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VESTIRModa e Sustentabilidade Repensar o consumo consciente, para uma moda mais responsável. Quando vamos problematizar o descarte indevido? “Reconhecer o valor do que já existe”.CULTURA LATINA DESCARTE TÊXTIL JULHO/AGOSTO 2026Identidade e BiodiversidadeRaízes
EQUIPE/PRODUÇÃO EVELIN SOUSA - @EVELIN_SDS MARIA THAMIRES - @MARIASQCH ANA VITÓRIA ALVES - @ANAA_VTR7 LUCIANA DOS SANTOS - @TERTOLUCIANADOSSANTOS ORIENTADORES ALÊ FILHO - @ALEFILHOC STEFANI ALVES - @OPENTE COLABORADORES MODELO: CAROLINA GERVAZ - @CAROLINAGERGAZ BELEZA ESTÚDIO: FLORA AMARILIS - @PINK_HEATHER_ BELEZA EXTERNO: LUI - @LUYESSS MARCAS DE VESTUÁRIO: MARGINALIAS - @MARGI.NALIAS CAROLINA GERVAZ - @CAROLINAGERVAZZ ACESSÓRIOS: BLING NAIPE - @BLINGNAIPE ISSO ELIZ - @ISSOELIZ CRUZ DE SOUSA - @CRUZDESOUSA.BR FOTÓGRAFO EXTERNO: CRISTIANO - @CRIS_ROXY FOTÓGRAFO ESTÚDIO: MARIA THAMIRES - @MARIASQCH MAKING OF: MARIA THAMIRES - @MARIASQCH LUI - @LUYESSS KETLYN - @KETLYNVW EDIÇÃO DE VÍDEO: EVELIN S S @EVELIN_SDS EDIÇÃO/TRATAMENTO DE FOTOGRAFIA: MARIA THAMIRES - @MARIASQCH LUCIANA TERTO - @TERTOLUCIANADOSSANTOS SENAC SÃO MIGUEL PAULISTA FICHA TÉCNICA
SUMÁRIO 1.CARTA EDITORIAL 2.FOTO EDITORIAL 3.CAMPANHA: Berimbau 4.FOTO EDITORIAL 5.ENTREVISTA: Karina Concílio 6.ENTREVISTA: Karina Concílio 7.ENTREVISTA: Karina Concílio 8.ENTREVISTA: Karina Concílio 9.MATÉRIA TÊXTIL 10.FOTO EDITORIAL 11.ENTREVISTA: RK Araújo e Storm - Marginálias 12.ENTREVISTA: RK Araújo e Storm - Marginálias 13.FOTO EDITORIAL 14.ENTREVISTA: Naor Henrique 15.ENTREVISTA: Naor Henrique 16.ENTREVISTA: Naor Henrique 17.LOOKBOOK 1 18.LOOKBOOK 2 19.LOOKBOOK 3 20.CONTRACAPA
estir é mais do que cobrir o corpo. É carregar histórias, memórias, territórios e identidades. É escolher aquilo que queremos dizer sem precisar pronunciar uma palavra. Vestir Raízes nasce desse entendimento: o de que a moda pode ser também um espaço de reflexão, pertencimento e transformação. Em uma sociedade marcada pelo consumo acelerado, pela produção em excesso e pelo descarte constante, esta revista propõe uma pausa. Um olhar para aquilo que existe antes e depois da roupa. O descarte têxtil não desaparece quando deixamos uma peça para trás. Ele permanece no mundo, acumulando-se em aterros, desperdiçando recursos e revelando as consequências de uma indústria que, muitas vezes, produz mais do que precisamos. Questionar esse ciclo é também questionar nossos próprios hábitos de consumo. Mas falar sobre sustentabilidade não precisa significar olhar apenas para o futuro. Podemos olhar para nossas raízes. A América Latina é território de encontros. De povos originários, culturas ancestrais, diásporas, saberes populares, cores, texturas e histórias que atravessaram gerações.V É um território profundamente conectado à natureza, onde a floresta não representa apenas uma paisagem, mas um organismo vivo, uma memória e uma fonte de conhecimento. É compreender que uma peça de roupa pode ter mais de uma vida. Que aquilo que foi considerado descarte pode se tornar matéria novamente. Que criar também pode significar transformar, recuperar e cuidar. Esta revista não pretende apresentar a sustentabilidade como uma tendência passageira. Pretende tratá-la como uma responsabilidade coletiva — e, principalmente, como uma possibilidade de mudança. Para vestir não apenas o corpo, mas também a memória, a identidade e o compromisso com o lugar que chamamos de casa. Que esta revista seja uma caminhada por essas raízes. E que, ao percorrê-las, possamos descobrir novas maneiras de criar, consumir e existir. Porque toda roupa tem uma origem. Todo descarte deixa uma marca. E toda escolha pode ser uma semente. Carta Editorial
LATINIDADESLATINIDADES
UPCYCLINUPCYCLIN
Karina ConcílioENTREVISTA Professora no Senai Brás - Têxtil e Moda, atuante a 29 anos na Indústria Têxtil especializada em malharia e em máquina retilínea. Ao longo da sua experiência na indústria têxtil, quais mudanças nos processos de produção você percebeu que mais contribuíram para o aumento ou diminuição da geração de resíduos têxteis? Entre a produção e o desperdício: os desafios da indústria da moda Na indústria da moda, o corte aparece como um dos principais gargalos da produção e também como um dos pontos de maior geração de resíduos. A busca por processos mais eficientes tem levado empresas a incorporar tecnologias capazes de reduzir o desperdício de matéria-prima. Segundo a entrevistada um exemplo é a utilização da máquina retilínea, que permite que as peças sejam produzidas praticamente prontas, com detalhes como cavas e decotes já definidos. Embora o processo reduza o consumo de fio e a quantidade de resíduos, ele também exige mais tempo de produção, evidenciando o desafio de equilibrar produtividade, uso de recursos e sustentabilidade. Outro ponto crítico está relacionado ao tingimento e às mudanças constantes nas tendências. Em grandes produções de peças básicas, o volume permite maior aproveitamento dos tecidos entre diferentes modelos. Já quando uma determinada cor ou produto se torna tendência, os estoques existentes podem não atender à nova demanda, levando à necessidade de novos processos de tingimento. Esse cenário revela como o ritmo acelerado da moda influencia diretamente os processos industriais e a geração de resíduos. Para acompanhar o mercado, as empresas precisam encontrar soluções que conciliem flexibilidade produtiva, redução de desperdícios e uso consciente de matéria-prima e recursos. Karina Concílio em entrevista com Maria Thamires.
Quais etapas do processo industrial da moda costumam gerar maior quantidade de resíduos e quais são os principais motivos para que esses materiais sejam descartados em vez de reutilizados ou reaproveitados? O desperdício que começa no corte Na etapa de confecção, o corte é um dos principais responsáveis pela geração de resíduos, especialmente devido à necessidade de realizar encaixes precisos entre as partes da peça. Esse desafio se intensifica em produções que valorizam modelagens elaboradas e detalhes de construção. Em peças listradas, por exemplo, é necessário garantir a continuidade das listras nas junções, exigindo um encaixe mais preciso e, consequentemente, maior consumo de tecido. Os retalhos resultantes também podem apresentar formatos e dimensões que dificultam seu reaproveitamento dentro da própria produção. Uma alternativa para esses materiais seria a criação de parcerias com ONGs e outras iniciativas capazes de ressignificar os resíduos e transformá-los em novos produtos. Na sua experiência, quais são as principais dificuldades enfrentadas pelas empresas para implementar práticas de redução, reutilização e reciclagem dos resíduos têxteis durante a produção? Do descarte à circulação: um desafio coletivo A destinação dos resíduos têxteis ainda representa um desafio para a indústria da moda. Quando eu trabalhava no Bom Retiro, por exemplo, ainda não havia uma legislação tão estruturada sobre esse tipo de descarte. Era comum que as empresas colocassem os sacos de lixo nas portas no final do dia, por volta das cinco horas da tarde. Quando chovia, esse material acabava contribuindo para o entupimento dos esgotos. Embora atualmente existam regras mais específicas para o descarte, práticas inadequadas ainda dificultam a rastreabilidade e a destinação correta dos materiais. Um dos principais obstáculos está na falta de parceiros e estruturas acessíveis que possibilitem às empresas encaminhar seus resíduos para iniciativas de reaproveitamento. ONGs e projetos sociais podem desempenhar um papel importante nesse processo, transformando materiais descartados em novos produtos e atividades. Para ampliar essas possibilidades, porém, é necessário fortalecer parcerias e criar incentivos públicos, além de pontos de coleta destinados especificamente aos resíduos têxteis. Além da responsabilidade das empresas e do poder público, acredito que também existe uma questão relacionada ao comportamento do consumidor. Somos uma sociedade muito consumista e precisamos desenvolver uma consciência maior sobre o que fazemos com aquilo que compramos depois que deixa de ser utilizado. Em vez de simplesmente descartar uma peça, existem alternativas como repassá-la para outra pessoa, doá-la ou procurar brechós. Mais do que repensar a produção, construir uma moda mais consciente exige transformar também a forma como nos relacionamos com aquilo que consumimos. Máquina de malharia circular em chão de fábrica.
Quais etapas do processo industrial da moda costumam gerar maior quantidade de resíduos e quais são os principais motivos para que esses materiais sejam descartados em vez de reutilizados ou reaproveitados? O desperdício que começa no corte Na etapa de confecção, o corte é um dos principais responsáveis pela geração de resíduos, especialmente devido à necessidade de realizar encaixes precisos entre as partes da peça. Esse desafio se intensifica em produções que valorizam modelagens elaboradas e detalhes de construção. Em peças listradas, por exemplo, é necessário garantir a continuidade das listras nas junções, exigindo um encaixe mais preciso e, consequentemente, maior consumo de tecido. Os retalhos resultantes também podem apresentar formatos e dimensões que dificultam seu reaproveitamento dentro da própria produção. Uma alternativa para esses materiais seria a criação de parcerias com ONGs e outras iniciativas capazes de ressignificar os resíduos e transformá-los em novos produtos. Na sua experiência, quais são as principais dificuldades enfrentadas pelas empresas para implementar práticas de redução, reutilização e reciclagem dos resíduos têxteis durante a produção? Do descarte à circulação: um desafio coletivo A destinação dos resíduos têxteis ainda representa um desafio para a indústria da moda. Quando eu trabalhava no Bom Retiro, por exemplo, ainda não havia uma legislação tão estruturada sobre esse tipo de descarte. Era comum que as empresas colocassem os sacos de lixo nas portas no final do dia, por volta das cinco horas da tarde. Quando chovia, esse material acabava contribuindo para o entupimento dos esgotos. Embora atualmente existam regras mais específicas para o descarte, práticas inadequadas ainda dificultam a rastreabilidade e a destinação correta dos materiais. Um dos principais obstáculos está na falta de parceiros e estruturas acessíveis que possibilitem às empresas encaminhar seus resíduos para iniciativas de reaproveitamento. ONGs e projetos sociais podem desempenhar um papel importante nesse processo, transformando materiais descartados em novos produtos e atividades. Para ampliar essas possibilidades, porém, é necessário fortalecer parcerias e criar incentivos públicos, além de pontos de coleta destinados especificamente aos resíduos têxteis. Além da responsabilidade das empresas e do poder público, acredito que também existe uma questão relacionada ao comportamento do consumidor. Somos uma sociedade muito consumista e precisamos desenvolver uma consciência maior sobre o que fazemos com aquilo que compramos depois que deixa de ser utilizado. Em vez de simplesmente descartar uma peça, existem alternativas como repassá-la para outra pessoa, doá-la ou procurar brechós. Mais do que repensar a produção, construir uma moda mais consciente exige transformar também a forma como nos relacionamos com aquilo que consumimos.
Considerando o cenário atual de consumo acelerado roupas, quais mudanças nos processos industriais você acredita que seriam necessárias para reduzir o descarte indevido de resíduos têxteis no meio ambiente? Tecnologia e reaproveitamento: Caminhos para uma moda mais circular. Diante do avanço do consumo acelerado de roupas, transformar a indústria da moda exige mudanças tanto nos processos produtivos quanto na maneira de compreender o reaproveitamento e o descarte. Nesse cenário, a tecnologia aparece como uma importante aliada para reduzir o consumo de matéria- prima e a geração de resíduos. Uma tecnologia que considero muito importante para o futuro é a retilínea, área com a qual tive mais contato. Acredito que a tendência seja cada vez mais trabalhar com tecnologias em que a peça já saia praticamente pronta, reduzindo a necessidade de costuras e, consequentemente, a quantidade de resíduos gerados durante a produção. Outro caminho está no reaproveitamento dos resíduos. Retalhos que normalmente seriam descartados podem ganhar novas funções, transformando-se em brindes, acessórios ou outros produtos. Por meio de parcerias, esses materiais também podem ser encaminhados para iniciativas que deem continuidade ao seu ciclo de uso. Na minha opinião, existe ainda uma contradição dentro da indústria da moda. Muitas empresas afirmam estar preocupadas com a sustentabilidade, mas, ao mesmo tempo, continuam trabalhando de uma maneira que dificulta o reaproveitamento. Por exemplo, raramente se pensa em utilizar uma cor que sobrou de uma coleção anterior, mesmo quando existe um grande estoque parado. Nesse contexto, falar em uma moda totalmente sustentável ainda é um desafio enquanto o modelo de consumo e o lançamento constante de tendências permanecerem acelerados. Ainda assim, mudanças dentro da indústria são possíveis: investir em tecnologias mais eficientes, reorganizar processos, reaproveitar materiais e estabelecer parcerias para a destinação dos resíduos são passos importantes para uma produção mais circular. Mais do que reduzir o descarte, a transformação depende de uma mudança de perspectiva: o que sobra da produção não precisa ser visto como lixo, mas como um material que ainda possui valor e pode retornar para a cadeia produtiva. Máquina de malharia retílinea em chão de fábrica.
A moda não termina no momento da compra. Em Vestir Raízes, o descarte têxtil abre uma reflexão sobre consumo, e reaproveitamento e as possibilidade de prolongar a vida das peças.FONTE: RELATÓRIOS FIOS DA MODA 2021 (MODEFICA) Quando a roupa de ser usada, sua história não precisa terminar. Sustentabilidade e descarte têxtil 170 mil tonaladas de roupas são produzidas no Brasil por ano. APENAS tonaladas de roupas são produzidas no Brasil por ano. 20% 16 CAMINHÕES De resíduos têxteis são enviados diariamente a aterros sanitários na região na região do Brás, em São Paulo.
SUSTENTABILIDADESUSTENTABILIDADE
RK ARAÚJO E A STORMENTREVISTA O Marginalias atua desde 2023, surgindo a partir do desejo de criar uma moda que dialogasse com a periferia, com a ancestralidade e com a sustentabilidade. Desde então, temos desenvolvido ações, coleções, oficinas, desfiles e projetos que unem moda, arte, cultura, sustentabilidade e transformação social, buscando fortalecer a produção autoral e independente da periferia. Como o coletivo lida com o desperdício de resíduos têxteis em seus processos de produção? Do resíduo à criação: reaproveitamento e novos usos para os retalhos No Marginalias, entendemos o resíduo têxtil como uma possibilidade de criação, e não como lixo. Trabalhamos com reaproveitamento de vários tecidos, até os menores pedaços viram produtos como chaveiros, buscamos aproveitar ao máximo os materiais durante a modelagem e a produção, dando novos usos aos retalhos que sobram, mas quando a muitos retalhos inutilizáveis descartamos no ecoponto. Quais práticas de moda circular vocês utilizam ou consideram importantes para reduzir o descarte de resíduos? Moda circular: ressignificação, saberes manuais e consumo consciente Utilizamos a reutilização de materiais, o patchwork, a customização e a ressignificação de peças. Também acreditamos na valorização de roupas já existentes, prolongando sua vida útil. Para nós, a moda circular também está relacionada ao consumo consciente, à produção em pequena escala e à valorização dos saberes manuais e ancestrais. Quais mudanças as empresas de moda poderiam implementar para diminuir o desperdício e adotar práticas de economia circular? Repensar a cadeia produtiva para uma moda mais sustentável e justa As empresas poderiam repensar todo o processo produtivo, desde a escolha dos materiais até o destino das peças após o consumo. É importante investir em produção sob demanda, reaproveitamento de resíduos, design pensado para desmontagem e reutilização, logística reversa e redução da produção em excesso. Além disso, é fundamental valorizar quem trabalha na cadeia produtiva e criar relações mais justas e transparentes.
Quais são os principais desafios para um empreendimento de moda sustentável trabalhar com reaproveitamento e redução de resíduos? Entre resíduos e produção: os desafios de construir uma moda sustentável e autoral Um dos principais desafios é o acesso e a organização dos materiais, já que os resíduos reaproveitados nem sempre possuem quantidade, qualidade ou características padronizadas. Também enfrentamos desafios relacionados ao custo de produção, tempo de criação, mão de obra, acesso a equipamentos e conscientização do público sobre o valor de uma peça sustentável e autoral. Existe ainda o desafio de crescer sem perder os princípios de sustentabilidade e produção consciente. Como o empreendedorismo feminino e periférico pode contribuir para uma moda mais sustentável e consciente? Da periferia à transformação: empreendedorismo, sustentabilidade e valorização de saberes O empreendedorismo feminino e periférico traz outras perspectivas para a moda, valorizando histórias, territórios, culturas e saberes que muitas vezes são invisibilizados pelo mercado tradicional. A partir da nossa experiência, acreditamos que empreender a partir da periferia também é uma forma de transformar resíduos em oportunidade, gerar renda, fortalecer a comunidade e preservar saberes ancestrais. Uma moda mais sustentável precisa ser também mais inclusiva, diversa e socialmente justa. Produção Sustentável: Fluxo de processos da garrafa PET ao produto final desenvolvido na Dini Têxtil. Produção Sustentável: Fluxo de processos da garrafa PET ao produto final desenvolvido na Dini Têxtil.
FLORESTAFLORESTA
Naor HenriqueENTREVISTA Diretor geral da Dini Têxtil e com quase 30 anos de carreira na indústria têxtil Quais são os maiores desafios para implementar práticas sustentáveis sem comprometer a competitividade e os custos da empresa? O custo da sustentabilidade Entre os principais desafios para implementar práticas sustentáveis na indústria está o custo. “Infelizmente, tudo que é reciclado acaba sendo mais caro.” Além do preço dos materiais, existe também a necessidade de garantir uma remuneração justa para todos os envolvidos na cadeia da sustentabilidade. Outro desafio está no desempenho dos materiais reciclados. “Você acaba perdendo um pouco de performance”, o que exige investimentos em tecnologia para compensar essas limitações e manter a qualidade dos produtos. Assim, a sustentabilidade também depende da disposição do consumidor em pagar mais por produtos responsáveis e da construção de uma cadeia economicamente viável. “Então, o maior desafio está primeiro na questão da remuneração da cadeia.” Como a demanda dos consumidores por produtos mais sustentáveis tem influenciado as decisões da indústria têxtil? Sustentabilidade como diferencial competitivo Diante da crescente concorrência internacional, a indústria têxtil brasileira busca diferenciais para se manter competitiva. Nesse contexto, a sustentabilidade ganha espaço como estratégia de inovação e posicionamento no mercado. “Sustentabilidade sempre foi um pilar aqui da empresa e uma coisa que eu gosto muito pessoalmente.” A preocupação ambiental também começa a influenciar diretamente as demandas dos clientes, que passam a buscar alternativas com menor impacto. Empresas como Veja Calçados, Marcopolo e Mercedes já têm aberto espaço para o desenvolvimento de produtos reciclados e recicláveis, demonstrando que a demanda por soluções mais sustentáveis pode se transformar em novas oportunidades para a indústria. Naor Henrique em entrevista com Maria Thamires.
Quais iniciativas sustentáveis a empresa já adotou e quais resultados elas trouxeram para o negócio e para o meio ambiente? Da economia de água à reciclagem: inovação em busca de uma produção mais sustentável Entre as iniciativas voltadas à sustentabilidade, a produção de fios tintos na massa foi um dos primeiros avanços. “Com isso, a gente acaba economizando 80 litros de água por cada quilo de fio produzido.” Desde 2016, a prática já representa uma economia significativa de água, reduzindo o impacto ambiental do processo de produção. Outro projeto surgiu a partir da demanda de um cliente e levou ao desenvolvimento de fios produzidos a partir de garrafas PET. “A gente acaba retirando do meio ambiente, 200 garrafas PET a cada quilo de fio produzido.” Ao longo de três anos, a iniciativa contribuiu para retirar centenas de toneladas de garrafas PET do meio ambiente. Além do impacto ambiental, o projeto também trouxe mudanças sociais para a cadeia de reciclagem. Os catadores passaram a receber uma remuneração mais justa pelo material coletado e pelo serviço socioambiental realizado, reduzindo a dependência de intermediários. Mais recentemente, a empresa passou a reciclar o excedente e os refugos da própria fábrica, além de desenvolver produtos monomateriais, pensados para facilitar a reciclagem ao final de sua vida útil. A tecnologia entrou em produção em 2026 e deve ser ampliada. Os resultados também aparecem na redução das emissões. “Esse nosso processo, se comparado com o processo que utiliza matérias-primas virgens, tem uma emissão de 60% menos de carbono do que numa produção normal.” Essas iniciativas mostram como a inovação pode atuar em diferentes etapas da cadeia, unindo economia de recursos, valorização dos profissionais da reciclagem e desenvolvimento de materiais pensados para um ciclo produtivo mais circular. Na sua opinião, qual é a responsabilidade da indústria têxtil em relação ao descarte inadequado de resíduos têxteis no meio ambiente e quais ações podem contribuir para reduzir esse problema? Circularidade: o próximo passo da indústria têxtil Entre os setores de maior impacto ambiental, a indústria têxtil enfrenta o desafio de reduzir desperdícios, emissões e impactos ao longo de todo o ciclo de vida dos produtos. Nesse cenário, o investimento em tecnologia aparece como um dos principais caminhos para tornar a produção mais eficiente e menos poluente. Além de repensar os processos produtivos, é necessário considerar o destino dos produtos após o uso. O desenvolvimento de materiais monomateriais pode facilitar a reciclagem e permitir que os produtos retornem à indústria como matéria-prima. “A questão do monomaterial, é virar uma tendência para que possa voltar a ser matéria-prima novamente.” Produção Sustentável: Fluxo de processos da garrafa PET ao produto final desenvolvido na Dini Têxtil.
A transformação, porém, não depende apenas da indústria. O comportamento do consumidor também precisa mudar, especialmente diante do consumo acelerado. A circularidade também exige repensar o destino dos materiais. “A garrafa vai virar garrafa e tecido vai ter que virar tecido novamente.” Com as tecnologias disponíveis, a reinserção desses materiais na cadeia produtiva pode se tornar cada vez mais viável. Outro desafio está nos materiais sintéticos, que podem permanecer no ambiente por longos períodos. Por isso, a indústria busca alternativas que reduzam seus impactos e desenvolve soluções para tornar a degradação menos prejudicial quando a reciclagem não for possível. “Então, na hora que a indústria têxtil entender isso e usar toda a tecnologia que temos disponível, isso daí vai se tornar uma realidade e as coisas vão ser um pouco diferentes do que são hoje.” O futuro da sustentabilidade no setor passa pela combinação entre tecnologia, circularidade e uma mudança na forma de produzir e consumir. Na sua visão, quais serão as principais tendências e exigências para a indústria têxtil nos próximos cinco a dez anos em relação à sustentabilidade? Regulamentação e consumo consciente: o futuro da moda A indústria de embalagens já segue regulamentações relacionadas ao uso de materiais recicláveis. Para o setor têxtil, a expectativa é que esse modelo se torne cada vez mais presente. “Eu acho que o futuro vai ser um mercado regulamentado, que aí vai restringir uma série de coisas” A tendência é que as mudanças ocorram em um futuro próximo e deixem de depender apenas de iniciativas voluntárias. “Então, do jeito que está, não dá para ficar.” Diante dos desafios ambientais, a regulamentação e a conscientização do consumidor devem ganhar espaço na transformação da indústria. Nesse caso, a sustentabilidade tende a deixar de ser apenas um diferencial e passar a fazer parte das exigências do próprio mercado. Como resume o entrevistado, esse processo “não tem volta”. Produção Sustentável: Fluxo de processos dos retalhos ao produto final desenvolvido na Dini Têxtil Stand da Dini Têxtil na feira de negócios Febra Têxtil em 2025.
LOOK BOOK 1
LOOK BOOK 2
LOOK BOOK 3
VESTIR RAÍZES “Reconhecer o valor do que já existe”. Nós, alunas, gostaríamos de agradecer orientadores e colaboradores que nos apoiaram e ajudaram nesse projeto! Todo aprendizado absorvido nesse processo foi essencial. Evelin, Maria Thamires, Ana Vitória e Luciana. Senac São Miguel Paulista, 2026