HQ Graciliano

Memórias do CárcereUma adaptação em quadrinhos que recria a experiência do escritor Graciliano Ramos, preso durante 10 meses, até ser solto sem jamais ter sido formalmente acusado ou julgado.

2Memórias do Cárcere A Instrução Pública de Alagoas, durante a gestão de Graciliano Ramos (1933–1936), funcionava no prédio da antiga Escola Normal de Maceió, localizado na Rua Barão de Penedo, no centro da capital.

3Memórias do Cárcere No começo de 1936, funcionário na Instrução Pública de Alagoas, tive a notícia de que misteriosos telefonemas, com veladas ameaças, me procuravam o endereço. Desprezei as ameaças: ordinariamente o indivíduo que tenciona ofender outro não o avisa. Mas os telefonemas continuaram. Mandei responder que me achava na repartição diariamente, das nove horas ao meio-dia, das duas às cinco da tarde. Não era o que pretendiam. Nada de requerimentos: queriam visitar-me em casa. Pedi que não me transmitissem mais essas tolices, com certeza picuinhas de algum inimigo débil, e esquecias: nem um minuto supus que tivessem cunho oficial. Algum tempo depois um amigo me procurou com a delicada tarefa de anunciar-me, gastando elogios e panos mornos, que a minha permanência na administração se tornara impossível.” Graciliano Ramos, em Memórias do Cárcere, Livraria José Olympio Editora Rio de Janeiro, setembro de 1953. Obra em 4 volumes (publicados postumamente). Abaixo, capa da 1ª edição com iustração de Tomás Santa Rosa. “

NOTA: Memórias do Cárcere e todos os outros livros escritos por Graciliano Ramos estão em domínio público desde janeiro de 2024. No entanto, a legislação prevê que, em casos de adaptações e outras transformações de obras originais, ela passa a ser considerada uma criação intelectual nova, preservando os direitos de seus autores.

Memórias do Cárcere EM QUADRINHOS Criação e adaptação de Ricardo Melo a partir da obra de GRACILIANO RAMOS

6Memórias do Cárcere Março de 1936. Graciliano Ramos, escritor alagoano e ex-prefeito de Palmeira dos Índios, é arrancado de casa em Maceió sob a suspeita — nunca comprovada — de envolvimento na Intentona Comunista. Assim começa a jornada que, dez anos depois, ele transformaria em Memórias do Cárcere, um dos relatos mais contundentes sobre a repressão política no Brasil. Levado primeiro para o Recife, o autor divide uma cela improvisada no quartel do Forte das Cinco Pontas com o capitão Mata, também preso como rebelde. Ali, entre o calor abafado das paredes e o silêncio dos guardas, Graciliano registra em sua mente cada detalhe da humilhação e da espera. O trajeto até o Rio de Janeiro — num vagão da Great Western e depois num navio — ocuparia trinta e três páginas do livro, publicado postumamente em 1953 por Heloísa Ramos, sua segunda esposa. Nos dias que antecedem sua transferência, o escritor conhece o capitão Lobo — um encontro que se tornaria um dos episódios mais enigmáticos de suas memórias. Lobo lhe faz uma proposta inesperada, quase absurda, que Graciliano descreve como “largada ali de chofre, da mesa para a janela, sem aviso, sem preparação”. O gesto o persegue, e o autor tenta compreender o que havia por trás daquela oferta: “Admitimos certos princípios, julgamo-los firmes, e de repente notamos uma falha neles — e as coisas não se passam como havíamos previsto.” Décadas depois, o historiador Jacob Gorender lembraria o episódio e destacaria o poder da narrativa de Graciliano: “É precisamente a ausência de maniqueísmo que confere impacto ao relato — pela sobriedade, pela secura do estilo, pela força esmagadora do real.” As páginas seguintes deste álbum ilustram, em linguagem de quadrinhos, a passagem de Graciliano pelo Recife e o encontro com o capitão Lobo — um momento de tensão e ambiguidade que revela o olhar lúcido e implacável do autor diante do sistema repressivo que o aprisionou. O livro Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos (1892- 1953), é uma das obras mais reeditadas da literatura brasileira. Desde sua publicação póstuma pela Editora José Olympio, o título já ultrapassou cinquenta edições no Brasil — a mais recente é a 58ª edição, lançada pela Editora Record em 2020. Quanto às traduções, a obra foi vertida para diversas línguas, incluindo inglês, francês, espanhol, italiano, alemão e russo, entre outras. A adaptação visual para estas páginas iniciais foi criada a partir de desenhos de Ricardo Melo, inspirada na seleção de trechos e descrições feitas pelo professor Lourival Holanda e nas imagens do filme Memórias do Cárcere, dirigido por Nelson Pereira dos Santos em 1984, com Carlos Vereza no papel de Graciliano Ramos. Boa leitura. preso em maceió PARTE 1 - VIAGENS

7Memórias do Cárcere Graciliano é preso em sua casa e levado em um automóvel oficial ao quartel do 20º Batalhão de Caçadores, em Maceió. “Ao cabo de meia hora entrou na sala e apanhou-me de surpresa um velho calmo, polido, ar de fria dignidade, o rosto magro. As estrelas, o gesto, o apuro, identificaram-no. (...) O homenzinho cumprimentou-nos, examinou o aposento, quis saber se nos faltava alguma coisa e permaneceu de pé junto à mesa uns três ou cinco minutos, os minutos aplicáveis à nossa situação, dizendo com lhaneza palavras da hospitalidade regulamentar.” “Alcancei a estação de Cinco Pontas, peguei a valise e os três volumes, saltei na plataforma, acompanhado pelo investigador, junto ao capitão Mata, que se derreava ao peso da mala.” “Na verdade me achava num mundo bem estranho. Um quartel (…). Das frases rápidas e obscuras, das idas e vindas, percebi vagamente que também ali não havia lugar para nós. Como era possível em tão grande estabelecimento não haver cela onde se alojassem dois indivíduos?” No dia seguinte, embarca em um trem da Great Western Company com destino à cidade do Recife. Viaja em companhia do capitão Mata, oficial da polícia preso como rebelde. Desembarca na plataforma de Cinco Pontas. Depois de algum tempo de conversa, que os presos não entendem, e Graciliano pensa que o motivo da conversa é que “não se procurava uma cela, mas uma determinada espécie de cela”, o homem que dorme no quarto pequeno resolve ceder os seus aposentos para acomodar os dois presos. Manda buscar uma segunda cama e os presos alojam-se no aposento. A cama de Graciliano é colocada junto à janela pela qual ele pode ver, sob o alpendre, dois canhões apontando o céu. 4 de março 3 de março de 1936 Na estação, os três pegam um carro oficial e, “ziguezagueando longamente pelas ruas de Recife”, chegam a um “vasto edifício”. Não havia acomodação nesse edifício para os presos e os três retornam ao carro oficial, em direção ao quartel de Cinco Pontas. A COMI A AQUI É RUIM, SEM EXAGERO. TENHA PACIÊNCIA: É A QUE USAMOS. NÃO SE PREOCUPE. TUDO ESTÁ BEM, COMANDANTE! COMO O SENHORES ESTÃO AQUI DE PASSAGEM, PODEM AGUENTAR UNS DIAS DE MAUS-TRATOS. EU OUVI A CORNETA. O COMANDANTE CHEGOU. COM É QUE O SENHOR SABE, CAPITÃO MATA? VAI APENAS ESSA MALETA? AQUI ENTRE NÓS POSSO DIZER: ACHO BOM LEVAR MAIS ROUPA. É UM CONSELHO.

8Memórias do Cárcere “Bem.Tínhamos uma indicação: estávamos ali de passagem. Para onde? Não nos atreveríamos a perguntar isso: a cortesia solene e burocrática revelava claramente que seguíamos os trâmites normais e o despacho viria no momento preciso. Certo o comandante não era responsável pela nossa estada no quartel. (...) Quem era o responsável então? Provavelmente havia muitos, tantos que a responsabilidade se diluía – e ali, trancados, não divisávamos ninguém. Trouxeram-nos uma bandeja.Tomei o leite e o café, mastiguei um pedaço de pão, constrangido, sem notar nessa primeira refeição as deficiências da cozinha, mencionadas em excesso. Levantava-me quando entrou um moço grave, de olhos vivos ligeiramente estrábicos, fumando por uma longa piteira.” NÃO SEI. “Toda manhã recebíamos a visita do comandante e escutávamos as mesmas palavras de amabilidade fria. Capitão Lobo continuava a divergir de minhas ideias, que nunca cheguei a mencionar. Agradava‐me porém vê‐ lo, sentir-lhe a franqueza meio rude, a voz clara, o gesto rápido e incisivo, no olhar agudo uma faísca para indicar tendência para doidices necessárias.” No quartel Graciliano recebe a notícia da prisão de Prestes. Um dia, sem esperar, é comunicado pelo capitão Lobo que deixará o quartel e viajará para outro lugar. “Ao cabo de alguns minutos, a conversa findou com uma proposta que me assombrou, ainda me enche de espanto. Não a mencionaria se, anos atrás, num encontro inesperado, o homem estranho, já coronel grisalho, não a confirmasse, vago e indiferente, enquanto me censurava por me haverem fugido da memória as roupas de cama e as toalhas. Sem esse depoimento, não me abalançaria a narrar o caso singular. Difícil acreditarem nele, e talvez eu próprio chegasse a convencer-me de que tinha sido vítima de uma ilusão.Tento reproduzi-lo, ainda receoso, perguntando a mim mesmo se se deu aquela inverossimilhança. Cumpridas algumas formalidades, capitão Lobo despediu-se. Ao sair, estacou junto à mesa:” OS SENHORES FICAM ALOJADOS AQUI. NA SALA VIZINHA HÁ UM OFICIAL PRESO. OS SENHORES PROMETEM NÃO COMUNICAR-SE COM ELE. DIGA AO MENOS SE É PARA O NORTE OU PARA O SUL. NÃO POSSO RESPONDER. IA-ME ESQUECENDO: QUERO FAZER- LHE UM PEDIDO BEM. O TEMPO É CURTO PARA EXPLICAÇÕES E CERIMÔNIAS. TRATA-SE DISTO: EU PUS AÍ NUM BANCO ALGUMAS ECONOMIAS QUE NÃO ME FAZEM FALTA POR ENQUANTO. IGNORO AS SUAS POSSES, MAS SEI QUE FOI DEMITIDO INESPERADAMENTE. CASO AS SUAS CONDIÇÕES NÃO SEJAM BOAS, EU LHE MOSTRO DAQUI A POUCO UMA CADERNETA, O SENHOR PÕE NUM CHEQUE A IMPORTÂNCIA DE QUE NECESSITA, EU ASSINO E À TARDE VENHO TRAZER-LHE O DINHEIRO. NÃO PRECISO, CAPITÃO. ESTOU BEM. MUITO OBRIGADO. PARA ONDE? O SENHOR VIAJA AMANHÃ. CAPITÃO LOBO. SENHOR RAMOS, RESPEITO SUAS IDEIAS. NÃO CONCORDO COM ELAS, MAS RESPEITO.

9Memórias do Cárcere No dia seguinte, Graciliano e o capitão Mata atravessam corredores, sobem e descem escadas, viram esquinas e chegam ao portão do quartel. Juntam-se aos seus vizinhos da prisão. Partem em um caminhão em direção ao porto do Recife para a viagem com destino ao Rio de Janeiro. (CONTINUA) “Não imaginara poder testemunhar semelhante ação. Pessimismo? De forma nenhuma. Não supunha os homens bons nem maus: julgava-os sofríveis, pouco mais ou menos razoáveis, naturalmente escravos dos seus interesses. Sem dúvida: uma razão miúda, variável com as circunstâncias e o egoísmo natural: dormir, comer, amar, reproduzir- -se; um pouco acima disto, avaliar quadros e livros, inspirar respeito, mandar.” “O oferecimento do oficial tinha sentido mais profundo: revelava talvez que a classe dominante começava a desagregar-se, queria findar. Não me chegavam, porém, tais considerações. Achava-me diante de uma incrível apostasia, não me cansava de admirá-la, arrumava no interior palavras de agradecimento que não tinha sabido expressar. Realmente a desgraça nos ensina muito: sem ela, eu continuaria a julgar a humanidade incapaz de verdadeira nobreza.” “Eu passara a vida a considerar todos os bichos egoístas e ali me surgia uma sensibilidade curiosa, diferente das outras, pelo menos uma nova aplicação do egoísmo, vista na fábula, mas nunca percebida na realidade. Para descobri-la não era muito aguentar algumas semanas de cadeia. Seriam apenas algumas semanas? (...) À saída fizeram‐nos entrar num caminhão, onde se arrumavam caixotes, as nossas maletas, numerosos troços miúdos. Os oficiais, os automóveis de luxo, as conversas amáveis tinham‐ -se evaporado. Dávamos um salto para baixo, sem dúvida, mas por muito que sondasse o terreno, não me era possível adivinhar onde iríamos cair. Partimos.” NÃO SE OFERECE DINHEIRO A HOMEM. ESTOU FACILITANDO-LHE UM EMPRÉSTIMO. E NÃO É LÁ GRANDE COISA, AS MINHAS RESERVAS SÃO PEQUENAS. SE ACEITA, O SENHOR MESMO DETERMINA, VÊ QUANTO LHE POSSO EMPRESTAR. NATURALMENTE NÃO HÁ PRAZO: PAGA-ME LÁ FORA QUANDO SE LIBERTAR. SAI LOGO, ISSO NÃO HÁ DE SER NADA. SE ELE CONDENAVA AS MINHAS IDEIAS, SEM CONHECÊ-LAS DIREITO, POR QUE ME TRAZIA AQUELE APOIO INCOERENTE? ESTOU BEM, NÃO FALTA NADA. ORA ESSA! MUITO OBRIGADO. NÃO É NECESSÁRIO. TAMBÉM JÁ ESTIVE PRESO E VIVI NO EXÍLIO: VIAJEI NUM PORÃO DE SÃO PAULO À EUROPA. “Foi pouco mais ou menos o que ele me disse.Tornei a agradecer e a recusar, as orelhas em fogo, na tremenda confusão que me causava a enorme surpresa.Teria realmente ouvido bem aquelas palavras? Apesar de se haverem prolongado longos instantes, entre pausas e gestos enérgicos, não me decidia a admiti-las; de fato eram claras, irrecusáveis, mas nos últimos dias ia-me habituando a perceber coisas aparentemente destituídas de senso. Achava-me atordoado, como se tivesse recebido um murro na cabeça, e só sabia repetir as mesmas frases curtas e insossas.”