TRADUZIDO POR MISTYSONG TRADUÇÕES Essa tradução pode e irá sofrer correções de revisões com o passar do tempo.
SUMÁRIO SUMÁRIO 1 ALIANÇAS 2 MAPA 8 CAPÍTULO 1 9 CAPÍTULO 2 12 CAPÍTULO 3 15 CAPÍTULO 4 18 CAPÍTULO 5 20 CAPÍTULO 6 23 CAPÍTULO 7 26 CAPÍTULO 8 29 CAPÍTULO 9 32 CAPÍTULO 10 36 1
ALIANÇAS CLÃ DO TROVÃO LÍDER ESTRELA DE FOGO — belo gato de pelo avermelhado. REPRESENTANTE GARRA DE AMOEIRO — gato malhado de marrom-escuro com olhos cor de âmbar. CURANDEIRAS POÇA DE FOLHAS — gata malhada em tons de marrom-claro com olhos cor de âmbar e patas brancas. APRENDIZ, PENA DE GAIO GUERREIROS (gatos e gatas sem filhotes) VOO DE ESQUILO — gata cor de gengibre-escuro com olhos verdes. PELAGEM DE POEIRA — gato malhado em tons de marrom-escuro. TEMPESTADE DE AREIA — gata de pelo alaranjado. CAUDA DE NUVEM — gato branco de pelo longo. PELO DE SAMAMBAIA — gato malhado de marrom-dourado. CAUDA DE CASTANHA — gata tartarugada e branca com olhos cor de âmbar. GARRA DE ESPINHO — gato malhado em tons castanhos. CORAÇÃO BRILHANTE — gata branca com manchas alaranjadas. PERNA DE ARANHA — gato preto de membros longos com barriga marrom e olhos âmbar. LISTRA CINZENTA — gato de longo pelo cinza-chumbo. CAUDA DE AVELÃ — pequena gata cinza e branca. BIGODE DE CAMUNDONGO — gato cinza e branco. CORAÇÃO DE CINZAS — gata cinza malhada. PAPOULA CONGELADA — pálida gata tartarugada com pelo branco. BRASA DE LEÃO — gato malhado dourado com olhos âmbar. FOLHA DE AZEVINHO — gata negra de olhos verdes. APRENDIZES (com idade superior a seis luas, em treinamento para se tornarem guerreiros) PATA DE RAPOSA — gato malhado avermelhado. PATA DE GELO — gata branca. 2
RAINHAS (gatas que estão grávidas ou amamentando) NUVEM DE AVENCA — gata cinza-claro com pintas mais escuras e olhos verde-claros. MARGARIDA — gata de longo pelo cor de creme (mãe dos filhotes de Perna de Aranha; Rosinha, uma gatinha creme escuro; e Sapinho, um gatinho preto e branco). MILLIE — gata cinza malhada, antiga gatinha de gente (mãe dos filhotes de Listra Cinzenta; Roseirinha, uma gatinha marrom-escuro; Zangadinho, um gatinho cinza muito pálido com listras pretas; e Florzinha, uma gatinha tartarugada-branca com manchas brancas em forma de pétala). ASA BRANCA — gata branca de olhos verdes (mãe dos filhotes de Queda de Bétula; Pombinha, uma gatinha cinza; e Herinha, gatinha branca malhada). ANCIÃOS (antigos guerreiros e rainhas, agora aposentados) PELO DE RATO — pequena gata de pelo marrom-escuro. RABO LONGO — gato de pelo desbotado com listra pretas, aposentado cedo devido à falta de visão. CLÃ DAS SOMBRAS LÍDER ESTRELA PRETA — gato grande branco, com enormes patas pretas retintas. REPRESENTANTE PELAGEM RUÇA — gata de pelo escuro alaranjado. CURANDEIRO NUVENZINHA — gato malhado bem pequeno. APRENDIZ, PATA FLAMEJANTE — gato ruivo. GUERREIROS PELAGEM DE CARVALHO — pequeno gato marrom. APRENDIZ, PATA DE TIGRE — gato malhado marrom escuro. GARRA DE SORVA — gato cor de gengibre. PÉ ESFUMAÇADO — gato preto. APRENDIZ, PATA DE CORUJA — gato malhado marrom-claro. CAUDA DE HERA — gata tartarugada branca e preta. APRENDIZ, PATA DE AURORA — gata cor creme. PÉ DE CURURU — gato marrom-escuro. GEADA DE CORVO — gato preto e branco. APRENDIZ, PATA DE OLIVEIRA — gata tartarugada. PELO ENROSCADO — gata malhada, com pelo longo que se projeta em todos os ângulos. 3
ARRANHÃO DE RATAZANA — gato cinza amarronzado com diversas cicatrizes. APRENDIZ, PATA DE MUSARANHO — gata cinzenta com patas pretas. RABO DE SERPENTE — gato marrom-escuro com uma cauda listrada. APRENDIZ, PATA CHAMUSCADA — gato cinza. CORRENTEZA BRANCA — gata branca com longos pelos e um olho cego. APRENDIZ, PATA VERMELHA — gato malhado marrom avermelhado. MANTO DE AÇAFRÃO — gata tartarugada de olhos verdes. RAINHAS PÁSSARO NEVADO — gata puramente branca com olhos verdes. ANCIÃOS CORAÇÃO DE CEDRO — gato cinza-escuro. PAPOULA ALTA — gata malhada em tons de marrom-claro de longas pernas. CLÃ DO VENTO LÍDER ESTRELA DELGADA — gato malhado marrom. REPRESENTANTE PÉ DE CINZAS — gata cinza. CURANDEIROS CASCA DE ÁRVORE — gato marrom de cauda curta. APRENDIZ, PATA DE FRANCELHO — gato salpicado de cinzas. GUERREIROS ORELHA RASGADA — gato malhado. PLUMA DE CORVO — gato cinza-escuro. BIGODES DE CORUJA — gato marrom-claro malhado. CAUDA ESBRANQUIÇADA — pequena gata branca. NUVEM NOTURNA — gata preta. CAUDA DE TOJO — gata cinza e branca muito clara com olhos azuis. PELAGEM DE DONINHA — gato ruivo com patas brancas. SALTO DE LEBRE — gato marrom e branco. CAUDA FOLHEADA — escuro gato malhado com olhos âmbar. APRENDIZ, PATA DE ESPINHO — gato branco de pelos longos. GOTAS DE ORVALHO — gata manchada cinza. APRENDIZ, PATA DE CARRIÇO — gata malhada marrom-claro. 4
GARRAS DE VIMEIRA — gata cinzenta. APRENDIZ, PATA DE ANDORINHA — gata cinza-escuro. PELAGEM DE FORMIGA — gato marrom com uma orelha preta. PÉ DE BRASA — gato cinza com duas patas escuras. APRENDIZ, PATA SOLAR — gata tartarugada com grande marca branca na testa. CAUDA DE URZE — gata marrom-claro malhada com olhos azuis. MANTO DE BRISA — gato preto com olhos âmbar. ANCIÃOS FLOR DA MANHÃ — gata tartarugada. PERNA DE TEIA — gato malhado em cinza-escuro. CLÃ DO RIO LÍDER ESTRELA DE LEOPARDO — gata de pelo dourado e manchas incomuns. REPRESENTANTE PÉ DE BRUMA — gata de pelo cinza-escuro com olhos azuis. CURANDEIRO ASA DE MARIPOSA — gata de pelo dourado malhado. APRENDIZ, BRILHO DE SALGUEIRO — gata cinza malhada. GUERREIROS GARRA NEGRA — gato negro-acinzentando. DENTE DE RATAZANA — pequeno gato marrom malhado. APRENDIZ, PATA DE PEIXE — gata cinza escura e branca. BIGODE CANIÇO — gato preto. PELO DE MUSGO — gata tartarugada. APRENDIZ, PATA DE SEIXO — gato cinza malhado. PELO DE FAIA — gato marrom-claro. CAUDA ONDULADA — gato cinza-escuro malhado. APRENDIZ, PATA DE MALVA — gato marrom-claro malhado. NÉVOA CINZENTA — gata cinza-pálido malhada. FLOR ALVORADA — gata cinza pálida. NARIZ MANCHADO — gata cinza malhada. CAUDA SALTITANTE — gato branco-avermelhado. PELO DE MENTA — gato cinza-claro malhado. 5
APRENDIZ, PATA DE URTIGA — gato cinza-escuro malhado. CORAÇÃO DE LONTRA — gato marrom-escuro. APRENDIZ, PATA DE ESPIRRO — gato cinza e branco. PELE DE PINHEIRO — gata malhada de pelo curto. APRENDIZ, PATA DE ROBIN — gato branco-atartarugado. CHUVA TEMPESTUOSA — gato cinza-azulado malhado. PELO DE CREPÚSCULO — gata malhada marrom. APRENDIZ, PATA DOURADA — gata gengibre escuro. RAINHAS ASA DE GELO — gata branca com olhos azuis (mãe de Besourinho, Penquinho, Pétala e Graminha). ANCIÃOS CAUDA DE ANDORINHA — gata malhada escura. CORRENTE DE PEDRA — gato cinza. GATOS QUE NÃO PERTENCEM A CLÃS SOL — gato malhado branco e marrom de pelo longo com olhos amarelo-claros. FUMAÇA — gato malhado musculoso cinza e branco que vive em um celeiro no estábulo. FIO — pequena gata cinza e branca que vive no estábulo. GATÃO — solitário gato idoso malhado rechonchudo com focinho cinza. ZÉ — gata marrom-escuro malhada. CAVALEIRO — gato cinza de ombros largos. PINTINHA — gata marrom malhada salpicada, amamentando quatro filhotes. FRETE — gato preto e branco malhado com uma orelha rasgada. BOLINHA — gato magricelo marrom malhado com focinho cinza. JATO — gato preto de pelos longos. MARIA — gata ruiva-branca. PIADO — gato cinza-pálido malhado. OUTROS ANIMAIS 6
MEIA-NOITE — uma texugo que observa as estrelas e que vive à beira do mar. 7
MAPA 8
CAPÍTULO 1 Um trovão estrondou, mais alto do que qualquer coisa que Folha de Azevinho já tinha ouvido antes. Houve uma ondulação acima e um estranho som de estalo. O céu está caindo! E então ele estava ao redor dela, mais forte e cortante do que Folha de Azevinho esperava, jogando-a no chão e esmagando seus ossos. Não consigo respirar! Ela lutou freneticamente, sentindo suas garras rasgarem o seu arredor, mas o céu era muito pesado, muito frio, e ela deixou que a escuridão sem fim a envolvesse. Folha de Azevinho estava parada na beira de um penhasco. Atrás dela, o buraco se abria como uma boca faminta. As chamas, sibilantes e alaranjadas, enchiam o ar de fumaça e cinzas amargas. Os companheiros de ninhada de Folha de Azevinho, Brasa de Leão e Pena de Gaio, agachavam-se ao lado dela; ela podia senti-los tremer contra seu pelo. Na frente deles, Pelo de Cinzeiro estava na ponta de um galho que os levaria através do fogo. Voo de Esquilo estava ao lado dele, com fúria brilhando em seus olhos. Folha de Azevinho encarou sua mãe, esperando que ela tirasse Pelo de Cinzeiro do caminho. — Chega, Pelo de Cinzeiro — sibilou Voo de Esquilo. — Sua briga é comigo. Esses jovens não fizeram nada para machucá-lo. Faça o que quiser comigo, mas deixe-os sair do fogo. Pelo de Cinzeiro olhou para ela com surpresa. — Você não entende. Essa é a única maneira de fazer você sentir a mesma dor que me causou. Você arrancou meu coração quando escolheu Garra de Amoeiro ao invés de mim. Qualquer coisa que eu fizesse a você jamais doeria tanto. Mas seus filhotes... Se você os ver morrer, saberá a dor que senti. Voo de Esquilo encontrou seu olhar. — Então, mate-os. Você não vai me machucar dessa forma. — Ela deu um passo para longe dele, depois olhou para trás por cima do ombro. — Se você realmente quer me machucar, terá que encontrar um jeito melhor do que esse. Eles não são meus filhotes. O chão estremeceu sob as patas de Folha de Azevinho. Voo de Esquilo não é minha mãe? Folha de Azevinho não pertencia a nenhum clã, a nenhum código. Ela podia ser uma isolada, até mesmo uma gatinha de gente. Não havia como Folha de Azevinho deixar Pelo de Cinzeiro contar aos quatro clãs sobre a confissão de Voo de Esquilo. Ela e seus companheiros de ninhada seriam exilados! Tudo o que eles tinham feito até agora, toda a sua lealdade ao código dos guerreiros, não valeria nada. O silêncio era ensurdecedor, pressionando mais fortemente os ouvidos de Folha de Azevinho do que as pedras que a prendiam ao chão frio. A poeira encheu sua boca e nariz, e a dor apunhalou uma de suas pernas. Fui enterrada viva! Folha de Azevinho se debateu e se contorceu contra o peso das pedras. Sua cabeça se soltou com uma chuva de pequenas pedras. Não havia um raio de luz na boca do túnel. Ela estava presa na escuridão. — Socorro! Me ajudem! Estou presa! Ela parou. Para quem ela estava gritando? Ela não tinha companheiros de clã agora. Ela havia deixado aquela vida para trás - do outro lado das rochas, tão longe quanto se fosse a lua. Seus irmãos e Poça de Folhas sabiam que ela havia matado Pelo de Cinzeiro. E agora Pena de Gaio e Brasa de Leão provavelmente pensavam que ela havia morrido na queda das rochas. Talvez seja melhor assim. Pelo menos eles não virão me procurar. Folha de Azevinho fechou os olhos novamente. Folha de Azevinho seguiu Pelo de Cinzeiro até a fronteira do Clã do Vento. Ela o perseguiu como se fosse uma presa, pisando suavemente, com as garras embainhadas para evitar que se prendessem em arbustos ou arranhassem pedras. Quando ele chegou à margem do riacho, com a água espumando lá embaixo, Folha de Azevinho pulou em cima dele, torceu a cabeça dele para um lado, cravou os dentes no pelo e na pele dele, dizendo a si mesma várias vezes: Esse é o único jeito! Pelo de Cinzeiro caiu de barriga para baixo e Folha de Azevinho pulou para trás quando ele rolou para dentro do riacho. Ela lavou o sangue de suas patas, deixando a água fria esfriar suas pernas, seus flancos, até o coração. Eu fiz isso pelo meu clã! Folha de Azevinho forçou as imagens a saírem de sua mente com um arrepio. Respirando fundo, ela se mexeu até desprender suas patas dianteiras e afastou as pedras que estavam pressionando seu peito. Em seguida, estendeu a pata o máximo que pôde e começou a se arrastar para fora. Ela sibilou quando uma de suas patas traseiras se moveu. Era tão doloroso que sua perna parecia estar quebrada. A guerreira imaginou a toca do curandeiro bem abastecida, com confrei para curar o osso e sementes de papoula para 9
ajudá-la a dormir durante o pior do desconforto. Tão longe quanto a lua, ela lembrou a si mesma. Cerrando os dentes, ela arrastou o resto de seu corpo para fora das pedras. Sua perna ferida bateu agonizantemente no chão. — Grande Clã das Estrelas, isso dói! — Folha de Azevinho rosnou. Falar em voz alta parecia ajudar, então ela continuou. — Eu já estive aqui embaixo antes. Sei que há outras saídas. Só preciso seguir este túnel até encontrar uma fonte de luz. Vamos lá, uma pata na frente da outra. Apesar de seu medo, apesar da dor em sua perna, as lembranças continuavam voltando.... — Eu sou sua mãe, Folha de Azevinho — sussurrou Poça de Folhas. Folha de Azevinho balançou a cabeça. Isso era impossível. Como ela poderia ser filha de uma curandeira, se os curandeiros eram proibidos de ter filhotes? Pior do que ser uma isolada ou uma gatinha de gente, seu próprio nascimento havia quebrado o código dos clãs. Folha de Azevinho desembainhou suas garras para dar a ela uma firmeza na pedra. Para seu desânimo, várias delas já haviam se quebrado em sua luta para sair, e as pontas de suas almofadinhas pareciam molhadas e pegajosas. Ela sentiu o cheiro de sangue e imaginou o rastro que estava deixando enquanto se arrastava pelo túnel. Se Brasa de Leão e Pena de Gaio cavassem através da queda de rochas, eles saberiam que ela havia sobrevivido e seguiriam o seu rastro para encontrá-la. De repente, suas patas dianteiras bateram contra uma pedra. Ela gritou de dor e se virou de lado para seguir a curva da parede. Estava tão escuro que ela não conseguia nem saber se seus olhos estavam abertos. Se eu pudesse encontrar alguma luz. Se, se, se… Pena de Gaio havia descoberto quem era o pai deles. — É Pluma de Corvo. Folha de Azevinho o encarou com incredulidade. — Mas... Pluma de Corvo é do Clã do Vento! Eu sou uma gata do Clã do Trovão! — Presa Amarela veio até mim em um sonho — insistiu Pena de Gaio. — Ela me disse que era hora de sabermos a verdade. Para Folha de Azevinho, não restava mais nada. Mestiça? Ela ficou na boca do túnel e sentiu o cheiro de pedra suavizar seu pelo desgrenhado. Ela poderia desaparecer aqui embaixo e emergir em algum lugar longe dos clãs. Ela poderia começar uma nova vida, longe de todas essas mentiras e promessas não cumpridas. Folha de Azevinho se virou e correu para o túnel. Ela ouviu Pena de Gaio chamando por ela, e então o trovão veio, e o céu caiu, e ela foi engolida pelo preto vertiginoso. A felina negra prosseguiu. Respirar, raspar, impulsionar. De novo e de novo. Ela ansiava por parar, dormir, esperar que um guerreiro do Clã das Estrelas viesse buscá-la. Mas será que o Clã das Estrelas sabia que ela estava aqui? Seu nascimento havia quebrado o código dos guerreiros. Ela havia matado outro gato. E ela havia desistido de seu lugar no Clã do Trovão. Nenhum ancestral estaria zelando por ela. Será que eles estavam observando quando Folha de Azevinho revelou todos os segredos de seu clã na Assembleia? — Esperem! — Folha de Azevinho ergueu-se em suas patas. — Há algo que tenho a dizer e que todos os clãs deveriam ouvir. Havia muitas mentiras, muitos danos causados ao código dos guerreiros, para que ela ficasse quieta por mais tempo. A clareira estava tão silenciosa que Folha de Azevinho podia ouvir um camundongo correndo entre as folhas mortas sob o grande carvalho. — Vocês acham que me conhecem — ela começou. — E que conhecem meus irmãos, Brasa de Leão e Pena de Gaio do Clã do Trovão. Vocês acham que nos conhecem, mas tudo o que lhe foi dito sobre nós é mentira! Nós não somos os filhotes de Garra de Amoeiro e Voo de Esquilo. — O quê? — Garra de Amoeiro se levantou de onde estava sentado com os outros representantes entre as raízes do Grande Carvalho. — Voo de Esquilo, por que ela está falando tanta bobagem? — Desculpe-me, Garra de Amoeiro, mas é verdade. Eu não sou a mãe deles, e você não é o pai deles. O representante do clã a encarou. — Então quem é? Voo de Esquilo voltou seu olhar verde e triste para a gata que ela sempre considerou como sua filha. — Diga a eles, Folha de Azevinho. Eu guardei o segredo por várias estações; não vou revelá-lo agora. — Covarde! — Folha de Azevinho lançou um olhar para ela. Seu olhar varreu a clareira, vendo os olhos de cada gato treinados nela. — Não tenho medo da verdade! Poça de Folhas é nossa mãe, e Pluma de Corvo, sim, Pluma de Corvo do Clã do Vento, é nosso pai. Uivos de choque saudaram suas palavras, mas Folha de Azevinho gritou sobre eles. — Esses gatos tinham tanta vergonha de nós que nos abandonaram e mentiram para cada um de vocês para esconder o fato de que haviam quebrado o código dos guerreiros. É tudo culpa dela. — Ela virou a cauda para apontar para Poça de Folhas. — Como os clãs podem sobreviver quando há covardes e mentirosos no coração deles? 10
Suas palavras pareciam ecoar nas paredes do túnel. Folha de Azevinho desejou poder voltar ao início da Assembleia, retirar a terrível verdade que ela havia revelado e poupar seus companheiros de clã da dor e do choque que ela havia visto em seus rostos. O que foi que eu fiz? A escuridão constante estava fazendo seus olhos arderem. Ela estava procurando por uma fresta de luz por tanto tempo que imaginou que uma tinha aparecido à frente. A linha mais tênue de algo mais pálido que o preto, como o primeiro indício de um amanhecer leitoso acima das árvores. Folha de Azevinho piscou e balançou a cabeça, tentando clarear sua visão. Mas a faixa cinza ainda estava lá. Talvez fosse luz? Ela mancou mais rápido, ignorando a queimação em sua perna traseira. A luz ficou mais forte. Estava vazando de uma abertura na parede: outro túnel menor saindo. Folha de Azevinho se arrastou até a esquina. Era sua imaginação ou ela podia ver as paredes de uma caverna se abrindo à frente? Em seu entusiasmo, ela tentou se levantar. Sua perna traseira se dobrou sob ela e estrelas explodiram em sua cabeça. A última coisa que ela viu foi o chão de pedra correndo ao seu encontro. 11
CAPÍTULO 2 Poça de Folhas! Poça de Folhas, estou com sede! Folha de Azevinho queimava por dentro. Sua garganta estava seca e sua língua estava presa ao céu da boca. Ela devia estar na toca dos curandeiros tratando a febre. Onde estava o musgo encharcado que Poça de Folhas sempre deixava perto de seus pacientes? Ela torceu a cabeça e o focinho esbarrou em algo macio, úmido e com cheiro um verde. Folha de Azevinho sugou os fios do musgo, tentando não estremecer ao engolir a preciosa água. Nunca teve um gosto bom. De repente, ela percebeu que não estava sozinha. Havia um gato curvado perto dela, colocando algo fofo debaixo de sua perna machucada. Folha de Azevinho sibilou de dor e o gato pediu desculpas baixinho. — São apenas algumas penas, para deixá-la mais confortável. Fique quieta, por favor Folha de Azevinho enrijeceu. Ela não reconheceu a voz ou o cheiro deste gato. — Quem é você? Onde estou? — Ela começou a agitar as patas dianteiras. — Deixe-me ir! Uma pata pequena e gelada encostou em seu ombro, empurrando-a suavemente de volta para baixo. O gato moveu folhas de cheiro forte para perto de seu focinho. — Silêncio, está tudo bem. Você está segura. Coma isso e depois volte a dormir. Folha de Azevinho permitiu-se ser empurrada de volta para o chão. Ela engoliu as ervas, que eram confrei, pelo cheiro, e duas pequenas sementes de papoula. As penas eram macias e quentes pressionando em seus ferimentos da perna. Com um pequeno suspiro, Folha de Azevinho fechou os olhos e se arrastou para o sono mais uma vez. Quando ela acordou novamente, sua cabeça parecia mais clara e a dor na perna havia diminuído para uma dor incômoda. Folha de Azevinho ficou imóvel por um momento, deixando os olhos se acostumarem à quase escuridão. Esta definitivamente não era a toca dos curandeiros do Clã do Trovão. Ela estava deitada em uma fina cama de penas sobre pedras frias. Eu ainda estou nos túneis! Folha de Azevinho sentiu uma onda de alívio e depois de alarme. Quem estava aqui com ela? Folha de Azevinho tentou lembrar do cheiro do gato que lhe disse para voltar a dormir, mas sua barriga roncou e de repente tudo que ela conseguia pensar era em como estava com fome. Quando ela comeu pela última vez? Ela tentou se levantar, mas sua perna traseira dobrou e ela caiu de lado, frustrada. — Você está acordada! — Um rosto surgiu das sombras. — Como está sua perna? Folha de Azevinho arregalou os olhos até conseguir distinguir manchas ruivas e brancas na pele das costas do gato. Ele cheirava a pedra, água e musgo. — Quem é você? — ela perguntou, sua voz rouca pela falta de uso. O gato a ignorou. Em vez disso, ele empurrou algo na direção dela com uma pata. — Você deve estar morrendo de fome. Aqui, coma. Presa fresca! Folha de Azevinho inclinou a cabeça, pronta para devorar, e depois recuou. Um peixinho pequeno e viscoso estava deitado na frente dela. — Eu não gosto de peixe — ela miou. O gato mexeu as orelhas. — Aqui embaixo, você nem sempre tem escolha. Seu tom era suave, mas Folha de Azevinho sentiu-se envergonhada. Sua barriga soltou um grunhido alto, como se fosse ficar feliz com qualquer coisa, mesmo comida de corvo. Prendendo a respiração, Folha de Azevinho mordeu o peixe. Camundongo rechonchudo e saboroso, disse a si mesma. Esquilo com cheiro de pinho. O primeiro pombo de folhas novas. Ela engoliu o último gole e bebeu do musgo ao seu lado. O gato ruivo e branco observou-a com expectativa. — Obrigada — Folha de Azevinho miou. — Eu... acho que não tinha um gosto tão ruim. O gato ainda estava estudando-a. — Você é Pata de Azevinho, não é? Ela piscou. — Folha de Azevinho, na verdade. Como você sabia? Eu nunca vi você antes, né? O gato balançou a cabeça e seus olhos nublaram. 12
— Não, você nunca me viu. Mas eu vi você com seus irmãos de ninhada quando você veio resgatar aqueles filhotes, pouco antes de o rio inundar. Folha de Azevinho olhou para ele. Ela nunca esqueceria a busca desesperada pelos filhotes perdidos do Clã do Vento com Pena de Gaio e Brasa de Leão. Eles foram levados dos túneis para o lago quando o rio subterrâneo transbordou. Foi uma fuga de sorte para todos eles. Agora esse gato estava dizendo a ela que ele esteve aqui! — Quem é você? — ela miou. O gato ruivo e branco se ocupou com as penas debaixo de sua perna machucada, reorganizando para que fiquem espalhados uniformemente. — Meu nome é Folhas Caídas — ele miou baixinho. — Você não é dos clãs, é? — Folha de Azevinho pressionou. — Onde você mora? Folhas Caídas foi até um pequeno feixe de ervas e começou a dividi-las. — Uma vez eu vivi nas colinas acima do lago, mas esta é minha casa agora — Ele se virou, empurrando algumas ervas para Folha de Azevinho. — Coma esta confrei; isso vai ajudar sua perna. Não vou te dar mais sementes de papoula, a menos que você tenha problemas para dormir. Folha de Azevinho mastigou obedientemente as folhas perfumadas. — Você era um gato curandeiro? — ela perguntou. Folhas Caídas inclinou a cabeça para o lado. — Eu não sei o que é isso. Todos nós aprendemos sobre ervas e ferimentos para que pudéssemos ajudar uns aos outros. É isso que você quer dizer? — Tipo isso — Folha de Azevinho apoiou-se nas patas dianteiras, sentindo o coração bater mais rápido. — Quem eram os outros gatos? Você fazia parte de um clã? Havia outro grupo de gatos morando perto daqui, um que os clãs não sabiam? — Chega de perguntas — ordenou Folhas Caídas. — Você precisa descansar. Você não quebrou a perna, apenas a torceu. Você vai se recuperar em breve, e então suponho que vai querer voltar para seus amigos. — Não! — Folha de Azevinho gritou. — Eu não posso voltar! Nunca! Folhas Caídas apenas encolheu os ombros. — Isso é com você. Deite-se e pare de se contorcer. Eu vou trazer algo para você comer mais tarde. — Ele pegou os restos de espinhas de peixe e foi embora. Folha de Azevinho ficou olhando para ele até que as sombras o engoliram. As paredes do túnel pareciam mais pálidas, como se mais luz estivesse sendo filtrada. Enquanto ela estava falando, ela ouviu sua voz ecoando longe, o que sugeria que sua primeira impressão estava certa e ela estava deitada na entrada de uma caverna. Ela não conseguia ouvir a água, então não era a caverna com o rio. Folha de Azevinho apoiou o queixo as patas e fechou os olhos. Ela estava perdida e ferida, mas de alguma forma um gato a encontrou e a manteve viva com comida, água e ervas para sua perna. Ele foi enviado pelo Clã das Estrelas? Ou ela tinha apenas muita, muita sorte? De qualquer forma, ela percebeu que estava segura, pelo menos por enquanto. Ela acordou de um cochilo e encontrou outro peixinho ao seu lado, bem como musgo e mais um pouco de confrei. Era mais difícil ver as paredes da caverna, o que significava que devia ter ficado mais escuro lá fora. Era noite? Folha de Azevinho se perguntou há quantos dias ela estava ali. Era lua cheia quando ela... partiu. Talvez Folhas Caídas pudesse dizer a ela que lua era agora. Depois de comer seu peixe e mascarar o gosto com o confrei, Folha de Azevinho tentou ficar acordada, esperando que Folhas Caídas voltasse. A caverna ficou mais escura até que ela não conseguiu ver mais nada. Folha de Azevinho se viu esperando por seu estranho companheiro. Ele voltaria pela manhã, ela tinha certeza. Desta vez ela estava acordada e meio sentada para lavar o peito quando Folhas Caídas chegou. Ele estava carregando algo mais volumoso e mais fofo do que um peixe. Folha de Azevinho fez uma pausa entre lambidas. — Ei! Você pegou um camundongo! Folhas Caídas colocou a presa fresca em suas patas. Ele parecia corado de triunfo. — Eu ouvi rastejando em um dos túneis — explicou ele. — Eu achei que você ia gostar. — Eu adoro! — Folha de Azevinho miou. — Obrigada! — Ela se inclinou para dar uma mordida e depois olhou para cima. — Há bastante aqui. Você quer um pouco? Folhas Caídas balançou a cabeça. — Não, é todo seu — Enquanto Folha de Azevinho continuava comendo, ele gentilmente cutucou sua perna machucada. — Você acha que está melhorando? Folha de Azevinho assentiu com a boca cheia. — Definitivamente, — ela murmurou. — Eu posso dobrá-la agora, e não dói muito quando me movo. — Você pode tentar andar sobre ela quando terminar de comer — decidiu Folhas Caídas. — Não muito longe, mas você precisa começar a exercitá-la antes que os músculos desapareçam. Folha de Azevinho mexeu as orelhas com surpresa. Folhas Caídas soava como um curandeiro. Ele deve ter vindo de um clã! Ou algo muito próximo de um, como a Tribo da Água Corrente. Ela engoliu em seco e miou: — Você é um gato da tribo? Você veio das montanhas? Folhas Caídas olhava fixamente para ela. — Esta é minha casa agora — respondeu ele. — Não há outro lugar. 13
Folha de Azevinho estremeceu como se uma garra fria tivesse percorrido sua espinha. Havia algo sobre a voz Folhas Caídas que a fez se sentir mais sozinha e desesperada do que ela poderia imaginar. Ela se endireitou, levantou-se e afastou os restos de orelhas e cauda de rato. — Onde devo andar? — ela perguntou. — Não fique muito animada — alertou Folhas Caídas. — Apenas alguns passos hoje, só isso. Folha de Azevinho usou as suas patas dianteiras para poder se apoiar. Uma pontada de dor subiu pela perna machucada, mas ela respirou fundo e manteve a pata no chão. Hesitante, ela deu um passo à frente. Sua perna traseira segurada, embora parecesse fraca e não muito conectada ao resto dela. Folha de Azevinho mancou em direção ao lugar onde a luz ficou mais forte. As paredes do túnel abriam-se de ambos os lados para uma pequena caverna, com cerca de seis comprimentos de raposa de largura. Um pequeno buraco no topo brilhava com uma luz tão forte que Folha de Azevinho apertava os olhos para olhar para ele. — O sol está brilhando hoje — comentou Folhas Caídas ao chegar ao lado do ombro dela. Folha de Azevinho virou-se para encará-lo. — Você já saiu? Como você pode morar aqui o tempo todo? Folhas Caídas desviou o olhar. — Esta é a minha casa — ele repetiu. — Agora, você pode voltar para o seu ninho? Folha de Azevinho começou a caminhar de volta pelo túnel, frustrada por não ter ido mais longe. Mas quando chegou à pilha amassada de penas, sua perna doía muito e ela caiu aliviada. — Você pode tentar novamente amanhã — Folhas Caídas miou como se pudesse dizer que ela estava com dor. — Descanse agora. Ele se virou para sair, mas Folha de Azevinho estendeu uma pata. — Espere! Estou cansada de ficar sozinha. Você não pode ficar e falar comigo? Folhas Caídas a viu com olhos verdes sombrios. — Descanse — ele miou. — Assim sua perna vai sarar mais rápido. Vejo você novamente mais tarde. Ele se afastou e Folha de Azevinho caiu sobre as penas. Ela desejou que sua perna melhorasse logo. Ela queria escapar do Clã do Trovão, mas uma vida no escuro, dependente de outro gato para comida e água, não era o que ela imaginava. 14
CAPÍTULO 3 Um fino raio de sol aqueceu seu pelo enquanto Folha de Azevinho marchava pela caverna e voltava novamente nas quatro patas. — Viu? — ela desafiou Folhas Caídas, que estava sentado na entrada. — Boa como nova! Parecia que estações inteiras haviam passado antes que Folha de Azevinho conseguisse atravessar todo o caminho da caverna sem mancar, mas Folhas Caídas garantiu a ela que a lua ainda não estava cheia novamente. Ele havia insistido que ela ficasse dentro da caverna para se exercitar, andando em círculos até sentir tonturas, e ainda a deixava por conta própria a maior parte do dia e da noite, mas Folha de Azevinho não queria começar a vagar pelas cavernas sem ele. Ela teve sorte uma vez; ela não podia confiar que Folhas Caídas a encontraria novamente. Folhas Caídas se aproximou e cheirou sua perna. — Se você está dizendo a verdade sobre não sentir dor, então deve ter curado. — Claro que estou dizendo a verdade! — Folha de Azevinho protestou. Como ele ousava sugerir que ela estava mentindo? A verdade era a única coisa que importava, sempre. Mas não foi assim quando contei os segredos do meu clã na Assembleia. Folha de Azevinho afastou da mente a imagem do rosto horrorizado de Voo de Esquilo. — Podemos explorar agora? — ela perguntou. Folhas Caídas traçou uma linha no pó de pedra com a pata. — Quer dizer, você quer que eu te mostre a saída. — Não! — Folha de Azevinho exclamou. — Eu quero que você me mostre sua casa. Onde fica a caverna com o rio? Até onde chegam os túneis? O gato ruivo e branco olhou para ela surpreso. — Você realmente quer saber? A maioria dos gatos quer sair daqui imediatamente. Havia tanta dor em seus olhos que Folha de Azevinho sentiu uma onda de simpatia. — Não tenho mais para onde ir — ela miou suavemente. — Você tem sido um bom amigo para mim, Folhas Caídas. Por que eu iria querer deixar você agora? Folhas Caídas conduziu Folha de Azevinho por um túnel estreito no outro lado da caverna, em uma escuridão tão densa que parecia lamber o pelo de Folha de Azevinho como se fosse água. O chão parecia liso e frio sob suas patas, e ela só teve consciência das paredes de ambos os lados quando as pontas dos bigodes roçaram nelas. No primeiro momento, ela reagiu demais e bateu na parede oposta com estrondo, mas logo aprendeu a mover a cabeça apenas um pouquinho quando seus bigodes formigaram. — O túnel se abre aqui embaixo — Folhas Caídas gritou por cima do ombro. Ele deve ter ouvido ela cambalear de um lado para o outro. Folha de Azevinho percebeu que podia ver o contorno de seu companheiro contra um tom mais claro de cinza. O som da água ecoou pelo túnel, não exatamente espirrando, mas um suave murmúrio líquido que só poderia ser o rio subterrâneo. Folha de Azevinho começou a trotar, passando por Folhas Caídas e irrompendo na enorme caverna. Estava cheio de luz crepuscular e para Folha de Azevinho, depois de ficar presa na escuridão por tanto tempo, parecia tão familiar e acolhedor quanto sua toca no vale. À sua frente estava o rio, manso e quieto entre suas margens rasas de pedra, e havia a saliência no alto da parede onde Brasa de Leão se vangloriava de estar de pé. — Seu irmão e uma colega dele brincavam lá em cima — comentou Folhas Caídas, ficando ao lado dela. Ele quer dizer Brasa de Leão e Cauda de Urze. Folha de Azevinho sentiu uma pontada de desconforto. A impressão de Folhas Caídas sobre os clãs era baseada em gatos que se escondiam e quebravam o código dos guerreiros? Para mudar o assunto, ela acenou com a cabeça em direção a um túnel do outro lado do rio. — Isso leva para fora, não é? Era estranho pensar que uma curta caminhada a levaria de volta ao coração do Clã do Trovão. — Antes sim — miou Folhas Caídas. — Mas agora está bloqueado pela lama. Você se lembra daquele túnel lá? Foi onde você encontrou os filhotes. Folha de Azevinho olhou para a enorme boca negra, perto da margem do rio. Ela estremeceu ao relembrar a busca desesperada pelos gatos perdidos do Clã do Vento, enquanto muito acima deles Estrela Delgada e Estrela de Fogo se preparavam para travar uma guerra pelos desaparecimentos. 15
— Os túneis não são assustadores quando você se acostuma com eles — Folhas Caídas a tranquilizou. — Eu vou te mostrar, mas primeiro você deveria comer. Ele caminhou até a beira do rio e parou por um momento, seu olhar fixo na água negra deslizando. De repente, uma de suas patas dianteiras disparou e pegou um pedaço trêmulo de peixe prateado na rocha. Ele bateu loucamente até que Folhas Caídas o matou com um único golpe. — Aqui — ele miou, empurrando-o em direção a Folha de Azevinho. — Er, você não quer comer também? — sugeriu Folha de Azevinho, hesitando em mais uma refeição de peixe. Se ela nascesse no Clã do Rio, ela já teria escolhido morrer de fome! Folhas Caídas balançou a cabeça. — Não, este é para você. Coma, e então poderemos explorar. A contragosto, Folha de Azevinho engoliu o peixe. O gosto não foi tão ruim desta vez, e quando ela bebeu do rio, o cheiro forte e fresco da água era refrescante. Folhas Caídas estava esperando por ela na boca do túnel mais escuro. Ele acenou para ela com o rabo antes de trotar para as sombras. Folha de Azevinho seguiu mais devagar, dando uma última olhada na caverna semi-iluminada antes de se render para a escuridão. Ela podia ouvir passos de patas à frente, tocando com confiança na pedra. — Vai ficar mais claro em breve — Folhas Caídas gritou de volta para ela. Folha de Azevinho começou a trotar, feliz por sentir um pouco de calor em seus ossos. De repente, seu nariz roçou em algo macio e ela diminuiu a velocidade para evitar bater em Folhas Caídas. Ela fungou, tentando captar o cheiro dele, mas tudo o que conseguia sentir era o cheiro frio e úmido de pedra. Folhas Caídas esteve nos túneis há tanto tempo que ficou com o cheiro de seus arredores? Folhas Caídas ganhou velocidade e Folha de Azevinho correu para acompanhá-lo. As paredes do túnel emergiram das sombras e ela pôde ver o contorno do gato à sua frente. Folha de Azevinho não sabia de onde vinha a luz e, pela primeira vez, ela não olhou imediatamente para baixo para verificar onde ela estava colocando as patas. Ela sabia que o chão era liso e nivelado aqui, nenhuma pedra solta a tinha feito tropeçar até agora, e não houve nenhuma inclinação acentuada. Folhas Caídas se virou para olhar para ela, seus olhos brilhando na semi escuridão. — Certo, posso ir um pouco mais rápido? — ele miou. Havia um toque de desafio em sua voz. — Claro! — Folha de Azevinho respondeu. Sua perna machucada não estava doendo nem um pouco e ela estava pronta para usar os músculos que ficaram parados por muito tempo. Ela mal teve tempo de respirar antes que Folhas Caídas saísse correndo. Sua pelagem ruiva e branca foi quase instantaneamente engolida pelas sombras além do alcance da luz pálida. Desta vez Folha de Azevinho não pensou duas vezes antes de segui-lo. Seus bigodes tremiam com o esforço de sentir as paredes de ambos os lados, e ela manteve o peso baixo sobre as patas para que pudesse ajustar às mudanças no piso do túnel. Ambos os gatos começaram a descer abruptamente, e então Folha de Azevinho balançou para trás até que suas patas dianteiras fizessem pouco mais do que tatear o caminho, mantendo-a equilibrada sobre as patas traseiras. Depois de um tempo, sua perna traseira começou a doer, mas então o túnel se achatou e Folha de Azevinho conseguiu correr a todo vapor novamente. Ela podia ouvir Folhas Caídas à sua frente e estava começando a saber quando o túnel fazia uma curva ou atingia uma inclinação com o som de suas patas. Quando eles invadiram uma pequena caverna cheia de luz solar vinda de uma rachadura no topo, Folha de Azevinho quase ficou desapontada. Os gatos pararam por um momento, ofegantes. — Isso foi divertido! — Folha de Azevinho ofegou. — Você está indo muito bem! — Folhas Caídas ronronou com admiração. — Obrigada! — Folha de Azevinho olhou em volta. — Onde estamos? Quero dizer, em relação ao exterior? — Chegamos ao outro lado das colinas — explicou Folhas Caídas. — Aquele túnel ali — ele acenou com a cabeça para uma abertura na parede — Leva para fora se você seguir o cheiro das árvores quando chegar à bifurcação. Folha de Azevinho inclinou a cabeça para trás e olhou para o teto. Lâminas de pedra pontudas penduradas, rodeadas com linhas delicadas. Uma gota de água grudava em cada ponta. Ela não conhecia o território acima deles, não sabia se estava além das fronteiras do clã. Mas era estranho pensar que cavernas como esta, e longos e sinuosos túneis, estavam sob suas patas o tempo todo. — Devíamos voltar — miou Folhas Caídas. — Você não quer machucar sua perna. Vamos, vamos seguir um caminho diferente. Antes que Folha de Azevinho pudesse protestar que sua perna estava bem, ele disparou para um túnel lateral. — Espere por mim! — Folha de Azevinho guinchou de brincadeira. Ela correu para a escuridão, esticando o pescoço até que o focinho esbarrou no pelo frio. — Peguei você! — ela brincou. Folhas Caídas gorjeiam divertidas. — Veremos isso! — Ele alongou o passo e puxou à frente. 16
Folha de Azevinho saltou para a frente, mas sua pata prendeu-se numa pedra solta e ela tropeçou. Recuperando o equilíbrio, ela parou para ouvir. As patas de Folhas Caídas soaram fracamente em algum lugar no túnel. Folha de Azevinho partiu, mas quase imediatamente bateu na parede porque estava muito ocupada forçando seu corpo para ouvir os passos. Ela fez uma pausa e balançou a cabeça. Foco! Ela endireitou os bigodes com um movimento de sua pata e começou a trotar pelo túnel. Ela definitivamente podia ouvir Folhas Caídas à sua frente. Uma brisa em seu rosto revelou um túnel que levava para um lado. Folha de Azevinho instintivamente virou a cabeça para olhar, mas estava tão escuro que ela não conseguia ver nenhuma mudança nas sombras ao seu redor. Ela lutou contra um pulso de alarme e farejou o espaço vazio onde o túnel lateral começava. Não havia nenhum vestígio de calor ou pelo, nenhum sinal de que Folhas Caídas tivesse ido por ali. Ele teria se mantido no túnel principal, então? Folha de Azevinho apurou as orelhas. O silêncio a envolvia, pesado como água enchendo seus ouvidos. Ela forçou-se a andar para frente e pulou ao ouvir o som mais fraco de passos de patas. Ela parou, esforçando-se para ouvir. Os passos pararam. Folha de Azevinho olhou para as patas, embora ela não conseguisse vê-las. Miolo de camundongo! Ela estava ouvindo o eco de seus próprios passos. Ela estava completamente sozinha na escuridão. Um gemido subiu em sua garganta e ela engoliu em seco para mantê-lo baixo. Seu pelo ficou em pé e ela sentiu as patas começarem a tremer. Certamente Folhas Caídas notaria que ela não estava atrás dele? Ou ele iria presumir que ela tivesse encontrado um caminho de volta diferente? Ela estava correndo com tanta confiança atrás dele. Folha de Azevinho deu um passo à frente e sua cabeça bateu contra a rocha. Cambaleando, ela pulou para o lado e bateu no ombro contra a parede oposta. O túnel encolheu? As paredes estavam se fechando sobre ela, esmagando-a lentamente para o nada? — Folha de Azevinho! — Um sussurro ao lado dela fez Folha de Azevinho quase pular para fora de sua pele. — Você está bem? — Folhas Caídas perguntou, aproximando-se até que seu focinho tocou as orelhas dela. — O que aconteceu? — Eu não sabia onde você estava! — Folha de Azevinho explodiu. — Estava tão escuro e pensei que pudesse ouvir você, mas foram apenas meus próprios passos! Então bati nas paredes e pensei que você tinha me perdido! — Eu nunca farei isso, eu prometo — Folhas Caídas murmurou em seu ouvido. — Você nunca se perderá aqui, porque você me tem. Vamos, vou te levar de volta. Com a cabeça perto da dela, ele conduziu Folha de Azevinho ao longo do túnel, diminuindo o ritmo enquanto ela mancava ao lado dele. Eles emergiram na caverna, atravessaram o rio e voltaram para o túnel onde ficava o ninho de Folha de Azevinho. Ela desabou sobre as penas, sentindo-se grata pelo calor delas contra seu pelo gelado. Sua perna latejava e Folhas Caídas empurrou algumas sementes de papoula em sua direção. — Coma isso, elas vão te ajudar a dormir — ele sugeriu. Ele se virou para sair, mas Folha de Azevinho levantou a cabeça. — Você pode... você pode ficar aqui esta noite? — ela miou. — Não quero ficar sozinha no escuro novamente. Há espaço no meu ninho se eu me virar. Folhas Caídas hesitou, depois entrou no círculo de penas. — Tudo bem, só por uma noite — ele miou. Ele enrolou-se ao lado dela de uma forma um tanto estranha, e Folha de Azevinho contorceu-se para lhe dar mais espaço. As sementes de papoula estavam funcionando e suas pálpebras estavam pesadas. Ela desenrolou-se até que sua coluna foi pressionada contra o flanco de Folhas Caídas. Por um momento foi como estar de volta ao buraco, compartilhando seu ninho com Coração de Cinzas. Folha de Azevinho respirou fundo e começou a adormecer. Mas pouco antes da escuridão límpida encher sua mente, ela estremeceu. Por que estou com tanto frio? Não havia calor vindo da pele de Folhas Caídas. Viver no subsolo o arrepiou até os ossos? 17
CAPÍTULO 4 — Ei! Acorde! É hora da patrulha matinal! Folha de Azevinho rolou e esfregou uma pata sobre os olhos. Folhas Caídas estava olhando para ela, seu rabo enrolado alto sobre as costas. — Vamos, lesma sonolenta! — ele provocou. Folha de Azevinho se levantou. Ela estava sonhando que estava de volta ao Clã do Trovão, perseguindo um esquilo que ficava cada vez menor quanto mais perto ela chegava. Assim que ela estendeu a mão para pegá-lo, o esquilo havia desaparecido completamente. Ela espiou além de Folhas Caídas para olhar a luz amarela pálida inclinada para dentro do túnel. O ângulo entre o feixe de luz e o teto estava mais estreito hoje, o que significava que o sol estava mais baixo no céu. Folha de Azevinho inclinou a cabeça para um lado. Ela estava aqui... quantas luas? Três ou quatro, pelo menos. A estação de folhas caídas devia estar se infiltrando na floresta lá fora, deixando as árvores douradas e escarlates. Folha de Azevinho se perguntou se ficaria mais frio nos túneis. Ela cutucou seu ninho com o pé. Ela precisaria encontrar mais penas. Folhas Caídas estava trotando para longe dela. — Vou pegar o túnel do pântano hoje — ele gritou por cima do ombro. — E você pode verificar o túnel da floresta. Ele tinha inventado nomes para os dois principais túneis de saída que não levavam de volta ao território do Clã do Trovão. Eles nunca entravam nesses túneis; sem dizer nada em voz alta, Folha de Azevinho sabia que Folhas Caídas estava tentando mantê-la distraída de seu antigo lar. Ela tinha escolhido ficar com ele, então devia ser isso que ela queria, certo? Quando ela lhe contou sobre a vida diária nos clãs, com patrulhas de fronteira e caça e cerimônias para aprendizes e guerreiros, ele sugeriu fazer o mesmo aqui embaixo. Agora, cada dia começava com uma patrulha nos túneis de saída, não que eles já tivessem encontrado algo nos caminhos de pedra vazios, seguidos de pesca no rio subterrâneo. Folha de Azevinho tinha aprendido a fisgar peixinhos com sua pata quase tão suavemente quanto Folhas Caídas, e ela tinha se acostumado ao gosto forte e aquoso. Ela podia correr pela escuridão com confiança agora, detectando as brisas mais fracas em seus bigodes e captando os menores ecos da água corrente do rio para localizar onde estava. Quando ela estava patrulhando um túnel de saída, ela só foi até a luz que entrava pela boca, ficando para trás como se isso fosse queimar suas patas. Ela pertencia às sombras agora, se escondendo da luz do dia e do som do vento nas árvores. A guerreira estremeceu. Ela tinha abrigo, comida e companhia. Não era mais do que ela merecia, depois do que tinha feito? Folhas Caídas era muito menos exigente do que seus antigos companheiros de clã; ele a deixava comer todos os peixes que eles pegavam juntos, e ele nunca passava tanto tempo com ela que ela se cansasse de sua companhia. Na verdade, ele frequentemente a deixava sozinha, especialmente à noite. Folha de Azevinho se perguntava onde ele dormia; ela achava que já tinha explorado todos os túneis, mas nunca tinha visto sinais de outro ninho. — Vamos! A voz de Folhas Caídas ecoou pelo túnel, e Folha de Azevinho começou a correr. Ela o alcançou na caverna do rio e eles ficaram lado a lado, olhando para a água. Ela estava fluindo mais rápido hoje, e pequenas ondas se espalhavam pelas bordas da ravina de pedra. — Choveu ontem à noite — explicou Folhas Caídas. Folha de Azevinho sentiu um lampejo de alarme. — O rio vai inundar?— Folhas Caídas balançou a cabeça. — Ainda não — Ele andou até um canto e voltou rolando uma grande pedra chata com o focinho. Ele a empurrou para a borda da linha molhada deixada pelas ondas. — Usaremos isso como um marcador para ver se o rio sobe mais. Folha de Azevinho passou a pata sobre a pedra. Parecia lisa, como um ovo. — Essa é uma boa ideia — ela comentou. — É o que os garra afiadas me disseram para fazer — Folhas Caídas miou. — Antes de eu vir aqui para minha iniciação. Folha de Azevinho olhou para ele bruscamente. Folhas Caídas havia mencionado uma vez que ele havia se perdido nos túneis enquanto treinava para ser um garra afiada, o que parecia ser o mesmo que um guerreiro de clã. Ele não contaria mais nada a ela sobre seu clã, ou tribo, ou qualquer que fosse o nome que seus parentes tinham para si mesmos. 18
— Se você voltasse agora — ela miou gentilmente. — Você seria um dos maiores garras afiadas de todos os tempos. Você pode ter se perdido uma vez, mas conhece esses túneis melhor do que qualquer gato! Se encontrar seu caminho através dos túneis é suposto lhe ensinar a ser forte, corajoso e independente, você é todas essas coisas! Você seria um herói! Folhas Caídas olhou para ela como se ela tivesse perdido a cabeça. — Voltar? — ele sibilou. — Eu não posso voltar! Você não entende? É tarde demais! — Tremendo de angústia, ele girou e correu para o túnel que levava ao Clã do Vento, aquele que eles chamavam de túnel do pântano. — Espere! — Folha de Azevinho gritou, correndo atrás dele. Mas ela parou quando chegou à beira da caverna do rio. Tudo o que ela tinha eram perguntas para Folhas Caídas, e ela não queria deixá-lo mais chateado. O pensamento passou pela sua mente de que ela poderia não ser a única fugindo de um segredo terrível. Ela nunca havia contado a Folhas Caídas o que havia acontecido com Pelo de Cinzeiro, talvez ela tivesse mais em comum com seu novo companheiro do que imaginava. Ela se virou e caminhou de volta pela caverna. A entrada para o túnel da floresta ficava do outro lado do rio, e hoje foi preciso um salto muito maior para passar pela ravina. Folha de Azevinho gritou quando suas patas traseiras espirraram na borda da água e cobriram seu pelo da barriga com gotas de gelo. Ao entrar no túnel, ela começou a correr para se aquecer. As paredes cinzentas e ásperas de cada lado emergiram da escuridão quando ela se aproximou da entrada. O vento soprava diretamente para dentro do túnel, enchendo a boca de Folha de Azevinho com aromas de folhas secas e grama quebradiça. Ela se aproximou até que a luz se espalhou por suas patas e levantou uma olhando para sua almofada com surpresa. Estava pálida e dura por causa de luas de corrida em pedra. De repente, Folha de Azevinho ansiava por sentir a grama verde e macia sob seus pés e ver o céu, vasto e cheio de luz, acima dela. Ela se sentiu puxada em direção à boca do túnel como se fosse um galho em um rio. Lá fora! A luz ficou mais forte e Folha de Azevinho apertou os olhos. Não era sol, essa luz era fria e cinza, mas era mais brilhante do que qualquer coisa que ela tinha visto em muito tempo. A entrada do túnel era um círculo de um branco deslumbrante, doloroso demais para olhar diretamente. De repente, houve um barulho de colisão além do brilho, o som de galhos quebrando sob patas pesadas. Então uma saraivada de latidos, misturados com um latido agudo. Folha de Azevinho estremeceu quando o barulho atingiu seus ouvidos, ela estava acostumada ao silêncio pesado dos túneis. Ela se encolheu contra a parede, assustada demais para saber para onde correr. Houve uma explosão de passos de patas na entrada e uma enorme forma escura irrompeu pela luz. Ao mesmo tempo, uma onda de fedor atingiu o nariz de Folha de Azevinho. Raposa! O medo cravou suas patas no chão. O intruso colidiu com ela, ricocheteou na parede oposta, então se virou e olhou para trás, para onde tinha vindo, sem notar Folha de Azevinho encolhida no canto. Uma cabeça foi enfiada através do círculo de luz na boca do túnel. Uma longa língua rosa pendia de mandíbulas gotejantes, e orelhas enormes caíam de cada lado de olhos amarelos maldosos. A raposa soltou um grito e se arrastou para trás, esmagando Folha de Azevinho contra a parede do túnel. Ela prendeu a respiração, tonta de terror. O cachorro na entrada rosnou e deu um passo em direção a eles. Ele bloqueou a luz para que suas feições desaparecessem e tudo o que Folha de Azevinho podia ver era o contorno tênue de seus ombros enormes. A raposa se agachou, enchendo o nariz de Folha de Azevinho com pelo macio e sensível. Ela ansiava por espirrar, mas não podia correr o risco de ser descoberta. Ouviu-se um grito do lado de fora, uma voz profunda de Duas-Pernas, levantada com raiva, e as orelhas do cão se contraíram. Um momento depois, ele se sacudiu para trás, e Folha de Azevinho apertou os olhos para o brilho e viu o Duas-Pernas segurando a coleira do cão com uma pata gorda e rosa. O cão choramingou enquanto era arrastado para longe. A raposa relaxou, dando a Folha de Azevinho espaço suficiente para deslizar suavemente para trás. Era apenas um filhote, não mais alto do que ela, e seu pelo cheirava a leite e terra de sua toca. De repente Folha de Azevinho ouviu um sussurro feroz. — O que está acontecendo? Você está bem? — Folhas Caídas estava parado logo depois da curva do túnel. Ela correu em sua direção. Seus olhos brilhavam como luas na meia-luz. — Cuidado! — Folha de Azevinho sibilou. — Tem uma raposa atrás de mim! Corra! 19
CAPÍTULO 5 Folha de Azevinho enfiou o focinho sob o rabo e tentou abafar o barulho que vinha pelos túneis até seu ninho. O filhote de raposa ainda estava em algum lugar no subsolo, choramingando no escuro. Por que não tinha ido embora? Teria medo de que o cachorro estivesse esperando por ele? Folha de Azevinho fungou e se contorceu mais fundo nas penas. O ganido agudo irrompeu, incomodando-a como espinhos. A felina negra sentou-se. Pelo amor do Clã das Estrelas, cale a boca! Não havia como ela conseguir dormir com aquele barulho. Ela pulou do ninho e caminhou lentamente pelo túnel até a caverna do rio. Estava preenchida com um leve toque cinza-claro de luz estelar. Folhas Caídas estava sentado na beira da água. — Você consegue ouvir a raposa? — Folha de Azevinho perguntou irritada. Folhas Caídas deu de ombros. — Ela vai encontrar o caminho para fora eventualmente. — Mas isso está me mantendo acordada! — Folha de Azevinho reclamou. Folhas Caídas também não precisa dormir? A raposa soltou um grito alto, como se pudesse ouvi-los conversando. Folha de Azevinho sentiu uma onda de pena. Ela sabia como era se sentir perdida e assustada no escuro. — Talvez eu devesse ir procurá-la — murmurou. Folhas Caídas a encarou surpreso. — Mas é uma raposa! — É um bebê — retrucou ela. — Você não deixaria um filhote aqui embaixo, deixaria? — Um filhote não tentaria me comer — apontou Folhas Caídas. — Sou muito grande para este filhote — Folha de Azevinho assegurou-lhe, esperando que fosse verdade. A raposa tinha um forte cheiro de leite, o que significava que provavelmente ainda não estava comendo presa fresca. E certamente não havia notado que estava sentada em cima de uma presa quando o cachorro a perseguiu até o buraco. Ela sacudiu o pelo e começou a andar em direção ao túnel na floresta — Você não vai mesmo procurar, vai? — Folhas Caídas parecia surpreso. — Sim, se isso significar que eu posso dormir um pouco — miou Folha de Azevinho. — Se eu não voltar ao amanhecer, venha me buscar, tudo bem? — ela acrescentou, em um tom meio brincalhão. — Claro — respondeu Folhas Caídas sombriamente. A escuridão parecia ainda mais sólida do que o normal, e Folha de Azevinho lutou contra a vontade de dar meia-volta e fugir de volta para a caverna do rio. O choramingo do filhote de raposa ecoava pelas paredes, confundindo seus sentidos e desorientando-a. Ela parou quando sentiu o ar frio soprando em um lado de sua cabeça. Havia uma abertura para outro túnel ali; o filhote teria ido por ali? Ela escutou por um momento. Houve um pequeno ruído de raspagem, como se almofadas macias estivessem se arrastando contra a pedra. Se a raposa realmente tivesse descido ali, estaria realmente presa, porque este túnel em particular ficava cada vez mais estreito até terminar abruptamente em um desabamento de rochas. O que significava que, se Folha de Azevinho seguisse o filhote, ela poderia ficar presa em um beco sem saída... Folha de Azevinho respirou fundo e entrou no túnel. Quase imediatamente, a raposa soltou um grito como se a tivesse ouvido se aproximando. — Está tudo bem, eu não vou te machucar! — Folha de Azevinho gritou na escuridão. Houve um som rápido de algo se arrastando, e uma onda de medo com cheiro de raposa rolou pela passagem em sua direção. Folha de Azevinho lembrou a si mesma que era apenas um filhote perdido e assustado, então ela não era nenhum perigo. Ela se aproximou. — Shhh, não tenha medo — murmurou. A luta parou, e Folha de Azevinho imaginou que a raposa estava pressionada contra o abismo sem ter para onde ir. Ela soltou um pequeno gemido. — Coitadinho — Folha de Azevinho miou, como se estivesse confortando um filhote. — Você se perdeu? Ela deu mais um passo à frente, e seu focinho bateu contra o pelo macio e de cheiro forte. Tentando não engasgar, Folha de Azevinho deu uma lambida. A raposa ficou tensa, rígida como uma rocha, depois relaxou enquanto ela continuava lambendo. 20
Sentindo-se mais ousada, Folha de Azevinho se aproximou de onde ela imaginou que estivesse a cabeça do filhote. Seu nariz tocou a ponta de uma orelha macia como uma pena. — Está tudo bem, você está segura agora — ela sussurrou entre lambidas A cabeça do filhote caiu até encostar no peito de Folha de Azevinho. Ela sentiu o leve cócegas de seus bigodes enquanto ele enfiava o queixo sob as patas dianteiras. Folha de Azevinho se contorceu para mais perto até que seu corpo estivesse enrolado em volta do máximo da raposa que ela conseguia alcançar. Ela podia sentir sua respiração desacelerando e se tornando mais constante. Ela parou de lamber e descansou a cabeça no pescoço da raposa. — Durma, pequena— murmurou. Ela se apertou contra o pelo frio ao lado dela, esperando que um pouco de seu calor penetrasse. Passando pela sua cabeça que nenhum de seus antigos companheiros de clã jamais acreditaria que ela havia dormido ao lado de uma raposa. Mas ela não estava mais no clã, e este filhote de raposa precisava dela, assim como um gatinho precisava de sua mãe. Folha de Azevinho mudou a cabeça para uma posição mais confortável e fechou os olhos Ela foi acordada por algo beliscando sua pata dianteira. Folhas Caídas estaria chamando sua atenção ao mordê-la? Folha de Azevinho abriu os olhos para uma fraca luz cinza. Uma forma pairava sobre ela e, quando olhou para sua perna, viu pequenos dentes brancos afundando em seu pelo. — Ai! — ela gritou, se soltando. O filhote de raposa inclinou a cabeça para o lado e olhou para ela. — Yip! Folha de Azevinho recuou. O filhote era maior do que ela se lembrava, duas vezes mais largo que ela nos ombros, e seus dentes eram pequenos, mas definitivamente afiados. — Certooo — ela miou, dando passos até se sentir segura. — Vamos sair desses túneis. A raposa saltou de pé, preenchendo o espaço. Folha de Azevinho se preparou. Não havia sinal de que o filhote pensasse que ela era uma presa, na verdade, parecia que queria brincar. Soltou outro latido agudo e saltou sobre as patas dianteiras. Folha de Azevinho se virou e olhou por cima do ombro. Ia contra todos os seus instintos ter a raposa atrás dela, porque agora ela se sentia como se estivesse sendo perseguida. Não perseguida, seguida, disse a si mesma com firmeza. — Vamos! — ela miou Ela deu alguns passos à frente. A raposa correu atrás dela, depois parou e ganiu. Folha de Azevinho olhou para o túnel à frente. Ele desapareceu na escuridão, comparado à luz pálida que preenchia esta seção. — Está tudo bem — disse ela ao filhote. — Esta é a saída, eu prometo. Ela caminhou para as sombras, mas a raposa permaneceu onde estava. Houve um baque suave, e Folha de Azevinho percebeu que ela havia se sentado. Suspirando, ela se virou e se espremeu ao lado dela. — Levante-se — ela insistiu, cutucando o flanco do filhote com o focinho. — Você não pode ficar aqui! Ela cutucou seus quadris com a pata e a raposa pulou com um grito. Folha de Azevinho deu-lhe outro empurrão com o focinho. — Vamos, estarei bem ao seu lado. O filhote deu um passo cauteloso e Folha de Azevinho permaneceu perto, pressionando seu flanco. — Isso mesmo!— ela miou. Lentamente, eles avançaram lentamente pelo túnel. A raposa parou abruptamente quando chegaram à junção com o túnel da floresta, mas Folha de Azevinho a cutucou, empurrou e a encorajou a virar a esquina até que pudessem sentir a brisa de fora em seus rostos. A raposa soltou um grito alegre e começou a trotar. Confiante demais, ela se chocou contra a parede oposta e sentou-se com um solavanco choramingando. Folha de Azevinho, correu para frente e lambeu o focinho da raposa. Ela não sentia o gosto de sangue, então ela não estava gravemente ferida. — Sua boba — ela a repreendeu. — Fique ao meu lado até que você possa ver, tudo bem? Ela sabia que a raposa não conseguia entender o que ela estava dizendo, mas ela ainda caminhava mais devagar enquanto eles contornavam a curva do túnel. Uma luz cinza se derramava à frente deles, dolorosamente brilhante como antes. A raposa piscou e ganiu, esfregando os olhos com a pata dianteira. — É porque você ficou no escuro por um tempo — explicou Folha de Azevinho — Continue, você está quase lá! Ela se levantou e lambeu as orelhas do filhote, e uma imagem de Vôo de Esquilo fazendo o mesmo com ela surgiu em sua mente. Ela havia caído em uma poça e sua mãe a levou de volta ao berçário para secá-la. Sua mãe. De repente, Folha de Azevinho sentiu falta de Voo do Esquilo com uma dor física. A raposa pulou e continuou trotando. Ganhou velocidade à medida que seus olhos se acostumaram à luz, e Folha de Azevinho ficou para trás, resistindo à vontade de ficar pressionada contra seu pelo quente. O filhote não pertencia ali. Precisava estar de volta com sua mãe, em sua toca na floresta. De repente, o filhote parou, bem na entrada. Olhou para trás, para Folha de Azevinho, e soltou um latido questionador Folha de Azevinho balançou a cabeça. 21
— Eu não posso ir com você, pequena — ela miou. — Esta é a minha casa. As palavras ficaram presas em sua garganta como um pedaço cartilaginoso de presa fresca. Ouviu-se um grito alto do outro lado da boca do túnel. A cabeça do filhote se virou rapidamente, suas orelhas em pé. Ele soltou um latido e ouviu-se outro, confiante e alegre. — Essa é sua mãe, não é? — Folha de Azevinho sussurrou. O filhote saltou para a frente e desapareceu no círculo branco. Folha de Azevinho rastejou pelo túnel até conseguir ver as árvores lá fora. O túnel se abria para uma floresta muito parecida com o território do Clã do Trovão, com uma mistura de árvores e vegetação rasteira densa. A luz atingiu os olhos de Folha de Azevinho e ela os estreitou o máximo que pôde. Seus ouvidos zumbiam com o som de folhas farfalhando, pássaros cantando e o estrondo de patas enquanto filhote e mãe raposa corriam um em direção ao outro. Piscando, Folha de Azevinho observou enquanto eles colidiam um contra o outro em um emaranhado de pelos castanho-avermelhados. O filhote soltou uma saraivada de latidos animados enquanto sua mãe o enrolava, cheirando cada parte de seu pelo — Você está seguro agora — murmurou Folha de Azevinho, tentando ignorar o nó de tristeza em seu peito. — Você está de volta ao seu lugar. A visão do filhote cutucando a barriga da mãe para tirar leite se misturou às imagens de Folha de Azevinho se contorcendo com seus irmãos de ninhada no berçário do clã, banhada em aromas reconfortantes de comida. Eu era feliz naquela época, antes de saber a verdade, pensou ela. Mas essa vida agora acabou. 22
CAPÍTULO 6 A estação das folhas caídas tomava conta da floresta e o chão estava coberto por uma camada de folhas laranjas e vermelhas quebradiças. Enquanto Folha de Azevinho observava de dentro do túnel, a brisa arrancou outro bocado de folhas de uma faia e as entrelaçou no ar antes de libertá-las para flutuar até o chão. Uma voz atrás dela a fez pular. — Está procurando pelo filhote? Folha de Azevinho se virou, a pelagem arrepiando com culpa. — Folhas Caídas! Há quanto tempo está aí? — Tempo o suficiente para ver o quanto você quer sair — o gato manchado miou. Folha de Azevinho moveu-se, liberando espaço ao seu lado para que ele se juntasse a ela, mas Folhas Caídas ficou onde estava, suas patas encobertas pelas sombras. — Você está torcendo para que o filhote volte? — Folhas Caídas provocou, porém sua voz soava vazia no túnel ecoante. — Claro que não — Folha de Azevinho miou. — Sei que ele pertence ao lado de fora, na floresta com sua mãe. — E você? — Folhas Caídas pressionou suavemente. — Também pertence lá fora, com sua família? Folha de Azevinho virou a cara. — Não tenho família — rosnou. — Todos temos família — suspirou Folhas Caídas. — Jura? Então onde estão a sua? — Folha de Azevinho retrucou. — Você diz que veio de um grande grupo de gatos, mas o que aconteceu com eles? Nunca vimos rastro nenhum de outros gatos vivendo por aqui. Folhas Caídas olhou para baixo. — Eles se foram — sussurrou. — Então vamos procurá-los! — Folha de Azevinho declarou. — Devem haver sinais por aí de para onde eles foram. Para sua surpresa, os olhos de Folhas Caídas arregalaram com horror. — Não! Eu devo ficar aqui! Se eu me for, como minha mãe irá me encontrar? Ela virá um dia. Eu sei que vai. Folha de Azevinho lutou contra a impaciência. — Mas podemos encontrá-la primeiro! Venha comigo. Eu vou te proteger. — Não preciso de proteção — Folhas Caídas sibilou. — Só preciso ficar aqui. Pode ir se quiser. Não posso sair. — Ele se virou e adentrou a escuridão. Folha de Azevinho o observou partir, sentindo-se infeliz. Tantas coisas que ele havia dito não faziam sentido. Por que sua mãe não tinha vindo procurá-lo até agora? Ela deve ter o visto entrar nos túneis, então por que não havia procurado por seu filho no momento em que ele não voltou? Mas Folhas Caídas nunca lhe dava uma resposta direta. Ele parecia determinado em ser o mais misterioso possível, e às vezes Folha de Azevinho se perguntava se ele sequer queria companhia em sua casa abaixo do solo. Bem, não tenho que ficar aqui com ele. Ela levantou a cabeça e deixou que os cheiros da floresta passassem por seu focinho: terra, folhas, esquilo, e o aroma almiscarado de um rato-do-campo se escondendo entre os pinheiros… O que ela estava fazendo, se escondendo em túneis quando poderia estar lá fora, onde pertencia? Folha de Azevinho correu atrás de Folhas Caídas. Quando alcançou a caverna do rio, ele estava enrolado embaixo da plataforma de pedras com o nariz coberto pela cauda. Entretanto, não estava dormindo; seus olhos estavam arregalados, cintilando na pálida luz acinzentada. — Você salvou minha vida — Folha de Azevinho desabafou, parando abruptamente na frente dele. — E sempre serei grata. Mas você está certo. Preciso sair, comer esquilos e camundongos ao invés de peixe, onde posso ver o céu e sentir a brisa no meu pelo- — Então vá — Folhas Caídas interrompeu. — Ninguém disse que você precisava ficar aqui. Folha de Azevinho o encarou. Ele se importava tão pouco com ela que não iria nem tentar fazê-la ficar? Bem, ela também não precisava dele! — Ótimo — ela explodiu. — Só pensei que deveria avisá-lo caso se perguntasse onde eu estava. Folhas Caídas deu de ombros e cobriu o nariz com o rabo novamente. Folha de Azevinho sentiu que havia sido rejeitada. Tentando não se sentir magoada, ela se virou e retornou para o túnel da floresta. Caminhou lentamente, quase esperando que Folhas Caídas viesse correndo atrás dela, implorando que mudasse de ideia. Mas as sombras atrás de si permaneceram em silêncio. O vento era mais frio do que Folha de Azevinho se lembrava, pinicando sua pelagem mesmo que tentasse permanecer ao abrigo dos troncos mais grossos. A luz estava se dissipando e sombras se estendiam nas raízes de cada árvore, mas essa escuridão parecia menos confortável do que estar nos túneis e Folha de Azevinho se viu tropeçando em todo graveto e musgo no chão. Cerrando os dentes, ela se espremeu em um denso arbusto de espinhos. Eles sempre haviam se enroscado em sua pelagem desse jeito? E as árvores sem folhas sempre foram tão barulhentas quando seus galhos se debatiam contra os outros? 23
As orelhas de Folha de Azevinho estavam sufocadas demais para perceber os movimentos de qualquer presa e sua visão se tornava estranhamente embaçada quando ela tentava enxergar além da distância de uma cauda de raposa. Ela continuou a dizer a si mesma que era igual ao território do Clã do Trovão, quando realmente não era: não havia cheiros familiares ou trilhas entre os arbustos, sinal nenhum que algum gato já havia passado por ali antes. Folha de Azevinho lutou para adentrar o interior dos arbustos e se virou em círculos no meio do embolado de troncos até que houvesse limpado um pequeno espaço, quase em formato arredondado. Ela empurrou a grama seca para formar um ninho e se deitou, enrolando e cobrindo o focinho com a cauda. Seu estômago roncou, lembrando-a que não tinha comido desde sua "caçada" matinal no rio subterrâneo, mas não havia chance nenhuma de pegar algo àquela noite. Folha de Azevinho pressionou a coluna contra um grupo de troncos, desejando que Folhas Caídas estivesse ao seu lado. Embora ele nunca soltasse calor nenhum, ele tinha sido estranhamente companheiro nas raras noites que compartilhou um ninho com ela. Ele se sente mal em me deixar partir? Folha de Azevinho acordou antes do amanhecer, faminta demais para continuar dormindo. Ela se espremeu para fora dos espinhos e farejou o ar. O cheiro da chuva veio carregado pelo vento e ela estremeceu. Seu abrigo espinhoso não seria à prova d' água, então ela precisaria encontrar algumas folhas grandes para entrelaçar nos gravetos logo acima de sua cabeça. Mas primeiro precisava caçar. Uma luz leitosa estava sendo filtrada pelos galhos, o suficiente para revelar uma minúscula trilha de passos contra o adubo de folhas abaixo de uma faia. Folha de Azevinho se colocou em posição de caça, seus músculos endurecidos e protestando após luas sem uso. Ela se arrastou pelo solo, pisando suavemente e se esforçando para ouvir o familiar movimento de presa. Na base do tronco, uma folha se moveu e a ponta de um rabo liso e marrom escapou para fora. Folha de Azevinho pulou e posou certeira nas costas de um camundongo, matando-o com uma rápida mordida no pescoço. Tinha gosto de um banquete digno do Clã das Estrelas. Folha de Azevinho comeu onde estava, saboreando cada bocado. Sua barriga roncou em apreciação e se contorceu com dor quase que imediatamente. Ela sibilou entre os dentes. Fazia muito tempo que não comia tanto assim. Talvez devesse ter guardado metade para mais tarde, em sua própria pilha de presa fresca. Ela ergueu a cabeça, olhando ao seu redor pelo melhor lugar para guardar suas capturas. Então deu de ombros. Se estava apenas alimentando a si mesma, qual era o propósito de guardar comida? Ela podia caçar e comer quando estivesse com fome e pronto. Igual uma isolada faria… Folha de Azevinho se levantou e caminhou rapidamente entre as árvores. Ela não era uma isolada, era? Ela era uma gata de clã sem clã, só isso. Não uma isolada, ou solitária, ou, que o Clã das Estrelas ouça, uma gatinha de gente. Nenhuma dessas. Uma assassina, sussurrou uma vozinha em sua cabeça, mas Folha de Azevinho abaixou as orelhas e a ignorou, continuando em frente quando o chão começou a se inclinar para cima. Com a cabeça baixa, ela não percebeu os troncos se afinando até sua pelagem estar sendo abatida pelo vento. Assustada, ergueu a cabeça para ver que estava quase no topo da colina. Mais alguns passos a levariam até o pico e seria capaz de ver o lago e seu antigo lar. Suas patas permaneceram grudadas no chão. Folha de Azevinho sentiu as orelhas se esforçarem para ouvir qualquer barulho felino: seus antigos colegas de clã em uma patrulha de fronteira, talvez, ou gatos do Clã do Vento em perseguição de um coelho. Ela não ouviu nada além do vento assobiando sobre a colina e mergulhando para balançar as árvores abaixo dela. Quase sem pensar, Folha de Azevinho começou a se afastar. Parte dela ansiava por ouvir os sons distintos dos membros do Clã do Trovão e correr para se juntar a eles; outra parte temia que estivem a procurando para puni-la pela morte de Pelo de Cinzeiro. Teria Poça de Folhas, ou Brasa de Leão, ou Pena de Gaio contado a verdade? Não havia jeito de saber, pois ela nunca mais voltaria. Dando as costas para o lago, Folha de Azevinho disparou pela descida e mergulhou no abrigo das árvores. Alguns dias depois, a primeira queda de neve da estação chegou. Folha de Azevinho abriu os olhos e se deparou com sua toca de espinhos preenchida por uma estranha luz nevoenta. Ela se retirou dos arbustos e deu um gritinho quando uma camada de gelo cintilante caiu em seu pescoço. Ela se balançou, irritada, e pulou para fora do alcance dos demais galhos. Suas patas afundaram na neve branca e fofa e imediatamente ela sentiu friagem se espalhar para os seus ossos. Folha de Azevinho sibilou baixinho enquanto caminhava até o galho caído mais próximo, onde apenas alguns flocos haviam pousado. O musgo estava viscoso sob suas patas, mas pelo menos foi possível se livrar da neve grude
Elas se entrelaçavam entre as árvores, seguindo pela lateral da colina antes de descer em um grupo denso de pinheiros. As pernas de Folha de Azevinho estavam doendo de pular pela neve que ficava cada vez mais profunda enquanto ela descia pela ladeira, mas não iria desistir agora. O cheiro do filhote estava mais forte e as pegadas tinham um formato mais claro, como se ele tivesse acabado de passar por ali. Os pinheiros revelaram uma pequena clareira onde a neve estava bagunçada e em montes entre marcas de garras e penas manchadas de vermelho. Folha de Azevinho torceu o nariz com o cheiro de sangue que preenchia o ar. A raposa matou um pombo aqui, ela decidiu, analisando as longas penas cinzentas. Ela sentiu uma centelha de orgulho, como se tivesse ensinado ao filhote ela mesma. Um barulho soou atrás dela e o aroma acre se espalhou sobre ela mais forte do que antes. Folha de Azevinho se virou, um ronronado iniciando em sua garganta. O filhote estava parado na beira da clareira, a observando. Suas orelhas estavam erguidas e a ponta de sua cauda espessa encostava na neve. Definitivamente era sua raposa! Ele tinha crescido em um belo macho, a pelagem contrastando contra a neve, quase tão escarlate quanto o sangue do pombo. — Olá! — miou Folha de Azevinho. — Se lembra de mim? Com um grunhido, a raposa pulou em sua direção. Dentes amarelos se fecharam no ar onde estava o pescoço de Folha de Azevinho um segundo antes de tropeçar para trás. Ela deu de encontro a um pinheiro e se virou para escalá-lo, a criatura batendo os dentes a menos de um bigode de distância de suas patas. A metade de cima da árvore estava coberta por musgo e as garras de Folha de Azevinho perderam a força; ela deslizou para baixo, sentindo gravetos cutucarem suas costelas e laterais, e o filhote saltou, guinchando com fome e animação. Folha de Azevinho afundou as garras na madeira e conseguiu parar sua queda no momento em que dentes se fecharam no pelo ao final de sua cauda. Ela se libertou e lutou para alcançar os galhos mais altos, medo a incentivando a continuar. Abaixo dela, o filhote rosnou com frustração. A felina se agachou em um galho fino que balançava sob seu peso. Ela espiou entre as agulhas do pinheiro e observou a raposa andando em círculos no chão. Claro que ele não se lembra de mim. Não sou nada além de presa! Folha de Azevinho afundou as garras no galho, fechou os olhos e aguardou seu coração parar de tentar escapar do peito. Quando abriu os olhos novamente, estava escuro. O medo e a fuga devem tê-la exaustado o bastante para que conseguisse dormir no seu refúgio desconfortável. A floresta estava silenciosa e tudo que podia sentir no ar era neve e o pungente cheiro de seiva de pinheiro. O filhote havia partido há muito tempo. Acima das árvores, uma lua cheia e prateada flutuava no céu, cercada por estrelas deslumbrantes. A floresta estava banhada por uma nítida luz branca e Folha de Azevinho podia enxergar todo o caminho até o topo da colina. Do outro lado, os quatro clãs estariam se encontrando na ilha para realizar a Assembleia. Seria mencionado seu nome? Iria algum gato se perguntar o que havia acontecido com ela? Folha de Azevinho sentiu uma onda de miséria tão intensa que quase perdeu o equilíbrio no galho. Quando ele parou de afundar perigosamente abaixo dela, ela voltou a si e desceu com cuidado pelo tronco até alcançar a neve no chão. Sentia uma forte dor em sua barriga e, ao caminhar entre as árvores, ela parou ao lado de um arbusto de milhar que não havia sido atingido pela neve e comeu algumas de suas folhas. Mas a dor dentro dela persistiu e Folha de Azevinho percebeu que era mais do que fome: era solidão e arrependimento e tristeza. Só tinha um lugar para onde ir. Afofando o pelo contra o frio cruel, Folha de Azevinho começou a subir a colina. Estava amanhecendo quando ela chegou, clareando as sombras lançadas pelas árvores na luz do luar e acordando pássaros para cantar. Folha de Azevinho tropeçou pelo resto do caminho e parou na entrada, lutando por ar. O túnel bocejava na frente dela, quente e escuro e acolhedor. — Folhas Caídas! — ela chamou ao pular para dentro. — Folhas Caídas, onde está? 25
CAPÍTULO 7 A felina negra dormiu por dois dias inteiros após seu retorno. Folhas Caídas havia trago um peixe para comer quando se agitava, e algumas ervas que ela não reconhecia para sua tosse não agradável. — Eu adicionei mais plumas — Folhas Caídas admitiu timidamente. — Em caso que você volte. Então ele subiu delicadamente ao lado dela, e enrolou seu corpo frio próximo a ela enquanto ela voltava a dormir. Finalmente, Folha de Azevinho acordou com a cabeça mais limpa, se sentindo faminta e sem nenhum tipo de cansaço. Uma luz amarela entra no túnel, indicando o dia ensolarado. Folha de Azevinho estava sozinha em seu covil, porém Folhas Caídas apareceu, carregando um peixinho. — Coma isso — Ele pediu, derrubando o peixinho próximo a ela. Não tinha o gosto tão bom quanto camundongo e esquilo na floresta, nada teria o gosto tão bom quanto isso novamente, Folha de Azevinho suspeitou, porém ela engoliu obedientemente, sentindo suas forças voltarem em suas pernas. Folhas Caídas sentou-se próximo a ela em seu ninho e observou. — Eu vi o filhote de raposa novamente — Folha de Azevinho anunciou enquanto limpava os últimos pedaços do peixe que estavam em seus bigodes. Folhas Caídas parecia surpreso. — Você tem certeza que é o mesmo? — Definitivamente, eu percebi pelo mesmo cheiro. — O filhote te reconheceu? — Folhas Caídas perguntou. Folha de Azevinho olhou para as patas e balançou a cabeça. Ela se sentiu estúpida e com vergonha de admitir o que ela tinha feito, mas ela esperava que Folhas Caídas não a julgasse com muita severidade. — Ele me viu como um pedaço de presa suculenta — ela miou baixinho. — Eu apenas fugi. Ela sentiu algo macio em sua orelha quando Folhas Caídas a tocou com a ponta da cauda. — Eu sinto muito. Você salva a vida dele e ele retribui assim? Honestamente, alguns animais não têm gratidão! Havia uma nota de diversão mal reprimida em sua voz e Folha de Azevinho olhou para cima para ver seu olhos brilhando de humor. — Pensar que ele se lembraria de mim era uma ideia de miolo de camundongo — ela admitiu. — Só um pouco! — Folhas Caídas explodiu. — O que você achou que aconteceria? Que ele levaria você para conhecer a mãe dele? Folha de Azevinho encolheu os ombros. — Eu estava tão sozinha — ela murmurou. — Eu só queria um amigo. Num instante, Folhas Caídas estava agachado ao lado dela, pressionando seu pelo contra o dela. — E você tem um amigo — ele insistiu. — Bem aqui. Agora tenho tido uma preguiça horrível de fazer patrulhas enquanto você estava ausente. Deveríamos começar verificando os túneis, caso aquele filhote de raposa pense em nos seguir. E depois veja se você se lembra de como pescar um peixe? Depois, quando os buracos no telhado estavam escuros e as patas de Folha de Azevinho estavam doendo após correr em rochas, ela se deitou no ninho de plumas, sentindo a dor de ficar sozinha ir embora. Ela soltou um ronronar e Folhas Caídas se contorceu contra ela. — No que você está pensando? — Ele murmurou. — De como feliz estou de voltar — Folha de Azevinho respondeu honestamente. — Eu não sou feita para viver sozinha, eu acho. Folhas Caídas lambeu a orelha dela. — Eu também estou feliz que você voltou. Folha de Azevinho se virou de lado para o encarar. — Você pensa dos gatos que você deixou para trás? — Todo hora — Folhas Caídas miou calmamente. — Porém faz tanto tempo que não consigo lembrar direito. Folha de Azevinho piscou surpresa. Ela havia ido embora do Clã do Trovão por várias luas porém não havia esquecido de nada — Por quantas estações você esteve nos túneis? Folhas Caídas encolheu os ombros e virou seu rosto. 26
— Mais do que consigo contar, porém é bastante tarde para mudar algo agora. Folha de Azevinho sabia que não deveria sugerir que ele procurasse sua antiga comunidade novamente. Em vez disso, ela acomodou-se mais confortavelmente em seu flanco e pediu: — Conte-me sobre sua família. Você deve se lembrar deles. — Minha mãe se chamava Broken Shadow. Ela era muito gentil e bonita. Ela... ela não queria que eu entrasse nos túneis. Acho que ela sabia que algo ruim iria acontecer. — Ela não poderia ter impedido você? — Folha de Azevinho perguntou. — Não se eu fosse um Garra Afiada — respondeu Folhas Caídas. — Era isso que eu queria, mais do que qualquer coisa — Ele parou, parecendo dolorosamente triste, então se sacudiu. — Isso é tudo um longo caminho no passado. E sua mãe? Você disse a ela que estava deixando o clã? Folha de Azevinho começou a destruir uma das penas com a garra. — Não exatamente — ela murmurou. As orelhas de Folhas Caídas se ergueram. — Você quer dizer que ela não tem ideia de onde você está? E se ela achar que você está morta? — Provavelmente é melhor que ela ache — sussurrou Folha de Azevinho. Enquanto falava, ela perguntou qual gata ela estava se referindo a: Poça de Folhas, sua mãe verdadeira; ou Voo de Esquilo, o gato que a criou. — É complicado — ela confessou. — Eu... eu tenho duas mães. Atrás dela, ela sentiu Folhas Caídas aguçarem suas orelhas. — Duas? — Minha verdadeira mãe, Poça de Folhas, é uma curandeira. Ela não deveria ter filhotes, mas ela fugiu com Pluma de Corvo do Clã do Vento, e quando ela voltou, ela deu à luz a mim e aos meus irmãos. Para esconder o que ela tinha feito, ela nos entregou para sua irmã, Voo de Esquilo, que fingiu que éramos seus filhotes. Até o parceiro de Voo de Esquilo, Garra de Amoeiro pensava que era nosso pai! Folhas Caídas ficou quieto por um momento. Então ele perguntou: — Você acha que Voo de Esquilo amava você? — Ah, sim — miou Folha de Azevinho. — Quero dizer, ela cuidava de nós o tempo todo, assim como as outras rainhas do berçário. Mas ela mentiu para nós! Ela só nos contou a verdade quando outro gato a forçou. — E quanto a… Poça de Folhas, não é? Como ela agiu com você? Folha de Azevinho suspirou. — Ela sempre se interessou por nós, mas pensei que era porque Voo de Esquilo era sua irmã. Fui aprendiz dela por um tempo, mas depois resolvi treinar como guerreira em vez disso. Gostei de aprender com ela; porém, simplesmente não era o que eu queria fazer pelo resto da minha vida. — E Poça de Folhas sabe que você descobriu a verdade? — Perguntou Folhas Caídas. — Sim — miou Folha de Azevinho, estremecendo ao relembrar seu confronto final e furioso com a curandeira do Clã do Trovão. — Eu... eu disse a ela que ela merecia morrer pelo que fez, mas ela disse que a pior dor de todas foi ter que conviver com isso. Folha de Azevinho parou de falar e olhou para as plumas estilhaçadas em suas patas — Me parece — começou Folhas Caídas cuidadosamente. — Que essas duas gatas amavam muito você. Certamente duas mães são melhores que nenhuma? E o que quer que você tenha feito antes de vir para cá, ambas devem esperar que você esteja viva e segura. — Eu acho — Admitiu Folha de Azevinho. Ela empurrou as lascas de pluma para fora do ninho. — Mas como elas podem viver com todos esses segredos? A verdade é tudo o que importa! — Nem sempre — miou Folhas Caídas. — Talvez essas gatas acreditassem que estavam fazendo a coisa certa para você e seus irmãos. Você não pode puni-las por te amarem demais, Folha de Azevinho. Ele deu um tapinha no ombro dela com a pata e a gata deitou-se novamente. Ela não podia negar que Folhas Caídas estava certo: Voo de Esquilo e Poça de Folhas a amavam. Mas tudo foi complicado por segredos e mentiras - e pelo fato de que Folha de Azevinho matou Pelo de Cinzeiro para impedi-lo de contar a todos. — Mas então percebi que isso nunca permaneceria em segredo, então contei a todos os clãs na Assembleia. A morte de Pelo de Cinzeiro foi em vão e Folha de Azevinho não teve escolha senão se auto exilar. Lá fora, o tempo estava ainda mais frio. Havia menos peixes no rio da caverna, então Folha de Azevinho fazia caminhadas pela floresta, deixando os túneis apenas o tempo suficiente para pegar um camundongo ou esquilo e uma vez um pombo bastante magro. Folhas Caídas nunca foi com ela; ele só saia algumas vezes, disse ele, para colher ervas quando Folha de Azevinho entrou pela primeira vez nos túneis, mas ele não se sentia como se pertencesse àquele lugar. O coração de Folha de Azevinho sempre se contorcia de tristeza quando ela via o rosto ruivo e branco de seu amigo se espreitando nas sombras, observando ansiosamente enquanto ela caçava. Folhas Caídas pareciam ver os túneis como sua casa e sua prisão ao mesmo tempo. Ele realmente acreditava que era tarde demais para encontrar sua família? 27
Folha de Azevinho sempre ficava de olho no filhote de raposa ou em sua mãe, mas não via nada maior do que um pombo entre as árvores nevadas, e apenas uma vez, viu um traço de trilhas cheias de neve levando até o bosque de pinheiros. Ela desviou na direção oposta, usando o cheiro de milefólio para levá-la rapidamente de volta à boca do túnel. Havia um pequeno aglomerado crescendo do lado de fora da entrada, desafiando a neve com suas folhas verdes peludas. Cada vez que Folha de Azevinho saía, ela se pegava ouvindo sinais dos gatos do outro lado da serra. Seus companheiros de clã estavam conseguindo encontrar presas suficientes na neve? Os anciões eram fortes e estavam em forma? Várias vezes suas patas pareceram levá-la até o topo da serra sem que ela percebesse, até que ela estava a apenas uma distância da fronteira do Clã do Trovão. Mas a ideia de ficar cara a cara ficar cara a cara com um de seus ex-companheiros de clã fazia o sangue congelar em suas veias, e cada vez que Folha de Azevinho virava no último momento e corria de volta para onde Folhas Caídas a esperava. Depois de um quarto de lua, as nuvens de neve se dissiparam, deixando um céu claro e um ar fresco e parado. Folha de Azevinho enterrou-se em seu ninho, tentando se aquecer, mas sua mente estava cheia de questionamentos do que poderia estar acontecendo no acampamento. Ela se sentou, sabendo que não iria dormir agora. O túnel estava cheio de luz prateada, tão brilhante que era quase como o sol. Folha de Azevinho saiu de seu ninho e caminhou ao longo da passagem para a caverna do rio. Estava vazio, exceto pela luz ofuscante que brilhava em todos os cantos e transformava o rio branco. A felina inclinou a cabeça para trás e esforçou-se para olhar pelo buraco no teto. Longe, longe acima, uma lua perfeitamente redonda flutuava no céu. Era uma noite fria para uma Assembleia, e Folha de Azevinho imaginou os gatos amontoados na cavidade, com vapor saindo de seus focinhos enquanto ouviam cada líder falar. — Você sente falta dos seus companheiros de clã, não é? — murmurou Folhas Caídas atrás dela. Folha de Azevinho pulou, ela não tinha ouvido ele entrar na caverna. — Eu só quero saber se eles estão bem — ela miou sentindo uma pontada de culpa. — A estação sem folhas pode ser tão difícil para os clãs, e com toda essa neve, eles podem não ter encontrado o suficiente para comer. Folhas Caídas ergueu uma pata para detê-la. — Então vá vê-los. — Não posso! Eles têm que acreditar que eu parti para sempre! — Visite-os sem ser vista, se é isso que você quer — sugeriu Folhas Caídas. — Você não pode passar todo o seu tempo observando a lua e imaginando. Folha de Azevinho se encolheu. Talvez ele estivesse certo. Ela conhecia seu antigo território bem o suficiente para permanecer escondida. Se ela pudesse apenas ter certeza de que o Clã do Trovão estava sobrevivendo à difícil estação, ela seria capaz de dormir novamente. 28
CAPÍTULO 8 Folha de Azevinho sentiu como se um enxame de abelhas estivesse zumbindo em cada uma de suas patas assim que ela decidiu voltar para o Clã do Trovão em segredo, mas ela se forçou a esperar um quarto de lua até que o céu estivesse menos iluminado. Pouco antes do amanhecer, quando a noite estava em seu ponto mais escuro, Folhas Caídas a conduziu a um túnel que não era muito mais largo do que uma toca de coelho. Essa era uma das poucas entradas abertas restantes do Clã do Trovão. Folha de Azevinho tentou agradecê-lo novamente antes de se espremer na última seção, mas ele se virou antes que ela pudesse dizer qualquer coisa e foi rapidamente engolido pelas sombras. — Eu voltarei, eu prometo! — Folha de Azevinho gritou silenciosamente para ele. A felina negra se agachou e se contorceu para dentro do pequeno buraco. O teto raspou suas orelhas e, por um momento, ela sentiu como se estivesse sendo enterrada viva. Seu coração acelerou em pânico e sua respiração veio em arfadas superficiais, mas ela continuou se arrastando para frente com as patas dianteiras. De repente, ar fresco soprou em seu rosto, e o som de galhos sussurrando ao vento encheu seus ouvidos. Folha de Azevinho se levantou, absorvendo os aromas familiares de gatos, trilhas e marcadores de fronteira. Ela estava em casa! Não! Este não é mais o meu lar agora. Sacudindo a sujeira do pelo, Folha de Azevinho trotou até um trecho de samambaias e circulou em torno de um carvalho solitário. Depois de verificar para ter certeza de que não havia gatos patrulhando à noite, ela cruzou uma trilha estreita que corria ao longo do topo do penhasco. Folha de Azevinho disse a si mesma que estava tremendo de frio, mas podia sentir o cheiro de medo em sua pele e sabia que estava apavorada com a possibilidade de ser descoberta. Quando uma coruja voou ruidosamente de um galho acima, ela quase caiu de susto. A gata se abaixou em um amontoado de amoreiras e abriu caminho até chegar à beira do penhasco. Ela se agachou e espiou por cima. O buraco estava cheio de sombras e Folha de Azevinho não conseguia distinguir nenhuma toca individual, mas algo parecia errado. O barulho do vento ecoando nos penhascos era diferente, e as formas pretas abaixo não eram as mesmas que ela lembrava. Era como se árvores tivessem crescido dentro do acampamento desde que ela partiu, cheias de galhos e pesadas com folhas quebradiças. Isso era impossível! Enquanto ela olhava, uma linha de luz amarela apareceu acima do cume atrás dela. O amanhecer estava raiando, e ele diluiu as sombras o suficiente para Folha de Azevinho ver uma árvore enorme preenchendo o buraco, não crescendo, mas deitada de lado com suas raízes amassadas no canto onde ficava a toca do curandeiro. Folha de Azevinho se enrijeceu horrorizada. Se uma árvore tão grande havia caído do topo do penhasco, ela deve ter esmagado os gatos que estavam embaixo dela! Ela estava deitada diretamente em cima das tocas dos guerreiros e dos anciãos. Como algo tão terrível poderia ter acontecido com seu clã e ela não sabia de nada? Será que o Clã das Estrelas não poderia ter contado a ela em um sonho? Talvez o Clã das Estrelas tenha me deserdado, agora que não faço mais parte de um clã. Folha de Azevinho percebeu que estava tremendo tanto que corria o risco de escorregar pela borda. Ela recuou um pouco, assim que os galhos da árvore caída tremeram e dois gatos pisaram cautelosamente no ar frio. A respiração deles formou nuvens ao redor dos focinhos. — Eu posso ir para o lugar de sujeira sozinha — Pelo de Rato estava resmungando. O ar estava tão calmo que sua voz chegou até Folha de Azevinho, no topo do penhasco. — Eu sei que você pode — Gatão disse asperamente. — Mas não há mal nenhum em ter companhia, não é? — Parece que não tenho escolha. Murmurou Pelo de Rato enquanto o velho gato marrom a conduzia pela clareira e para as amoreiras que enchiam a entrada do buraco. Folha de Azevinho se inclinou para a frente, sentindo uma explosão de deleite. Meus companheiros de clã! — Luz de Roseira! — chamou uma voz da toca do curandeiro. — Posso trazer algo para você comer se estiver com fome. Não precisa ir buscar você mesma — Era Pena de Gaio, soando como se tivesse acabado de acordar. — Ainda tenho duas pernas que funcionam. Veio a resposta, enquanto uma gata marrom-escura emergia debaixo das raízes emaranhadas. Roseirinha? Folha de Azevinho olhou incrédula enquanto a jovem gata se arrastava pelo chão com as patas dianteiras, enquanto suas patas traseiras se arrastavam inutilmente atrás dela. Millie irrompeu do meio dos galhos caídos. 29
— O que você está fazendo? Você só chegou até aqui ontem! Você deveria estar descansando! — Ela repreendeu. Luz de Roseira, Pena de Gaio havia usado seu nome de guerreira, embora ela claramente não estivesse participando de nenhuma patrulha, a gata desviou-se para evitar a mãe. — Estou bem — ela sibilou entre dentes cerrados. — Você não pode fazer tudo por mim! Millie se abaixou e lambeu as orelhas da filha. — Eu bem que gostaria — ela murmurou. Como Luz de Roseira havia se machucado tanto? Será que foi quando a árvore caiu? Eu deveria ter estado aqui! Folha de Azevinho afundou suas garras no solo em ruínas na beira do penhasco. Algumas pedras minúsculas foram desalojadas e caíram na clareira. Folha de Azevinho congelou. Uma pelugem escura e familiar de gato malhado emergiu dos galhos. Garra de Amoeiro olhou para o esconderijo de Folha de Azevinho, seus olhos se estreitando. Ela se encolheu e prendeu a respiração. Então ela o ouviu chamar. — Brasa de Leão? Coração de Cinzas? Leve a patrulha da fronteira até o topo do buraco, pode ser? Pata de Pomba e Pata de Hera podem ir com você. Ouvia-se o som de gatos se reunindo abaixo. Folha de Azevinho arriscou mais uma olhada por cima da borda. Seu coração quase se partiu quando viu seu irmão Brasa de Leão circulando ao redor de Coração de Cinzas, a ponta de sua cauda traçando o macio pelo cinza dela. Pata de Pomba e Pata de Hera - elas eram filhotes minúsculos quando Folha de Azevinho partiu e agora eram aprendizes fortes e confiantes, que saltavam ao redor deles, parecendo ansiosas para sair em patrulha. — Garra de Amoeiro ouviu uma raposa? — Pata de Hera perguntou com entusiasmo. Pata de Pomba inclinou a cabeça para um lado e parecia pensativa. — Acho que não — ela miou. Brasa de Leão começou a guiá-los em direção à barreira de espinhos. Folha de Azevinho sabia que tinha que ir embora. Ela só esperava que sua pelagem ainda tivesse cheiro suficiente de Clã do Trovão para que ela não pudesse ser rastreada de volta ao túnel. Felizmente, as samambaias estavam encharcadas pelo derretimento da geada, o que as tornava menos propensas a guardar vestígios dela. Ela abriu caminho, estremecendo quando a água fria penetrou em sua pele, e depois correu para o túnel. Ela podia ouvir Brasa de Leão trazendo a patrulha para o lado da cavidade. Pata de Hera estava correndo à frente, informando sobre cada arbusto e espinheiro que farejava. — Não há nada aqui! Nenhuma raposa veio por aqui! Folha de Azevinho parou por um momento, repentinamente louca de esperança de que a encontrariam e a levariam de volta ao clã. Certamente ela fazia falta de alguma forma? Então ela pensou em tudo o que tinha acontecido, na verdade que Poça de Folhas, Pena de Gaio e Brasa de Leão tinham descoberto, e ela sabia que o clã estava melhor sem ela. Com um pequeno suspiro, ela se abaixou no buraco estreito e deixou as sombras engoli-la. — E então eu vi Roseirinha, bem, ela é Luz de Roseira agora, e ela perdeu o uso das patas traseiras! Ela estava se arrastando de barriga pela clareira. Eu deveria ter estado lá para ajudar! Folha de Azevinho parou para respirar, ciente de que ela não havia parado de falar desde que voltou. De seu assento ao lado do rio, Folhas Caídas olhou para ela. Era um dia sombrio e quase não havia luz entrando na caverna, mas Folha de Azevinho podia ver seus olhos brilhando levemente. — Você não poderia ter impedido a árvore de cair — ele apontou. — De qualquer forma, você escolheu ir embora, lembra? Folha de Azevinho raspou a pata sobre a pedra. — Não senti que tinha escolha na época — ela murmurou. — Eu... eu não lhe contei tudo o que aconteceu. Não foi só que eu descobri que Voo de Esquilo e Poça de Folhas mentiram para mim. Outro gato descobriu também, um gato chamado Pelo de Cinzeiro. Ele ameaçou contar a verdade a todos os clãs, então eu... então eu o matei. Houve um longo silêncio. Folha de Azevinho arriscou olhar para Folhas Caídas. Ele estava olhando para o rio. — O clã mandou você embora quando descobriram? — Folhas Caídas perguntou calmamente. — Não! Eles nunca souberam! Somente Poça de Folhas descobriu, e então eu contei a Pena de Gaio e Brasa de Leão. Eu queria que eles soubessem por que eu tive que ir embora. — Mas você pode voltar — Folhas Caídas miou, de repente levantando o olhar. — Seus irmãos e Poça de Folhas te amam demais para contar a verdade sobre Pelo de Cinzeiro. Seu segredo ainda estará seguro. — Não tem como você saber disso! — Folha de Azevinho choramingou. — Mas eu acho que sei — argumentou Folhas Caídas. — Tudo o que você me disse prova o quanto você era importante para os seus parentes. — Você não entende — Folha de Azevinho miou miseravelmente. — Aconteceu muita coisa. O clã não precisa mais de mim. Folhas Caídas se virou para o outro lado. — Seu clã sempre precisará de você — ele sussurrou enquanto caminhava para as sombras. 30
Folha de Azevinho conseguiu esperar por mais três quartos de lua antes de voltar para o seu lugar de espionagem acima da cavidade. A neve havia caído novamente, transformada em brilhos prateados pela geada severa. Folha de Azevinho agachou-se entre a grama quebradiça, tremendo, e observou o clã acordar lentamente abaixo dela. Garra de Amoeiro enviou uma patrulha de guerreiros sonolentos para verificar a fronteira do Clã do Vento. Folha de Azevinho ficou assustada com o quão magros seus companheiros de clã pareciam. Ela procurou na clareira por qualquer sinal de uma pilha de presas frescas, mas havia apenas alguns pedaços de pelo e penas ao lado do tronco da árvore. As presas devem estar escassas depois de um período tão longo de clima rigoroso. Houve um pequeno movimento na extremidade mais distante da árvore caída, onde as paredes espinhosas do berçário eram apenas visíveis. A voz de Papoula Congelada se elevou, aguda de frustração. — Cerejinha! Você não vai sair com essa tosse! Toupeirinha, traga sua irmã de volta imediatamente! Duas formas minúsculas e felpudas saíram dos arbustos e atravessaram a clareira. A gata ruiva na frente parou quando seu pequeno corpo foi atormentado por tosses, e seu companheiro de ninhada creme e marrom derrapou até parar ao lado dela. — Você não pode sair para brincar hoje — ele miou. — Você sabe o que Papoula Congelada disse. Uma gata tartarugada deslizou pela parede do berçário e se curvou sobre a filhote ruiva. — Vamos, pequenina — Papoula Congelada murmurou. — De volta para o ninho com você. — Pena de Gaio não pode me dar algum remédio? — implorou Cerejinha, olhando para sua mãe com enormes olhos âmbar. — Ele disse que ficou sem milefólio — explicou Papoula Congelada. Havia uma nota tensa de preocupação em sua voz, embora Folha de Azevinho pudesse perceber que ela estava tentando esconder isso dos filhotes. — Tenho certeza de que ele vai encontrar um pouco hoje, e então você vai se sentir muito melhor. Ela levou seu filhote de volta ao berçário, deixando Toupeirinha vagando pela clareira sozinho. Folha de Azevinho estreitou os olhos. Ela sabia onde havia uma planta fresca de milefólio crescendo. Ela deu meia-volta e correu de volta para o túnel. Ela estava acostumada com o aperto agora, e se arrastou sem pensar sobre isso. Então ela correu pelos túneis, suas patas firmes e seguras na pedra fria e úmida. Não havia sinal de Folhas Caídas quando ela irrompeu na caverna do rio. Saltando sobre a água, Folha de Azevinho disparou para dentro do túnel da floresta e o seguiu até o fim, mergulhando na luz do dia assim que um sol amarelo-claro surgiu sobre as árvores. Graças ao Clã das Estrelas! O aglomerado de milefólio ainda estava crescendo na boca do túnel, fresco e com cheiro verde apesar da geada. Folha de Azevinho arrancou o máximo de talos que conseguia carregar e depois voltou para o túnel, tomando cuidado para não pisar nas folhas que se arrastavam. Quando ela emergiu do buraco estreito no território do Clã do Trovão, ela largou o milefólio e cheirou o ar. Uma patrulha tinha acabado de passar, o que significava que ela deveria ter tempo suficiente para levar as ervas até o fundo do penhasco. Folha de Azevinho tentou desacelerar seu coração. Ele batia tão forte que suas patas tremiam no ritmo. Era muito cedo para muitos gatos estarem fora do acampamento, e a patrulha estava indo na direção oposta. Se ela corresse rápido e se mantivesse nas sombras, não haveria motivo para ser avistada. Ela não se deu mais um momento para mudar de ideia. Ela pegou as folhas de milefólio e correu pela trilha que levava ao fundo do penhasco. Derrapando na esquina, ela quase se chocou contra os arbustos que protegiam o lugar de sujeira. Uma voz rosnou lá de dentro, — Espere sua vez! Folha de Azevinho engoliu um pedido de desculpas instintivo e correu ao redor da borda da barreira. Não havia nenhum gato de vigia agora que o amanhecer havia chegado. Ela deixou as ervas perto do caminho bem escondido entre os espinhos. O próximo gato que saísse às encontraria. Cerejinha poderia ser tratada antes que o sol se levantasse ainda mais. Quando ela ouviu um gato empurrando os arbustos do outro lado, Folha de Azevinho se virou e correu de volta para o penhasco. Seus companheiros de clã poderiam se perguntar quem havia entregado as ervas tão convenientemente, mas, com sorte, eles presumiriam que um dos aprendizes as havia coletado sem ter sido solicitado. Nenhum gato precisava saber que Folha de Azevinho tinha voltado para ajudá-los. Nem todos os segredos eram terríveis. 31
CAPÍTULO 9 — Cerejinha parou de tossir! Papoula Congelada parecia tão aliviada. Ela estava brincando com os filhotes hoje de manhã, ensinando a eles como pular em uma bola de musgo. Lembro quando Voo de Esquilo nos mostrou como saltar pela primeira vez… Folha de Azevinho murmurou. Folhas Caídas, sentado ao seu lado na beira do rio subterrâneo, balançou uma orelha. — Então as folhas de milhar funcionaram — ele miou. — Devem ter! — Folha de Azevinho se levantou com um pulo e virou para ele. — Você acha que preciso levar mais? E calêndula? Ou nêveda, sabe se tem algum arbusto crescendo perto do túnel da floresta? — Não, não sei — Folhas Caídas respondeu com uma pontada de impaciência. — Não preciso de ervas para me cuidar, por que iria procurar por elas? — Mas você achou confrei para mim, e sementes de papoula — Folha de Azevinho relembrou. — Quando machuquei minha perna. A ponta da cauda de Folhas Caídas se remexeu. — Aquilo foi diferente — murmurou. — Você estava bem na minha frente. Não é como se eu pudesse te deixar sofrendo, né? — Bem, o Clã do Trovão está bem acima de nós! — Folha de Azevinho argumentou. — O código dos guerreiros diz que devemos proteger filhotes de todos os clãs, não só os nossos. Se coletarmos ervas para ajudar Cerejinha e Toupeirinha a sobreviver à estação sem folhas, estaremos apenas obedecendo ao código. — Não é o meu código — Folhas Caídas miou, virando as costas para ela. — Boa sorte caçando por ervas se é o que quer fazer — Ele caminhou para dentro do túnel que levava até o ninho de Folha de Azevinho. Ela o observou desaparecer nas sombras. Ele estava agindo de maneira tão estranha. Folha de Azevinho não havia visto rastro nenhum dele por vários dias e as únicas criaturas que teve como companhia foram seus colegas de clã enquanto os espionava do topo da ravina. Folhas Caídas não compartilhava seu ninho com ela agora e nunca vinha observá-la caçar da entrada do túnel da floresta. Teria feito algo para magoá-lo? Talvez ele não goste que eu esteja passando tanto tempo no Clã do Trovão. A pelagem de Folha de Azevinho pinicou com culpa. Era verdade que ela ia quase todo dia ver o que seu clã estava fazendo. Os filhotes de Papoula Congelada tinham quase seis luas de idade, então se tornariam aprendizes em breve. Folha de Azevinho se perguntou quais gatos seriam escolhidos como seus mentores. Se ainda estivesse no clã, teria gostado de ter Cerejinha como aprendiz, com aquela personalidade e senso de humor. Mas ela nunca seria uma mentora, não agora. Folha de Azevinho chacoalhou a cabeça e caminhou para dentro do túnel da floresta. Ela precisava pegar algo para comer e então procuraria por ervas frescas. A estação sem folhas estava a todo vapor e, assim, era pouca a vegetação em qualquer lugar, mas talvez tivesse sorte se procurasse em lugares escondidos por árvores caídas. E talvez ela pudesse caçar algo para Folhas Caídas como pedido de desculpas por todo o tempo que passava do lado de fora. Ele nunca havia compartilhado comida com ela antes, mas talvez nada tivesse provocado seu apetite. Com certeza existia algum tipo de presa, gorda com nozes e pinhas caídas, entre essas árvore que ele teria vontade de comer. Folha de Azevinho pegou um esquilo, fofo e macio com seu pelo acinzentado, mas Folhas Caídas não estava em lugar nenhum quando ela voltou para os túneis. Folha de Azevinho comeu sozinha na caverna do rio, deixando metade para Folhas Caídas antes de lavar o focinho na água gelada. Ela não havia encontrado nenhuma erva fresca para levar ao clã, então se dirigiu para o seu ninho, as patas arrastando no chão com cansaço e desapontamento. Ela sentiu que tinha fechado os olhos por apenas um segundo antes de sentir Folhas Caídas a cutucar com uma pata. — Acorde, Folha de Azevinho! Com a visão turva, Folha de Azevinho se levantou. — Já é de manhã? — murmurou. — Não! — Folhas Caídas rodopiou ao seu lado, impaciência deixando seu pelo para cima. — Duas de suas colegas de clã estão nos túneis! Folha de Azevinho acordou na hora. — O quê? Onde? Quem são? — Não sei! — ele rosnou. — Mas não podem ficar aqui. Disse a elas como sair, mas não me escutaram e agora estão perdidas. Vá e ajude elas, certo? — Elas estão bem? 32
— Estão bem o suficiente para tagarelar como passarinhos, então não acho que estejam feridas — Folhas Caídas começou a se afastar. — Só as leve de volta aonde pertencem — ele miou sob o ombro. Folha de Azevinho pulou para fora de seu ninho e correu para a caverna do rio. Mesmo com o barulho da água, ali era o melhor lugar para escutar algo nos túneis principais. Ela se agachou pela margem e levantou as orelhas. Uma conversa nervosa e fina ecoou através de uma das passagens. Folha de Azevinho pulou e correu em direção ao som, deslizando com confiança por curvas apertadas sem precisar enxergar onde pisava na escuridão. De repente, vozes começaram a soar muito perto. As gatas estavam logo em frente, invisíveis nas sombras, mas próximas o suficiente para que seus cheiros passassem por Folha de Azevinho. Ela reconheceu Poça de Hera, a nova guerreira, e a filha de Listra Cinzenta, Queda Florida. Folha de Azevinho se escondeu em uma fenda na lateral da passagem e escutou. — Queria ter perguntado o nome daquele gato — Poça de Hera estava murmurando. — Podíamos ter chamado por ele — Houve uma pausa antes de continuar: — Não acho que viria, de qualquer jeito. Ela deve estar falando de Folhas Caídas! Um barulho suave a informou que uma das gatas tinha se jogado no chão. — Me perdoe — sussurrou Queda Florida, soando sem ar e assustada. — Isso é tudo minha culpa. Eu quem quis vir aqui embaixo. — Eu podia ter te impedido — argumentou Poça de Hera. — Como? Se pendurando na minha cauda? Folha de Azevinho admirou o espírito de Queda Florida. Ela se perguntou quantos gatos haviam encontrado a entrada dos túneis. Por um momento, a ânsia de se revelar a elas, se reunir com suas colegas de clã, foi tão forte que suas pernas tremeram. Não! Você escolheu partir! Não tem jeito de voltar, não agora. Mas ela ainda assim podia ajudá-las a sair. Elas já haviam encontrado um gato ali embaixo;,desde que não se aproximassem muito, iriam acreditar que ele tinha voltado para ajudá-las de novo. Folha de Azevinho se inclinou para fora de seu esconderijo e chamou de forma suave. — Venham! O que estão esperando? O ar estralou como se ambas as gatas tivessem paralisado com alarme. Folha de Azevinho ouviu Poça de Hera olhar pelo túnel, mas sabia que as sombras manteriam sua pelagem negra escondida. — Querem sair, não é? — ela incentivou. — Sabem que não deveriam estar aqui. — Ah, sim, por favor, nos ajude! — Queda Florida implorou. — Muito bem. Me sigam. Folha de Azevinho rodopiou e correu pelo túnel, medindo pelos passos atrás dela o quão rápido precisava ir para se manter fora de visão, mas devagar o suficiente para que as outras a seguissem. Ela as guiou por uma trilha confusa de propósito, se enfiando em buracos nas laterais e chegando a cruzar um túnel pelo qual já haviam passado antes, visando desencorajá-las a voltar. Uma das gatas, Folha de Azevinho imaginou que fosse Queda Florida, começou a caminhar mais devagar e sua respiração a aumentar de volume. — Ainda é muito longe? — Poça de Hera chamou. Folha de Azevinho não respondeu. Virando na próxima curva, o túnel subia abruptamente para uma antiga toca de raposa, há muito tempo abandonada, que se abria em uma clareira isolada além das fronteiras do Clã do Trovão. Não havia onde Folha de Azevinho se esconder dentro do túnel, então ela teria que se arriscar a sair na frente delas e buscar abrigo nos arbustos. Ela correu o resto do caminho até a entrada e disparou pela pequena clareira, mergulhando em um arbusto de avencas. Se virando o mais silenciosamente possível, ela aguardou, seu coração acelerado, enquanto as duas gatas mancavam atrás dela. Poça de Hera parou e olhou ao seu redor. — Para onde ele foi? — miou. Queda Florida aparentava estar exausta demais para falar. Ela se arrastou para a clareira e desabou nos raios de sol ao lado de um tronco de carvalho. Bem lentamente, Folha de Azevinho se retirou das avencas. Ela paralisou quando as orelhas de Poça de Hera se mexeram e ela pareceu olhar diretamente para Folha de Azevinho. — Obrigada! — Poça de Hera chamou. Tudo pelos meus colegas de clã, Folha de Azevinho respondeu em silêncio. Folha de Azevinho não voltou a visitar sua antiga casa por várias luas. Ela sabia que havia ferido Folhas Caídas com suas visitas constantes para espiar a ravina, e ele merecia mais do que isso. Eles passavam os dias patrulhando os túneis por inimigos invisíveis e se deitando ao lado do rio em espera de peixinhos passageiros. E se falavam menos sobre seus passados ou o que seria do futuro, Folha de Azevinho dizia a si mesma que era porque estavam confortáveis com o silêncio agora, como uma dupla de anciãos aproveitando uma vida mais fácil e quieta. Ela ainda caçava na floresta quando não aguentava mais comer peixe, mas Folhas Caídas não a observava da entrada do túnel ou comentava quando ela voltava cheirando a sangue e penas. Folha de Azevinho nunca mais tentou pegar algo para ele de novo, já que não havia tocado a metade do esquilo que ela tinha deixado
era um gato de clã, mas Folha de Azevinho havia escolhido não viver mais como uma guerreira, não é? Folhas Caídas e ela tinham mais em comum do que apenas o teto de pedra acima de suas cabeças. A estação sem folhas se dissipou e deu lugar ao calor determinado das novas folhas, e logo depois a estação das folhas verdes penetrou a floresta e deixou trilhas atraentes de presas e cheiros verdes e úmidos. Folha de Azevinho começou a passar mais tempos do lado de fora, correndo entre as árvores com os bigodes estremecendo perante todos os aromas ou descansando na vegetação aberta para deixar o sol ardente aquecer seu pelo. Os dias se tornaram cada vez mais quentes até que ela sonhasse em caminhar ao lado do lago e deixar as ondas lavarem suas patas. O topo das colinas era seu lugar favorito para relaxar na brisa suave, até que um dia ela se aventurou perto demais da borda do Clã do Vento e quase tropeçou em uma patrulha. Ela correu de volta pela colina e mergulhou em direção às árvores, ofegante de medo. Quando seu coração desacelerou, ela achou o caminho de volta para o túnel da floresta, se mantendo nas sombras caso algum guerreiro do Clã do Vento houvesse decidido procurar o estranho em seu território. Folha de Azevinho esperava que não fossem acusar o Clã do Trovão de invasão. Já tinham problemas o suficiente entre os dois clãs desde que haviam chegado no lago, embora os anciãos contassem sobre a época em que Estrela de Fogo e Estrela Delgada eram bons amigos apesar das fronteiras entre os clãs. Folha de Azevinho se perguntou como os gatos do Clã do Trovão estavam lidando com o calor incessante. Estariam os aprendizes responsáveis em tempo integral por trazer musgo encharcado de água do lago? Teria Garra de Amoeiro decidido mandar patrulhas de caça durante o pôr do sol para evitar o pior do calor? O túnel da floresta se revelou diante dela, mas Folha de Azevinho parou. Mais forte que o sol, ela queimava com a vontade de saber como seus colegas de clã estavam. Quase sem pensar, ela desviou da entrada do túnel e começou a subir as colinas. Árvores cresciam pelo caminho até o topo e continuavam do outro lado, fornecendo esconderijo até a fronteira do Clã do Trovão. Folha de Azevinho quase a perdeu, até sentir o cheiro suave de um marcador em um tronco coberto por musgo. As marcações de fronteira secariam mais rápido no sol e precisavam ser reforçadas mais de uma vez no dia. Diminuindo o ritmo, ela engatinhou através das samambaias em direção à ravina. O aroma atraente de presa a alcançou. Folha de Azevinho partiu as raízes na frente dela com uma pata e viu a silhueta marrom de um coelho mordiscando um bocado de plantas verdes. A boca de Folha de Azevinho aguou, mas ela sabia que era impossível caçar ali. Estava prestes a se virar e deixar essa guloseima para a próxima patrulha quando reconheceu o cheiro das plantas que o coelho estava devorando. Calêndula! Eram preciosas para curar feridas e mantê-las limpas, e raras tão perto assim da ravina. Folha de Azevinho não podia deixar que o coelho comesse a horta inteira. Ela pulou para frente, sibilando e mostrando os dentes. O coelho congelou, então disparou para longe, a cauda branca se sacudindo como um aviso entre as árvores. Folha de Azevinho lutou contra seu instinto de correr atrás dele e se focou nas calêndulas. Quase todas elas haviam sido mastigadas até as raízes. Folha de Azevinho não podia ficar ali e protegê-las, e o coelho logo estaria de volta para terminar sua refeição assim que ela saísse. Ela precisava ao menos encontrar um jeito de manter as plantas restantes em segurança. Olhando ao seu redor, notou uma fissura profunda entre o galho e tronco de uma árvore próxima, não muito longe do chão que passaria despercebida por algum gato, mas alta o suficiente que um coelho não alcançaria. Rapidamente, ela mordeu as raízes o mais perto do chão possível. Com a boca cheia de plantas pingando suco, ela escalou a árvore e depositou as flores na fenda. A gata estreitou os olhos, pensando. Nesse sol, as plantas logo iriam secar. Precisavam de água para se manterem frescas. Folha de Azevinho desceu da árvore com um pulo e parou por um momento para ouvir caso alguma patrulha estivesse por perto, e então se dirigiu à fronteira com o Clã do Vento. Lá, ela encharcou uma bola de musgo no rio e a carregou com cuidado de volta para a horta de calêndula. Quando escalou o tronco de novo, água pingou na pelagem de seu peito e barriga, a fazendo arfar em choque. Mas o musgo segurou o suficiente para encher a fissura com uma pequena poça, que manteria as raízes das calêndulas molhadas até que Poça de Folhas ou Pena de Gaio viessem procurar por mais ervas. Folha de Azevinho pulou para o chão, parou mais uma vez para checar que as calêndulas estavam seguras em seu esconderijo e correu de volta para o túnel. Ela podia não fazer mais parte do Clã do Trovão, mas se pudesse ajudá-los, ela o faria. Durante a noite inteira, Folha de Azevinho não pôde dormir pensando nas calêndulas. T
— Não esqueça de fechar um olho, Pata de Cereja — miou o gato marrom e branco. — Coração Brilhante disse que precisamos praticar todo movimento como se estivéssemos feridos. Folha de Azevinho ronronou. Ela se lembrava de ser treinada por Coração Brilhante em movimentos feitos especialmente para lidar com a perda de visão de um lado. Ela analisou a posição de Pata de Cereja. A aprendiz não estava muito mal, embora precisasse mudar seu peso para as patas do lado de seu olho bom para ter mais equilíbrio. Subitamente, o nariz de Folha de Azevinho se remexeu. Um novo cheiro havia adentrado as samambaias, além do aroma quente dos jovens aprendizes e folhas verdes. Um cheiro que fez o pelo de Folha de Azevinho se levantar e suas garras se estenderem: raposa! Antes que pudesse gritar um aviso, uma forma gigante e avermelhada tropeçou para fora das árvores e se ergueu sobre os aprendizes. Folha de Azevinho se preparou para pular, mas Coração Brilhante, Salto de Raposa e Pétala de Rosa já estavam surgindo entre os arbustos do lado mais distante da clareira. Os três guerreiros correram até a raposa com os dentes à mostra. — Saia daqui! — gritou Pétala de Rosa. A raposa ergueu a cabeça, os olhos arregalados com alarme. Ela tentou atacar Salto de Raposa, que estava mais perto, mas o guerreiro avermelhado se agachou e avançou por trás dela, descendo as garras pelo seu flanco. Coração Brilhante se jogou na orelha da raposa e ficou agarrada ali com os dentes cerrados. Pétala de Rosa bateu as patas contra seu nariz, lançando gotas escarlates de sangue no chão. A raposa lutou para se soltar rapidamente e rodopiou, jogando Coração Brilhante nas samambaias, e correu para as árvores. Os guerreiros dispararam atrás dela, ainda berrando. Folha de Azevinho ficou onde estava, mal ousando respirar. A samambaia tinha sido amassada durante a luta e quase não havia o suficiente para mantê-la escondida. Durante a confusão, Pata de Cereja e Pata de Toupeira tinham se abrigado em um arbusto do outro lado da clareira. Folha de Azevinho podia vê-los entre as sombras, agachados juntos e formando uma bola de três cores. Pelo menos estavam seguros. Ela precisava sair dali antes que os guerreiros voltassem e percebessem seu cheiro junto ao da raposa. Assim que se virou para partir, a samambaia se remexeu e a raposa pulou de volta na clareira. Cuspe escorria de sua boca e seus olhos amarelos cintilavam com ódio e determinação. Folha de Azevinho a observou, exasperada. Ela havia regressado e se livrado de seus perseguidores! A raposa abaixou a cabeça e cheirou a grama onde os aprendizes haviam treinado. Então, olhou em direção aos arbustos, as orelhas se pressionando contra a cabeça. Houve um gemido baixinho entre os espinhos, cortado abruptamente como se Pata de Cereja tivesse soluçado e Pata de Toupeiro enfiado uma pata em sua boca. Folha de Azevinho tensionou os músculos e pulou para fora de seu esconderijo. — Saia de perto desses filhotes! — ela sibilou. — Ou vai ter que lidar comigo! — Ela se ergueu nas patas traseiras e passou as garras no focinho já manchado de sangue da raposa. A raposa a encarou, curvando os lábios para revelar dentes afiados e manchados. Folha de Azevinho não se mexeu. — Saia daqui! — cuspiu, sentindo a fúria de um clã inteiro de rainhas prontas para defender seus filhotes. Na distância, ela podia ouvir os guerreiros retornando, marchando entre as árvores com chamados de alarme. A raposa se virou e fugiu. Folha de Azevinho a seguiu, alívio fazendo suas orelhas estremecerem. Ela mergulhou na vegetação e continuou correndo, virando uma orelha para trás à procura de sinais de perseguição. Mas os guerreiros permaneceram com Pata de Cereja e Pata de Toupeira e não vieram atrás da raposa novamente. Por um momento, Folha de Azevinho se perguntou o quanto os aprendizes haviam visto dentre os arbustos; iriam contar aos seus colegas de clã sobre o gato estranho que havia espantado a raposa? Folha de Azevinho sabia que tinha se arriscado, mas não teve escolha. Tinha salvado a vida daqueles filhotes, e era só isso que importava. 35
CAPÍTULO 10 Folha de Azevinho desistiu de tentar dormir e se arrastou para fora das penas amassadas. Ela não conseguia se lembrar da última vez que seus olhos ficaram fechados a noite toda. Quando ela adormeceu mais cedo, sonhou que estava de volta ao vale, defendendo seus companheiros de clã das raposas, ajudando-os a coletar ervas, observando os filhotes brincarem ao sol. Levou apenas alguns momentos para que ela acordasse bruscamente na escuridão solitária, com uma dor aguda dentro dela que as memórias nunca aliviariam. Ela caminhou lentamente pelo túnel até a caverna do rio com uma estranha sensação de calma. Folhas Caídas estava sentado em seu lugar de sempre ao lado da água. A felina negra se acomodou ao lado dele e esperou até que ele encontrasse seu olhar. — Sinto muito — ela começou. — Eu nunca vou esquecer como você salvou minha vida e me deu um lugar para ficar quando eu pensei que tinha perdido tudo. Você tem sido um verdadeiro amigo, e eu sempre serei grata por isso. Mas eu não pertenço aqui. — Eu sei — Folhas Caídas miou. — Eu sempre esperei que você ficasse. Eu... eu nunca tive alguém para dividir minha casa antes. Mas seu clã precisa de você mais do que eu. Você já deve ter percebido isso. Folha de Azevinho assentiu, olhando para suas patas. — E eu preciso deles. Mas não sei como voltar! Tanta coisa aconteceu! — Quando chegar a hora, você saberá — sussurrou Folhas Caídas, e quando Folha de Azevinho levantou a cabeça, ele havia desaparecido e ela estava sozinha perto da água ondulante. Uma lua passou. Folha de Azevinho estava ainda mais inquieta do que o normal, rastejando no território do Clã do Trovão todos os dias antes do amanhecer, mas sempre evitando se apresentar no vale. Ela não conseguia imaginar o que diria, ou como os gatos reagiriam. Na noite de lua cheia, ela escalou o cume e olhou para a ilha no lago, imaginando os quatro clãs reunidos ali. Eles ao menos se lembravam dela? De repente cheia de dúvidas, Folha de Azevinho voltou para os túneis e se enrolou em seu ninho, apenas para sonhar que estava em uma Assembleia cercada por gatos desdenhosos e zombeteiros que queriam saber por que um solitário estava pedindo para se juntar aos clãs. Folha de Azevinho acordou assustada, tremendo. Ela ainda era uma guerreira, não era? Depois disso, ela ficou dentro dos túneis por vários dias, comendo peixe e patrulhando intermináveis passagens de pedra até que suas patas ficaram tão ásperas quanto uma casca de árvore. Folhas Caídas disse a ela que ela saberia quando fosse a hora de voltar. Ela esperava que ele estivesse certo e que a chance ainda não tivesse passado por ela. Ela estava terminando uma refeição tardia de peixinhos quando ouviu passos suaves de patas atrás dela e ela se virou para ver Folhas Caídas entrando na caverna do rio. Folha de Azevinho não o via há algum tempo, e ela pulou para suas patas com excitação. — Ei! Onde você estava? Folhas Caídas levantou o rabo para silenciá-la. — Há gatos nos túneis. Algo ruim está acontecendo. Ele se virou e entrou no túnel que eventualmente levava ao pântano. Folha de Azevinho o seguiu, correndo para acompanhá-lo. Eles mal tinham deixado a luz fraca da caverna do rio quando ela ouviu vozes ecoando na escuridão. Não gatos do Clã do Trovão dessa vez, mas do Clã do Vento e outro voz que ela reconheceu, um gato que falava mais alto que os outros em um estrondo profundo que soava como um trovão ao ecoar na pedra. Sol! Em um piscar de olhos, Folha de Azevinho se lembrou do gato branco e atartarugado que havia causado tantos problemas antes, prevendo o desaparecimento do sol e tentando persuadir Estrela Preta a dar as costas para seus ancestrais guerreiros. O que ele está fazendo aqui? À sua frente, Folhas Caídas parou. A conversa viajou claramente pelo túnel. — Esta é sua chance de verdadeira glória! — Sol estava dizendo — Estrela Delgada pode querer paz, mas isso é um sinal de fraqueza! Ataque o Clã do Trovão pelos túneis, e a vitória será fácil sobre aqueles idiotas comedores de camundongos! — Sol está certo! — gritou outro gato. Folha de Azevinho tinha certeza de que era Bigodes de Coruja. — Nós ouvimos Estrela Delgada por tempo demais. Ele deveria nos deixar lutar agora, fazer o que treinamos e ensinar aqueles gatos do Clã do Trovão que somos mais fortes do que eles pensam! Houve um coro de uivos em concordância. O pelo de Folha de Azevinho se arrepiou. Seus companheiros de clã seriam atacados! Ela não podia deixar isso acontecer! Ao lado dela, Folhas Caídas enrijeceu. — Há outros gatos aqui embaixo — ele sussurrou no ouvido de Folha de Azevinho. 36
Com muito cuidado, ela se virou e cheirou o ar. Dois gatos do Clã do Trovão estavam parados em um túnel lateral, logo ali na esquina. Folha de Azevinho inalou novamente até conseguir identificar os cheiros: Poça de Hera e sua irmã, Asa de Pomba. Ela começou a andar em direção a elas, então parou quando ouviu um assobio dos gatos do Clã do Vento. — Alguém ouviu algum barulho? — rosnou um guerreiro. Folhas Caídas colocou sua boca perto do ouvido de Folha de Azevinho — Você tem que tirá-las daqui seu clã inteiro precisa de você agora. Se o Clã do Vento vai atacar pelos túneis, você é a única que pode ajudá-los. Folha de Azevinho olhou para seu amigo — Está na hora, não é? — ela miou suavemente. Folhas Caídas assentiu. — Vá em segurança — ele murmurou. — Eu nunca vou te esquecer, Folha de Azevinho. Naquele momento, ouviu-se um estalo vindo do túnel lateral, nada mais que uma pedrinha deslizando por baixo de uma pata, mas ecoado e amplificado pelas paredes de pedra até soar tão alto quanto um trovão. — O que foi isso?— Bigodes de Coruja rosnou. — Algum gato está nos espionando?— Folha de Azevinho começou a rastejar em direção às sombras mais espessas onde suas companheiras de clã estavam escondidas. — Tire a gente daqui! — ela ouviu Poça de Hera sussurrar. — Eu segui as vozes para chegar aqui — respondeu Asa de Pomba. — Não tenho certeza da saída. Atrás dela, Folha de Azevinho ouviu os gatos do Clã do Vento se mexendo. Parecia que mais de um estava vindo para investigar. Poça de Hera também os ouviu. — Eles estão vindo nos procurar! Temos que ir. Não havia tempo para tirar essas gatas da segurança das sombras. Folha de Azevinho teria que se mostrar a elas, deixá-las saber que ela era uma gata em quem se podia confiar. Ela respirou fundo. Todas as luas se escondendo, tentando esquecer que ela já pertencia a um clā, pareceram desaparecer em um único batimento cardíaco. O sangue de guerreira corria em suas veias. Nada era mais importante do que a lealdade ao seu clã. Ela entrou no túnel lateral e sentiu o ar formigar enquanto Asa de Pomba e Poça de Hera ficavam tensas, prontas para se defender. — Venham comigo — ela ordenou na escuridão. — Rápido! — De jeito nenhum! — Poça de Hera sibilou. — Você poderia estar com eles. — Não estou — Folha de Azevinho miou, tentando manter a voz calma. — Prove — desafiou Asa de Pomba. — Eu não deveria ter que fazer isso — Folha de Azevinho retrucou. Essas gatas não reconheceram o cheiro do Clã do Trovão quando ele estava na frente delas? — Pelo bem do Clã das Estrelas, vamos lá. No mais tênue brilho de luz das estrelas filtrando da caverna do rio, Folha de Azevinho viu os olhos de Poça de Hera se arregalarem enquanto ela trocava um olhar com sua irmã. — Clã das Estrelas? — Poça de Hera ecoou. — Então você... — Vocês querem sair daqui ou não?— Folha de Azevinho interrompeu. — Sim, nós queremos — Poça de Hera retrucou. — Mas como sabemos que você não vai nos levar mais para dentro? Folha de Azevinho soltou um silvo de frustração. Essas perguntas não poderiam ter esperado? E ainda assim talvez não fosse surpreendente que essas jovens gatas não tivessem ideia de quem ela era. Ela seria uma estranha para muitos de seus companheiros de clã depois de ficar longe por tanto tempo. — Porque eu sou uma gata do Clã do Trovão como você — ela miou, levantando a voz sobre as batidas do seu coração. — Meu nome é Folha de Azevinho. Escrito por Erin Hunter GATOS GUERREIROS A HISTÓRIA DE FOLHA DE AZEVINHO Traduzido por MistySong Traduções Venha e junte-se ao nosso servidor do Discord! 37