Dedicatória Dedico este livro à minha mãe, Sueli, minha eterna doutora em esperança, que com seu sopro de amor sempre soube transformar qualquer ardência em coragem. Aos meus irmãos, Nívia, Vanessa e Daniel, com quem dividi o terreiro, as roupas, os "trem" e as risadas que ecoavam sem pedir licença. A fartura da minha vida sempre foi a nossa sensação de pertencimento ao redor da mesa. À minha sobrinha Alice, semente de esperança. Vocês são as minhas raízes mais profundas.
Prefácio: Entre o Giz e o Carro de Boi Escrever, para mim, nunca foi escolha. Foi necessidade. É o que faço quando a fala emperra e o coração fica grande demais para caber no peito. Este livro é a minha escavação: um remexer de lembranças que não couberam em papel nenhum, mas que continuam vivas, inteirinhas, em mim. Aqui, você vai encontrar a menina que cresceu num terreiro de chão batido, onde o mundo se resolvia num “leite com angu” e o “Merthiolate” ardia menos que o sopro da minha mãe — essa mulher que, sem diploma, era doutora em esperança. Vai ouvir o rangido da madeira do carro de boi do meu pai, o carreiro que me ensinou que a roça não sai da gente, mesmo quando a vida empurra para longe. Mas este livro não é só passado. É mudança. É a história da mulher que precisou vencer a si mesma, trocando a pele de menina pela coragem de quem descobriu o próprio dizer. É o relato da operária que, no chão da sala de aula, segura o giz como quem segura o destino — oferecendo dignidade e o “impensado” a quem ainda nem sabe sonhar o próprio futuro. Entre janelas que guardam lembranças e potes de sorvete que viram utilidade no dia a dia, deixo aqui minhas raízes. Que elas cheguem a você como quem chega na varanda à tarde: devagar, com verdade, trazendo memória boa e esperança acesa.
Raízes izem que manga com leite mata. Que assobiar na quaresma chama cobra. Que sapato virado mata a mãe. Que dormir com o pé descoberto chama morto. Não importava o calor: tinha que cobrir o pé — às vezes até descobrir o pescoço só para que os pés ficassem protegidos. E aqueles cobertores curtos tinham nome certeiro: tomara que amanheça! Também contavam que um homem que comeu “garrolê” morreu — história que ninguém podia contestar, porque quem testasse não estaria vivo para desmentir. Talvez por isso tanta gente tenha ficado muda diante das próprias lembranças. Eu, que sobrevivi a tudo isso, sigo aqui, carregando no bolso um punhado de histórias que não couberam nos livros, mas cabem inteiras no coração. Cresci numa época em que a ciência ainda dividia espaço com a sabedoria popular, e ambas conviviam sem brigar. Era possível acreditar no microscópio e, ao mesmo tempo, respeitar o conselho da avó. A vida era uma travessia entre mundos: o da razão e o da crença, o da escola e o do quintal, o do futuro e o da memória. Talvez por isso minhas lembranças tenham cheiro de casa cheia. De primos correndo, de irmãos disputando a mesma roupa — porque chinelo ninguém tinha mesmo. A gente não lavava a louça, lavava os trem. E o mundo cabia num terreiro de chão batido, onde a gente chutava bola descalço, sem medo de ferida. Bastava água, sabão, Merthiolate (o terror da criançada, que ardia mais que o machucado) e um sopro de mãe — aquele carinho quente de amor — para a ardência virar coragem e a dor se transformar em história. D
E havia as comidas simples, que hoje parecem quase poesia. Leite com farinha, que fazia a gente se sentir o ser humano mais feliz do planeta. Leite com angu, privilégio de quem sabia encontrar alegria no que não custava caro. Cada colherada era um abraço, uma promessa silenciosa de que tudo daria certo. Nossos pais e avós, mesmo sem diploma, eram doutores em esperança. Plantavam em nós a certeza de que o estudo mudaria nosso destino, de que o futuro seria mais largo, mais bonito, mais nosso. E nós acreditamos. Caminhamos. Mudamos. Fizemos por eles o que eles sonharam por nós. Mas, na pressa de crescer, cometemos uma pequena omissão, porém profunda: deixamos de plantar a mesma esperança nos que vieram depois. Esquecemos de repetir as histórias, de encher a casa, de servir as comidas que aquecem mais a alma do que o estômago. Perdemos o hábito de ensinar que a felicidade também mora no simples. Talvez ainda dê tempo. Talvez a chama que recebemos — pequena, mas teimosa — ainda esteja acesa em nós. Que ela possa iluminar o caminho da nova geração, lembrando que futuro nenhum floresce sem memória. E que esperança, quando compartilhada, nunca se apaga. Que nossas memórias criem raízes e continuem espalhando a esperança daqueles que lançaram a primeira semente.
Fui carreiro, sou caminho i a luz em 1944, quando o mundo ainda andava devagar, e o tempo parecia se espreguiçar entre os dias. A casa era simples, mas cheia de vida: irmãos mais velhos já com sonhos de gente grande, irmãs caçulas que chegariam depois, e eu, pequeno, grudado na barra da saia da mamãe e no passo firme do papai. Brinquedo de loja? Não. Meu mundo era feito de sabugos de milho transformados em carros, bois imaginários e aventuras no mato. Foi ali, entre o cheiro da terra, o latido de cães caçadores (alimentados com angu) e os rodeios no circo — nos quais eu montava em boi bravo —, que nasceu o amor pelos animais. Mas havia um som que me encantava acima de todos: o rangido do carro de boi. Madeira cantando com força, como se a terra tivesse voz. Tornei-me carreiro. Tirava “tarefa” como os adultos. Plantava arroz na várzea e enchia o carro só para ouvir seu canto. Os bois tinham nome e alma: Marinheiro e Violão guiavam com inteligência; Brinquinho e Brioso puxavam com bravura; Mercante e Mulato seguravam firme nas descidas. Cada um com sua função, cada um com sua história. Tinha também uma mula com peitoral de argola — um luxo! E, mesmo sem Ferrari, me sentia rico, principalmente daquilo que o dinheiro não podia comprar. Meu transporte era um burrinho, no qual montava para ir à escola, com o coração cheio de orgulho e os pés sujos de chão. V
Na juventude, a praça redonda da cidade virou palco de paqueras. Dávamos voltas no “redondo” como quem gira o tempo, esperando um sorriso, um olhar, um amor. Se aquele chão falasse, contaria histórias de corações acelerados, de amores vividos e desfeitos — inclusive os meus. A vida, como o carro de boi, seguiu seu rumo. Fui da roça para o caminhão. Troquei o canto da madeira pelo ronco do motor, mas continuei guiando — agora pelas estradas do Brasil. Casei-me com uma mulher forte, dessas que sustentam o lar com coragem e criam filhos com amor. O caminhão virou sustento, estrada e lar. Mesmo longe, eu estava presente: no exemplo, nas palavras, no afeto. Nunca neguei minha origem. A roça mora em mim, mesmo quando estou longe dela. Carreei pelo Brasil inteiro, levando cargas e sonhos. Conheci cidades, pessoas, histórias. Mas nunca me esqueci do meu primeiro carro de boi. Hoje, quando a memória se cansa e os dias se recolhem, ainda escuto aquele som. E em pensamento, falo pela última vez: “Fasta, Marinheiro! Violão! Brinquinho! Brioso!” — como quem se despede com gratidão. Deixo, a quem ler esta crônica, um pedaço de esperança: que nunca se esqueçam de si, nem se envergonhem de suas raízes. Porque, às vezes, tudo começa com um simples carro de boi — e a vida nos leva mais longe do que podemos sonhar. Em memória de Joaquim (o eterno “Zé Carlos”), meu pai; um homem alegre, amoroso e trabalhador que, entre o rangido do carro de boi e o ronco do motor, ensinou-me a esperançar.
As Bordas do Tempo uando a gente percebe, a vida passou — e já são seis horas. O relógio insiste em avançar, mesmo quando tentamos segurá-lo pelas bordas. E aquilo que deixamos no passado, às vezes com pressa, às vezes com alívio, vira justamente o que mais gostaríamos de revisitar. O tempo correu, a vida mudou de marcha, os costumes se reinventaram. Ainda assim, há memórias que permanecem intactas, como se estivessem guardadas em algum canto luminoso da casa. Eu me lembro do barulho da casa cheia, das risadas que ecoavam sem pedir licença, das crianças amontoadas em um único colchão, rindo até que o sono as vencesse. Naquela época, eu sonhava com a vida adulta. Achava que liberdade era não ter ninguém mandando em mim, ter o meu próprio dinheiro, poder fazer o que quisesse. Mal sabia eu que a liberdade verdadeira estava ali, escondida entre as regras simples impostas pelos nossos pais — normas que, no fundo, nos protegiam do peso do mundo. Hoje, já são seis horas, e o que ficou para trás só pode ser recuperado pela memória. Lembro da compra do mês: o iogurte era o evento, a pressa em comer era o jogo. Hoje entendo que a fartura não estava no que se consumia, mas nas vozes que se atropelavam ao redor da mesa. A sensação de pertencimento era o verdadeiro banquete. O que mais dói, porém, é perceber o tamanho das panelas. Elas encolheram. As panelas de hoje comportam a correria, o jantar rápido e o prato individual, mas perderam a capacidade de abrigar as Q
conversas que atravessavam a madrugada. Diminuíram como diminuíram os encontros; hoje abrigam a pressa, mas não a leveza que tínhamos quando nossos pais decidiam por nós — e nós apenas vivíamos. A vida segue, como sempre seguiu. Mas quando o relógio marca seis horas e o silêncio da casa se torna nítido, volto para onde tudo era imenso: a casa, as panelas, as risadas. E percebo que, enquanto tinha pressa para crescer, eu era, sem saber, livre.
Utilidades Muitas são as utilidades das coisas: Um pote de sorvete, Vira pote de feijão. As vasilhas podem conter As mais variadas coisas, Os mais diversos sabores. Às vezes, até azedam Esquecidas no fundo da geladeira... Mas e as pessoas... Que utilidade terão? Talvez sirvam para fazer Aquilo de que não gostamos Ou quando somos vencidos Pelo cansaço... Elas têm muita utilidade em sua vida... Na maioria das vezes, tornam-se até invisíveis. Só percebemos sua falta Quando o “fazer” está em primeira pessoa... E você? Tem dado valor a elas? Ou será que é você Quem tem sido “utilizado”?
Não Há Tempo... Para perdão Para arrependimento Para despedidas Para um pensamento Não há tempo... Para memórias Sonhos Para uma nova chance Para recomeços O hoje é agora E só ele existe... Imutável é o passado O futuro não foi vivido Então, faça as pazes Consigo mesmo Com a família Com a vida Com Deus Porque não há tempo No segundo que existe Entre a consciência E a morte.
O Prumo do Tempo O joão-de-barro olhou o céu como quem decifra sinais antigos. Mediu o vento, escolheu o lado e ergueu a casa com o que a natureza lhe oferecia, construtor nascido da própria sabedoria do tempo. Ao observar esse gesto, você entendeu o aviso: a porta da sua vida estava aberta para o lado errado. Virou a casa, firmou o prumo e se mudou para dentro de si, onde o vento não mais governa.
Vencer-se Já passei por muitas fases da vida de uma mulher. Primeiro, fui educada: generosa, boazinha, calma. Em tudo, cedia. Não tinha vontades, ou voz. Depois, fui arteira, elétrica, despojada. Diziam que parecia um moleque, porque precisava dissipar a energia contida em mim. Mais tarde, fiquei chata, preguiçosa, confusa, perdida entre tantas mudanças que aconteciam em mim. Meu corpo, que antes espichava, passou a moldar novas formas. Meus cabelos mudaram, e a pele de menina se despediu. Vieram transformações, às vezes, suaves, às vezes, desagradáveis,
enquanto tentava entender o que acontecia em mim. E o tamanho? Nunca foi determinado. Grande demais para o parquinho, pequena demais para sair sozinha. Novo corpo, nova pele, novos cabelos… mas pensamentos desencontrados. Ainda caminho em direção a mim, porque continuo incompleta, e é assim que sigo inteira. Sigo o fluxo da vida, passando por cada transformação que, de algum modo, me aproxima de quem sou. E, entre todas as fases, percebo algo essencial: eu tenho voz. Cabe a mim usá-la para dizer sim, para dizer não, para dizer o que desejo.
Minha voz pode expressar indignação, mas também oferecer conforto aos que ainda não encontraram a própria. Minha força não veio de fora: nasceu em mim, cresceu comigo. Hoje, compreendo o propósito de cada transformação sofrida. Mas não deixei de mudar. Hoje, escolho quando falar e quando calar. Escolho as batalhas que quero lutar. Já percebi que não posso mudar o mundo, e que ele nem sempre me valoriza, por eu ser “apenas” uma mulher vivendo a melhor fase da vida: a de quem ainda está aqui, que resistiu, não ruiu e ainda tem muito a oferecer. Agora, meu caminhar é outro. Quem quiser me encontrar
virá até mim. E encontrará uma mulher diferente: menos frágil, mais vivida, mais sofrida, mais inteira. Uma mulher guerreira.
A Faca do Silêncio oje luto com as palavras, mas já lutei contra elas. Lutar contra foi o tempo das feridas, quando eram facas ou prisões. Lutar com elas é o meu agora: o esforço de lapidar o que sinto para encontrar o termo exato que acalenta. Mas a luta mais difícil ainda é lutar sem elas — enfrentar o deserto do silêncio, onde a ausência pesa e o coração carrega sozinho. Foi nessa arena que descobri que a palavra mais difícil de ser dita é “ajuda”, porque exige desarmar a alma para que o outro possa entrar. No fim, eu nunca soube o que doía mais: as palavras no lugar errado ou o silêncio ocupando o espaço delas. Palavras se dizem de muitas maneiras — com um olhar, um sorriso, uma lágrima — e, uma vez liberadas, jamais voltam atrás. Saem da prisão como pássaros que nem sempre acertam o alvo; muitas vezes giram no ar, perdidas, até encontrar onde pousar. Embora algumas machuquem ou irritem, são as valiosas que nos mantêm de pé. Podem ser macias como um travesseiro, ter temperatura e até perfume. Há palavras com cheiro de café coado, como “presença”, que aquece a alma antes mesmo de ser pronunciada. Entre a tristeza da saudade e a alegria do reencontro, existem frases que servem de abrigo — como um “estou aqui com você”, capaz de apagar da memória o que um dia nos feriu. Hoje, já não permito que a faca do silêncio dite o ritmo dos meus dias. Prefiro o risco de falar à segurança de me calar. Porque, no fim, o que nos salva não é o silêncio que isola nem a palavra que corta, mas aquela que, como um pássaro valente, finalmente acerta o alvo do afeto. H
Insubmissos Somos todos operários: Fazedores de amanhã. Não nos rendemos às derrotas, Permanecemos na batalha. Lutamos de formas diferentes: Empunhamos livros, Canetas, Cadernos E giz. Oferecemos futuro, Vislumbres do passado, Oportunidades, Escolhas. Também ofertamos dignidade Àqueles que ainda não a tinham. Oferecemos futuro, Daquele não sonhado. O impensado Torna-se possível. Somos todos operários! No chão da sala de aula, Empunhamos O que não se vende, O que não se rende,
O que ninguém consegue aprisionar. Empunhamos Esperança.
Auroras em suspensão á dias em que até as janelas parecem cansadas. Não por falta de função, mas por excesso: infiltração, peso, futuro demais entrando sem pedir licença. A gente costuma pensar nelas como frestas de claridade, molduras de suavidade, instrumentos de temperança. E continuam sendo. Só que, ultimamente, muita gente prefere não notar o que elas revelam. Porque, às vezes, a janela traz a falta. Traz aquela memória que insiste em permanecer, que se recusa a ser varrida para debaixo do tapete do tempo. E então ela escorre — não a janela, mas aquilo que transborda por trás dela. Escorre em busca de alívio, mesmo que momentâneo, mesmo que desconfortável. Desconfortável para quem sente e para quem assiste, porque, nesses momentos, pouco há a fazer além de esperar. E enquanto se espera, pode ser que as lembranças ruam. Pode ser que a própria janela não aguente a pressão. Há estruturas que cedem, há vidros que racham, há molduras que já não seguram o que um dia seguraram com facilidade. Mas também há o outro lado — aquele que nem sempre lembramos quando o transbordamento começa. Se as janelas forem apoiadas, reforçadas, cuidadas com a paciência que raramente temos com nós mesmos, algo muda. Não de imediato, não como mágica, mas no tempo próprio das coisas que realmente importam. E então, um dia, sem aviso, surge uma nova aurora. Não igual às anteriores, mas igualmente bela. Uma claridade que não fere, que não invade, que apenas se derrama com delicadeza sobre o que ficou. E é nessa luz que se tornam visíveis novas experiências, novos H
viveres — inclusive aquelas memórias antigas, que antes faziam a janela transbordar. Agora elas cabem. Agora elas pertencem. Porque o apoio acolhe a alma. E, quando isso acontece, até a dor encontra um lugar onde pode finalmente descansar.
Florescência A essência da flor, A flor da essência. As fases até a maturidade São cheias de sentidos guardados; A cada avanço, uma mudança, A cada passo, um recomeço. Serão estas as estações À espera do momento de firmar as raízes Até poder florescer? E passam por cada uma: O verão que acolhe, O outono que abranda, O inverno que prova, Até, enfim, chegar a hora… Com raízes fortalecidas, Surge a primeira flor, Amplamente esperada, Pouco percebida, Quase sem valor. E quando a primavera passa E as flores se recolhem, Muitos pensam que acabou E não enxergam o processo De transformação Que engrossa as raízes, Sopra força e vida Até que alcance A sua própria florescência.
Entre Risos e Hormônios aro leitor, Antes de começar, deixo um aviso: este é um manual de sobrevivência para professores — bem diferente dos saberes pedagógicos que buscamos em cursos e universidades. É indicado para quem, como eu, um dia pisou numa sala de aula cheia de esperança e conhecimento, cercado por olhares ávidos pelo aprendizado, mas sem qualquer experiência no “chão da escola”. Houve um tempo em que os anos letivos ainda eram chamados de séries, e eu era apenas uma professora recém-chegada, cheia de boas intenções e pouquíssima prática. Naquele dia, a turma da 3ª série estava completa: trinta e cinco crianças, nenhuma falta — uma façanha digna de registro. Tudo corria bem até começar a aula de Ciências. Enquanto alguns ainda terminavam a tarefa de Língua Portuguesa, entreguei o livro de Ciências aos que já haviam acabado, imaginando que a leitura aleatória os manteria ocupados. Todo professor sabe o que acontece quando crianças ficam ociosas: a imaginação trabalha mais rápido que qualquer planejamento pedagógico. A teoria não nos ensina isso; é a prática que cobra o preço. Foi então que notei algo curioso. Os alunos atrasados — aqueles que sempre demoravam — terminaram a tarefa num piscar de olhos. Um deles levantou a mão, empolgado, pedindo para também folhear o livro. Encantada com o súbito interesse e acreditando na minha técnica (quanta inocência…), autorizei. O burburinho começou discreto: um cochicho aqui, uma página aberta ali, uma risadinha abafada. Olhos arregalados, mais C
risadinhas, e logo a sala inteira parecia conspirar em segredo. Eles tentavam disfarçar, mas a curiosidade infantil é barulhenta por natureza. Aproximei-me, discretamente, de um aluno distraído. Bastou um olhar sobre a página aberta para entender o motivo da euforia: uma ilustração de um menino e uma menina, nus — cientificamente nus —, explicando as mudanças do corpo na passagem da infância para a adolescência. Respirei fundo e decidi agir como a adulta responsável que eu supostamente era (ou, pelo menos, que acreditava ser na época). — Não entendo essas risadinhas — comecei, tentando parecer firme. — Esse é um assunto sério. Todos vocês vão passar por essas mudanças. É importante estarem informados para chegarem à adolescência preparados. Como se alguém, algum dia, estivesse realmente preparado para a adolescência. As risadinhas diminuíram, mas não desapareceram. Até que um dos alunos — justamente o atrasado cuja autorização tardia eu havia dado — levantou a mão. Deixei que falasse. — É verdade, tia! Não podemos ficar rindo disso! Todos nós vamos ficar assim um dia, né?! E você já é assim, não é mesmo, tia?! A sala inteira silenciou. Trinta e cinco pares de olhos se voltaram para mim e, depois, para a ilustração. Por um instante, senti como se eu mesma estivesse ali na página, congelada na puberdade e exposta à análise científica da turma. Antes que o rubor me entregasse por completo, encerrei o assunto com a maior dignidade que consegui reunir: — Nossa aula de Ciências acabou. Abram o caderno de Matemática.
E assim terminou a aula — não com grandes descobertas científicas, mas com a minha dignidade tentando se recompor enquanto as últimas risadinhas escapavam pelos cantos da sala. Aquele dia me ensinou que, na escola, quem aprende primeiro a lidar com surpresas é sempre o professor, especialmente quando o inesperado vem ilustrado e acompanhado de trinta e cinco pares de olhos curiosos. Descobri que a educação não acontece só nos livros: ela se esconde nos cochichos, nos silêncios súbitos, nas perguntas que nos pegam desprevenidos e, às vezes, na necessidade urgente de mudar de assunto para a exatidão dos números. Se este fosse um manual, talvez este capítulo se chamasse: Como sobreviver à puberdade alheia sem perder a compostura (ou fingindo que não a perdeu). Mas não é um manual. É apenas a memória — viva, imperfeita e bem-humorada — de uma professora que aprendeu, cedo demais, que ensinar também é rir de si mesma. E sobreviver. Apesar do rubor, sempre sobreviver.
Remendar-se Eu vejo você No alvorecer, Na noite mal dormida, Na noite não dormida, No esforço em continuar. Conheço seus medos e incertezas, Suas angústias... Sei que é terrível ter o coração na palma das mãos Ao pegar um ônibus, Percorrer um caminho a pé, sozinha, Estar em meio a desconhecidos Esperando, talvez, o fim do dia Ou o dia final, Que não se sabe se chegará... Vejo seu medo do assédio... Daquele abraço mais caloroso Que você não queria receber; De que um dia deixe de ser abraço E se torne opressão. Conheço sua voz, Suas palavras engolidas, Removidas Pelo medo da interpretação. Conheço até seus silêncios...
Vejo seus sonhos, Desencantos, Desalentos, Esperanças. Vejo essa fadiga Que insiste em permanecer... Que vem consumindo O seu alvorecer. Mesmo assim, insiste Em recomeçar, Refazer, Remendar: Sonhos desesperançados, Medos esgarçados, Sentimentos intocados... O que há para fazer? E renova suas forças Nessa ânsia E necessidade De lutar contra si mesma E fazer, de cada dia, Uma vivência melhor.
Coragem para o Amanhã ão, de modo algum quero ser pedra no seu caminho. Não quero ser o peso que faz parar, nem o incômodo que obriga a desviar. Cada pessoa carrega seus próprios passos, seus próprios calçados, suas próprias dores — e, porque somos tão diferentes, jamais poderemos medir ou julgar a jornada de alguém. Mas de uma coisa eu sei, com a serenidade de quem já se olhou por dentro: não quero ser pedra. Prefiro ser ponte. Ponte que acolhe, que sustenta, que atravessa. Ponte que permite o encontro entre o que você foi e o que ainda pode ser. Quero que você passe por mim e siga adiante, mesmo que, às vezes, não perceba o quanto a travessia exigiu coragem, esforço, renúncia. Ser ponte é aceitar que o presente pede movimento. É entender que o futuro só se revela quando abandonamos aquilo que já não nos serve. A ponte exige mais de nós do que a pedra — porque a pedra impede, mas a ponte convida. Convida à mudança, ao risco, ao salto. E ser ponte não é ser passivo. É ser estrutura. É ser escolha. É ser presença que não prende, mas que sustenta. É ser caminho que não exige retorno, mas que celebra a travessia. A ponte sabe que nem todos que a atravessam vão olhar para trás. Nem todos vão reconhecer o quanto ela suportou. Nem todos vão perceber que, sem ela, talvez não houvesse passagem. Ainda assim, a ponte permanece. Não por necessidade de aplauso, mas por compromisso com o que é. Porque ser ponte é ser fiel à própria essência: conectar, transformar, permitir. N
E então, diante de tudo isso, a pergunta permanece — não como cobrança, mas como convite: qual é a sua escolha? Eu já fiz a minha. E nela, eu me encontro.
Ciclos que se encerram antes do que pensamos Alice Vasques Figueiredo Ribeiro Quando eu era pequena, minha mãe sempre dizia que todos nós passamos por um ciclo. Eu nunca entendi muito bem o que era esse ciclo, para mim era nascer, crescer e morrer. Mas, conforme o tempo, percebi que esse ciclo era muito mais do que isso. Quando eu era criança, eu ouvi falar de muitas pessoas que faleceram. E para mim estava tudo bem, eu não entendia o que era morrer mesmo, não entendia o que as pessoas sentiam quando perdiam alguém importante para elas. ATÉ EU SENTIR O MESMO. Há um ano, eu perdi alguém muito importante, alguém que acompanhou meu crescimento, alguém que fez parte da minha história, alguém que me apoiou em tudo que fiz, ou planejava fazer. E foi naquele dia que eu entendi o que realmente era perder alguém que você amava. O sentimento de você querer mostrar que você conseguiu, de que você finalmente tem aquilo que tanto desejava, mas só olhar para o céu e dizer eu consegui! Mas não ter aquela pessoa para te aplaudir e para pular de alegria junto com vc. Hoje só me restas lembranças, boas lembranças, que me fazem querer honrar esse sobrenome até o fim. Obrigada por tudo, vovô JOAQUIM!
Que as sementes que você tem plantado em sua vida cresçam fortes, enraízem, virem tronco e flor. E que você saiba olhar para cada uma delas, acolhendo e aceitando a trajetória que um dia lhe dará flores e frutos.