, existem elementos instintivos ou pulsões, acrescidos das respectivas energias. No in- consciente estariam os elementos instintivos não acessíveis à consciência. Além disso, há também material que foi excluído da consci- ência pelos processos psíquicos de censura e repressão. Esse conteúdo “censurado” não é permitido ser lembrado, mas não é perdido, permanecendo no inconsciente. Para Freud, a maior parte do aparelho psíquico é inconsci- ente. Ali estão os principais determinantes da personalidade, as fontes da energia psíquica e as pulsões ou instintos (TAVARES, 2019). 2. O Modelo Estrutural e a Emer- gência dos Fenômenos Lacunares Superando a visão puramente topográ- fica, Freud ao aprofundar seus estudos obser- vou que tal teoria não abrangia de forma satis- fatória o entendimento aprofundado do apa- relho psíquico. Consequentemente, observou que este deveria ser visto e estudado como estruturas, desenvolvendo a segunda tópica, o modelo estrutural do aparelho psíquico, onde estas interagem entre si possibilitando o fun- cionamento da mente. São elas: o Id, conside- rado a instância responsável pelos instintos e impulsos; o Ego, considerada a principal ins- tância psíquica e com função mediadora entre os impulsos instintivos do Id e as exigências do Superego; e o Superego, instância respon- sável pela regulação das normas e padrões (TAVARES, 2019). A partir dos estudos do Id, Ego e Supe- rego, Freud passa a compreender fenômenos que ocorriam nos sistemas pré-consciente e consciente como manifestações do inconsci- ente e conceitua tais fenômenos como fenô- menos lacunares. A interpretação dos sonhos tornou-se um marco na descoberta de tais fenômenos, considerando também os chistes, os atos falhos e os sintomas como expressões de conflitos psíquicos que, por uma falha nos mecanismos de defesa, se repetem como uma súplica para serem analisados e interpretados pelo analista. O inconsciente, por si só, não poderia mais ser tratado como o único local na psique, pois há vários reinos inconscientes, de diferentes tipos. A partir de então, o termo inconsciente foi usado apenas como um quali- ficador aplicável a processos mentais, inde- pendentemente da sua localização topográfica. Uma parte do EGO e SUPEREGO foram ditas inconscientes, enquanto que os compo- nentes do ID não podem tornar-se consciente sem transformações, ficando suas formas ori- ginais inconscientes (FREUD, 1920).

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 O Inconsciente Freudiano | Lázaro Santos Tavares 120 Freud nos diz que o caminho do in- consciente está nas lacunas das manifestações conscientes. Os fenômenos lacunares são in- dicadores da verdade do inconsciente e de sua existência; é através deles que percebemos a existência de algo para além da consciência. Lacan nomeia essas manifestações de "forma- ção do inconsciente": o Ato Falho, o Chiste, o Lapso, o Sonho e os sintomas. Para que pos- samos compreender os atos falhos, é impor- tante que haja uma compreensão sobre a no- ção de inconsciente; em seu artigo, Freud (1915) ressalta que os dados da consciência apresentam um grande número de lacunas e que tanto as pessoas sadias ou as doentes de- senvolvem atos psíquicos aos quais a ciência não oferece explicações; o autor entende essas lacunas como lembranças encobridoras, como por exemplo os atos falhos, enfatizando que eles só podem ser elucidados através do in- consciente (FREUD, 1915). A segunda tópica não substitui a pri- meira; em vez disso, manteve uma relação dialética com esta, complicando assim o mo- delo como um todo. Alguns psicanalistas franceses consideram que as duas topografias não são meramente construções metapsicoló- gicas, mas também correspondem a modos organizacionais da psique. Vale lembrar que o ID é regido pelo princípio do prazer; o Ego é regido pelo princípio da realidade e estabelece o equilíbrio entre as exigências do Id, da reali- dade e as “ordens” do Superego; e o Superego origina-se a partir da internalização das proibi- ções, dos limites e da autoridade, sendo o de- positário das normas e princípios morais do grupo social a que o indivíduo se vincula (FREUD, 1920). 3. A Função Mediadora do Ego e os Mecanismos de Defesa O Ego não é uma instância que passa a existir de repente; ele é uma construção. For- ma-se na sequência de identificações com ob- jetos externos que são incorporados a ele, sendo um mediador que pode, por um lado, ser considerado como uma diferenciação pro- gressiva do Id, levando a um contínuo aumen- to do controle sobre o resto do aparelho psí- quico. Portanto, o Ego é o polo defensivo do psiquismo; ele não é equivalente ao conscien- te, não se superpõe a ele nem se funde com ele. O Ego tem raízes no inconsciente, e os mecanismos de defesa são funções do Ego, assim como o desenvolvimento da angústia. A função do Ego é mediadora e integradora en- tre as pulsões, as exigências e ameaças do Su- perego e as demandas da realidade exterior. Os mecanismos de defesa do Ego são proces- sos subconscientes desenvolvidos pela perso- nalidade que possibilitam à mente desenvolver uma solução para conflitos, ansiedades, hosti- lidades, impulsos agressivos, ressentimentos e frustrações não solucionados ao nível da consciência (SILVA, 2010). 4 A Perspectiva de Anna Freud na Clínica dos Mecanismos de Defesa

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 O Inconsciente Freudiano | Lázaro Santos Tavares 121 Para um aprofundamento técnico, é imprescindível recorrer à obra de Anna Freud (1936), O Ego e os Mecanismos de Defesa. Foi Anna Freud quem conferiu contornos defini- dos à atuação do Ego em sua luta contra o perigo interno (pulsões) e o perigo externo (realidade). A autora nos ensina que o Ego, ao perceber uma angústia sinalizadora, mobiliza técnicas defensivas específicas para preservar sua integridade. Como afirma Anna Freud: “Os impulsos instintivos continuam esforçan- do-se por conseguir seus fins, com a tenacida- de e energia que lhes é peculiar e efetuam in- cursões hostis no ego, na esperança de derru- barem por um ataque surpresa”. Assim, a aná- lise dos mecanismos de defesa não visa apenas a catalogação, mas a compreensão de como o sujeito tenta garantir suas fronteiras. De acordo com a organização proposta por Silva (2010) e fundamentada em Anna Freud, detalhamos a seguir os principais me- canismos: 1. Negação: Consiste na recusa do sujeito a aceitar a existência de uma situação peno- sa demais para ser tolerada. Este meca- nismo é predecessor de outros mecanis- mos, como a projeção. 2. Deslocamento: Ocorre quando a pessoa substitui a finalidade inicial de uma pulsão por outra diferente e socialmente mais aceita. 3. Repressão (recalque): O mais comum mecanismo de defesa, consiste em afastar uma determinada ideia, afeto ou apelo do instinto do campo da consciência, man- tendo-os no inconsciente. 4. Racionalização: O sujeito cria uma justi- ficativa falsa para não reconhecer a moti- vação verdadeira, mantendo o respeito próprio e evitando a culpa. 5. Regressão: O retorno a atitudes passadas que provaram ser seguras e gratificantes para fugir de um presente angustiante. 6. Formação reativa: Expressão de uma tendência oposta ao que era sentido ante- riormente, como forma de mascarar im- pulsos latentes (ex: o pudor excessivo para mascarar tendências exibicionistas). 7. Isolamento: O indivíduo separa a ideia do afeto ao qual estaria unida, tornando a ideia inócua. É típico da neurose obsessi- va. 8. Compensação: A personalidade, em suas inadequações, apresenta este mecanismo para assegurar o reconhecimento de que necessita. 9. Projeção: O sujeito atribui a objetos ex- ternos aspectos psíquicos que lhe são pró- prios, mas não reconhecidos como seus. 10. Introjeção: O objeto externo torna-se efetivo internamente; uma ordem externa passa a fazer parte do indivíduo como um valor seu. 11. Sublimação: Mecanismo pelo qual o su- jeito dessexualiza a libido ou desagressiva a energia agressiva, transformando-as em algo socialmente aceito e útil.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 O Inconsciente Freudiano | Lázaro Santos Tavares 122 Conclusão: A Ética da Prática Psi- canalítica Assim, o Id, o Ego e o Superego são concepções fundamentais criadas por Sig- mund Freud para esclarecer o funcionamento da mente humana. O Id abriga a energia pul- sional primária; o Ego, emergindo como me- diador, busca o equilíbrio diante da realidade; e o Superego, originário das internalizações, atua na regulação moral. Contudo, a finalidade da psicanálise permanece clara: "é, na verdade, fortalecer o Ego, fazê-lo mais independente do Superego, ampliar seu campo de percepção e expandir sua organização, de maneira a po- der assenhorear-se de novas partes do Id" (FREUD; livro 22, p. 102). Em suma, a teoria psicanalítica não tra- ta de compartimentos estanques, mas de uma dinâmica viva. A compreensão profunda des- sas instâncias e o manejo ético dos mecanis- mos de defesa — conforme mapeado por Anna Freud — constituem a essência da escu- ta clínica. Ao fortalecer o Ego e tornar consci- ente o que era lacunar, permitimos ao sujeito um novo lugar frente ao desejo, transforman- do repetições mortíferas em possibilidade de invenção subjetiva. REFERÊNCIAS: FREUD, Anna. O Ego e os Mecanismos de Defesa. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1936. FREUD, S. (1915). O inconsciente. In: FREUD, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. vol. XIV. FREUD, S. (1920). Além do Princípio do Prazer. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, trad., Vol. XVIII, pp. 17- 78). Rio de Janeiro: Imago. FREUD, S. O Ego e o Id (1923). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XI. Rio de Janeiro: Ed. Imago. FREUD, S. (1932). Novas conferências intro- dutórias sobre psicanálise: Conferência XXXII: Ansiedade e vida instintual (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 22). Rio de Janeiro: Imago. GOMES, Gevaldo Lavor. O abandono familiar em The Glass Menagerie à luz da teoria psicanalítica freudiana. Trabalho de conclusão de curso. Ca- jazeiras/PB, 2018. KOTZENT, João Paulo. Mecanismos de Defesa, Associação Psicanalítica do Vale do Paraíba (APVP), 2017. SILVA, Elizabete Bianca Tinoco. Mecanismos de Defesa do Ego. Disponível em: www.psicologia.pt; Produzido em 15/07/2011; Último acesso em 30/03/2020. TAVARES, Lázaro. Material em Ppt. Arquivo de aula em 26/08/2019, ministrada no Cartel de Formação em Psicanálise da Escola Freu- diana – Seção Teresina, mantida pela Associa- ção Piauiense de Psicanálise.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Ao Desafios Contemporâneos | Quizânior de Oliveira Andrade 123 DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS NA CLÍNICA PSICANALÍTICA: UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA SOBRE INOVAÇÕES E PRÁTICAS NA ÁREA DA SAÚDE Quizânior de Oliveira Andrade Artigo de revisão apresentado como requisito parcial à conclusão da Formação e Pós-graduação em Psicanálise – Faculdade de Educação do Piauí / Escola Freudiana de Psicanálise de Teresina RESUMO Este artigo analisa os desafios da clínica psicanalítica diante das transformações sociais, culturais e tecnológicas do século XXI. A pesquisa, qualitativa e bibliográfica, investigou como a psicanálise pode responder às novas demandas subjetivas sem perder seus fundamentos éticos. Foram consulta- das obras de Freud e Lacan, articuladas a autores contemporâneos como Bauman, Han, Birman e Kehl. Discutiram-se as novas formas de sofrimento psíquico, a medicalização da vida, os impactos da cultura digital e os desafios da clínica online. Conclui-se que a psicanálise permanece relevante ao preservar a ética da escuta, a transferência e o respeito à singularidade de cada sujeito. Palavras-chave: Psicanálise contemporânea; Saúde mental; Clínica psicanalítica; Cultura digital; Subjetividade. ABSTRACT This article analyzes the challenges of psychoanalytic clinical practice in the face of the social, cul- tural, and technological transformations of the twenty-first century. The research, qualitative and bibliographic, investigated how psychoanalysis can respond to new subjective demands without losing its ethical foundations. Works by Freud and Lacan were consulted, articulated with contem- porary authors such as Bauman, Han, Birman, and Kehl. The study addressed new forms of psychic suffering, the medicalization of everyday life, the impacts of digital culture, and the challenges of online clinical practice. It concludes that psychoanalysis remains relevant by preserving the ethics of listening, transference, and respect for the singularity of each subject. Keywords: Contemporary psychoanalysis; Mental health; Psychoanalytic clinic; Digital culture; Subjectivity.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Ao Desafios Contemporâneos | Quizânior de Oliveira Andrade 124 1 INTRODUÇÃO Há algo paradoxal em falar de psicanáli- se na contemporaneidade. Em um tempo que valoriza a velocidade, a praticidade e a resolu- ção imediata dos problemas, a psicanálise insis- te em desacelerar, em ouvir o que não foi dito, em considerar o que escapa à consciência. E é justamente essa insistência que a torna insubsti- tuível. O presente artigo parte dessa tensão para investigar de que maneira a clínica psicanalítica tem enfrentado os desafios de uma época mar- cada por transformações profundas — e, mais do que isso, como ela pode continuar sendo um espaço de cuidado genuíno em um mundo que parece cada vez mais hostil à escuta. A psicanálise nasceu no final do século XIX a partir de uma escolha radical: a de levar a sério a fala do paciente. Sigmund Freud, médi- co neurologista vienense, deparou-se com casos de histeria que a medicina da época não sabia explicar nem tratar. Em vez de buscar causas orgânicas onde não havia lesões aparentes, Freud propôs outra via: escutar. A partir dessa escuta atenta e sistemática, foi construindo um conjunto teórico e técnico que revolucionaria a compreensão do sofrimento humano. A associ- ação livre, o conceito de inconsciente, a transfe- rência e a interpretação tornaram-se ferramen- tas de uma clínica radicalmente nova — centra- da não no sintoma em si, mas no sujeito que sofre. Ao longo do século XX, a psicanálise expandiu-se para diferentes países e disciplinas, influenciando a psicologia, a filosofia, a literatu- ra, a educação e a cultura em geral. Jacques Lacan, pensador francês que releu Freud à luz da linguística estrutural, aprofundou a compre- ensão do inconsciente ao afirmar que este "é estruturado como uma linguagem". Com La- can, a dimensão simbólica da clínica ganhou novo vigor: o sujeito passou a ser compreendi- do como efeito da linguagem, habitado por um desejo que nunca se satisfaz plenamente e que se manifesta nos interstícios da fala. A escuta analítica tornou-se, assim, uma escuta da lin- guagem — dos lapsos, das repetições, dos si- lêncios carregados de sentido. A virada do milênio trouxe consigo transformações que nenhum dos fundadores da psicanálise poderia ter antecipado. A cultura digital reorganizou as formas de se relacionar, de trabalhar, de sentir e de se perceber. As re- des sociais criaram novos palcos de exposição e comparação. A economia da atenção capturou o tempo e o desejo das pessoas de maneiras inéditas. A pandemia de COVID-19 acelerou ainda mais essas mudanças, forçando o isola- mento, aumentando o sofrimento psíquico e levando a clínica para dentro das telas. É nesse contexto complexo e acelerado que a psicanáli- se é convocada a se reinventar — sem, contu- do, trair aquilo que a constitui. Diante desse cenário, formulou-se o se- guinte problema de pesquisa: de que maneira a clínica psicanalítica contemporânea pode res- ponder às novas demandas subjetivas e tecno- lógicas da sociedade atual sem perder seus fun-

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Ao Desafios Contemporâneos | Quizânior de Oliveira Andrade 125 damentos éticos e teóricos? A partir dessa in- terrogação, o presente estudo teve como obje- tivo geral analisar os principais desafios enfren- tados pela clínica psicanalítica na contempora- neidade, examinando as novas formas de so- frimento, os impactos das tecnologias digitais e as respostas possíveis da psicanálise a essas transformações. A relevância acadêmica desta pesquisa reside na necessidade de ampliar os debates sobre a clínica psicanalítica em um contexto histórico de profundas mudanças subjetivas e tecnológicas. Do ponto de vista clínico, o traba- lho contribui para a reflexão sobre as adapta- ções necessárias à prática analítica, especialmen- te diante da expansão dos atendimentos online e das novas configurações do sofrimento hu- mano. Socialmente, a pesquisa importa porque fala de algo que diz respeito a todos: o sofri- mento, a dificuldade de existir em um mundo que exige demais e oferece cada vez menos espaço para o que é singular, frágil e humano. 2 METODOLOGIA 2.1 Tipo e natureza da pesquisa O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, de natureza explorató- ria e descritiva, desenvolvida por meio de revi- são bibliográfica. A escolha pela abordagem qualitativa justifica-se pela natureza do objeto investigado: os fenômenos subjetivos relacio- nados ao sofrimento psíquico, à constituição do sujeito e à prática clínica não se deixam captu- rar por dados numéricos ou medidas estatísti- cas. É preciso, antes, interpretá-los, contextua- lizá-los e colocá-los em diálogo com diferentes perspectivas teóricas. A pesquisa exploratória, conforme Gil (2008), tem como propósito ampliar o conhe- cimento sobre determinado fenômeno, especi- almente quando este se encontra em constante transformação. Esse caráter exploratório é es- pecialmente adequado ao tema aqui investiga- do, uma vez que as transformações da clínica psicanalítica diante da cultura digital e das no- vas formas de sofrimento constituem um cam- po ainda em elaboração, marcado por debates abertos e perspectivas em construção. A di- mensão descritiva, por sua vez, buscou apre- sentar e analisar com rigor as características dos fenômenos estudados, articulando as contribui- ções teóricas consultadas de forma organizada e crítica. 2.2 Procedimentos de coleta e seleção do mate- rial O levantamento bibliográfico foi reali- zado em bases de dados acadêmicas de reco- nhecida relevância: Google Acadêmico, Sci- ELO (Scientific Electronic Library Online) e PePSIC (Periódicos Eletrônicos em Psicologia). A busca orientou-se pelos seguintes descritores, utilizados de forma isolada e combinada: "psi- canálise contemporânea", "clínica psicanalítica", "subjetividade", "saúde mental", "tecnologia e psicanálise", "clínica online", "sofrimento psí- quico" e "medicalização". Foram incluídos textos clássicos da teo- ria psicanalítica — em especial obras de Sig-

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Ao Desafios Contemporâneos | Quizânior de Oliveira Andrade 126 mund Freud e Jacques Lacan —, por constituí- rem o alicerce conceitual indispensável para qualquer discussão sobre a clínica. A essas obras foram acrescidas produções contempo- râneas de autores que se dedicam à análise das transformações subjetivas na atualidade, como Zygmunt Bauman, Byung-Chul Han, Joel Bir- man e Maria Rita Kehl. Para os artigos científi- cos, priorizou-se a produção dos últimos dez anos, de modo a garantir a atualidade das dis- cussões. Foram excluídos trabalhos sem perti- nência direta ao tema, bem como produções sem respaldo acadêmico consistente. 2.3 Método de análise A análise do material coletado foi con- duzida a partir da leitura interpretativa e da análise crítica das obras selecionadas. Buscou-se não apenas identificar o que cada autor afirma, mas compreender os pressupostos que susten- tam suas argumentações, os diálogos implícitos entre diferentes perspectivas e as contribuições específicas de cada obra para a compreensão do problema investigado. A articulação teórica entre autores clássicos e contemporâneos foi um procedimento central desta pesquisa, pois permite iluminar os fundamentos perenes da psicanálise à luz das questões emergentes da contemporaneidade — e vice-versa. 3 REVISÃO DE LITERATURA 3.1 A Constituição da Clínica Psicanalítica: fun- damentos e singularidade Para compreender os desafios que a clí- nica psicanalítica enfrenta hoje, é necessário antes reconhecer o que a constitui em sua espe- cificidade. A psicanálise não é apenas uma téc- nica terapêutica entre outras: é uma forma sin- gular de compreender o sofrimento humano, fundada na escuta do inconsciente e na valori- zação radical da singularidade de cada sujeito. Seus fundamentos foram estabelecidos por Sigmund Freud a partir de uma ruptura decisiva com os modelos médicos dominantes no final do século XIX. O ponto de partida freudiano foi o re- conhecimento de que sintomas aparentemente orgânicos podiam ter origem em conflitos psí- quicos inconscientes. Os estudos sobre a histe- ria, desenvolvidos em parceria com Josef Breuer e sistematizados nas obras de Freud, revelaram que o corpo pode falar aquilo que a mente recusa a consciência. A partir dessas observações, Freud construiu a hipótese central da psicanálise: existe uma dimensão da vida psíquica que escapa ao controle da consciência e que exerce influência determinante sobre os pensamentos, os afetos e os comportamentos do sujeito. Essa dimensão é o inconsciente. O inconsciente freudiano não é um simples depósito de conteúdos esquecidos. É uma instância ativa, dotada de lógica própria, que se manifesta de maneiras indiretas e fre- quentemente disfarçadas: nos sonhos, nos atos falhos, nos lapsos de linguagem, nos sintomas e nas formas de repetição que marcam a vida de cada pessoa. Segundo Freud (1996), os sinto- mas neuróticos não são manifestações aleató- rias, mas expressões simbólicas de conflitos

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Ao Desafios Contemporâneos | Quizânior de Oliveira Andrade 127 inconscientes reprimidos — mensagens cifra- das que pedem decifração. Para acessar esses conteúdos inconsci- entes, Freud desenvolveu a técnica da associa- ção livre. Diferentemente dos métodos terapêu- ticos tradicionais, centrados na autoridade do médico e na supressão dos sintomas, a associa- ção livre convida o paciente a falar livremente — sem censura, sem ordem lógica, sem preo- cupação com o que é "relevante" ou "adequa- do". Essa aparente desordem é, na verdade, o caminho pelo qual o inconsciente encontra expressão. O analista, por sua vez, adota uma posição de "atenção flutuante": escuta tudo de maneira igualmente suspensa, sem privilegiar nenhum elemento de antemão, disponível para o que emerge inesperadamente. “O analista deve reconhecer no paciente o que foi reprimi- do, e isso somente é possível pela via da associ- ação livre, que permite ao inconsciente mani- festar-se sem as barreiras da censura conscien- te” (FREUD, 2016, p. 47). Outro conceito fundamental para a constituição da clínica psicanalítica é o de trans- ferência. Freud observou que, ao longo do tra- tamento, os pacientes frequentemente desen- volviam em relação ao analista sentimentos intensos — de amor, de ódio, de dependência — que reproduziam padrões afetivos origina- dos em relações passadas, especialmente com figuras parentais. Inicialmente percebida como obstáculo ao tratamento, a transferência foi gradualmente compreendida por Freud como o principal motor do processo analítico. É através dela que os conflitos inconscientes se atualizam no espaço da sessão, tornando-se passíveis de elaboração (FREUD, 2010). Jacques Lacan, ao reler Freud à luz da linguística estrutural de Saussure, aprofundou e complexificou esses conceitos. Para Lacan (1998), o inconsciente é estruturado como uma linguagem: seus mecanismos fundamentais — a metáfora e a metonímia — correspondem exa- tamente às figuras retóricas que Freud descre- veu como condensação e deslocamento. Com Lacan, a fala do sujeito passa a ser compreendi- da em sua dimensão radicalmente polissêmica: as palavras carregam sempre mais do que o falante pretende dizer, e é nesse excesso — nos lapsos, nas ambiguidades, nas formações do inconsciente — que o desejo se revela. A escuta clínica lacaniana exige, portan- to, uma atenção redobrada: não basta compre- ender o que o paciente diz, mas perceber o que ele diz sem saber. O silêncio, a hesitação, a es- colha de determinada palavra em detrimento de outra — tudo isso é material analítico. Con- forme afirma Lacan (1985), o sujeito do in- consciente fala nas brechas do discurso, naquilo que o próprio falante não consegue controlar. Essa concepção torna a clínica psicanalítica uma prática de escuta refinada, irredutível a qualquer protocolo, pois o que importa é sem- pre o que emerge de maneira singular em cada sessão, com cada sujeito. 3.2 Subjetividade e Sofrimento na Contempo- raneidade

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Ao Desafios Contemporâneos | Quizânior de Oliveira Andrade 128 Compreender o sofrimento humano na contemporaneidade exige que nos detenhamos nas condições históricas e culturais que o pro- duzem. O sujeito que chega ao consultório — ou que acessa a sessão por videochamada — não é um ser abstrato: é alguém que vive num tempo específico, que experimenta as pressões de uma sociedade que tem exigências muito particulares sobre como se deve ser, sentir e se comportar. Ignorar esse contexto seria empo- brecer a escuta clínica. Um dos diagnósticos mais influentes sobre a contemporaneidade é o de Zygmunt Bauman. Com o conceito de "modernidade líquida", o sociólogo polonês descreveu uma época em que tudo que parecia sólido — insti- tuições, valores, identidades, vínculos afetivos — passou a fluir, a transformar-se, a dissolver- se antes de se solidificar. Segundo Bauman (2001), os indivíduos contemporâneos vivem sob pressão permanente para adaptar-se, para recomeçar, para ser sempre outro de si mes- mos. O medo do compromisso transformou-se em virtude; a superficialidade das relações, em inevitabilidade. Na modernidade líquida, as rela- ções humanas se tornaram frouxas, efêmeras e voláteis. Relacionamen- tos são mantidos enquanto satisfa- zem, e descartados quando se tor- nam inconvenientes. O outro tor- na-se um obstáculo à liberdade in- dividual tanto quanto uma necessi- dade dela. (BAUMAN, 2004, p. 33) Essa liquidez dos vínculos produz con- sequências psíquicas profundas. A dificuldade de construir laços duradouros, de confiar no outro, de investir emocionalmente em projetos que transcendam o imediato — tudo isso ali- menta sentimentos de solidão, de vazio e de desamparo. O paradoxo da hiperconectividade é que, ao mesmo tempo em que estamos mais conectados do que nunca, experimentamos formas inéditas de isolamento. Ter centenas de "amigos" nas redes sociais não substitui a pre- sença concreta de alguém que nos ouça de ver- dade. Byung-Chul Han (2017), filósofo sul- coreano radicado na Alemanha, oferece outro ângulo analítico fundamental. Em sua obra Sociedade do Cansaço, Han descreve a passa- gem de uma "sociedade disciplinar" — baseada na repressão e na proibição — para uma "soci- edade do desempenho", organizada em torno da positividade ilimitada. Nessa sociedade, não há mais um "não deves" exterior que constranja o sujeito: há, ao contrário, um "podes" e um "deves" internalizados que levam à autoexplo- ração compulsiva. O sujeito contemporâneo não é oprimido pelo Outro — é oprimido por si mesmo. A consequência direta dessa lógica é o esgotamento. Han (2017) aponta que a depres- são, a síndrome de burnout e os transtornos de ansiedade são as doenças características de nos- sa época — não porque o sistema nervoso seja mais frágil do que antes, mas porque o sistema social impõe ao sujeito uma carga que excede os limites do psiquismo. O trabalhador con- temporâneo é seu próprio explorador: ninguém

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Ao Desafios Contemporâneos | Quizânior de Oliveira Andrade 129 precisa obrigá-lo a trabalhar até o colapso, pois ele mesmo se cobra isso, com a ilusão de que ser produtivo é ser feliz. Joel Birman (2019) analisa o sofrimento contemporâneo a partir de uma perspectiva psicanalítica, identificando na cultura atual uma patologia do narcisismo. O sujeito contempo- râneo encontra-se submetido a intensas pres- sões sociais relacionadas à imagem, ao sucesso e ao reconhecimento. As redes sociais amplia- ram de maneira exponencial o palco de exposi- ção do eu: nunca antes o indivíduo precisou sustentar uma performance de si mesmo de forma tão contínua e para uma audiência tão vasta. Os efeitos clínicos dessa pressão são sen- timentos frequentes de insuficiência, de vergo- nha, de fracasso e de uma autoestima frágil que depende constantemente da aprovação externa. Maria Rita Kehl (2009) acrescenta a essa análise uma reflexão sobre a depressão como sintoma social. Para a autora, a tristeza e o es- vaziamento afetivo que marcam a depressão não são apenas respostas individuais a situações difíceis: são também reações ao ritmo insano imposto pela contemporaneidade, à impossibi- lidade de luto, ao esgotamento simbólico pro- duzido por uma cultura que não dá tempo para que as perdas sejam elaboradas. A psicanálise oferece, nesse contexto, um espaço raro: o do tempo suspenso, da fala sem pressa, da escuta que não quer que o sujeito melhore rapidamen- te — mas que quer, antes de tudo, compreen- dê-lo. 3.3 A Medicalização da Vida e o Sofrimento Psíquico Um dos fenômenos mais marcantes da contemporaneidade no campo da saúde mental é a crescente medicalização da vida. Entende-se por medicalização o processo pelo qual experi- ências humanas ordinárias — a tristeza, a timi- dez, a inquietação, o luto, a agitação das crian- ças — são redefinidas como problemas médi- cos, passíveis de diagnóstico e de tratamento farmacológico. Esse processo não é neutro: reflete escolhas culturais, econômicas e políticas que têm consequências diretas sobre a forma como os sujeitos compreendem a si mesmos e sobre o espaço que restará para as abordagens que não reduzem o sofrimento a uma disfunção neuroquímica. Michel Foucault (1979) já havia descrito com precisão o modo como as sociedades mo- dernas desenvolveram mecanismos sofisticados de normalização dos corpos e dos comporta- mentos. O discurso médico, nesse contexto, funciona não apenas como saber técnico, mas como dispositivo de poder que define o que é normal e o que é patológico, o que deve ser tratado e o que pode ser tolerado. A prolifera- ção de diagnósticos psiquiátricos nas últimas décadas — com novos transtornos sendo in- corporados a cada edição dos manuais diagnós- ticos — é expressão desse processo. O problema não está, evidentemente, em reconhecer que existem sofrimentos psíqui- cos que se beneficiam de intervenções farmaco- lógicas. A psiquiatria contemporânea dispõe de

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Ao Desafios Contemporâneos | Quizânior de Oliveira Andrade 130 recursos importantes, e seria ingênuo ou mes- mo prejudicial negar sua contribuição. O pro- blema está quando o medicamento se torna a resposta exclusiva, quando o sofrimento é si- lenciado sem ser compreendido, quando o su- jeito é reduzido ao seu diagnóstico e despojado de sua história. Como afirma Birman (2019), a cultura atual demonstra uma dificuldade cres- cente de lidar com a dor psíquica: quer-se eli- miná-la com rapidez, sem que seja necessário habitá-la, interrogá-la ou aprender com ela. A psicanálise oferece uma perspectiva radicalmente diferente. Para Freud, o sintoma não é um erro do sistema nervoso: é uma for- mação de compromisso, uma solução provisó- ria que o psiquismo encontrou para lidar com um conflito que não pôde ser elaborado de outra forma. Silenciar o sintoma sem compre- ender sua função pode, em muitos casos, ape- nas deslocar o conflito para outra expressão — ou privar o sujeito de uma via de acesso ao que o faz sofrer. A escuta psicanalítica propõe, ao contrário, uma aproximação cuidadosa do sin- toma: não para eliminá-lo imediatamente, mas para ouvir o que ele tem a dizer. “O sintoma é uma mensagem endereçada ao Outro. Ele fala aquilo que o sujeito não consegue dizer em palavras. Por isso, suprimi-lo sem escutá-lo é perder a oportunidade de compreender o sujei- to”. (LACAN, 1998, p. 273). Isso não significa que a psicanálise se oponha a priori a qualquer uso de medicamen- tos. Significa, antes, que ela recusa a redução do sujeito ao diagnóstico, que insiste na singulari- dade de cada história e que valoriza o sofrimen- to — não como algo bom em si mesmo, mas como algo que carrega um sentido que merece ser escutado. Numa época em que a resposta imediata é quase sempre farmacológica, esse posicionamento da psicanálise constitui uma resistência ética de grande valor. 3.4 Clínica Psicanalítica e Tecnologia Digital A relação entre a clínica psicanalítica e as tecnologias digitais é um dos temas mais vivos e controversos do debate contemporâneo sobre psicanálise. De um lado, há aqueles que argumentam que o ambiente virtual compro- mete irremediavelmente os elementos funda- mentais da experiência analítica — a presença corporal, o setting, a qualidade do silêncio, a tonalidade afetiva que só o encontro presencial proporciona. De outro, há quem defenda que a escuta psicanalítica é essencialmente uma ques- tão de linguagem e de relação, e que, desde que essas condições sejam preservadas, o meio pelo qual ela ocorre é secundário. A pandemia de COVID-19 tornou esse debate urgente e prático. Da noite para o dia, analistas e pacientes que nunca haviam cogitado a possibilidade de sessões online foram obriga- dos a se adaptar. O que poderia ter sido uma interrupção catastrófica dos tratamentos reve- lou-se, em muitos casos, uma descoberta: era possível fazer clínica pela tela — com perdas, com adaptações, com novos desafios, mas com preservação do essencial. A experiência pandê- mica funcionou como um experimento invo- luntário em larga escala, cujos resultados ainda

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Ao Desafios Contemporâneos | Quizânior de Oliveira Andrade 131 estão sendo assimilados pela comunidade psi- canalítica. Do ponto de vista teórico, a questão central é a da transferência. Desde Freud, sabe- se que a transferência é o motor do processo analítico: é através dela que os conflitos incons- cientes se atualizam e se tornam passíveis de elaboração. No ambiente virtual, como ela se estabelece? Ela se estabelece, afirmam muitos clínicos contemporâneos — e a experiência prática parece confirmar isso. A transferência não depende da presença física: ela depende da relação, do vínculo, da palavra. O analista que está na tela ainda ocupa um lugar na economia psíquica do paciente; a fala ainda carrega os mesmos deslocamentos, condensações e for- mações do inconsciente. Contudo, seria ingênuo negar que o ambiente virtual introduz especificidades que a clínica precisa levar em conta. O enquadre — conjunto de condições que organizam o pro- cesso analítico — sofre modificações importan- tes: a sessão ocorre no espaço doméstico do paciente, com todas as possíveis interferências que isso implica; a conexão pode cair; o pacien- te pode estar em um ambiente sem privacidade; a percepção corporal do analista em relação ao paciente é parcial e mediada pela câmera. Cada um desses elementos precisa ser trabalhado, e não ignorado. Há também uma dimensão subjetiva nova introduzida pela virtualidade. O paciente que acessa a sessão de seu próprio quarto está, de certa forma, recebendo o analista em seu espaço mais íntimo — o que pode facilitar a fala em alguns casos, mas também pode diluir a sensação de estar em um espaço diferenciado, destinado ao trabalho analítico. A tela cria uma membrana que ao mesmo tempo conecta e separa, possibilitando certos tipos de proximi- dade e dificultando outros. Tudo isso é material clínico, e a psicanálise tem recursos para traba- lhá-lo. Além dos atendimentos online, as tec- nologias digitais trouxeram outras inovações para o campo da saúde mental: aplicativos de bem-estar, plataformas de terapia por mensa- gem, chatbots de suporte emocional e, mais recentemente, sistemas de inteligência artificial voltados ao cuidado psicológico. Essas ferra- mentas têm o mérito de ampliar o acesso ao cuidado, alcançando pessoas que de outra for- ma não teriam condições de buscar atendimen- to especializado. Nesse sentido, representam um avanço real na democratização da saúde mental. Mas elas têm também limites importan- tes que precisam ser nomeados com clareza. A inteligência artificial pode reconhecer padrões, oferecer respostas baseadas em probabilidades, sugerir estratégias de enfrentamento — mas não pode escutar. A escuta analítica não é um processamento de informações: é uma presen- ça, uma disponibilidade, uma capacidade de ser afetado pelo sofrimento do outro. Um algorit- mo não transfere; um chatbot não interpreta; uma plataforma digital não sustenta o vazio

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Ao Desafios Contemporâneos | Quizânior de Oliveira Andrade 132 necessário para que o sujeito se escute. A dife- rença não é técnica: é ética e ontológica. 3.5 Inovações em Saúde Mental e o Futuro da Clínica Psicanalítica O panorama da saúde mental contem- porânea é marcado por uma tensão produtiva entre a necessidade de inovar e a necessidade de preservar. Inovar, porque os sofrimentos mudaram, as demandas mudaram, as formas de acesso aos serviços mudaram — e uma clínica que se recuse a dialogar com essas transforma- ções corre o risco de se tornar uma prática de museu, preservada em sua pureza teórica, mas progressivamente afastada da vida das pessoas. Preservar, porque há uma ética específica na psicanálise — uma posição em relação ao sujei- to, ao desejo e ao sofrimento — que não pode ser sacrificada em nome da adaptação ao mer- cado ou da eficiência terapêutica. As inovações mais promissoras no campo da saúde mental são aquelas que ampli- am o acesso sem comprometer a qualidade do cuidado. Nessa direção, o atendimento online, quando bem conduzido, pode ser uma ferra- menta poderosa de democratização da clínica psicanalítica. Há pessoas em cidades pequenas e em regiões remotas que nunca tiveram acesso a um analista; há pessoas com limitações de mo- bilidade ou de agenda que encontraram na clí- nica virtual uma possibilidade que antes lhes era negada. Nesses casos, a tecnologia não empo- brece a clínica: ela a torna possível. O mesmo se pode dizer de iniciativas que buscam integrar a psicanálise a outros dis- positivos de cuidado: serviços de saúde mental coletivos, grupos terapêuticos, projetos de escu- ta em comunidades vulneráveis, inserção de psicanalistas em equipes de saúde pública. A psicanálise não é e não deve ser um privilégio de quem pode pagar consultas caras em consul- tórios elegantes. Sua vocação ética — a escuta radical da singularidade — pode e deve estar presente em contextos diversificados, desde que os princípios que a sustentam sejam pre- servados. O que não pode ser preservado, porém, é a ilusão de que a tecnologia por si mesma resolve o sofrimento humano. A inteligência artificial aplicada à saúde mental é um campo em rápida expansão, e seus defensores fazem promessas ambiciosas sobre diagnóstico preco- ce, personalização dos tratamentos e suporte emocional escalável. Há, sem dúvida, aplicações legítimas e promissoras. Mas a tentação de substituir a relação humana por uma interface tecnológica, sob o argumento da eficiência ou da acessibilidade, é uma tentação que precisa ser resistida. A relação terapêutica não é um epi- fenômeno do tratamento, mas sua condição de possibilidade. É na re- lação — com sua assimetria, suas tensões, sua transferência — que o sujeito encontra um espelho para compreender a si mesmo. (BIR- MAN, 2019, p. 87) Han (2018) alerta para os riscos de uma sociedade que confunde conectividade com comunicação, presença digital com presença real. A digitalização das relações humanas pro-

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Ao Desafios Contemporâneos | Quizânior de Oliveira Andrade 133 duz, segundo ele, uma transparência que para- doxalmente empobrece o encontro: quando tudo está visível, quando tudo pode ser imedia- tamente acessado e compartilhado, o espaço para o segredo, para o enigma, para o não dito — que é justamente o espaço do inconsciente — fica ameaçado. A psicanálise, ao insistir que há sempre algo que escapa à representação consciente, funciona como uma resistência necessária a essa transparência compulsória. O futuro da clínica psicanalítica, portan- to, não será determinado pela tecnologia — será determinado pela capacidade dos analistas de pensar criticamente sobre seu tempo, de adaptar sua prática sem perder sua orientação ética, e de continuar oferecendo ao sujeito con- temporâneo aquilo que ele mais precisa e mais raramente encontra: um espaço onde pode ser escutado em sua singularidade, sem pressa, sem julgamento, e com a seriedade de quem acredita que o sofrimento tem algo a dizer. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao longo deste percurso, foi possível perceber que a clínica psicanalítica enfrenta na contemporaneidade desafios de uma amplitude que os fundadores da psicanálise dificilmente poderiam ter previsto. As transformações im- postas pela cultura digital, pela lógica do de- sempenho, pela medicalização crescente da vida e pela virtualização das relações humanas colo- cam questões genuínas sobre como a psicanáli- se pode continuar sendo uma prática relevante, acessível e eticamente consistente. Este estudo buscou mapear essas questões com honestida- de, sem romantizar os desafios nem subestimar os recursos que a psicanálise tem para enfrentá- los. A pesquisa evidenciou que as formas de sofrimento psíquico contemporâneas possuem características específicas que as diferenciam, ao menos em sua expressão clínica, das neuroses clássicas estudadas por Freud. A ansiedade ge- neralizada, a síndrome de burnout, o vazio exis- tencial, a fragilidade narcísica e os quadros de- pressivos ligados ao esgotamento são, em gran- de medida, produtos das condições históricas em que vivemos — da sociedade do desempe- nho descrita por Han, da modernidade líquida analisada por Bauman, do sofrimento narcísico que Birman identifica como marca da subjetivi- dade contemporânea. A clínica não pode igno- rar esses contextos: precisa integrá-los à com- preensão do sujeito que atende. Ao mesmo tempo, a pesquisa confir- mou que os fundamentos da psicanálise — a atenção ao inconsciente, a escuta da singulari- dade, a centralidade da transferência, a valoriza- ção da fala como via de elaboração subjetiva — permanecem não apenas válidos, mas necessá- rios. Em um tempo que valoriza a velocidade, a padronização e a supressão imediata do sofri- mento, a psicanálise oferece algo raro: a possi- bilidade de um encontro genuíno, de uma escu- ta sem protocolo, de um espaço onde o sujeito pode existir em sua complexidade, sem precisar ser encaixado em um diagnóstico ou reduzido a um conjunto de sintomas a eliminar.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Ao Desafios Contemporâneos | Quizânior de Oliveira Andrade 134 No que diz respeito às tecnologias digi- tais, este estudo concluiu que a clínica virtual não é intrinsecamente incompatível com a prá- tica psicanalítica — mas que sua adoção exige reflexão constante sobre os limites, as adapta- ções necessárias e os riscos de superficialização que o ambiente digital pode introduzir. A expe- riência da pandemia mostrou que é possível fazer análise pela tela; mostrou também que a presença física tem um valor que não deve ser descartado levianamente. O ideal não é escolher entre o presencial e o virtual, mas compreender o que cada modalidade oferece e o que cada uma exige — e fazer essa escolha com consci- ência, caso a caso, sujeito a sujeito. Uma das contribuições mais importan- tes que este estudo espera oferecer é a de de- fender a psicanálise não como um conjunto de técnicas ultrapassadas que precisa se moderni- zar a qualquer custo, mas como uma posição ética diante do sofrimento humano — uma posição que é, ela mesma, uma forma de resis- tência a certas tendências desumanizadoras da contemporaneidade. Numa época em que a IA propõe substituir o analista, em que os aplicati- vos prometem bem-estar em dez minutos por dia, em que a eficiência se tornou o valor su- premo, insistir na escuta singular, no tempo do sujeito, na complexidade irredutível da experi- ência humana é um ato ao mesmo tempo clíni- co e político. Como limitação, reconhece-se que este estudo, por seu caráter bibliográfico, não inclu- iu investigação empírica com analistas e pacien- tes em exercício. Seria enriquecedor, em pes- quisas futuras, incorporar relatos de experiência clínica, especialmente sobre atendimentos onli- ne, sobre o trabalho com sofrimentos contem- porâneos como o burnout e a depressão, e so- bre as formas concretas pelas quais analistas têm respondido às demandas de uma época em transformação. Pesquisas que dialoguem com a psicanálise institucional, com a saúde mental coletiva e com as práticas em contextos socioe- conômicos diversificados também seriam con- tribuições valiosas para o aprofundamento das questões aqui levantadas. Concluindo, o presente estudo reafirma que a psicanálise tem futuro — não apesar dos desafios contemporâneos, mas por causa deles. É precisamente quando o sujeito humano é mais ameaçado em sua singularidade, em sua profundidade, em seu tempo interno, que a psicanálise se torna mais necessária. O analista que sabe escutar o que não foi dito, que resiste à pressa diagnóstica, que acredita que cada su- jeito é irredutível a qualquer categoria — esse analista oferece ao mundo contemporâneo algo de inestimável valor: a convicção de que o hu- mano importa, de que o sofrimento tem senti- do, e de que existe algo que vale a pena escutar. REFERÊNCIAS BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Ao Desafios Contemporâneos | Quizânior de Oliveira Andrade 135 BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. BIRMAN, Joel. Mal-estar na atualidade: a psi- canálise e as novas formas de subjetivação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2019. BIRMAN, Joel. Arquivos do mal-estar e da resistência. Rio de Janeiro: Civilização Brasilei- ra, 2006. FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979. FREUD, Sigmund. A interpretação dos so- nhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. FREUD, Sigmund. Fundamentos da clínica psicanalítica. Belo Horizonte: Autêntica, 2016. GIL, Antônio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2008. HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Pe- trópolis: Vozes, 2017. HAN, Byung-Chul. No enxame: perspectivas do digital. Petrópolis: Vozes, 2018. KEHL, Maria Rita. O tempo e o cão: a atuali- dade das depressões. São Paulo: Boitempo, 2009. LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. PEPSIC. Periódicos Eletrônicos em Psicologia. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org. Acesso em: 13 maio 2026. SCIELO. Biblioteca Científica Eletrônica Onli- ne. Disponível em: https://www.scielo.org. Acesso em: 13 maio 2026.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Clínica do Autismo | Lázaro Santos Tavares 136 A CLÍNICA PSICANALÍTICA CONTEMPORÂNEA DO AUTISMO: Fundamentos Teóricos, Abordagens do Corpo e a Construção do Sujeito THE CONTEMPORARY PSYCHOA- NALYTIC CLINIC OF AUTISM: Theore- tical Foundations, Approaches to the Body and the Construction of the Subject. LA CLÍNICA PSICOANALÍTICA CON- TEMPORÁNEA DEL AUTISMO: Fun- damentos Teóricos, Abordajes del Cuerpo y la Construcción del Sujeto. Lázaro Santos Tavares Psicanalista Membro da Escola Freudiana – Seção Teresina (EFPT). Membro da Associação Brasileira de Ba- charéis em Psicanálise – ABBP (em processo de al- teração estatutária para Associação Brasileira de Bacharéis em Estudos Teóricos Psicanalíticos e So- ciais – ABBETPS, em resposta à Portaria SE- RES/MEC nº 3/2026). E-mail: lazarotavares.es@gmail.com escolafreudianadeteresina@gmail.com RESUMO O presente artigo aborda a interface entre a psicanálise e o autismo na contemporaneidade. Partindo de uma revisão das concepções clás- sicas, o texto explora as contribuições de auto- res pós-lacanianos e da escola inglesa para a compreensão do autismo como uma posição subjetiva singular, distinta da neurose e da psi- cose – uma verdadeira "quarta estrutura" ou posição pré-estrutural. São analisadas as especi- ficidades da clínica psicanalítica com crianças autistas, com ênfase na função do corpo do analista, no manejo da transferência, na impor- tância da narrativa como via de simbolização e nos cuidados técnicos na primeira sessão e nas sessões iniciais. O trabalho é ilustrado por qua- tro vinhetas clínicas que demonstram a aplica- ção prática dos conceitos discutidos, evidenci- ando a potência da escuta psicanalítica para a constituição psíquica e a abertura de possibili- dades de laço com o outro. A discussão teóri- co-clínica sustenta que a psicanálise oferece contribuições fundamentais para além do pa- radigma do déficit, apostando na singularidade e na invenção de cada sujeito autista. Palavras-chave: Psicanálise; Autismo; Estru- tura Clínica; Técnica Psicanalítica; Casos Clíni- cos. Abstract This article addresses the interface between psychoanalysis and autism in contemporary times. Starting from a review of classical con- ceptions, the text explores the contributions of post-Lacanian authors and the English school to the understanding of autism as a singular subjective position, distinct from neurosis and

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Clínica do Autismo | Lázaro Santos Tavares 137 psychosis – a veritable "fourth structure" or pre-structural position. The specificities of the psychoanalytic clinic with autistic children are analyzed, with an emphasis on the function of the analyst's body, the handling of transferen- ce, the importance of narrative as a pathway to symbolization, and the technical care required in the first session and initial sessions. The work is illustrated by four clinical vignettes that demonstrate the practical application of the discussed concepts, highlighting the power of psychoanalytic listening for psychic constituti- on and the opening of possibilities for bonding with the other. The theoretical-clinical discus- sion argues that psychoanalysis offers funda- mental contributions beyond the deficit para- digm, betting on the singularity and invention of each autistic subject. Keywords: Psychoanalysis; Autism; Clinical Structure; Psychoanalytic Technique; Clinical Cases. Resumen El presente artículo aborda la interfaz entre el psicoanálisis y el autismo en la contemporanei- dad. Partiendo de una revisión de las concep- ciones clásicas, el texto explora las contribuci- ones de autores poslacanianos y de la escuela inglesa para la comprensión del autismo como una posición subjetiva singular, distinta de la neurosis y de la psicosis – una verdadera "cuar- ta estructura" o posición pre-estructural. Se analizan las especificidades de la clínica psicoa- nalítica con niños autistas, con énfasis en la función del cuerpo del analista, el manejo de la transferencia, la importancia de la narrativa como vía de simbolización y los cuidados téc- nicos en la primera sesión y en las sesiones ini- ciales. El trabajo se ilustra con cuatro viñetas clínicas que demuestran la aplicación práctica de los conceptos discutidos, evidenciando la potencia de la escucha psicoanalítica para la constitución psíquica y la apertura de posibili- dades de vínculo con el otro. La discusión teó- rico-clínica sostiene que el psicoanálisis ofrece contribuciones fundamentales más allá del pa- radigma del déficit, apostando por la singulari- dad y la invención de cada sujeto autista. Palabras clave: Psicoanálisis; Autismo; Estruc- tura Clínica; Técnica Psicoanalítica; Casos Clí- nicos. 1. INTRODUÇÃO Nas últimas décadas, o Transtorno do Espec- tro Autista (TEA) tem se constituído como uma das condições mais discutidas no campo da saúde mental e da educação. Dados epide- miológicos recentes apontam para um aumen- to significativo na prevalência de diagnósticos, o que convoca diferentes áreas do saber a se posicionarem frente a essa realidade (BARRO- SO, 2019). O autismo deixou de ser uma con- dição rara para se tornar uma questão central de saúde pública, desafiando profissionais, pesquisadores e formuladores de políticas a de-

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Clínica do Autismo | Lázaro Santos Tavares 138 senvolverem abordagens cada vez mais efica- zes e respeitosas com a singularidade de cada sujeito. Nesse contexto, a psicanálise tem ocupado um lugar peculiar e, por vezes, controverso. De um lado, críticos apontam para teorias ultra- passadas que culpabilizavam a família, especi- almente a figura materna, pelo surgimento do autismo – como a infeliz noção de "mãe gela- deira", há muito abandonada pela comunidade psicanalítica séria. De outro lado, a clínica con- temporânea tem demonstrado que a escuta psicanalítica, quando devidamente atualizada e fundamentada em autores que se dedicaram ao tema, oferece contribuições inestimáveis para a compreensão e o tratamento de crianças autis- tas (LEIRAS; BATISTELLI, 2014). Este artigo parte de algumas questões funda- mentais: Qual a visão da psicanálise sobre o autismo? Como classificá-lo do ponto de vista da estrutura clínica? Ele se enquadra nas três estruturas clássicas – neurose, psicose, perver- são – ou constitui uma quarta estrutura? Como se dá a escuta e a primeira sessão com uma cri- ança autista? E, por fim, como a técnica psica- nalítica se atualiza nesse campo? Para respon- der a essas perguntas, percorreremos um ca- minho que vai das formulações teóricas à apre- sentação de casos clínicos detalhados. O objetivo deste artigo é precisamente este: apresentar as principais contribuições da psi- canálise contemporânea para a clínica do au- tismo, dialogando com autores que, nas últi- mas décadas, têm repensado conceitos funda- mentais à luz da especificidade dessa estrutura clínica. Trata-se de um percurso que parte da teoria e se enraíza na prática, pois acreditamos que é no encontro clínico, no corpo a corpo com a criança autista, que os conceitos ganham vida e se mostram fecundos ou não. Para tanto, organizamos o artigo em cinco se- ções, além desta introdução e das considera- ções finais. Na fundamentação teórica, percor- reremos as contribuições de autores como Je- an-Claude Maleval, Marie-Christine Laznik, Frances Tustin e Donald Winnicott, entre ou- tros, buscando articular diferentes perspectivas que, longe de se excluírem, podem se comple- mentar na compreensão da complexidade do autismo. Em seguida, apresentaremos quatro vinhetas clínicas que ilustram, cada uma a seu modo, aspectos fundamentais da técnica psica- nalítica com crianças autistas: o manejo do corpo do analista, a construção de narrativas como via de simbolização, o delicado trabalho com as defesas autísticas e a evolução do tra- tamento sessão a sessão a partir do objeto au- tístico. Por fim, nas considerações finais, reto- maremos os principais eixos da discussão, des- tacando a especificidade e a potência da abor- dagem psicanalítica. Uma palavra inicial sobre a metodologia: este trabalho constitui-se como uma pesquisa teóri- co-clínica de natureza qualitativa. A construção do artigo baseia-se em revisão narrativa da lite-

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Clínica do Autismo | Lázaro Santos Tavares 139 ratura psicanalítica contemporânea, privilegi- ando autores que têm produzido reflexões consistentes sobre o autismo, e na análise de material clínico publicado em periódicos cientí- ficos indexados, garantindo o rigor ético e aca- dêmico necessário a este tipo de produção. 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: AU- TORES CONTEMPORÂNEOS A psicanálise, desde suas primeiras incursões no campo do autismo, passou por profundas transformações teóricas e clínicas. Se as con- cepções iniciais – marcadas pelas descrições de Kanner, pelas formulações kleinianas e pelas observações de Mahler e Tustin – abriram ca- minho para que o autismo fosse visto como um fenômeno de interesse psicanalítico, foi a partir das últimas décadas do século XX que uma verdadeira virada epistemológica se con- solidou. Autores de diferentes tradições, especialmente aqueles filiados à orientação lacaniana e à esco- la inglesa de psicanálise, passaram a questionar a aproximação automática entre autismo e psi- cose, propondo que o autismo constitui uma posição subjetiva singular, com mecanismos de defesa, modalidades de gozo e relações com o Outro que lhe são próprias. Essa mudança de perspectiva não apenas refinou a compreensão teórica, mas também – e sobretudo – trans- formou a clínica, exigindo dos analistas uma escuta e uma técnica radicalmente adaptadas à especificidade de cada sujeito autista. Nas seções que seguem, percorreremos as principais contribuições da psicanálise con- temporânea sobre o autismo. Iniciaremos com a chamada "virada lacaniana" e a proposição do autismo como uma estrutura clínica distin- ta, dialogando com autores como Rosine e Robert Lefort, Jean-Claude Maleval e Éric Laurent. Em seguida, abordaremos as contri- buições de Marie-Christine Laznik sobre a constituição psíquica e os três tempos da pul- são, fundamentais para a compreensão dos impasses precoces no autismo. Por fim, reto- maremos autores da escola inglesa – Frances Tustin, Donald Winnicott, Didier Anzieu e Wilfred Bion – cujos conceitos de objeto autís- tico, holding, eu-pele e função continente permanecem vivos e fecundos na clínica atual. Trata-se, como se verá, de um campo teórico plural, no qual diferentes perspectivas não se excluem, mas se complementam na tentativa de dar conta da complexidade do autismo e de oferecer ao clínico instrumentos para uma es- cuta rigorosa e ao mesmo tempo sensível à singularidade de cada criança. 2.1 Concepções Clássicas: os Precursores e a Evolução do Conceito de Autismo na Psicaná- lise Antes de adentrarmos nas contribuições con- temporâneas que redefiniram o lugar do autis- mo na clínica psicanalítica, é fundamental re- cuperar as primeiras formulações teóricas que marcaram o pensamento sobre o tema. Essas

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Clínica do Autismo | Lázaro Santos Tavares 140 concepções, embora em grande parte revisadas ou superadas, forneceram as bases sobre as quais os autores atuais puderam construir suas críticas e avanços. 2.1.1 Leo Kanner e a Descrição Inaugural Em 1943, o psiquiatra austríaco Leo Kanner publicou o artigo "Autistic Disturbances of Af- fective Contact", no qual descreveu onze cri- anças com um quadro até então não classifica- do. Kanner cunhou o termo "autismo infantil precoce" para designar uma síndrome caracte- rizada por extrema solidão, obsessividade, este- reotipias e dificuldade de comunicação. Embo- ra Kanner não fosse psicanalista, sua descrição influenciou profundamente a psicanálise, que passou a se debruçar sobre a etiologia e a di- nâmica psíquica dessas crianças. Inicialmente, Kanner acreditava que o autismo era inato, mas suas observações sobre o com- portamento dos pais – que ele descreveu como intelectuais, frios e pouco afetivos – acabaram gerando a infeliz noção de "mãe geladeira". Es- sa ideia, posteriormente desmentida e abando- nada, marcou uma primeira tentativa de com- preensão psicogênica do autismo, mas também trouxe sofrimento e culpa para muitas famílias. 2.1.2 Melanie Klein e a Psicose Infantil Melanie Klein, pioneira da psicanálise de crian- ças, não tratou especificamente do autismo, mas suas teorias sobre o mundo interno arcai- co influenciaram a forma como analistas passa- ram a escutar crianças com graves perturba- ções. Klein descreveu a posição esquizopara- noide e a posição depressiva como momentos fundamentais da constituição psíquica, nos quais a criança lida com a presença/ausência do objeto e com a agressividade inata. Embora Klein não tenha diferenciado claramente o au- tismo da psicose infantil, seus conceitos de identificação projetiva, cisão e objetos internos foram utilizados por muitos autores para pen- sar a dinâmica autística. Autores pós-kleinianos, como Herbert Rosen- feld e Wilfred Bion, avançaram na compreen- são de estados mentais primitivos, mas foi com Frances Tustin que o autismo ganhou um lugar mais específico na tradição inglesa. 2.1.3 Margaret Mahler e a Psicose Simbió- tica Margaret Mahler, psicanalista húngara radicada nos Estados Unidos, desenvolveu uma teoria do desenvolvimento infantil baseada na obser- vação direta de bebês. Para Mahler, o autismo infantil seria uma falha na fase de separação- individuação, mais especificamente na subfase simbiótica. Ela descreveu o autismo como uma "psicose simbiótica", na qual a criança não conseguiria diferenciar-se da mãe, permane- cendo encapsulada em uma fusão primitiva. Embora a teoria de Mahler tenha sido criticada por sua ênfase na simbiose e por generalizar aspectos observacionais, ela influenciou gera- ções de clínicos e trouxe à tona a importância

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Clínica do Autismo | Lázaro Santos Tavares 141 das primeiras relações para a constituição do eu. Hoje, a noção de "simbiose" é vista com reservas, mas a obra de Mahler abriu caminho para que se pensasse o autismo como um dis- túrbio relacional precoce. 2.1.4 Frances Tustin: O Mergulho na Expe- riência Autística Frances Tustin é, sem dúvida, uma das autoras mais importantes para a compreensão psicana- lítica do autismo. Seu trabalho clínico com cri- anças autistas, iniciado na década de 1950 e es- tendido por várias décadas, resultou em descri- ções detalhadas e inovadoras sobre o mundo sensorial e emocional dessas crianças. Tustin observou que as crianças autistas utili- zam objetos e sensações corporais de forma peculiar, como defesa contra a percepção da separação e da alteridade. Ela cunhou os ter- mos "objetos autísticos" e "formas autísticas". Os primeiros são objetos duros, concretos, manipulados de maneira repetitiva, que funci- onam como uma extensão do corpo da crian- ça, negando a falta e a separação. As formas autísticas, por sua vez, são sensações corporais – como a sensação de estar encapsulado em uma casca dura ou de se dissolver em substân- cias moles – que também servem para evitar o contato com um mundo externo percebido como ameaçador. Para Tustin, o autismo resultaria de um trauma precoce na relação com o seio materno, vivido como uma perda catastrófica. A criança, diante da percepção da separação, construiria defesas para anular essa consciência, criando um "en- capsulamento" que a protegeria do vazio. Essa visão, embora ainda centrada na relação mãe- bebê, deslocou o foco da culpa materna para a compreensão das defesas autísticas como ten- tativas de sobrevivência psíquica. 2.1.5 Donald Winnicott e o Ambiente Sus- tentador Donald Winnicott, pediatra e psicanalista in- glês, não escreveu extensamente sobre autis- mo, mas seus conceitos de "holding" (susten- tação), "handling" (manejo) e "apresentação de objeto" são fundamentais para pensar a clínica com crianças autistas. Winnicott enfatizava a importância de um ambiente suficientemente bom para que o bebê possa desenvolver um self verdadeiro. No autismo, haveria uma falha ambiental precoce, na qual o ambiente não conseguiu se adaptar às necessidades do bebê, apresentando o mundo de forma gradativa e tolerável. A frase de Winnicott – "É uma alegria estar es- condido, mas um desastre não ser achado" – sintetiza o dilema da clínica do autismo: a cri- ança se esconde em seu encapsulamento, mas precisa ser encontrada sem ser invadida. O tra- balho do analista seria o de oferecer uma pre- sença sustentadora que permita à criança, gra- dualmente, arriscar-se a sair de seu esconderijo. 2.1.6 A Crítica e a Superação das Concep- ções Clássicas

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Clínica do Autismo | Lázaro Santos Tavares 142 As concepções clássicas, embora tenham trazi- do contribuições valiosas, carregavam limita- ções: a ênfase excessiva na relação mãe-bebê, a aproximação do autismo com a psicose e a fal- ta de uma diferenciação estrutural clara. A par- tir dos anos 1980, especialmente com os avan- ços da orientação lacaniana, o autismo passou a ser repensado como uma estrutura clínica distinta, com mecanismos próprios e uma rela- ção singular com o Outro e a linguagem. Auto- res como Rosine e Robert Lefort, Jean-Claude Maleval e Éric Laurent inauguraram uma nova perspectiva, na qual o autismo deixa de ser vis- to como uma falha relacional para ser compre- endido como uma posição subjetiva complexa, com defesas específicas e uma lógica própria. A seção seguinte aprofundará essa virada laca- niana e suas implicações clínicas, mostrando como a psicanálise contemporânea dialoga com as contribuições anteriores ao mesmo tempo que as transcende. 2.2 A Virada Lacaniana e a Noção de Es- trutura Autística A psicanálise de orientação lacaniana passou por importantes transformações em sua com- preensão do autismo ao longo das últimas dé- cadas. Se inicialmente o autismo era aproxima- do da psicose, com a noção de foraclusão do Nome-do-Pai sendo aplicada de maneira rela- tivamente direta, os desenvolvimentos mais re- centes apontam para uma direção diversa: a proposição de que o autismo constitui uma es- trutura clínica distinta, com modalidades de de- fesa e relação com o Outro que lhe são pró- prias. Para contextualizar essa virada, é necessário re- cuar às primeiras formulações psicanalíticas sobre o autismo. Margaret Mahler (1975), por exemplo, descreveu o autismo como uma falha na fase de separação-individuação, uma "psico- se simbiótica" – visão que, embora tenha sido amplamente revista, influenciou gerações de clínicos. Frances Tustin (1991), autora funda- mental, avançou ao descrever o autismo como um não-envolvimento com o seio materno no início da vida, resultando na falha da constru- ção de uma "casca psíquica" para distinguir o interno do externo. Para Tustin, o autista vive- ria em um mundo "encapsulado", com defesas para evitar o vazio. Rosine e Robert Lefort foram pioneiros na aplicação da orientação lacaniana ao autismo. Em seu trabalho clínico com crianças autistas, especialmente no caso conhecido como "Ná- dia", os Lefort (1984) demonstraram que a di- nâmica autística não se confunde com a psicó- tica. Enquanto esta última é marcada pela fora- clusão – a exclusão do significante Nome-do- Pai do campo simbólico, o que retorna no real sob a forma de fenômenos alucinatórios ou de- lirantes –, o autismo se caracterizaria por uma outra modalidade de defesa frente ao Outro. Jean-Claude Maleval (2011) é, sem dúvida, um dos autores que mais consistentemente tem

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Clínica do Autismo | Lázaro Santos Tavares 143 desenvolvido essa perspectiva. Para ele, o au- tista não foraclui o Outro, mas sim se defende dele de maneira radical. O que está em jogo é uma tentativa de se proteger de um Outro vi- vido como invasivo, caótico, imprevisível. Ma- leval propõe que o autista constrói o que cha- ma de "duplo" – uma espécie de borda prote- tora que inclui objetos autísticos, interesses restritos e repetitivos, e até mesmo determina- das pessoas que são admitidas em seu círculo desde que não questionem suas defesas. A questão da classificação estrutural é, de fato, o ponto mais debatido na literatura contempo- rânea: o autismo é uma psicose ou uma estru- tura distinta? A maioria dos autores lacanianos mais recentes, seguindo as indicações de Lacan sobre a necessidade de distinguir o autismo da psicose infantil, argumenta que o autismo não se encaixa nas três estruturas clássicas (Neuro- se, Psicose e Perversão), mas sim como uma "quarta estrutura" ou, mais precisamente, uma posição subjetiva anterior às outras três. O ar- gumento central é que, nas três estruturas, o sujeito está, de alguma forma, inscrito na or- dem simbólica – ainda que de maneira foraclu- ída (Psicose) ou recalcada (Neurose). No au- tismo, haveria um fracasso na própria inscrição inicial da criança na linguagem e no laço social. O autista não teria o "Grande Outro" (o tesou- ro do significante) plenamente constituído; ele viveria em um mundo de "pequenos outros" (objetos concretos, rotinas, fragmentos senso- riais) e não de "significantes" propriamente di- tos. Éric Laurent (2014) é um dos principais defen- sores dessa tese. Para ele, o autista constrói barreiras em vez de foracludir o Nome-do-Pai. Essas barreiras incluem o que Laurent chama de "ilha de excelência" (interesses restritos e al- tamente especializados) e o objeto autístico, que funcionam como proteção contra um Ou- tro que seria invasivo e insuportável. Alfredo Jerusalinsky (2000), outro importante autor dessa corrente, complementa essa visão ao afirmar que o autismo é um "fracasso na cons- tituição do laço social", que não pode ser redu- zido nem à neurose nem à psicose, exigindo uma abordagem clínica específica. Portanto, a classificação mais aceita hoje na vertente psicanalítica é que o autismo é uma estrutura sui generis, anterior ou à margem das três clássicas – uma verdadeira "quarta estrutu- ra" que demanda do analista uma escuta e uma técnica radicalmente adaptadas. 2.3 A Constituição Psíquica e os Primeiros Tempos da Pulsão Se os autores lacanianos nos oferecem uma compreensão estrutural do autismo, Marie- Christine Laznik (2004) nos convida a pensar o processo de constituição psíquica e os momen- tos iniciais em que algo pode falhar, abrindo caminho para o autismo. Sua contribuição é particularmente valiosa por articular uma leitu-

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Clínica do Autismo | Lázaro Santos Tavares 144 ra rigorosa de Freud e Lacan com a observação direta de bebês e a clínica precoce. Laznik parte do conceito freudiano de pulsão e de sua releitura por Lacan para propor que o circuito pulsional se completa em três tempos. No primeiro tempo, o bebê busca o objeto – o seio, o olhar da mãe, a voz que o acalenta. É o momento da pura satisfação autoerótica, em que o bebê encontra prazer no contato com o corpo da mãe ou em suas próprias sensações. No segundo tempo, o bebê vira-se para o Ou- tro e oferece essa satisfação. É o momento em que, tendo experimentado o prazer, a criança busca compartilhá-lo, dirigindo-se à mãe com um sorriso, um olhar, um balbucio. No tercei- ro tempo, o mais crucial para Laznik, o bebê se oferece como objeto de satisfação para o Ou- tro. Não se trata mais apenas de buscar ou compartilhar prazer, mas de se colocar na po- sição de quem dá prazer ao outro, de ser, ele próprio, a causa do desejo materno. O que Laznik observa nos bebês que posteri- ormente desenvolvem autismo é uma falha precisamente nesse terceiro tempo. A criança não se oferece como objeto de prazer para a mãe. Isso se manifesta clinicamente de várias formas: ausência de antecipação no colo (a cri- ança não se prepara para ser pega, não ajusta seu corpo ao corpo que a acolhe), falta de reci- procidade no olhar, indiferença à "voz ma- nhês" – aquela entonação especial, aguda e musical, que as mães naturalmente utilizam com seus bebês. "A mãe fala, fala, fala... e a criança não respon- de. Não é que ela não ouça, é que algo do cir- cuito não se completa. O prazer da mãe não encontra eco, não retorna a ela sob a forma de um olhar, um sorriso, um movimento do cor- po que diga: 'continue, estou gostando'" (LAZNIK, 2004, p. 89). Essa perspectiva tem importantes implicações técnicas. Se há uma falha no terceiro tempo pulsional, o trabalho do analista – especialmen- te em intervenções precoces – pode ser o de, por assim dizer, "ocupar" esse lugar, oferecen- do-se como parceiro na completude do circui- to. Laznik descreve situações em que o analis- ta, com seu corpo, sua voz, sua presença, tenta capturar a atenção da criança e, sobretudo, fa- zer com que ela experimente o prazer de ser causa do prazer do outro. Não se trata de uma técnica interpretativa clássica, mas de uma in- tervenção no campo pulsional, no nível mais arcaico da constituição subjetiva. 2.4 Contribuições da Escola Inglesa: O Corpo, o Ambiente e a Simbolização Paralelamente aos desenvolvimentos lacania- nos, a chamada Escola Inglesa de Psicanálise, com autores como Melanie Klein, Donald Winnicott, Esther Bick e Frances Tustin, pro- duziu reflexões fundamentais para a compre- ensão do autismo. Se os lacanianos nos ofere- cem uma leitura estrutural e pulsional, os ingle- ses nos convidam a pensar as experiências cor-

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Clínica do Autismo | Lázaro Santos Tavares 145 porais primitivas, a relação com o ambiente e os processos de simbolização. Frances Tustin (1975) é, talvez, a autora que mais profundamente mergulhou na experiência subjetiva do autista. Seu trabalho clínico com crianças a levou a descrever o que chamou de "sensações autísticas" – experiências corporais primitivas que a criança utiliza para se proteger da percepção da separação e da alteridade. Tustin distingue entre objetos autísticos e for- mas autísticas. Os primeiros são objetos duros, concretos, que a criança manipula de maneira repetitiva e que funcionam como uma exten- são de seu corpo, negando a falta. As formas autísticas, por sua vez, são sensações corporais – como a sensação de estar encapsulado em uma casca dura ou de se dissolver em substân- cias moles e escorregadias – que também ser- vem à função de negação da separação. "Para a criança autista, a descoberta de que há um outro, separado, é vivida como uma catás- trofe. As sensações autísticas são defesas con- tra essa catástrofe, tentativas de manter a ilusão de que não há separação, de que o corpo e o mundo são uma coisa só" (TUSTIN, 1975, p. 112). A clínica com crianças autistas, para Tustin, exige que o analista esteja atento a essas expe- riências sensoriais. Não se trata de interpretar os objetos autísticos como símbolos (eles não o são, inicialmente), mas sim de reconhecer sua função defensiva e, a partir desse reconheci- mento, gradualmente introduzir diferenciações. É um trabalho delicado, que envolve o corpo do analista como superfície de contato e de contorno. Donald Winnicott (1990) oferece outra pers- pectiva fundamental, centrada na noção de ambiente suficientemente bom. Para Win- nicott, o bebê humano não existe isoladamente – o que existe é um "conjunto bebê-ambiente". O desenvolvimento emocional primitivo de- pende crucialmente da capacidade da mãe (ou de quem exerce a função materna) de se adap- tar às necessidades do bebê, oferecendo holding (sustentação), handling (manejo) e apresentação de objeto. No autismo, Winnicott sugere que pode ter havido uma falha ambiental precoce. O ambi- ente não conseguiu se adaptar suficientemente às necessidades do bebê, apresentando o mun- do de forma gradativa e tolerável. Diante dessa falha, a criança se retira, construindo defesas que Winnicott descreve como um "falso self" autístico – uma organização defensiva que pro- tege o verdadeiro self, mas ao preço de um en- capsulamento. Uma frase de Winnicott é particularmente ilu- minadora para a clínica do autismo: "É uma alegria estar escondido, mas um desastre não ser achado". O retraimento autista pode ser compreendido como uma tentativa de se es- conder de um mundo intrusivo. Mas, se nin- guém o procura, se ninguém reconhece que há

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Clínica do Autismo | Lázaro Santos Tavares 146 ali alguém escondido, isso é um desastre. O trabalho do analista é, então, o de procurar sem invadir, de oferecer-se como presença que sustenta sem sufocar. Essa perspectiva encontra eco nos conceitos de Didier Anzieu (1989) e Wilfred Bion (1962). Anzieu desenvolveu a noção de Eu-pele – uma representação psíquica da superfície corporal que serve como continente para as experiên- cias sensoriais e afetivas. Bion, por sua vez, descreveu a função continente da mãe (réve- rie), que acolhe as angústias e sensações caóti- cas do bebê (elementos beta), transformando- as em elementos passíveis de serem pensados (elementos alfa). Para ambos, o corpo do ana- lista, sua escuta e sua presença, podem funcio- nar como um eu-pele auxiliar, como um conti- nente que oferece contorno e significado às vi- vências desorganizadas da criança autista. 3. METODOLOGIA Este trabalho constitui-se como uma pesquisa teórico-clínica de natureza qualitativa. A opção por essa metodologia justifica-se pela natureza do objeto de estudo: a clínica psicanalítica do autismo envolve dimensões subjetivas, relacio- nais e processuais que não podem ser adequa- damente apreendidas por metodologias quanti- tativas ou experimentalistas. A construção do artigo baseia-se em duas fon- tes principais. A primeira é uma revisão narra- tiva da literatura psicanalítica contemporânea sobre o autismo, privilegiando autores que, nas últimas décadas, têm produzido reflexões con- sistentes e baseadas na prática clínica. Foram consultados livros, capítulos de livros e artigos publicados em periódicos científicos indexa- dos, especialmente aqueles disponíveis em ba- ses como PEPSIC (BVSALUD) e SciELO. A segunda fonte é a análise de material clínico de terceiros, publicado em periódicos científi- cos e livros da área. A utilização de casos clíni- cos já publicados garante o rigor ético necessá- rio, uma vez que tais materiais foram previa- mente submetidos à avaliação de comitês edi- toriais e preservam o anonimato dos pacientes. Além disso, permite que o leitor possa consul- tar as fontes originais para aprofundamento. Os casos clínicos apresentados na seção se- guinte foram adaptados a partir de publicações de Leiras e Batistelli (2014), Pokorski (2019), Tustin (1975) e de material clínico descrito na literatura especializada, com o objetivo de ilus- trar diferentes aspectos da técnica psicanalítica. As adaptações visam tornar o material mais di- dático e articulado com a fundamentação teó- rica, sem, contudo, desfigurar a especificidade de cada situação clínica. 4. DISCUSSÃO CLÍNICA: QUATRO CA- SOS ILUSTRATIVOS Nesta seção, apresentamos quatro vinhetas clí- nicas que ilustram, cada uma a seu modo, dife- rentes facetas da clínica psicanalítica contem- porânea com crianças autistas. Não se trata de casos completos, mas de recortes que permi-

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Clínica do Autismo | Lázaro Santos Tavares 147 tem visualizar a aplicação dos conceitos teóri- cos discutidos anteriormente e, sobretudo, a especificidade da técnica psicanalítica nesse campo. 4.1 Caso 1 - O Corpo do Analista como Fa- cilitador: Laurinha Laurinha chegou ao consultório com três anos de idade, encaminhada por uma equipe de neu- ropediatria com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista. As primeiras sessões foram marcadas por uma impressão de estranhamen- to: a menina circulava pela sala sem objetivo aparente, tocando levemente os objetos, mas sem se deter em nenhum. Não havia linguagem verbal, apenas alguns sons repetitivos, e o con- tato ocular era praticamente inexistente. Quando a analista tentava se aproximar, Lauri- nha se afastava sem olhar para trás, como se a presença do outro não fizesse qualquer dife- rença. A maior dificuldade, no entanto, surgia nos momentos de transição. Quando a mãe anun- ciava que era hora de ir embora, ou quando a analista sinalizava o fim da sessão, Laurinha re- agia com um desmoronamento: jogava-se no chão, gritava, esperneava, como se o fim da atividade representasse uma verdadeira catás- trofe. Esses episódios sugeriam que, apesar da aparente indiferença, havia sim um investimen- to no espaço e na rotina – um investimento que, quando abruptamente interrompido, de- sorganizava completamente a menina. A analista, inspirada pelas contribuições de Winnicott (1990) e Anzieu (1989), compreen- deu que seu primeiro trabalho seria o de ofere- cer um holding, uma sustentação que pudesse gradualmente contornar as experiências caóti- cas de Laurinha. Não se tratava de invadir seu espaço, mas de estar disponível, presente, no- meando suas ações e oferecendo palavras para o que parecia pura sensação. Certa vez, Laurinha dirigiu-se ao pequeno ba- nheiro do consultório e abriu a torneira. Co- meçou a brincar com a água, deixando-a escor- rer entre os dedos, batendo levemente na su- perfície. A analista aproximou-se, mas manteve uma distância respeitosa. Em vez de interrom- per ou dirigir a brincadeira, ela começou a no- mear: "Água... a água está escorrendo... Lauri- nha está sentindo a água... está fria, está mo- lhada...". Gradualmente, a analista introduziu pequenas variações. Pegou uma toalha e mostrou como a água molhava o pano. Fez marcas com os pés molhados no chão seco. Laurinha observava, sem se engajar diretamente, mas também sem recuar. Em determinado momento, a menina olhou rapidamente para a analista – um olhar breve, quase imperceptível, mas que foi regis- trado como um acontecimento. Nas sessões seguintes, algo começou a mudar. Laurinha passou a buscar o contato físico em momentos específicos. Não era um colo pro- priamente dito, mas um encostar-se, um apoiar

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Clínica do Autismo | Lázaro Santos Tavares 148 as costas na perna da analista enquanto brinca- va no chão. Até que, um dia, algo notável aconteceu: Laurinha aproximou-se, subiu no colo da analista e encostou o ouvido em seu peito, como se buscasse os batimentos cardía- cos. Ficou ali por alguns minutos, imóvel, es- cutando. Este caso ilustra de maneira exemplar o que Almeida, Pinto e Dias (2022) descrevem como a função do corpo do analista na clínica com crianças autistas. A analista não interpretou no sentido clássico – não disse nada sobre o que a água poderia simbolizar, não fez conexões com a história familiar. Em vez disso, ofereceu seu corpo como superfície de contorno, como rit- mo, como presença. Ela fez as vezes de um eu- pele auxiliar, permitindo que Laurinha, gradu- almente, pudesse experimentar a sensação de ser continente, de ter um dentro e um fora de- limitados. O episódio dos batimentos cardíacos é particu- larmente significativo. Ao buscar o peito da analista, Laurinha não estava apenas buscando conforto físico. Estava, podemos supor, bus- cando um ritmo, uma regularidade que pudesse organizar seu próprio corpo. O coração que bate é, ao mesmo tempo, o outro e uma exten- são de si. É a possibilidade de uma sincronia, de um encontro no tempo e no espaço. Tecnicamente, o que está em jogo aqui é o que Laznik (2004) descreve como a tentativa de completar o circuito pulsional. A analista, com sua voz, seu olhar, sua presença corporal, ofe- rece-se como parceira. Ela não exige que Lau- rinha corresponda, mas está lá, disponível, para quando a menina puder dar o próximo passo. O terceiro tempo – aquele em que a criança se oferece como causa do prazer do outro – ainda não se completou, mas já há indícios de que al- go está se movendo nessa direção. 4.2 Caso 2 - A Narrativa como Caminho para a Simbolização: Pedro Pedro chegou à análise com onze anos, diag- nosticado com Síndrome de Asperger (atual- mente classificado como TEA nível 1 de su- porte). Diferentemente de Laurinha, Pedro ti- nha linguagem verbal desenvolvida e era ex- tremamente inteligente, com interesses apro- fundados em temas como dinossauros e geo- grafia. A queixa que motivou a busca por análi- se, no entanto, era recorrente em famílias de crianças com esse perfil: dificuldades de socia- lização, interpretação literal da linguagem, so- frimento diante de situações sociais imprevistas e, sobretudo, solidão. A analista descreve que Pedro passava as ses- sões falando extensamente sobre dinossauros, com riqueza de detalhes impressionante. Sabia nomes científicos, períodos geológicos, hábitos alimentares e teorias sobre a extinção. Quando a analista tentava introduzir outros temas, Pe- dro rapidamente retornava aos seus interesses, como se aquilo fosse um porto seguro em meio a um mundo social incompreensível.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Clínica do Autismo | Lázaro Santos Tavares 149 A primeira intervenção da analista, alinhada com as contribuições de Maleval (2011), foi a de respeitar esse interesse como uma defesa le- gítima e, mais do que isso, como uma possível via de acesso. Em vez de tentar desviar Pedro dos dinossauros, ela mergulhou com ele nesse universo. Perguntou, aprendeu, demonstrou interesse genuíno. Gradualmente, Pedro pas- sou a confiar na analista como alguém que não o julgava e que, de certa forma, compartilhava de seu mundo. Foi a partir dessa base de confiança que a ana- lista pôde começar um trabalho mais propria- mente simbólico, utilizando a narrativa como ferramenta privilegiada. Pokorski (2019), em seu estudo sobre a narrativa na clínica com au- tistas, destaca que a construção de histórias pode funcionar como um "terceiro tempo" que organiza a experiência e insere a criança no discurso. Com Pedro, a analista propôs que eles escre- vessem juntos uma história sobre um dinos- sauro. Não uma história científica, mas uma aventura. Pedro relutou no início – dinossau- ros não fazem aventuras, dinossauros sim- plesmente existem. Mas a analista insistiu deli- cadamente: "Vamos imaginar... e se este dinos- sauro tivesse um amigo? O que eles fariam jun- tos?". A história foi sendo construída sessão após sessão. O dinossauro, batizado de "Tiranossau- ro Rex" por Pedro, enfrentava desafios: preci- sava encontrar comida, proteger seu território, lidar com outros dinossauros. A analista, a ca- da página, introduzia perguntas que convoca- vam Pedro a pensar sobre sentimentos e rela- ções: "Como será que ele se sentiu quando viu o outro dinossauro se aproximando? Ficou com medo? Com raiva? Curioso?". Gradualmente, algo começou a mudar. Pedro passou a trazer para as sessões situações vivi- das na escola, mas sempre através da mediação dos dinossauros. "Hoje o Tiranossauro Rex viu uns dinossauros menores brincando e não sa- bia se podia chegar perto". A analista acolhia essas narrativas e ajudava Pedro a explorar as diferentes possibilidades, os sentimentos en- volvidos, as consequências de cada escolha. Este caso ilustra a passagem do que podería- mos chamar de simbolização primária para a simbolização secundária. Inicialmente, os di- nossauros eram para Pedro objetos autísticos no sentido que Tustin (1975) descreve – inte- resses restritos que funcionavam como uma defesa contra o contato com o outro. Ao mer- gulhar nesse universo e, a partir dele, construir narrativas, a analista permitiu que esses interes- ses se transformassem em pontes, em metáfo- ras que podiam falar da experiência subjetiva de Pedro. A técnica aqui é fundamentalmente diferente da utilizada com Laurinha. Enquanto no pri- meiro caso o corpo do analista era o principal instrumento, com Pedro o trabalho se deu no

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Clínica do Autismo | Lázaro Santos Tavares 150 campo da linguagem e da construção de senti- do compartilhado. Mas há um elemento co- mum: em ambos, o analista parte do que a cri- ança traz, respeita suas defesas e, a partir delas, constrói possibilidades de expansão. Pokorski (2019) destaca que a narrativa, na clí- nica com autistas, tem a função de nomear afe- tos, contextualizar situações sociais e, sobretu- do, construir um lugar de enunciação para o sujeito. Ao contar a história do Tiranossauro Rex, Pedro não estava apenas falando de di- nossauros – estava, sem saber, falando de si mesmo, de suas dificuldades, de seus medos e desejos. E, ao fazer isso na presença de uma analista que escutava, ele começava a construir a possibilidade de ser escutado também em ou- tros contextos. 4.3 Caso 3 - A Dança da Transferência e o Respeito à Defesa Autística: João João tinha quatro anos quando começou a aná- lise. Seu comportamento nas primeiras sessões era desconcertante: passava longos períodos enroscado em uma manta que trazia de casa, emitindo sons repetitivos e balançando o cor- po levemente. Qualquer tentativa de aproxi- mação mais direta da analista era recebida com gritos agudos e recuo para um canto da sala. A mãe informou que a manta era "sagrada" – Jo- ão não dormia sem ela, não saía de casa sem ela, e se a perdessem ou esquecessem, o dia es- tava perdido. Diante desse quadro, a analista compreendeu que a primeira tarefa era construir uma relação que não fosse vivida como invasiva. Inspirada por Tustin (1975) e Maleval (2011), ela decidiu que não interpretaria a manta como um símbo- lo de algo (como um objeto transicional, por exemplo), mas a respeitaria como uma exten- são do corpo de João, uma "casca" protetora que tornava o mundo tolerável. A estratégia adotada foi a de uma presença dis- creta, mas constante. A analista sentava-se a uma distância segura e, em vez de tentar cha- mar João para alguma atividade, simplesmente observava e, ocasionalmente, fazia comentários sobre o que via: "A manta é macia... João está balançando... tem um som que João faz...". Fa- lava em tom baixo, quase para si mesma, sem dirigir-se diretamente a ele. Gradualmente, João passou a tolerar essa pre- sença. Os gritos quando a analista se aproxi- mava foram se tornando menos frequentes. Em determinado momento, a analista arriscou um pequeno movimento: começou a imitar su- avemente os sons que João emitia. Não exata- mente iguais, mas próximos – como se estives- se criando uma espécie de dueto, uma conversa sonora. João parou por um instante, como se notasse a diferença, mas não recuou. Tustin (1975) descreve situações semelhantes em seu trabalho clínico. A autora sugere que, no início do tratamento, o analista pode preci- sar "entrar" no mundo autístico da criança,

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Clínica do Autismo | Lázaro Santos Tavares 151 aceitando suas regras e sua lógica, para só en- tão, gradualmente, introduzir pequenas dife- renças. É uma dança delicada, em que o analis- ta se move no ritmo da criança, mas aos pou- cos vai propondo variações. Com João, essa dança se estendeu por várias sessões. A analista continuava imitando seus sons, e ele, por sua vez, começou a variá-los, como se estivesse brincando com as possibili- dades sonoras. Até que, um dia, algo novo aconteceu. João, ainda enroscado na manta, vi- rou-se brevemente e olhou nos olhos da analis- ta. Foi um olhar rápido, quase furtivo, mas inegavelmente um olhar. A partir desse momento, pequenas aberturas foram se sucedendo. João passou a permitir que a analista tocasse levemente na manta, desde que ele estivesse segurando. Depois, começou a aceitar que ela colocasse a mão so- bre a manta, sobre seu corpo. O contato físico, antes impensável, foi se tornando possível, desde que mediado pela "casca" protetora. Este caso ilustra de maneira paradigmática o manejo da transferência na clínica do autismo. Diferentemente da neurose, em que a transfe- rência se estabelece pela via do amor e da de- manda, no autismo a transferência precisa ser construída em outras bases. Maleval (2011) fala em "transferência autística" – uma modalidade de relação em que o analista é admitido no cír- culo da criança desde que respeite suas defesas e não se apresente como um Outro invasivo. A técnica aqui envolve o que poderíamos cha- mar de "contratransferência sensorial" – a ca- pacidade do analista de se sintonizar com as experiências corporais e sensoriais da criança, de sentir com ela o que é estar encapsulado, de perceber o momento exato em que uma apro- ximação é possível sem ser intrusiva. É um trabalho que exige paciência, disponibilidade e, sobretudo, respeito profundo pela singularida- de de cada sujeito. 4.4 Caso 4 - O Objeto Autístico como Por- tal: O Caso "G" e a Construção do Laço Sessão a Sessão Apresentamos agora um quarto caso clínico, que ilustra de maneira detalhada o manejo do objeto autístico e a evolução do tratamento nas primeiras sessões, a partir do momento em que um primeiro contato é estabelecido. Contexto: G, 5 anos, diagnóstico de autismo. Passava as primeiras sessões rolando um carri- nho com a roda virada para cima, sem olhar para o analista, concentrado apenas na repeti- ção do movimento e no brilho da roda. A mãe informou que o carrinho era inseparável de G – onde ele ia, o carrinho ia junto. Olhar do Analista (Análise Clínica): O ana- lista percebe que o movimento da roda (o ob- jeto autístico) é a única forma de estabilidade e limite que G conseguiu construir para si. A ro- da é um objeto concreto que ele controla (Re- al), ao contrário da imprevisibilidade da lingua- gem (Simbólico) e das emoções do Outro

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Clínica do Autismo | Lázaro Santos Tavares 152 (Imaginário). Seguindo as orientações de Male- val (2011) e Tustin (1991), o analista compre- ende que não deve interpretar o objeto como símbolo, mas sim respeitá-lo como uma "con- cha" protetora, uma extensão do corpo de G. Atuação do Analista: Em vez de tentar ver- balizar ou interromper o jogo, o analista senta- se ao lado de G e, após muitas sessões de ape- nas observação silenciosa, toca levemente ou- tra roda de outro carrinho, sem tentar interagir com G. Ele está ali "junto" do objeto, não "no lugar do Outro invasor". Resultado (Início da Análise): Depois de meses de repetição, G, pela primeira vez, vira a roda do seu carrinho para o analista, como se a "oferecesse" ou a "mostrasse". O analista, sem falar nada, estende a mão, e G toca o dedo do analista na roda. Este toque, mediado pelo ob- jeto, é o início de um laço e o começo da pos- sibilidade de que algo do simbólico possa se inscrever. A partir desse momento, o analista pôde acompanhar uma evolução sutil, mas significa- tiva, nas sessões seguintes. Descrevemos aqui as cinco sessões subsequentes, que ilustram o trabalho de "secretário do autista" (conceito de Laurent) e a construção de uma "zona de apoio" entre o corpo e o Outro (Tustin). Sessão 2 (Pós-Toque): A Confirmação do Laço O analista retoma a posição da sessão anterior, ao lado de G. Não força a repetição do toque, mas sustenta a mesma presença e o mesmo si- lêncio. Observa que G, ao entrar na sala, olha brevemente para o analista antes de se dirigir ao carrinho. Esse olhar periférico é registrado como um sinal de que a presença do analista começou a ter algum valor. G retoma o jogo da roda, e o analista, discretamente, imita o som suave da roda com a boca. G não reage negativamente; parece tolerar a pequena varia- ção sonora. Sessão 3: O Início da Variação O analista introduz uma pequena variação no ambiente: coloca um terceiro carrinho, de cor diferente, próximo ao local onde G costuma brincar. G fixa o olhar no novo objeto por al- guns segundos, depois retorna ao seu carrinho habitual. O analista pontua: "Azul." – nome- ando a cor do novo carrinho, sem dirigir-se di- retamente a G. Essa nomeação, desprovida de entonação de chamado, funciona como uma tentativa de enganchar um significante à expe- riência visual de G. Sessões 4 e 5: A Ampliação do Campo O analista começa a mediar a interação pelo objeto. Toca levemente no carrinho de G (não na roda) e o empurra alguns centímetros para o lado. G observa o movimento, mas não recua nem se irrita. Na sessão seguinte, o analista re- pete o gesto, e G, pela primeira vez, pega o carrinho e o coloca de volta na posição origi-

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Clínica do Autismo | Lázaro Santos Tavares 153 nal, como se estivesse "conversando" com o analista através do objeto. O analista nomeia o gesto: "G colocou o carrinho de volta." Sessão 6: A Avaliação da Transferência Para testar se a presença do analista já se ins- creveu como algo significativo, o analista, em um breve momento, afasta-se do campo visual de G, indo até a prateleira buscar um livro. G interrompe o movimento da roda por um ins- tante e lança um rápido olhar para o lado onde o analista estava. Ao ver que ele retorna, G re- toma o jogo. Essa pequena reação indica que o analista começou a ter um valor de presença para G – um princípio de transferência estava estabelecido. Conceito-Chave: Este caso ilustra o que Éric Laurent (2012) chama de "o analista como se- cretário do autista" – alguém que auxilia na es- crita e na construção de um suporte simbólico que não se estabeleceu espontaneamente. O trabalho se dá na borda do sujeito, respeitando suas defesas, para construir uma "zona de apoio" entre o corpo e o Outro, como descre- veu Frances Tustin. A roda, objeto autístico, deixou gradualmente de ser apenas uma con- cha protetora para se tornar um mediador, um primeiro ponto de contato com o mundo sim- bólico. 5. A TÉCNICA PSICANALÍTICA NA CLÍ- NICA DO AUTISMO: UMA SÍNTESE A PARTIR DOS CASOS A partir dos quatro casos apresentados, pode- mos extrair alguns elementos fundamentais da técnica psicanalítica na clínica contemporânea do autismo. Não se trata de um manual de procedimentos – a psicanálise não opera com protocolos padronizados –, mas sim de princí- pios orientadores que podem guiar a prática clínica. Primeiro: o respeito radical às defesas au- tísticas. Em todos os casos, os analistas parti- ram do princípio de que as manifestações au- tísticas (a manta de João, os dinossauros de Pedro, o isolamento de Laurinha, a roda de G) não são sintomas a serem eliminados, mas sim defesas construídas pela criança para lidar com um mundo vivido como ameaçador. Confron- tar essas defesas, desmontá-las prematuramen- te, só aumentaria a angústia e o retraimento. O caminho é outro: acolher, respeitar e, a partir delas, construir pontes possíveis. Segundo: o corpo do analista como ins- trumento fundamental. Especialmente nos casos de crianças com pouca ou nenhuma lin- guagem verbal, o corpo do analista assume uma função central. Não se trata apenas de um corpo que observa, mas de um corpo que se oferece como superfície de contorno, como ritmo, como presença. O holding winnicottiano, o eu-pele anzieuniano, a função continente bi- oniana – todos esses conceitos apontam para a mesma direção: o analista precisa estar corpo- ralmente disponível para acolher as experiên-

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Clínica do Autismo | Lázaro Santos Tavares 154 cias sensoriais e afetivas da criança, dando-lhes forma e significado. Terceiro: o manejo delicado da distância e da proximidade. A clínica do autismo exige do analista uma sensibilidade apurada para do- sar a distância e a proximidade. Muito perto, invade; muito longe, abandona. É preciso en- contrar o ponto justo – que varia de criança para criança, e na mesma criança ao longo do tempo – em que a presença do analista é senti- da como segura, não intrusiva, mas também não indiferente. Quarto: a técnica na primeira sessão e nas sessões iniciais. A primeira sessão com uma criança autista é um momento crucial. O ana- lista deve estar atento a alguns princípios: O objeto autístico: o analista deve respeitar e se apoiar no objeto ou no ritual que a criança traz. Esse objeto funciona como uma "concha" que a protege do Outro invasivo. Qualquer tentativa de afastá-lo ou interpretá-lo simboli- camente de imediato pode romper a frágil pos- sibilidade de contato. O silêncio e o tempo: a escuta é marcada pela espera. O analista não apressa a fala e aceita a ausência de comunicação verbal direta, obser- vando atentamente a comunicação não-verbal: os movimentos, os olhares periféricos, as rea- ções ao ambiente. A "platitude" da voz: o analista deve usar uma voz plana, sem muita modulação emocio- nal ou entonação de "chamado". A entonação exagerada pode ser vivida como invasiva, pois a criança autista pode não processar adequa- damente a carga emocional contida na voz. O corpo e o espaço: o analista deve evitar a surpresa e a invasão do espaço corporal. O trabalho começa a partir da imitação sutil da criança ou da entrada discreta em seu campo sensorial, sem forçar a relação intersubjetiva. Quinto: a aposta na simbolização. Seja atra- vés da narrativa, como no caso de Pedro, seja através da mediação corporal, como nos casos de Laurinha, João e G, o objetivo último do trabalho analítico é a abertura de possibilidades de simbolização. Não se trata de "ensinar" a criança a simbolizar, mas de criar condições para que ela própria possa, em seu tempo e a seu modo, construir representações para suas experiências. Sexto: a transferência como construção. A transferência na clínica do autismo não é dada de antemão; ela precisa ser pacientemente construída, muitas vezes em bases não verbais. O analista funciona como um "secretário do autista" (Laurent), auxiliando na escrita de um suporte simbólico que não se estabeleceu es- pontaneamente. O analista se oferece como parceiro, como presença, como alguém que pode ser admitido no círculo da criança desde que respeite suas regras. É uma transferência que se estabelece mais pela via da confiança e

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Clínica do Autismo | Lázaro Santos Tavares 155 da regularidade do que pela via do amor e da demanda. 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao longo deste artigo, percorremos um cami- nho que nos levou das formulações teóricas da psicanálise contemporânea sobre o autismo à sua expressão na clínica cotidiana, ilustrada por quatro casos que, cada um a seu modo, de- monstram a potência e a especificidade dessa abordagem. Retomemos os principais pontos. Vimos que autores como Maleval, Laznik, Tustin e Win- nicott, entre outros, oferecem contribuições fundamentais para uma compreensão do au- tismo que vai além do paradigma do déficit. O autista não é simplesmente alguém que "falta" em determinadas habilidades, mas sim um su- jeito que constrói defesas singulares para lidar com um mundo sentido como caótico e inva- sivo. Compreender essas defesas, respeitá-las e, a partir delas, construir pontes possíveis – eis a tarefa da clínica psicanalítica. Vimos também que a técnica psicanalítica nes- se campo se caracteriza por uma série de espe- cificidades. O corpo do analista assume uma função central, oferecendo-se como superfície de contorno e continente para experiências sensoriais desorganizadas. A transferência pre- cisa ser pacientemente construída, muitas vezes em bases não verbais, e o manejo da distância e da proximidade exige uma sensibilidade apu- rada. A narrativa, quando possível, abre cami- nhos para a simbolização secundária, permitin- do que a criança nomeie afetos e construa sen- tidos para sua experiência. A primeira sessão e as sessões iniciais demandam cuidados especí- ficos: respeito ao objeto autístico, acolhimento do silêncio, uso de voz plana e atenção ao es- paço corporal. É importante ressaltar que a psicanálise não promete a "cura" do autismo no sentido de eliminação dos traços autísticos. O que ela ofe- rece é outra coisa: a possibilidade de que cada sujeito autista possa construir uma vida com mais sentido, mais laço, menos sofrimento. Trata-se de uma aposta ética na singularidade, na invenção, na capacidade de cada um de, a seu modo, encontrar seu lugar no mundo. Isso não significa, evidentemente, que a psica- nálise deva prescindir do diálogo com outras áreas. A fonoaudiologia, a terapia ocupacional, a psicopedagogia, a neurociência – todas têm contribuições valiosas a oferecer. O trabalho multidisciplinar, quando bem articulado e cen- trado nas necessidades da criança, é certamente o caminho mais promissor. Por fim, é preciso reconhecer os limites deste estudo. Trata-se de uma revisão narrativa, não exaustiva, e de casos clínicos publicados, anali- sados em recortes. Pesquisas futuras poderiam aprofundar a articulação entre as diferentes perspectivas teóricas, investigar sistematica- mente os resultados das intervenções psicanalí- ticas e, sobretudo, dar mais voz aos próprios

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 A Clínica do Autismo | Lázaro Santos Tavares 156 sujeitos autistas, cuja perspectiva é fundamen- tal para qualquer compreensão que se pretenda respeitosa e verdadeira. O que fica, ao final, é a convicção de que a psi- canálise tem um lugar inegável na clínica do autismo. Não como dona da verdade, mas co- mo uma escuta que aposta no sujeito onde ou- tros só veem déficit. Não como técnica mila- grosa, mas como presença que sustenta e aco- lhe. Não como discurso fechado, mas como campo aberto à invenção e à diferença. É nesse espírito que esperamos ter contribuído. REFERÊNCIAS ALMEIDA, L. S. D. N.; PINTO, P. S.; DIAS, T. S. O corpo do analista na clínica psicanalíti- ca com crianças autistas. Psicologia e Saúde em Debate, v. 8, n. 1, p. 380-396, 2022. ANZIEU, D. O Eu-pele. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1989. BARROSO, S. F. O autismo para a psicanálise: da concepção clássica à contemporâ- nea. Psicologia em Revista, Belo Horizonte, v. 25, n. 3, p. 1231-1247, set./dez. 2019. BION, W. R. Aprendendo com a experiên- cia. Rio de Janeiro: Imago, 1962. JERUSALINSKY, A. Para uma clínica do au- tismo. In: Escritos da Criança. Porto Alegre: Centro Lydia Coriat, 2000. LAZNIK, M. C. A voz da sereia: o autismo e os impasses na constituição do sujeito. Salvador: Ágalma, 2004. LAURENT, É. A batalha do autismo: da clínica à política. Rio de Janeiro: Zahar, 2014. LEIRAS, E. P. L.; BATISTELLI, F. M. V. Re- flexões psicanalíticas sobre um caso com trans- torno do espectro autista (TEA). Estilos da Clinica, São Paulo, v. 19, n. 2, p. 277-293, ago. 2014. LEFORT, R.; LEFORT, R. O nascimento do Outro. Salvador: Fator, 1984. MAHLER, M. O nascimento psicológico da criança. Rio de Janeiro: Zahar, 1975. MALEVAL, J-C. O autista e a sua voz. São Paulo: Blucher, 2011. POKORSKI, M. M. W. F. A narrativa como intervenção na clínica com autista. Estudos de Psicanálise, Belo Horizonte, n. 52, p. 155- 164, jul./dez. 2019. TUSTIN, F. Autismo e psicose infantil. Rio de Janeiro: Imago, 1975. TUSTIN, F. Barreiras autísticas em pacien- tes neuróticos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991. WINNICOTT, D. W. Natureza Humana. Rio de Janeiro: Imago, 1990.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Escrita do Sintoma | Antonia Cristiana S Apolônio Andrade 157 ESCRITA DO SINTOMA NA HIPERCONECTIVIDADE: DO MAL-ESTAR COLETIVO À LETRA DO SUJEITO Antonia Cristiana Soares Apolônio Andrade Artigo de revisão apresentado como requisito parcial à conclusão da Formação e Pós- graduação em Psicanálise — Faculdade de Educação do Piauí / Escola Freudiana de Psi- canálise de Teresina. RESUMO O presente artigo analisa as reconfigurações do sofrimento psíquico na contemporaneidade a partir do fenômeno da hiperconectividade. Discute-se como a aceleração tecnológica e o imperativo de gozo das redes digitais atualizam o conceito freudiano de mal-estar na cultura. Frente à fragmentação dos laços sociais provo- cada pela virtualidade, investiga-se o estatuto do sintoma e a função da escrita como possibi- lidade de amarração e inscrição da letra do su- jeito. A partir das contribuições de Freud, La- can e das discussões sobre "Escrita e Psicanáli- se", conclui-se que o texto analítico opera co- mo uma topologia capaz de contornar o vazio do real, permitindo que o sujeito desloque o circuito pulsional mortífero do algoritmo para a emergência de uma escrita singular e inventi- va de si. A pesquisa, de natureza bibliográfica, fundamenta-se em obras centrais da psicanálise freudiano-lacaniana e em estudos contemporâ- neos sobre subjetividade e tecnologia, articu- lando teoria e clínica para evidenciar que a es- crita singularizada representa um contraponto ético e subjetivo ao imperativo do gozo tecno- lógico. Palavras-chave: Psicanálise. Hiperconectivida- de. Mal-Estar. Sintoma. Escrita. ABSTRACT This article analyzes the reconfigurations of psychic suffering in contemporary times based on the phenomenon of hyperconnectivity. It discusses how technological acceleration and the imperative of jouissance in digital networks update the Freudian concept of malaise in cul- ture. Faced with the fragmentation of social bonds caused by virtuality, the status of the symptom and the function of writing as a pos- sibility of anchoring and inscribing the sub- ject's letter are investigated. Drawing on con- tributions from Freud, Lacan, and discussions on "Writing and Psychoanalysis," it is conclu- ded that analytic writing operates as a topology capable of circumventing the void of the real, allowing the subject to displace the deadly dri- ve circuit of the algorithm toward the emer- gence of a singular and inventive self-writing. The research, bibliographic in nature, is grounded in central works of Freudian- Lacanian psychoanalysis and contemporary studies on subjectivity and technology, articula- ting theory and clinical practice to demonstrate that singularized writing represents an ethical and subjective counterpoint to the imperative of technological jouissance.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Escrita do Sintoma | Antonia Cristiana S Apolônio Andrade 158 Keywords: Psychoanalysis. Hyperconnectivity. Malaise. Symptom. Writing. 1 INTRODUÇÃO Em "O Mal-Estar na Cultura" (1930), Sigmund Freud apontou de forma seminal que as exi- gências civilizatórias impõem uma renúncia pulsional intransigente, gerando um resíduo in- solúvel de angústia. No cenário contemporâ- neo do século XXI, essa dinâmica se reconfi- gura de maneira drástica. A civilização já não opera predominantemente sob a égide da in- terdição e da repressão vitoriana; pelo contrá- rio, o laço social atual é comandado pelo impe- rativo da performance, da transparência abso- luta e do consumo digital ininterrupto. A hi- perconectividade surge, assim, não apenas co- mo uma facilidade técnica, mas como uma en- grenagem que altera profundamente as coor- denadas subjetivas do indivíduo contemporâ- neo. A passagem do mal-estar clássico para o sofri- mento hiperconectado expõe o sujeito a um fluxo incessante de estímulos que satura o campo do Outro. Diante do bombardeio de te- las, curtidas e algoritmos que mimetizam de- mandas de reconhecimento, o psiquismo depa- ra-se com o apagamento do tempo de compre- ender, restando-lhe apenas o instante do ver e o ato de consumir. O sintoma contemporâneo frequentemente se manifesta de forma difusa: ansiedades generalizadas, pânicos silenciosos, quadros de esgotamento (burnouts) e episó- dios de isolamento radical, como o fenômeno do retraimento social. Frente a esse cenário de dispersão virtual, emerge a centralidade da clínica e do estatuto do registro escrito. A presente pesquisa pro- põe-se a investigar: como a psicanálise pode oferecer suporte clínico e teórico diante de sin- tomas capturados pela lógica da rede? A hipó- tese central aponta que a escrita, em sua di- mensão de registro e de "letra" na acepção la- caniana, funciona como um contra-dispositivo à velocidade do algoritmo, permitindo que o sujeito dê contorno ao real não simbolizável de seu sofrimento. A relevância deste estudo justifica-se pela cres- cente demanda clínica de sujeitos cujo sofri- mento psíquico encontra-se profundamente entrelaçado com o uso compulsivo de tecnolo- gias digitais. Compreender o estatuto do sin- toma neste contexto é condição fundamental para que a prática psicanalítica possa oferecer uma escuta eficaz e eticamente orientada, ca- paz de fazer frente aos desafios impostos pela contemporaneidade hiperconectada. 2 METODOLOGIA O presente artigo foi desenvolvido por meio de pesquisa bibliográfica de caráter qualitativo, modalidade que consiste na análise crítica e

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Escrita do Sintoma | Antonia Cristiana S Apolônio Andrade 159 aprofundada de publicações já existentes sobre determinado tema, com o objetivo de sistema- tizar, comparar e discutir o conhecimento pro- duzido. A escolha por esta modalidade é coe- rente com a natureza da investigação psicanalí- tica, cujo método privilegia a articulação teóri- co-clínica a partir de conceitos fundamentais transmitidos por meio de obras e seminários. O levantamento bibliográfico concentrou-se em obras centrais da psicanálise freudiano- lacaniana, com especial atenção às formulações de Sigmund Freud acerca do mal-estar na cul- tura e do conceito de pulsão de morte, e às elaborações de Jacques Lacan sobre o estatuto da letra, o conceito de gozo, o objeto "a" e o Sinthome. Foram também consultadas obras organizadas por pesquisadoras contemporâ- neas que articulam escrita e psicanálise, além de textos que abordam as transformações sub- jetivas decorrentes da sociedade digital. As fontes primárias incluem: "O Mal-Estar na Cultura" (Freud, 1930/2010), "Além do Prin- cípio do Prazer" (Freud, 1920/2016), "O Se- minário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fun- damentais da Psicanálise" (Lacan, 1964/2008), "O Seminário, Livro 23: O Sinthoma" (Lacan, 1975-1976/2007) e "Lituraterra" (Lacan, 1971/2003). Como fonte secundária de refe- rência fundamental, destaca-se a coletânea "Escrita e Psicanálise", organizada por Ana Costa e Doris Rinaldi (2011). O procedimento metodológico adotado foi a leitura sistemática e comentada das fontes sele- cionadas, seguida da articulação dos conceitos psicanalíticos com a problemática clínica da hiperconectividade. A análise não tem preten- são de exaustividade empírica, mas de rigor conceitual, buscando estabelecer nexos lógicos entre a teoria psicanalítica e os fenômenos de sofrimento contemporâneos a partir do refe- rencial da clínica. O período de produção da pesquisa compreende os anos de 2024 e 2025. 3 REVISÃO DE LITERATURA 3.1 O MAL-ESTAR NA ERA DO ALGO- RITMO: O IMPERATIVO DO GOZO TECNOLÓGICO Para compreender o impacto da hiperconecti- vidade, faz-se necessário retornar à tese freudi- ana de que a técnica e a ciência operam como próteses que tentam mitigar o desamparo es- trutural humano. Em "O Mal-Estar na Cultu- ra", Freud (1930/2010) advertia que o homem se transformou em uma espécie de "deus pró- tese", cujos membros artificiais lhe conferem poderes extraordinários, mas não lhe garantem a felicidade. A tecnologia digital amplifica essa condição de maneira exponencial, instaurando uma nova modalidade de mal-estar que não de- riva mais da renúncia pulsional imposta pela civilização, mas, paradoxalmente, do próprio imperativo ao gozo irrestrito.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Escrita do Sintoma | Antonia Cristiana S Apolônio Andrade 160 A conexão contínua gera a ilusão de uma com- pletude narcísica e do esbatimento das distân- cias geográficas e temporais. O sujeito con- temporâneo experimenta a sensação de estar em toda parte ao mesmo tempo, alimentado por uma corrente ininterrupta de informações, estímulos e demandas de resposta. No entanto, o que se observa na clínica psicanalítica é o re- verso dessa utopia tecnológica: uma pane na barreira de proteção contra estímulos, que Freud (1920/2016) denominava Reizschutz. O aparelho psíquico, concebido para processar e ligar energias de forma regulada, encontra-se sobrecarregado por um fluxo que não cessa. Sob a ótica de Jacques Lacan, a contempora- neidade é marcada pelo declínio da função do Nome-do-Pai e pela consequente ascensão dos objetos de consumo à categoria de fetiches de gozo — os chamados objetos "a" produzidos pela ciência (LACAN, 2008). O smartphone opera como esse fragmento do objeto "a" por- tátil, que promete obturar a falta constitutiva do sujeito. Nas redes sociais, a lógica do mais- de-gozar é incessante. O sujeito é intimado a expor sua intimidade, transformando o eu em uma mercadoria a ser avaliada empiricamente pelo número de interações, curtidas e compar- tilhamentos. Esse imperativo de visibilidade anula a dimen- são do enigma e do segredo, cruciais para a constituição do inconsciente. O laço social vir- tual, paradoxalmente, promove um profundo isolamento monádico: os sujeitos conectam-se às telas, mas desconectam-se da alteridade ra- dical do Outro, gerando formas de adoecimen- to marcadas pelo excesso e não pela falta. An- siedade generalizada, síndrome de burnout, depressão e fenômenos de retraimento social como o hikikomori — isolamento voluntário extremo documentado inicialmente no Japão e hoje disseminado globalmente — constituem expressões clínicas desse novo mal-estar. 3.2 O ESTATUTO DA ESCRITA NA PSI- CANÁLISE E A INSCRIÇÃO DO SINTO- MA Se o ambiente digital empurra o sujeito para o imediatismo da imagem e da reação instantâ- nea, a psicanálise convoca uma temporalidade distinta por meio da palavra e de seus efeitos de escrita. No livro "Escrita e Psicanálise", or- ganizado por Ana Costa e Doris Rinaldi (2011), resgata-se o entendimento de que o in- consciente é estruturado como uma linguagem, mas cujos pontos de ancoragem dependem de marcas de inscrição indeléveis — traços que fi- xam e organizam o campo pulsional do sujeito. Lacan, em seu retorno a Freud, avança do con- ceito de significante para o conceito de letra. Enquanto o significante se define pela diferen- ça e remete sempre a outro significante em uma cadeia infinita de sentido, a letra é o ele- mento material, o traço que resta quando o sentido se esgota. Como demonstra Lacan em "Lituraterra" (2003), a letra não é o significan- te, mas a sua borda, sua orla — aquilo que do significante se inscreve no real. A letra toca o

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Escrita do Sintoma | Antonia Cristiana S Apolônio Andrade 161 real justamente porque não é da ordem do sen- tido, mas do traço. Como afirmam Costa e Rinaldi (2011), a escri- ta na experiência analítica não se reduz ao ato gráfico de transcrever a fala, mas refere-se à produção de marcas que delimitam o gozo. A análise opera, portanto, em um nível que ultra- passa o da interpretação semântica: ela visa à inscrição de uma letra que contorne e circuns- creva aquilo que do real do sujeito permanecia disperso e sem borda. A letra não é o significante. Ela é o que, do significante, se deposita no real. O inconscien- te não é a questão de um ser, mas de uma rela- ção — relação do sujeito com o significante que o representa. Mas a letra é o que fixa essa relação, o que dela faz traço. (LACAN, 2003, p. 15). O sintoma, em termos psicanalíticos, é uma escrita na carne ou no comportamento do su- jeito — uma escrita enigmática que aguarda decifração. Na clínica contemporânea, contu- do, os sintomas decorrentes da hiperconectivi- dade chegam frequentemente desprovidos de uma dimensão metafórica. São sintomas "de- senraizados" da cadeia associativa: o sujeito não sabe o que diz através de sua insônia ou de sua compulsão digital; ele apenas padece do circuito pulsional fechado. A aposta da análise reside na possibilidade de fazer o sujeito passar do "sintoma-evento de corpo" para a produção de uma escrita singu- lar. Ao falar de seu sofrimento na transferên- cia, o analisando começa a bordar o vazio do real, recortando o excesso de ruído tecnológico para fixar, na letra, o que há de mais próprio em sua divisão subjetiva. Nesse processo, o so- frimento difuso e impessoal começa a adquirir contornos singulares — torna-se, enfim, a letra de um sujeito. 3.3 DA DISPERSÃO VIRTUAL À LETRA DO SUJEITO: CAMINHOS CLÍNICOS Como operar clinicamente quando o Outro da cultura se apresenta como uma rede horizonta- lizada e algorítmica? O analista é convocado a sustentar a função de corte. Onde o ambiente digital oferece respostas prontas e fluxos infini- tos — o interminável scrolling das redes —, o dispositivo analítico introduz a pausa, o silên- cio e o equívoco significante. O tempo lógico que a análise propõe é radicalmente heterogê- neo ao tempo do algoritmo. A transformação do mal-estar coletivo na "le- tra do sujeito" supõe um trabalho de poetiza- ção e historização. A hiperconectividade apla- na a história individual sob a urgência de um presente perpétuo, apagando a dimensão do après-coup freudiano — a retroação pela qual os eventos do passado recebem seu sentido a partir do presente. Escrever o sintoma significa reinscrever a dimensão do tempo e do trauma no tecido da linguagem, restituindo ao sujeito a

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Escrita do Sintoma | Antonia Cristiana S Apolônio Andrade 162 possibilidade de ser autor de sua própria histó- ria. O quadro a seguir sintetiza o contraste entre as dinâmicas da lógica hiperco- nectada e as coordenadas da escrita analítica, evidenciando a natureza do trabalho que a clínica psicanalítica pro- põe frente ao imperativo tecnológico: Dimensão Subjetiva A Lógica da Hiperconectivi- dade A Lógica da Escrita Analíti- ca Tempo Imediatismo, aceleração e feed contínuo Tempo lógico, corte e après- coup (só-depois) Objeto Consumo do objeto tecnológi- co (mais-de-gozar) Circunscrição da falta (objeto "a" como causa) Sintoma Atuação, descarga pulsional e diagnóstico genérico Decifração, singularidade e amarração sintomática Linguagem Saturação de imagens e enunci- ados imperativos Produção da letra, enigma e va- lorização do silêncio Quadro 1 — Contraste entre a lógica da hiperconectividade e a lógica da escrita analítica. A escrita produzida no espaço analítico desfaz a massificação dos diagnósticos contemporâ- neos. Quando o sujeito consegue extrair de seu sofrimento difuso uma formulação única, ele opera uma amarração semelhante à descrita por Lacan em seu estudo sobre James Joyce e o conceito de Sinthome (LACAN, 2007). O sinthome, conceito lacaniano que ultrapassa o sintoma no sentido clássico, designa o modo singular pelo qual um sujeito inventa uma so- lução para o não-todo da estrutura — uma so- lução que não é cura no sentido médico, mas invenção de um modo de ser no mundo. Joyce, segundo Lacan, utilizou a escrita literária como o nó que amarrava os três registros — Real, Simbólico e Imaginário — suprindo a fo- raclusão do Nome-do-Pai. A escrita joyceana não comunica, não relata: ela instala uma letra, produz uma marca singular. Na clínica, o que se busca é algo análogo: não a eliminação do sintoma por protocolos de otimização humana, mas o reconhecimento do sintoma como a in- venção singular com a qual o sujeito se susten- ta no mundo. 3.4 PULSÃO DE MORTE, ALGORITMO E A REPETIÇÃO CONTEMPORÂNEA Em "Além do Princípio do Prazer" (1920/2016), Freud introduz o conceito de pulsão de morte como compulsão à repetição

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Escrita do Sintoma | Antonia Cristiana S Apolônio Andrade 163 — tendência do aparelho psíquico a retornar a estados anteriores, a refazer os traumas na ten- tativa de dominá-los, ainda que essa repetição implique sofrimento. A interface com o fenô- meno da hiperconectividade é sugestiva: o su- jeito contemporâneo repete compulsivamente o gesto de verificar as redes sociais, de rolar o feed, de buscar novas notificações, não porque encontre satisfação plena nessa ação, mas por- que a repetição mesma é o modo pelo qual o circuito pulsional funciona. O design das plataformas digitais, engenhado para maximizar o tempo de engajamento, capi- taliza precisamente essa dimensão compulsiva da pulsão. Os algoritmos funcionam como uma maquinaria que alimenta o circuito repeti- tivo sem jamais permitir que ele encontre um ponto de fechamento satisfatório. Cada notifi- cação é uma isca que promete a completude e entrega apenas mais um passo na cadeia da re- petição. Nesse sentido, o algoritmo das redes sociais pode ser compreendido como um Outro que não falta — uma caricatura perfeita do impera- tivo de gozo que Lacan identificava como ca- racterístico do discurso capitalista. Esse Outro algorítmico não é barrado, não tem lacunas; ele oferece sempre mais, nunca dizendo não. A consequência clínica é a erosão da função do desejo: onde não há falta, não há desejo; onde não há desejo, o sujeito subsiste apenas como consumidor de estímulos. A saída analítica passa, portanto, por reinstau- rar a dimensão da falta como condição de de- sejo. Isso não equivale a uma apologética do sofrimento ou a uma recusa da tecnologia, mas ao reconhecimento de que o sujeito só emerge como tal quando se depara com os limites — com o impossível que o desejo circunscreve. A escuta psicanalítica, ao introduzir o silêncio, a pausa e a pergunta que não responde, inscreve uma falta que o algoritmo, por construção, não pode inscrever. 3.5 A ÉTICA PSICANALÍTICA FRENTE À CULTURA DIGITAL A ética da psicanálise, tal como formulada por Lacan no Seminário 7 (1959-1960), não é a éti- ca do bem-estar nem a da adaptação social, mas a ética do desejo: "não ceder quanto ao seu desejo". Essa máxima adquire uma perti- nência renovada na era digital. O imperativo das redes — "goza!", "compartilha!", "seja vis- to!" — é exatamente o oposto: ele convida ao abandono do desejo em favor da satisfação imediata e do gozo padronizado. A clínica psicanalítica contemporânea é, por- tanto, um espaço de resistência ética. Não se trata de uma resistência nostálgica ou reacioná- ria, que nega as transformações culturais. Tra- ta-se, ao contrário, de uma resistência subjeti- va: a insistência em que cada sujeito é singular, que seu sofrimento não é redutível a uma cate- goria nosográfica ou a um protocolo de trata-

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Escrita do Sintoma | Antonia Cristiana S Apolônio Andrade 164 mento, que sua história e sua letra lhe perten- cem. Nesse sentido, a psicanálise oferece um con- traponto ético fundamental não apenas no ní- vel do consultório, mas no nível do laço social. Ao sustentar a dimensão do sujeito do incons- ciente — sujeito que excede qualquer catego- ria, que surpreende a si mesmo, que porta um saber que não sabe —, a psicanálise afirma que o humano não se reduz a dados, a métricas de engajamento, a perfis algorítmicos. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS A hiperconectividade, enquanto imperativo so- ciocultural da modernidade tardia, gera um mal-estar caracterizado pela exaustão e pelo curto-circuito da subjetividade nas malhas da imagem e do consumo. O percurso teórico- clínico delineado neste artigo demonstra que a psicanálise mantém firme sua aposta na potên- cia do sujeito do inconsciente, mesmo — e so- bretudo — quando as condições culturais conspiram para sua diluição. O retorno às formulações freudianas sobre o mal-estar na cultura permitiu evidenciar que a angústia contemporânea não deriva mais, pri- mariamente, da repressão pulsional imposta pela civilização, mas do imperativo ao gozo ir- restrito que o capitalismo digital instituiu. O sujeito hiperconectado não sofre de interdição, mas de saturação; não de proibição, mas de ex- cesso. Essa inversão estrutural exige que a psi- canálise renove suas ferramentas teóricas sem abandonar seus fundamentos. A releitura lacaniana do conceito de letra de- monstrou que a escrita não é mero instrumen- to de comunicação, mas topologia que contor- na o real. Enquanto o algoritmo promete obtu- rar a falta com um fluxo infindável de objetos de gozo, a letra analítica opera na direção oposta: ela fixa, delimita, circunscreve. Ela transforma o ruído em traço, a descarga em inscrição, o sintoma mudo e massificado em uma escrita singular do sujeito. Conclui-se, portanto, que longe de se isolar das transformações tecnológicas, a escuta psicana- lítica propõe um contraponto ético fundamen- tal. Diante da dispersão provocada pelo fluxo algorítmico, a clínica convida o sujeito a habi- tar sua falta e a produzir, a partir dos destroços do mal-estar contemporâneo, uma letra pró- pria. Ao transformar o sintoma mudo e massi- ficado em uma escrita singular, o sujeito desli- ga-se do circuito alienante da hipertela para inscrever-se, verdadeiramente, como autor de seu próprio desejo. Como horizonte para futuras pesquisas, apon- ta-se a necessidade de estudos clínicos que do- cumentem casos de sujeitos cujo sofrimento se manifesta predominantemente na interface com o digital, bem como investigações sobre as possibilidades e limitações da clínica analíti- ca realizada por meios telemáticos — questão que a pandemia de COVID-19 trouxe à urgên-

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Escrita do Sintoma | Antonia Cristiana S Apolônio Andrade 165 cia e que a teoria psicanalítica ainda não res- pondeu de forma suficiente. REFERÊNCIAS COSTA, Ana; RINALDI, Doris (Orgs.). Escri- ta e psicanálise. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2011. FREUD, Sigmund. Além do princípio do pra- zer (1920). Tradução de Renato Zwick. Porto Alegre: L&PM, 2016. FREUD, Sigmund. O mal-estar na cultura (1930). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. LACAN, Jacques. Lituraterra. In: ______. Ou- tros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Edi- tor, 2003. LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008. LACAN, Jacques. O seminário, livro 23: o sin- thoma (1975-1976). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 O Arquétipo da Mãe | Wêsley William S de Oliveira 166 O ARQUETIPO DA MÃE NA SÉRIE TELEVISIVA THE BIG BANG THE- ORY A PARTIR DE UMA VISÃO PSICANALÍTICA WÊSLEY WILLIAM ALVES DE OLIVEIRA RESUMO A serie norte-americana The big bang theory ganhou notoriedade entre 2007 à 2019, no qual quatro ami- gos e sua vizinha viviam suas rotinas e dramas em Pasadena, Califórnia. O sitcom retrata como esses homens lidam com seus conflitos e relações com suas figuras maternas e paternas de maneira cômica e com reverberações psicanalíticas. As figuras maternas são centrais e ditam o comportamento dos prota- gonistas, no qual lidam com suas semelhanças a partir destas personagens femininas. Sheldon Co-oper, Howard Wolowitz, Leonard Hofstadter e Raje Koothrappali tornam-se produtos de suas relações com suas mães e buscam constantemente suas aprovações em seus movimentos e desenvolvimentos enquanto seres humanos/homens. O presente artigo objetiva analisar o arquétipo materno dentro da série norte- americana The Big Bang Theory frente a luz teórica da psicanálise de Carl Gustav Jung (2021), Erich Neumann (2021) e Donnald Winnicot (1983). As figuras maternas presentes no trabalho foram Mrs. Wollowitz e Beverly Hofstadler e suas implicações arquetípicas maternas dentro da relação com seus fi- lhos e como isto reverberou na narrativa televisiva e construção das personagens mãe/filho. Palavras-chave: Arquétipo; Jung; psicanálise; materno. ABSTRACT The American television series The Big Bang Theory gained notoriety between 2007 and 2019, portra- ying the daily routines and dramas of four friends and their neighbor in Pasadena. The sitcom depicts how these men deal with their conflicts and relationships with their maternal and paternal figures in a comedic manner, with psychoanalytic reverberations. Maternal figures are central and shape the prota- gonists’ behavior, as they confront their similarities through these female characters. Sheldon Cooper, Howard Wolowitz, Leonard Hofstadter, and Raj Koothrappali become products of their relationships with their mothers and constantly seek their approval in their actions and development as human beings/men. This article aims to analyze the maternal archetype within the American series The Big Bang Theory in light of the psychoanalytic theories of Carl Gustav Jung (2021), Erich Neumann (2021), and Donald Winnicott (1983). The maternal figures examined in this study are Mrs. Wolowitz and Beverly Hofstadter, along with their archetypal maternal implications in their relationships with their sons and

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 O Arquétipo da Mãe | Wêsley William S de Oliveira 167 how these dynamics reverberate in the television narrative and in the construction of the mother/son characters. Keywords: Archetype; Jung; psychoanalysis; maternal. INTRODUÇÃO A série norte-americana The Big Bang Theory alcançou ampla notoriedade entre os anos de 2007 e 2019, ao retratar a rotina, os conflitos e as relações interpessoais de quatro amigos cientistas e de sua vizinha, ambientados na cidade de Pasadena, Califórnia. Inserida no gênero comédia de situação (sitcom), a pro- du-ção utiliza o humor como recurso narrativo para explorar a vida cotidiana dos personagens centrais — Sheldon Cooper, Howard Wolowitz, Leonard Hofstadter e Raj Koothrappali — tan-to em seus con- textos profissionais quanto em suas relações pessoais. Um dos elementos estru-turantes da narrativa resi- de na influência de suas vivências pretéritas, especialmente no que se refere às figuras maternas, as quais se revelam determinantes na constituição de suas relações afetivas e de seus conflitos subjetivos. Na sociedade contemporânea, a cons-trução da figura materna é frequentemente atravessada por cons- tructos sociais historica-mente marcados pelo machismo e pela misogi-nia, os quais repercutem de ma- neira significativa na formação da subjetividade humana. A maternidade, nesse sentido, tornou-se objeto de análise em diferentes campos do saber, sobre-tudo nos estudos biológicos e psicanalíticos, ganhando destaque a partir das contribuições de teóricos como Sigmund Freud, Carl Gustav Jung e Melanie Klein. O conceito de arquétipo, desenvolvido por Jung (2011), evidencia como imagens socialmente construí- das reverberam na constituição do “eu” e no imaginário individual. Todavia, tais modelos, muitas vezes naturaliza-dos como instintivos ou imutáveis, podem ser questionados e ressignificados por meio de re- presentações controversas e subversivas, como aquelas apresentadas na série em análise. Dessa forma, o presente artigo tem co-mo objetivo analisar de que maneira o arquétipo materno, com enfoque nas personagens Sra. Wolowitz e Beverly Hofstadter, interfere na construção da subjetividade de seus respectivos filhos, à luz de referenciais psicanalíticos. A narrativa da série evidencia como essas figu- ras maternas exercem papel fundamental na for-mação psíquica dos personagens, contribuindo para a es- truturação do ego a partir de arquéti-pos maternos contraditórios, porém decisivos. Para tanto, o estudo propõe discutir os funda-mentos teóricos do conceito de arquétipo, com base nos autores supracitados, bem como inves-tigar de que modo essas representações mater-nas influenciam o desenvolvimento emocional e relacional de seus filhos. Metodologicamente, a pesquisa caracteriza-se

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 O Arquétipo da Mãe | Wêsley William S de Oliveira 168 como qualitativa, valen-do-se de um estudo bibliográfico fundamentado na literatura psicanalítica clássica e contem-porânea. METODOLOGIA A presente pesquisa caracteriza-se como qualitativa, de natureza exploratória e descritiva, com delinea- mento bibliográfico. O estudo fun-damenta-se na análise teórica do arquétipo ma-terno a partir da psico- logia analítica e da psica-nálise, articulando tais referenciais com a narra-tiva da série The Big Bang The- ory. A abordagem qualitativa justifica-se por priorizar a interpreta-ção de significados, símbolos e cons- truções subjetivas presentes tanto nas obras teóricas quanto na produção audiovisual analisada. Quanto aos procedimentos, a pesquisa foi eminentemente bibliográfica, realizada a partir do levantamen- to, seleção e análise de livros, artigos científicos, teses e dissertações que abordam os conceitos de arqué- tipo, inconsciente coletivo, complexo materno e desenvolvimento psíquico. As principais bases teóricas utilizadas foram as contribuições de Carl Gustav Jung (2021), Erich Neumann (2021) e Donald Win- nicott (1983), especialmente no que se refere à constituição da personalidade, às dinâ-micas arquetípicas e às relações primárias entre mãe e filho. Também foram consultados estudos contemporâneos que dialo- gam com a interface entre psicanálise e produções culturais mi-diáticas. A análise de conteúdo foi conduzida em três etapas: (1) pré-análise, com leitura flutuante do material teó- rico e observação inicial dos episódios selecionados; (2) exploração do mate-rial, com categorização te- mática baseada nos conceitos de arquétipo materno, mãe devorado-ra, mãe nutridora, complexo materno e depen-dência emocional; e (3) tratamento e interpreta-ção dos resultados, articulando as categorias en- contradas com os referenciais teóricos adota-dos. Esse processo possibilitou identificar cor- respondências simbólicas entre as formulações psicanalíticas e a representação ficcional das relações mãe/filho na série. O período de realização da pesquisa compreendeu dezembro de 2025 a fevereiro de 2026. Em dezembro de 2025 ocorreu o levan-tamento e a seleção do referencial teórico; em janeiro de 2026 foi realizada a análise dos epi-sódios e a organização das categorias temáticas; e, em fevereiro de 2026, procedeu-se à sistema-tização das interpretações e redação final do artigo. 3 REVISÃO DA LITERATURA 3.1 Arte, mídia, subjetividade humana e construção simbólica no cotidiano

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 O Arquétipo da Mãe | Wêsley William S de Oliveira 169 Desde muito tempo a arte vem ajudando na compreensão da subjetividade humana. Desde a literatura, música, filmes e pintura o ser humano é colocado dentro de seus sentimentos e comportamento. Com o advento da tecnologia e mídia, observar a construção da psique humana tornou-se mais visual, além do que auditiva. As plataformas de streaming trouxeram uma nova forma de consumo audiovisual, no qual não apenas os filmes eram disponibilizados, mas uma nova forma de entretenimento, as séries. Elas retratavam uma his- tória, no qual estaria dividida em capítulos, mas em menor tempo do que uma novela. As que ganharam maior notoriedade foram as classificadas como sitcom em que retratam de forma leve e com humor, o cotidiano de um grupo de pessoas. Entre as mais populares estão as estadunidente-ses Friends, The big bang theory e How I met your mother. Apesar de ter como temas principal a vida rotineira de seus personagens centrais, em paralelo, elas trazi- am assuntos e abordagens de estudo de personalidade na construção de suas narrativas. As questões este- reotipadas, como a loira burra, o filho judeu que não consegue sair de perto da mãe ou a masculinidade forte do sul dos EUA criam ideias preconcebidas e chistosas para trazer humor e construir um molde no qual o público se sinta familiarizado. Essas figuras estereotipadas, no qual se formam através de molde sociais, foi objeto de estudo do psica- nalista Carl Gustav Jung (2011). Para o estudioso, o coletivo forma ideias acerca de figuras construídas socialmente e dão a elas funções ao qual devem desempenhar. Essas ideias estão firmadas a séculos e, desde que nascemos, nos é repassado a função de cada indivíduo dentro de sua vida. Com o corroborar desses tópicos o coletivo criou imagens in-consciente dos personagens envolvidos em sua narrativa, co- mo por exemplo: a mãe, o pai, o herói, o velho sábio entre outros. Para o psica-nalista, a construção in- consciente coletiva desses personagens tem o nome de arquétipo: Os arquétipos são formas ou imagens de natureza coletiva, que ocorrem praticamente em toda a Terra como constituintes de mitos e, ao mesmo tempo, como produtos autóc-tones de origem indivi-dual. Os arquétipos e o inconsciente coletivo correspondem a uma camada mais profunda da psique, que não de- riva da experiência pes-soal e não é adquirida individualmente, mas herdada (Jung, 2011, p.53). De acordo com Jung (2011), a coletivi-dade constrói personagens, no qual absorvemos e esperamos suas representações em nossas vidas. Isto não é algo pronto dentro da psique humano, mas internalizado de forma coletiva e construída há muito tempo pelo social.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 O Arquétipo da Mãe | Wêsley William S de Oliveira 170 Figuras como a mãe é um dos papeis mais discutidos dentre os estudiosos psicanalis-ta, pois é a persona- gem central na vida de todos os seres humanos, no qual perpassa pela gesta-ção, o nascimento e a criação de seus descen-dentes. Elas estão amparadas em arquétipos de cuidado, afeto e proteção. Para as figuras femi-ninas que gestão, o coletivo espera que caracte-rísticas dentro de moldes religiosos. A mulher deve seguir e ser o que Ave Maria representou para a humanidade: pureza, presteza e zelo. Imposições a res- peito de segurança e cuidado são colocadas as mães de forma coletiva no ocidente. O arquétipo da mãe é uma figura que aparece sob as mais variadas formas na história dos costumes, da religião, da mitologia e da filo-sofia. É a Mãe Terra, a 'matéria' primordial de que somos feitos e à qual re- tornamos; é a mãe natureza, o mundo vegetal e animal; é o 'paraíso da infância', o estado de inocência e de felicidade anterior à consciência; é o in-consciente, pois é a matriz do consciente, o útero onde ele é gesta-do (Jung, 2011, p. 25). A figura da mãe desenvolve diversos papeis, no qual se espera, de acordo com o imaginário coletivo, em especial o anima, que ela reproduza o que já vem sendo feito há muito tempo como o cuidado, nutrição e afeto. O desenvolvimento do indivíduo com esta figura torna-se algo de grande valia em sua vida, pois é através dela que suas necessidades são sanadas. Ele(a) forma a imago materno, uma imagética de mãe no qual in- ternaliza e aprofunda relações base, assim como desenvol-vimentos complexos da subjetividade e cons- trução inconsciente. É pelo amparo, afeto, nu-trição, segurança e reconhecimento que está relação se es- tabelece e construí/ajuda uma es-trutura psíquica. 3.2 The big bang thoery e o arquétipo da mãe Na série norte-americana The big bang theory, a figura materna torna-se um tema trans-versal a trama, mas no qual é observado como importante ao passo que a vida das personagens se desenrola através de suas vivências em suas infâncias. Entre as figuras femininas, duas são destaque na série pelos seus com- portamentos enquanto mãe, dentro do diálogo dos persona-gens e a construção imagética coletiva ma- terna. As figuras das mães Sra. Wolowitz e Beverly Hofstadter são controversas. Ambas possuem um estilo de compreender a materni-dade a sua maneira e vamos percebendo isto com o desenvolvimento dos perso- nagens de seus filhos. Enquanto a primeira corrobora com um estereótipo de uma mãe judia, no qual não quer viver longe do filho, a outra personagem torna-se avessa ao filho, no qual o rejeita e o insulta

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 O Arquétipo da Mãe | Wêsley William S de Oliveira 171 constantemente. A polaridade dessas imagens também foi criada no imaginário (ins-conciente) coletivo, no qual pode ser observado como aquela que cria e destrói, nutre e abando-na e no qual podemos obser- var como constru-tor da psique de seus filhos. Para Jung (2011, p.78), a construção desse arquétipo pola- rizado é importante para a compreensão do indivíduo no qual o circunda. No consciente coletivo há a predomi-nância da maternidade enquanto elemento de cuidado, mas não de destruição ou um cons-tructo de traumas. As personagens da série fi-guram essa imagética de proteção, mas que no decorrer da narrativa é observado uma destrui-ção de elementos centrais na construção de uma personalidade saudável: autonomia e autoestima. 3.2.1 Howard Wolowitz e Sra. Wolowitz A Sra Wolowitz é narrada como uma mãe cuidadosa, viúva e que teve de lidar com o abandono de seu marido e a criação solitário do filho. A personagem não é mostrada na série, mas sua voz. O filho é transcorrido como um menino mimado e sem autonomia nas suas ações, logo dependendo das ações da mãe para funções simples: o corte da carne, arrotar após comer, a escolha de roupas e o preparo das re- feições. O incentivo a infantilização causa prejuízos ao desenvolvimento social do filho ao qual não con- segue ter autonomia em funções básicas, assim como suas relações conjugais. O personagem Howard criou uma relação de de-pendência emocional com a mãe em que a busca dentro de seus relacionamentos afeitvos e conjugais. Na temporada 5, episódios 22, em uma conversa informal com os amigos, uma dúvida surge sobre qual animal eles seriam, Howard Wolowitz menciona que seria um canguru. Animal no qual vive dentro de uma bolsa ex-terna ao corpo da mãe, uma espécie de útero. O retorno ao útero materno como uma for- ma de cessar o sofrimento do nascimento é um ponto de discussão entre os psicanalistas: O complexo de Édipo representa, psicologi-camente, apenas a via de acesso, mais forte-mente acentuada sexu-almente, ao desejo primordial de retornar ao útero. A análise do complexo de Édipo conduz, em úl- tima ins-tância, à situação pri-mordial do nascimento, na qual o complexo tem sua base biológica (Rank, 1924, p. 19). Para Rank (1924), o trauma do nasci-mento é o caminho central para a construção neurótica, pois é atra- vés dele que o sofrimento de viver acontece. O desejo de retorno ao útero é uma ideia de cessar do so- frimento da vida, onde apenas as necessidades básicas eram pri-mordiais. Viver longe do útero materno é

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 O Arquétipo da Mãe | Wêsley William S de Oliveira 172 sofrer, logo a vida torna-se sofrimento. O desejo de retorno ao ambiente de acolhimento, nutrição, sere- nidade e segurança torna-se contínuo na vida do personagem. Para Howard, o retorno ao útero da mãe poderia ser uma porta para não viver o sofrimento que seria sua vida e seus traumas mencionados constantemente dentro da série: o abandono do pai enquanto criança e sua busca constante por um par amoroso. O personagem vive uma relação conflituosa com a mãe, mas no qual se beneficia de sua infantilização pro-porcionada e incentivada por ela. Para alguns estudiosos, como Neumann (2018), a relação mãe-filho é pautado em uma longa tentativa de conflitos, no qual o desvencilhar desse arquétipo torna-se uma desordem: O arquétipo da Grande Mãe domina não ape-nas a fase simbiótica da relação mãe-filho, mas toda a vida psíquica do indivíduo e da humani-dade. Como o incons-ciente coletivo em si, ela é o fundamento a par- tir do qual a consci-ência do ego emerge e se separa, e para o qual pode retornar em dis-solução. A luta do he-rói contra o dragão, um dos mitos centrais da humanidade, é essenci-almente a luta do ego consci- ente para se li-bertar do poder abran-gente e, por vezes, su-focante do arquétipo materno (Neumann, 2021, p. 78). A figura da mãe, torna-se presente na vida do filho não apenas enquanto bebê, mas durante toda sua jor- nada na vida adulta. Esse arquétipo materno não é um estágio superado, ele se prolonga nas buscas pela maternidade em diversas oportunidades, seja na religião, na natu-reza, nas relações que os acolhem, além da cria-tividade e das relações com as emoções. A cri-ança cria seu ego a partir de um momento de disso- lução e ruptura com a mãe, mas no qual o referenciar materno ainda se encontra presente. No entanto essa luta pela dissociação é constan-te e os conflitos podem emergir no processo da vida. Howard Wolowitz não conseguiu rom-per com o cordão que o liga a sua mãe, no qual o seu desenvol- vimento tornou-se prejudicial em sua formação e relação com suas emoções. O seu ego retornou ao seu inconsciente em um processo de fusão entre mãe-filho tornando esta relação patológica. O filho não desvincula seu consciente das vivências, dependência e experienciar de sua relação com a mãe. O arquétipo da mãe vem da ideia de provimen-to do filho, assim como sua tentativa de treiná-lo para so- breviver no mundo que o aguarda. No entanto, às vezes, essas relações sofrem uma ruptura em sua fun- ção, pois as mães perpassam por caminhos de não reconhecimento de suas funções arquetípicas. Nesses momentos, os filhos tornam-se figuras dependentes de suas emoções e movimento quanto a vida.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 O Arquétipo da Mãe | Wêsley William S de Oliveira 173 Para o psicanalista britânico Donald Winnicott (1983) a mãe traz consigo o dever de levar o filho todo os elementos necessários para sua sobrevivência ao passo que tenta torná-lo independente em suas funções quando ocorrer a falha materna. Essa teoria contrapõe a ideia de que a mãe é detentora de todas as fun- ciona-lidades da criança em sua evolução, algo per-passado socialmente e absorvido em uma for-mação arquetípica. É no processo de cisão da ideia de ilusão onipotente do bebê que ele se observa como um ser (corpo) a parte do ser-mãe. Neste momento é apontado a existência de um eu, no qual está cindindo daquele ser que fazia parte do seu todo. Neste momento, nasce o outro, a mãe. Esta ideia está integrada ao que Ja- ques Lacan (1998) chamou de o estádio do espelho: o bebê percebe que seu corpo está fundido do corpo materno, ou seja, ele vivia em um estado de alienação. O paralelo ao espelho vem de sua percepção cor- pórea ao qual a cisão de sua ima-gem a imagem da mãe acontece. A construção do eu vem de um proces- so de análise do outro, neste caso a mãe. O conceito do holding, no qual foi trazi-do por Winnicott (1983), perpassa pela ideia arquetípica da Grande-mãe. Ao perceber que a figura materna está atrelada a ideia de subsis-tência, segurança, nutrição e afeto ao bebê, logo podemos conectar a construção de um espaço pelo qual o desenvolvimento da cri- ança se faça suficiente e a mãe desempenha sua função. O conceito do holding está atrelado a construção de um espaço psíquico e físico importante e saudável ao desenvolvimento da criança em que três premis- sas importantes se constroem: previ-sibilidade, adaptação sensível as necessidades e proteção contra ins- truções excessivas. Para o ocorrer o desenvolvimento e o processo de amadurecimento espontâneo (construção do self), o ambiente tem de estar favorável a expe-riências espontâneas. O holding excessivo impede o momento de cisão da criança para com a mãe o que ocasiona a imaturidade de seu aparelho psíquico. A personagem de Mrs Wollowitz ainda mante a relação com o filho dentro do ambiente de sua casa, lo- cal ao qual o filho cresceu e permanece até a fase adulta. O ambiente físico é espaço de reminiscência e construção do seu eu, no qual faz com que o personagem não consiga se des-vincular daquele local mesmo com a morte da mãe. Ela, neste caso, não provoca a cisão entre o filho, o que ocasiona a depen- dência dele para funções básicas de sua vida: a forma de se vestir (infantil e colorida), não conseguindo construir vinculas com nenhuma mulher, atividades bási-cas de sua rotina (alimentação e locomoção) ainda sendo realizadas pela mãe.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 O Arquétipo da Mãe | Wêsley William S de Oliveira 174 No entanto, na temporada 7 (episódio 11), o personagem do filho demonstra o desejo pela morte da mãe como forma de alívio pela constante intromissão dela em sua vida. Este momento exibido expõe à von- tade no qual ele busca a liberdade e a cisão entre a Grande-mãe e seu filho em que ele encontraria paz e a si mesmo. A mãe falha pelo excesso de mediação na vida do filho e que ocasiona em uma suces-são de fracassos dele frente as adversidades exigidas pela vida adulta. O arquétipo criado da mãe enquanto fi-gura de segurança e nutrição perpassado pelo imaginário coletivo e reforçado as mulheres constantemente. No entanto, o desejo do ma-tricídio de Howard pode estar as- sociado a inter-rupção do suporte materno a sua prole, o que levaria ao extermínio da mãe pela perca de suas funções. Outra ideia, seria o amor e a destruição do objeto-mãe como incorporação dele para seu eu, assim como afirmou Freud (1905, p. 25): “Incorporar o objeto é, ao mesmo tempo, destruí-lo.” Em outras palavras, a cisão entre o filho e a mãe é um momento de desejo fantasiado pela criança. Outro fator importante a ser observado é a conjectura da figura materna como objeto do personagem mesmo em sua fase adulta. Na temporada 8 (episódio 01), ele demonstra receio da perda da figura da mãe para o personagem Stuart, no qual a mãe desperta uma possível relação amorosa. A criança, em seus primeiros momentos de vida não observa a mãe um objeto, mas ao realizá-lo constrói, dentro de sua re- lação filho-mãe, a percepção de objeto-total. Mais tarde, com a cisão completa de seu objeto de desejo e manutenção de suas necessidades básicas é demonstrado a construção do com-plexo de édipo. O ódio pelo pai e o amor pela mãe e constituído neste momento em que seu objeto sexual é colocado em perigo. Esse é o primeiro momento para a construção das neu-roses e formação do sujeito. No entanto, quan-do esse corte não ocorre há a fixação ao objeto amado: “quando o complexo de Édipo não é suficientemen- te superado, cada uma das exi-gências pulsionais que dele procedem permane-ce ativa e pode dar origem a perturbações pos-teriores” (Freud, 2011, p. 201). Como consequência da não cisão e dá não quebra da relação incestuosa criada pela criança vem a obses- são pelo objeto. Esse refe-rencial é percebido dentro da relação de Ho-ward com sua mãe. A figura pa- terna abandona o lar ao passo que a mãe é intitulada como a única figura de amor e modelo. A entrada do personagem Stuart na narrativa da família im-plicaria na imposição do complexo tardio ao persona- gem e a dor de perder o objeto desejado. 3.2.1 Leonard e Beverly Hofstadler No que tange o relacionamento e a cria-ção da imagética materna de Beverly Hofstadler, o arquétipo da mãe ganha um aspecto ambivalente. A mãe pode adquirir a função de nutrição e segurança, ao passo que

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 O Arquétipo da Mãe | Wêsley William S de Oliveira 175 pode falhar quanto ao cuidado afetivo. De acordo com Jung (2014, p. 87), “a mãe, como arquétipo, pos- sui uma multiplicidade quase infinita de aspectos”, no qual ela desperta diversas imagens e cons-truções arquetípicas no imaginário coletivo. A personagem desta mãe coloca seu fi-lho dentro de uma relação de frieza e pragma-tismo, em muitas vezes, o utilizando como ex-perimento científico. Não havendo tentativas de demonstração de afeto, lo- go criando uma mãe que não disponibiliza todas as ferramentas para o desenvolvimento emocional do fi- lho, anulan-do a subjetividade e o amparo afetivo. Esse comportamento a coloca como a mãe devora- dora e castradora, no qual “não quer o cresci-mento, a autonomia ou a diferenciação do fi-lho”, como afirmou (Jung, 2013, p. 102). Esse desenrolar criou um filho persis-tente em buscar aprovação, assim como senti-mentos de rejeição e insegurança. A constante criação de um cenário de jogos, frieza e ausên-cias de sentimentos fraternos e acolhedores justifica-se pela escolha da mãe de um ambiente pautado no logos, em detrimentos do eros. Por consequência, criando uma mãe que falha na criação imaginária emocional. Na construção de seus complexos (fun-ções pautas no imaginário coletivo e construção de experiências) a maternidade ganha panorama central na construção do ser. Para com isso, assim como elementos que constroem ambien-tes de segurança e autonomia subjetiva, o com-plexo materno negativo pode trazer instabilida-de ao ego tornando-o frágil e em busca de aprovações externas. O personagem do filho (Leo- nard) está em constante desamparo, culpa e submissão aos que o cerca, assim sendo, bus-cando em figu- ras femininas a aprovação de si, assim como a figura da mãe em uma tentativa de redenção e afeto. Na temporada 8 (capítulo 15 e 23) o fi-lho busca na mãe tentativas de receber afeto, no entanto a mãe não retribui. Em muitas vezes ela abstém dessa obrigação colocando a responsa-bilidade afetiva do filho nele mesmo, observan-do que ele deveria galgar o amor dela. A mãe imputa características perversas ao demonstra constante interesse em pessoas próximas ao filho, no entanto, o desprezando constantemen- te. A mãe com uma dinâmica perversa traz consequências significativas para a formação da criança. Ela não se afasta do arquétipo da “grande mãe” ou mãe terrível”, mas personaliza essa nova figura dentro do ar- quétipo construído no coletivo. Ela pode ser formada através de alguns aspectos: falha no holding, no reconhe-cimento do outro e perversão nos vínculos. Esse arquétipo materno se divide em dois polos: positivo e negativo:

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 O Arquétipo da Mãe | Wêsley William S de Oliveira 176 O arquétipo da Grande Mãe é, como todos os arquétipos, bipolar; isto é, abrange tanto um polo positivo, bom, quanto um polo nega-tivo, mau. O polo bom significa crescimento, fertilidade, nutrição, proteção, calor; o polo mau significa perigo, medo, sufocação, en-cantamento, morte (Neumann, 2021, p. 55). O polo positivo é colocado como o da vida, nutrição e segurança, enquanto o polo negativo está atrelado a morte, destruição, falta de afeitos e insegurança. A mãe perversa está dentro da ideia negativa do arqué- tipo, no qual ela o pessoaliza. O arquétipo é impessoal, mas a mãe má pessoaliza a ideia perversa de sua rela-ção com seu filho. Dentro da série, Leonard está em busca da aprovação de sua mãe, assim como tentando fazê-la demons- trar algum afeto. No entanto, a mãe não o coloca em um polo positivo, mas dentro da negatividade. Na temporada 11 (epi-sódio 4), o personagem liga para a mãe buscan-do e perguntando de forma de direta se a mãe sente orgulho dele e ao receber um reforço positivo ele chora. A mãe não demonstra afeição pa- ra com ele. O arquétipo da figura materna está atre-lado a polaridade das máximas da vida, o bem e o mal, no qual ela é imputada a está sempre propensa as necessidades do filho. No entanto, a polaridade negativa faz parte do desenvolvi-mento e construção do ser. A mãe irá adquirir ambas as formas buscando um equilí- brio dentro de suas funções. Contudo, o imaginário coletivo não observa ambas da mesma forma. A mãe deve estar pronta para prover filho de forma indubitável e sem questionamentos, dentro de um espectro puro e intocado. A mulher que busca o oposto disto estaria fadada ao espectro da mãe ruim, pois o filho não obtem o que deseja e necessita. Dentro da série, as figuras femininas que dedicaram toda sua vida a família e religião estão imputadas como boas mães, enquanto Beverly, uma mulher que buscou uma vida fora dos parâmetros do lar está atrelada a frieza e maldade ao filho. A série reforça um estereótipo, no qual a mãe boa é aquela do lar e dos filhos. Enquanto aquela que busca algo fora disto estaria atrelada a perversão e a não afetividade. As personagens da Sra. Wolowitz e Mary Cooper entram dentro do paradigma da boa mãe – católica, ju- dia e do lar. Na série elas são demonstradas dentro do aspecto do afeto, cuidado e segurança (A Grande Mãe), mas Be-verly Hofstadler – ateia, psiquiatra e do mundo do trabalho – está atrelada a frieza e des- cuidado (A Mãe Terrível). O reforço dessas ideias é algo presente dentro do imaginário coletivo, no qual a submissão da mãe é um dos requisitos para a grandeza dela. A mulher, no qual não se coloca dentro desses patamares, fica dentro do polo oposto ou negativo.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 O Arquétipo da Mãe | Wêsley William S de Oliveira 177 CONSIDERAÇÕES FINAIS A arte torna-se uma representação do social e de como ela é expressa em comunidade. Desde pinturas até filmes, ela prova que a hu-manidade é feita de inventividades e subjetivi-dades. Ela busca na fantasia humana uma forma de expressão em sua primazia e amago. Reco-nhecida pelo pai da psicanálise, Sig- mund Freud (2021, p,21), ela foi vista como aquela que “ofe-rece satisfações substitutivas para as mais anti-gas e ainda mais profundamente sentidas re-núncias culturais.” Os filmes, assim como as séries, torna-ram-se formas de expressão artística e a psica-nálise como objeto de estudo através delas. O tema do arquétipo materno torna-se tema de análise, no qual vai desde Psico- se, de Alfred Hi-tchcock (1960), perpassando por Tudo sobre mi-nha mãe, de Pedro Almodóvar (1999), até che-garmos em The Big Bang Theory, no qual é objeto de estudo deste artigo. Foi observado que a construção das personagens centrais (Leonard, Sheldon e Ho-ward) foram embasa- dos em relações maternas com constructo psicanalítico e passivo de estu-dos mais profundos, no qual foi perpassado um recorte dentro dos personagens maternos Be-verly Hofstadler e Mrs Wollowitz, mães de Le-ronard e Howard, respectivamente. As relações construídas com essas mães, dentro da narrativa da série, corroboram com o estudo de Carl August Jung (2011) acerca do arquétipo da mãe, sua construção e implicância na vida dos filhos. A visão formada acerca da boa mãe e a mãe ruim são perpassadas dentro das personagens de Beverly e Mrs. Wol- lowitz, no qual demonstra implicações claras na cons-trução da subjetividade dos filhos, em especial a maturidade não construída por eles. A série releva personagens dentro de um exagero em suas expressões enquanto mães. Mrs Wollowitz com o estereótipo da mãe judia superprotetora e Beverly enquanto a mãe cien-tista, no qual faz do filho seu objeto de estudo. As colocações feitas pelos filhos são de depen-dência emocional, mesmo que cria- dos em lares e formações diferentes. A mãe boa (Mrs Wol-lowitz) e a mãe má (Beverly Hofstadler), ar- qué-tipo materno Jungiano, são colocados dentro do enredo como figuras que amam e desprezam os fi- lhos a sua maneira, seja em suas atitudes de proteção e cuidado, até atitudes de rejeição. No entanto, a série reforça a ideia con-cebida socialmente, no qual a mãe reconhecida como boa seria aquela que vive dentro do lar, cuidando do filho e esperando o marido retor-nar. Logo, a mãe má estaria fora do lar, traba-lhando, longe dos filhos, assim como os colo-cando em posições de abandono. A per-

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 O Arquétipo da Mãe | Wêsley William S de Oliveira 178 sonagem da Mrs. Wolowitz ganhou o contorna da boa maternidade, pois abdicou de sua vida para a cria- ção de seu filho, enquanto Beverly ganho o contorno da má maternidade quando decidiu se dedicar a carreira e não a vida de mãe. A construção de arquétipos (construc-tos sociais de um imaginário coletivo) é refor-çada dentro da série com as personagens em estudo. No entanto, é notório que os persona-gens dos filhos se tornaram figu- ras próximas em suas personalidades mesmo com mães diferentes em suas criações. Howard e Leonard demonstram traços imaturos, carentes e em busca de aprovação constantes de suas compa-nheiras na tentativa de igualar o amor materno (presente em demasia ou ausente). A série demonstrou, dentro do estudo, que as figuras maternas Mrs Wollowtiz e Bever-ly Hofstadler são o retrato de um arquétipo da mulher-mãe. Elas ambientaram espaços de mu-lheres no qual perpassou pe- la subjetividade coletiva e reforçaram estereótipos sociais acerca da mulher que gera. As figuras femininas na série foram colocadas como personagens que antagonizam mães e filhos, mas no qual o resul-tado são o reforço da fantasia da mãe boa e má. REFERÊNCIAS FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: Freud (1901-1905) ― Obras comple- tas, v. 6: Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Análise fragmentária de uma histe-ria (“O caso Do- ra”) e outros textos. Tradução de Paulo César de Souza. Rio de Janeiro: Com-panhia das Letras, 2016. FREUD, Sigmund. A dissolução do complexo de Édipo. In: FREUD, Sigmund. O ego e o id, “Autobio- grafia” e outros textos (1923–1925). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Le- tras, 2011. FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. Porto Alegre: L&PM Editores, 2020. Freud, Sigmund. O mal-estar na civilização. 1. ed. Porto Alegre: Martin Claret, 2021. JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o in-consciente coletivo. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2011. LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 O Arquétipo da Mãe | Wêsley William S de Oliveira 179 NEUMANN, Erich. A Grande Mãe: uma fe-nomenologia das configurações femininas do inconsciente. Tradução de César Eduardo Alves. 1. ed. São Paulo: Cultrix, 2021. RANK, Otto. O Trauma do Nascimento. São Paulo: Cienbook, 2016. THE BIG BANG THEORY. Direção: Mark Cendrowski. Roteiro: Chuck Lorre, Bill Prady; Esados Unidos: Warner Bros Television, 2007 – 2019. WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Ar-tmed, 1983.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Os Feminismos na Psicanálise | Lázaro Santos Tavares 180 OS FEMINISMOS NA PSICANÁLISE: UMA ALIANÇA NECESSARIAMENTE TENSA CONTRA A LÓGICA PATRIARCAL Lázaro Santos Tavares Psicanalista Membro da Escola Freudiana – Seção Teresina (EFPT) Membro da Associação Brasileira de Bacharéis em Psicanálise – ABBP (em processo de alteração estatutária para Associação Brasileira de Bacharéis em Estudos Teóricos Psi- canalíticos e Sociais – ABBETPS, em resposta à Portaria SERES/MEC nº 3/2026) E-mail: lazarotavares.es@gmail.com | escolafreudianadeteresina@gmail.com RESUMO Este artigo defende que a relação entre os feminismos e a psicanálise constitui uma aliança paradoxal mas indispensável para uma crítica estrutural ao patriarcado. A partir da ambiguidade fundante em Freud e da formalização lacaniana do falo como significante e das fórmulas da sexuação, argumenta-se que a psica- nálise oferece, através de sua teorização sobre a falta e o desejo, os instrumentos para sua própria des- construção. O texto percorre as correções internas feitas por psicanalistas mulheres pioneiras, os diálogos contemporâneos com os feminismos interseccionais e queer, e os desdobramentos na clínica das novas configurações familiares. Sustenta-se, por fim, que a posição feminina tal como formalizada por Lacan – uma posição não-toda submetida à lógica fálica – configura uma ética singular, capaz de inspirar formas de vida que escapam aos ideais patriarcais de posse e completude. A experiência clínica e a reflexão literá- ria, com exemplos aqui articulados, corroboram essa tese. Palavras-chave: Psicanálise. Feminismos. Patriarcado. Jacques Lacan. Clínica Contemporânea.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Os Feminismos na Psicanálise | Lázaro Santos Tavares 181 1. INTRODUÇÃO: UM DIÁLOGO CONS- TITUTIVAMENTE TENSO Nos parece crucial começar afirmando: a psica- nálise nasceu machista. Nasceu em um século XIX impregnado pelas estruturas patriarcais que normatizavam corpos, desejos e lugares so- ciais. Freud, um homem de seu tempo, não es- capou a isso. No entanto, e aqui reside o ponto nodal de nossa argumentação, a psicanálise também gerou, a partir de seus próprios concei- tos fundamentais – o inconsciente, a sexualida- de infantil polimorfa, a primazia do desejo –, uma ferramenta de desmontagem dessas mes- mas estruturas. Esta é a ambiguidade radical que funda o diálogo, sempre conflituoso e sempre renovado, com os feminismos. Não se trata, portanto, de uma simples aplicação de teorias feministas à psicanálise, nem de uma defesa acrítica da tradição psicanalítica. Trata-se de re- conhecer, como bem apontou Vladimir Safatle (2018) em suas organizações sobre o tema, que o encontro se dá num campo minado de ten- sões produtivas, onde a crítica feminista força a psicanálise a rever seus pontos cegos, e a clínica psicanalítica, por sua vez, lembra a irredutibili- dade do desejo singular. A temática desarticula o clichê de uma harmo- nia apaziguadora entre feminismos e psicanálise ao sustentar a tensão como o único terreno possível para um encontro ético. Esta articula- ção rejeita o universalismo abstrato e evidencia os traços falocêntricos que historicamente per- meiam o campo analítico, compelindo a teoria a abandonar sua 'torre de marfim' para se con- frontar com as contingências políticas e sociais. Nesse sentido, o trabalho problematiza a lógica patriarcal, tratando-a não meramente como um sistema social externo, mas como uma engrena- gem de funcionamento que opera na organiza- ção do desejo, do poder e do saber. Ao desvelar os mecanismos que tentam reduzir a pluralidade do feminino ao 'Um' ou à categoria do 'falho', o texto rompe com o binarismo tradicional e sub- verte a lógica de dominação, reafirmando a clí- nica como um espaço de resistência e de escuta do múltiplo. 2. FREUD E LACAN: DO ENIGMA À FORMALIZAÇÃO DA FALTA É incontornável partir de Freud. Em textos como A Feminilidade (1933), ele cristalizou lei- turas que hoje soam como estereótipos de épo- ca: a mulher como “continente obscuro”, a in- veja do pênis como pedra angular da feminili- dade (FREUD, 1933/1996). Contudo, numa operação teórica genial, o mesmo Freud que bi- ologizou em certos momentos, inaugurou a desnaturalização do gênero. Ao demonstrar que a identidade sexual se constrói via complexo de Édipo e castração, e ao postular a bissexualida- de psíquica, ele transferiu a questão do plano do ser (homem/mulher) para o plano do desejar. A identidade tornou-se uma identificação, portan- to, algo precário, não um destino anatômico. Lacan levará essa lógica ao seu paroxismo. Se em Freud ainda há resíduos de biologismo, La- can opera uma formalização simbólica da dife-

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Os Feminismos na Psicanálise | Lázaro Santos Tavares 182 rença. Em A Significação do Falo (1958), o falo deixa de ser um órgão para tornar-se o signifi- cante privilegiado da falta, aquilo que ninguém “tem” mas a que todos estão referidos (LA- CAN, 1958/1998). A revolução lacaniana, po- rém, atinge seu ápice com as fórmulas da sexua- ção, apresentadas no Seminário 20, Mais, ainda (LACAN, 1972-73/1985). Lacan propõe ali du- as posições lógicas (não biológicas) diante do significante fálico: uma masculina, que se estru- tura pela totalização (todos são submetidos à função fálica, havendo uma exceção que a fun- da); e uma feminina, que é não-toda submetida a essa função, abrindo-se a um gozo suplemen- tar. A célebre fórmula “La femme n’existe pas” (“A mulher não existe”) é a consequência radi- cal desse raciocínio: não há uma essência uni- versal “Mulher”, há apenas mulheres, no plural, cada uma inventando sua solução singular. A psicanálise, assim, fornece a arma teórica mais potente para criticar o patriarcado, mostrando-o como uma estrutura lógica falha, incapaz de to- talizar a experiência do desejo. 3. CORREÇÕES E EXPANSÕES: AS PIO- NEIRAS E A FORÇA DA EXPERIÊNCIA Antes mesmo do diálogo teórico institucionali- zado, a prática clínica de analistas mulheres for- çou revisões. Karen Horney (1926/2009) con- testou frontalmente a inveja do pênis, sugerindo uma “inveja masculina da maternidade”. Mela- nie Klein deslocou o foco do falo para a relação ambivalente e poderosa com o seio materno. Joan Riviere (1929/2009), num artigo visioná- rio, descreveu a “feminilidade como máscara”, uma performance para circunscrever a angústia causada por desejos e ambições socialmente li- dos como masculinos. Essas mulheres não bus- cavam apenas corrigir a teoria; elas a expandiam a partir do encontro com o real da experiência. É o caso emblemático de Sabina Spielrein, que em A Destruição como Causa do Devir (1912) teorizou, a partir de seu próprio sofrimento e cura, a pulsão de morte como componente in- trínseco da transformação criativa (SPIEL- REIN, 1912/1994). Nossa experiência clínica confirma a atualidade dessas intervenções. Atendo uma jovem profis- sional extremamente bem-sucedida que, no au- ge da carreira, foi tomada por uma crise de pâ- nico e “falta de desejo”. O discurso social (e uma certa psicanálise normativa) interpretaria isso como uma recusa feminina à competição fálica. A escuta analítica, contudo, revelou outra coisa: seu sofrimento era o sintoma de um gozo suplementar que insistia e que não cabia no ro- teiro triunfante do “ter” (cargo, status, sucesso). O trabalho consistiu, justamente, em ajudá-la a não confundir esse gozo singular com uma fa- lha, mas a inventar uma nova relação com ele. Outro caso, de um homem que sofria por não corresponder ao ideal de “provedor forte”, ilus- tra o sofrimento gerado pela prisão à lógica masculina da exceção. Ele não se via como a “exceção” (o Pai primordial), mas como uma fraude. A análise o levou a questionar essa iden- tificação total com a função fálica, abrindo es-

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Os Feminismos na Psicanálise | Lázaro Santos Tavares 183 paço para um desejo menos rigidamente anco- rado nesse ideal. 4. DIÁLOGOS CONTEMPORÂNEOS: DOS FEMINISMOS FRANCESES À INTERSEC- CIONALIDADE O diálogo explícito com os movimentos femi- nistas ganhou novos contornos a partir dos anos 1970. Os chamados “feminismos france- ses” buscaram uma linguagem para o feminino fora da economia fálica. Luce Irigaray, em Spe- culum (1974/2018), denunciou o “falogocen- trismo” da psicanálise e da filosofia. Julia Kris- teva (1980/2019) pensou uma força disruptiva no “semiótico”, ligado ao ritmo e à voz materna pré-linguagem. Já o encontro com a teoria que- er, notadamente com Judith Butler, gerou um dos debates mais fecundos da atualidade. Butler (1990/2018) critica a psicanálise por suposta- mente instituir uma “matriz heterossexual” obrigatória, mas se apropria de conceitos psica- nalíticos, como a identificação e a melancolia de gênero, para forjar sua teoria da performativi- dade. A psicanálise responde, como faz Colette Soler (2005), que a categoria lacaniana do Real – aquilo que não para de não se escrever, o gozo – escapa a qualquer performatividade e consti- tui um limite à plasticidade infinita das identi- dades. Um debate atualíssimo, que ecoa nos congres- sos de psicanálise e estudos de gênero, é o desa- fio lançado pelos feminismos interseccionais e decoloniais. Eles questionam: a quem serve esse sujeito universal do inconsciente? Não seria ele, também, um sujeito abstrato, branco, europeu e burguês? O grande desafio teórico-clínico do momento é pensar como as marcas de raça, classe e colonialidade estruturam e são estrutu- radas pelo inconsciente, um campo onde a psi- canálise tradicional ainda tem muito a avançar. 5. A ESCRITA COMO ATO: O CASO LIS- PECTOR A literatura oferece um testemunho privilegiado dessas tensões. Tome-se o caso de Clarice Lis- pector, escritora frequentemente abordada pela crítica psicanalítica. Sua escrita não representa o feminino; ela o performar como um gozo que rasga a linguagem. Em A Paixão segundo G.H. (1964), a protagonista, ao se deparar com uma barata, experiencia um êxtase repugnante que a desfaz de todas as identidades sociais – a mu- lher elegante, a artista – e a lança num encontro abjeto e real com o vivo. Não há falo que orga- nize essa experiência. É um gozo feminino, no sentido lacaniano, que destrói significações e exige uma nova linguagem, cheia de hesitações, silêncios e cortes. Lispector encarna, na letra, a tese lacaniana de que há um gozo que não é fá- lico, um gozo do corpo que escapa ao signifi- cante. Sua obra é um laboratório clínico onde se testam os limites da teorização. 6. CONCLUSÃO: PARA UMA ÉTICA DO ‘NÃO-TODO’

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Os Feminismos na Psicanálise | Lázaro Santos Tavares 184 Ao final deste percurso, fica claro que a psica- nálise não é uma teoria sobre as mulheres, mas uma teoria que, ao formular a lógica do desejo e da falta, desaloja qualquer fundamento natural para a dominação patriarcal. Ela mostra que “homem” e “mulher” são posições no discurso, identificações sempre frágeis em torno de uma falta central. A grande contribuição do diálogo com os feminismos foi forçar a psicanálise a ler em si mesma tanto o veneno patriarcal quanto o antídoto. A posição feminina, tal como formalizada por Lacan, longe de ser uma desvantagem, aponta para uma ética. É a ética do não-todo, que não busca a completude imaginária, não almeja ser a exceção que tudo governa, e pode, portanto, in- ventar formas de vida e laços sociais menos pautados pela posse e pelo poder. Na clínica, is- so se traduz em não reforçar ideais normativos. A tarefa do analista é escutar a singularidade do gozo que insiste para além dos mandatos de gê- nero, ajudando o sujeito a separar seu desejo mais próprio do discurso patriarcal que o captu- rou. A aliança, portanto, é paradoxal, mas necessária. A psicanálise precisa da crítica externa e vigoro- sa dos feminismos para não se dogmatizar. Os feminismos podem se enriquecer com a sofisti- cação teórica psicanalítica sobre a constituição do desejo, evitando cair em um positivismo do gênero. Juntos, no atrito constante entre a des- construção política e a escuta do inconsciente, podem forjar ferramentas mais afiadas. A lógica patriarcal é poderosa, mas a psicanálise, em sua melhor tradição, nos ensina que ela é, antes de tudo, uma fantasia. E o destino de toda análise é, justamente, atravessar as fantasias que nos governam. REFERÊNCIAS BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 11. ed. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018. FREUD, Sigmund. A feminilidade. In: ______. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise (1933). Edição Standard Brasileira. v. XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 105-125. HORNEY, Karen. A inveja do útero. In: KEHL, Maria Rita (Org.). Psicologia das mulheres: novas leituras psicanalíticas. São Paulo: Escuta, 2009. p. 21-33. IRIGARAY, Luce. Speculum: espelho do outro mu- lher. Tradução de Maria Lúcia B. N. de Oliveira e Maria Stela G. L. Gonçalves. São Paulo: Editora 34, 2018. KRISTEVA, Julia. Poderes da horror. Tradução de Maria Carlota R. de Carvalho. Rio de Janeiro: Fran- cisco Alves, 2019. LACAN, Jacques. A significação do falo. In: ______. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 692-703. LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: Mais, ain- da. 2. ed. Tradução de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. RIVIERE, Joan. A feminilidade como máscara. In: KEHL, Maria Rita (Org.). Psicologia das mulheres: novas leituras psicanalíticas. São Paulo: Escuta, 2009. p. 35-46. SAFATLE, Vladimir (Org.). Feminismos e psicaná- lise. São Paulo: Blucher, 2018. SOLER, Colette. O que Lacan dizia das mulheres: estudo sobre a diferença sexual na psicanálise. Tra- dução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. SPIELREIN, Sabina. A destruição como causa do devir. Jornal de Psicologia Analítica, v. 39, p. 155-186, 1994.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Normas de Publicação 185 NORMAS DE PUBLICAÇÃO 1. APRESENTAÇÃO E OBJETIVOS A Revista LIANÇAS, órgão oficial de difusão científica da Associação Piauiense de Psicanálise (APP) e da Escola Freudiana de Psicanálise de Teresina, tem como objetivo publicar trabalhos ori- ginais que contribuam para o avanço do conhecimento psicanalítico em suas interfaces com a clíni- ca, a cultura, a sociedade e as demais áreas do saber. A revista aceita contribuições de psicanalistas, pesquisadores, profissionais da saúde mental e áreas afins, priorizando a qualidade teórica, o rigor metodológico e a relevância clínica e social dos traba- lhos. 2. TIPOS DE TRABALHO ACEITOS Artigos originais: Pesquisas teóricas ou clínicas, com até 30 laudas (formato A4, fonte 12, espaço 1,5). Ensaios: Reflexões teóricas consistentes, com até 20 laudas. Relatos de experiência clínica: Apresentação e discussão de casos, com até 15 laudas, garantindo o anonimato dos pacientes. Resenhas: De obras recentes (últimos 3 anos), com até 5 laudas. Traduções: De textos inéditos em português relevantes para a psicanálise, com autori- zação do detentor dos direitos. Entrevistas: Com personalidades do campo psicanalítico. 3. AVALIAÇÃO POR PARES (PEER REVIEW) Todo trabalho submetido à LIANÇAS passa por uma avaliação preliminar do Conselho Edi- torial quanto à pertinência temática e adequação às normas. Os trabalhos aprovados nes- ta etapa são encaminhados para avaliação cega por pares (double-blind review), com no mínimo dois pa- receristas ad hoc, especialistas na área. O anonimato é garantido durante todo o processo. Os critérios de avaliação incluem: originalidade, relevância teórica e/ou clínica, rigor meto- dológico, clareza e coerência argumentativa, e contribuição para o campo psicanalítico. 4. ÉTICA E CONFLITO DE INTERESSES A LIANÇAS segue os princípios éticos estabelecidos pela Declaração de Helsinque e pe- las diretrizes da Associação Psicanalítica Internacional (IPA) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP). Relatos de casos clínicos devem preservar rigorosamente o anonimato dos pacientes, utilizando pseudônimos e omitindo informações identificadoras. Os autores devem declarar eventuais conflitos de interesses.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Normas de Publicação 186 5. FORMATAÇÃO DOS TRABALHOS  Formato: Microsoft Word (.doc ou .docx) ou OpenOffice. Fonte: Times New Roman ou Arial, tamanho 12.  Espaçamento: 1,5 entre linhas.  Margens: superior e esquerda 3 cm; inferior e direita 2 cm. Extensão máxima: 30 laudas para artigos ori- ginais.  Idiomas aceitos: português, espanhol, inglês, francês.  Os trabalhos em idiomas estrangeiros devem vir acompanhados de versão em português ou resumo ampliado em português. 6. ESTRUTURA DO TRABALHO Os artigos devem conter obrigatoriamente: Título (em português e inglês); Nome(s) do(s) autor(es) com filiação institucional e e-mail; Resumo (até 250 palavras) e palavras-chave (3 a 5); Abstract (até 250 palavras) e keywords (3 a 5); Texto principal (com introdução, desenvolvimento e considerações finais); Referências bibliográficas em norma ABNT NBR 6023:2018. 7. DIREITOS AUTORAIS E PUBLICAÇÃO A submissão do trabalho implica a cessão dos direitos autorais para publicação na LIANÇAS, bem como a declaração de que o trabalho é original e não está sendo avaliado simultaneamente por outro periódico. Os autores mantêm os direitos sobre o trabalho e podem republicá-lo posteriormente, desde que citada a publi- cação original na LIANÇAS. A revista não paga direitos autorais nem cobra taxas de submissão ou publicação (APC). 8. PERIODICIDADE E SUBMISSÃO A LIANÇAS tem periodicidade semestral, com publicação em junho e dezembro. Os trabalhos podem ser submetidos continuamente pelo e-mail: escolafreudianadeteresina@gmail.com Para mais informações, consulte o site: www.liancas.app.psi.br (em implantação). 9. EXEMPLO DE REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA (ABNT NBR 6023:2018) FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. 700 p.

ISSN: XXXX-XXXX Revista Lianças | Ano 1 | Número 1 | 2026 Normas de Publicação 187 LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Tradução de M. D. Magno. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988. 277 p. DUNKER, Christian Ingo Lenz. Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros. São Paulo: Boitempo, 2015. 416 p. 10. CONTATO Associação Piauiense de Psicanálise (APP) Rua Lisandro Nogueira, 1625, Edifício Susana Center, Sala 18, Centro, Teresina, PI. CEP: 64.000-200 E-mail: escolafreudianadeteresina@gmail.com . Roteiro de avaliação dos artigos 1. Título claro e preciso sobre o conteúdo do artigo. 2. Resumo claro e preciso sobre o conteúdo do artigo, contendo no máximo 250 palavras. 3. Palavras-chave adequadas ao conteúdo, em número máximo de cinco. 4. Abstract e Keywords conforme instruções. 5. Normas para citações e referências conforme instruções. 6. Relevância do tema. 7. Clareza de pensamento. 8. Consistência e coerência na fundamentação teórico-metodológica do trabalho. 9. Linguagem, considerando objetividade, estilo e correção. 10. Aspectos éticos de acordo com a Resolução CNS 196/96 sobre privacidade e anonimato das pessoas envolvidas, e declaração de conflitos de interesses. 11. O artigo deverá conter conclusão ou considerações finais Conselho Editorial: Aurenice Pinheiro Tavares Lizanete Caedoso Santos Maria Helena Barbosa Chiappetta Nathecio Nathanael dos Santos Quizânior de Oliveira Andrade

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189 LIANÇAS Revista da Associação Piauiense de Psicanálise Edição nº 1 | Ano 1 | 2026 Editoração: Lázaro Tavares Local: Teresina, Piauí Data: 2026 Tipografia: Garamond) Instituição: Associação PiaLuiense de Psicanálise (APP) Esta edição é uma publicação de circulação interna da APP. Teresina, Piauí - 2026