Livro Mosteiro de São Bento Web

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PAC estautaurstauestau

roororo

restauro O patrimônio cultur al no Novo PAC mosteiro de são bento de olinda

EXPEDIENTE PRESIDENTE DA REPÚBLICA LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA MINISTRA DA CULTURA MARGARETH MENEZES PRESIDENTE DO INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN) DEYVESSON GUSMÃO DIRETORIA DO IPHAN ADRIANA FÁTIMA BORTOLI ARAÚJO CEJANE PACINI LEAL MUNIZ DANIEL BORGES SOMBRA ELISA MACHADO TAVEIRA MARINA DUQUE COUTINHO DE ABREU LACERDA DEPARTAMENTO DE AÇÕES ESTRATÉGICAS E INTERSETORIAIS (DAEI/IPHAN) DANIEL BORGES SOMBRA SUPERINTENDÊNCIA DO IPHAN EM PERNAMBUCO FREDERICO DE VASCONCELOS BRENNAND GOVERNADORA DE PERNAMBUCO RAQUEL LYRA PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO DE PERNAMBUCO (FUNDARPE) RENATA DUARTE BORBA

restauro O patrimônio cultur al no Novo PAC mosteiro de são bento de olinda Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional brasília 2026

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) BIBLIOTECA ALOÍSIO MAGALHÃES, IPHAN ELABORADO POR ODILÉ VIANA DE SOUZA – CRB-1/2120 R436 RESTAURO : MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA : O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PAC / COORDENAÇÃO EDITORIAL: MARINA SIMON ; TEXTOS : CLEIDE ALVES E JOSENA N. L. RIBEIRO. – BRASÍLIA : IPHAN, 2026. 121 P. ; 23 X 25CM. ISBN: 978-85-7334-535-3 RESTAURAÇÃO. 2. ARQUITETURA RELIGIOSA. I. SIMON, MARINA. II. ALVES, CLEIDE. III. RIBEIRO, JOSENA N. L. CDD 726.288 CURADORIA DE IMAGENS JOSENA N. L. RIBEIRO MARIANA ALVES MARINA SIMON REVISÃO PÉRSIDE OMENA RIBEIRO TAMARA M. DE ANDRADE BONILLA FOTO DA CAPA MARIANA ALVES COLABORAÇÃO AMARILES ARAÚJO DA SILVA JOSÉ EDUARDO POZZETTI DE LIMA PATRÍCIA ALVES DE SOUZA PEDRO HENRIQUE BRAGA IANHEZ RENATA DUARTE BORBA RICARDO JAVIER BONILLA SANDRA TURCATO THAÍSA D’AGOSTINO APOIO COMPANHIA EDITORA DE PERNAMBUCO (CEPE) COOPERAÇÃO UNESCO COORDENAÇÃO EDITORIAL MARINA SIMON TEXTOS CLEIDE ALVES E JOSENA N. L. RIBEIRO EDIÇÃO DE TEXTOS MARINA SIMON PROJETO GRÁFICO CARLOS DRUMOND DIAGRAMAÇÃO RICARDO MELO FOTOS ALÊ TUBÚRCIO DANI PEDROSA EDUARDO CUNHA ELLEN LABENSKI ELPÍDIO LINS SUASSUNA FILIPE ARAÚJO MARIANA ALVES MORGANA NARJARA PAULO ANDRÉ PEDROSA BEZERRA ROBSON LEMOS RONNY COLORS SILLA CADENGUE VITOR PACHECO YACY RIBEIRO

INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL IPHAN.GOV.BR PUBLICACOES@IPHAN.GOV.BR DAEI@IPHAN.GOV.BR DISPONÍVEL EM BIBLIOTECADIGITAL.IPHAN.GOV.BR

SUMÁRIO MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA: PATRIMÔNIO VIVO DO BRASIL 10 PATRIMÔNIO PRESERVADO: UMA POLÍTICA DE ESTADO 12 O MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA E A FORÇA DA PRESERVAÇÃO CULTURAL 14 INTRODUÇÃO 16 O RENASCIMENTO DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA 26

ARTIGO - A PRESERVAÇÃO SE CONSTRÓI EM CONJUNTO 68 ORA ET LABORA: OS 434 ANOS DE HISTÓRIA DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO 70 ARTIGO - A IMPORTÂNCIA DO PATRIMÔNIO MATERIAL 88 LINHA DO TEMPO 90 ARTIGO - O SISTEMA NACIONAL DO PATRIMÔNIO CULTURAL NA PRÁTICA: O CASO DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO NO NOVO PAC 94 UMA OBRA DE MUITAS MÃOS 98 ARTIGO – O PROCESSO DE CONTRATAÇÃO DOS SERVIÇOS DE RESTAURO NO MOSTEIRO DE SÃO BENTO 106 EDUCAÇÃO PATRIMONIAL 108 FICHA TÉCNICA DA OBRA 110

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO 12 Mosteiro de São Bento de Olinda: patrimônio vivo do Brasil OMinistério da Cultura, do governo do presidente Lula, traba- lha com o compromisso de fortalecer e ampliar políticas de cultura para preservar o patrimônio cultural no âmbito do Novo PAC. Trabalhamos com a compreensão de que nosso patrimônio é herança a ser protegida e força viva de pertencimento, conhecimento, dinamização dos territórios e geração de emprego e renda. Em um país de extraordinária riqueza cultural, cuidar do patrimônio é valorizar his- tórias, identidades e legados e afirmar a cultura como eixo estratégico do desenvolvimento e soberania nacional. Depois dos volumes dedicados ao Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro, e à Vila de Paranapiacaba, em São Paulo, o terceiro volume da coleção apresenta o restauro do Mosteiro de São Bento de Olinda em Pernambuco. Símbolo da identidade pernambucana, marco maior do barroco bra- sileiro e bem reconhecido como Patrimônio Mundial, o Mosteiro repre- senta de forma exemplar a grandeza e a complexidade de nossa herança cultural. Seu restauro, viabilizado com investimento superior a R$ 16 Por Margareth Menezes, Ministra de Estado da Cultura FILIPE ARAÚJO/ MINC

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA13 milhões no âmbito do Novo PAC, numa parceria entre o Governo de Pernambuco, o Governo Federal, o Iphan e a Fundarpe, expressa uma visão de Estado comprometida com a preservação responsável e quali- ficada de bens culturais de alto valor histórico, artístico e simbólico. Acreditamos que devemos promover políticas para o patrimônio como garantia de direitos culturais e como políticas de Estado. Dessa maneira, restaurar o Mosteiro de São Bento é preservar conhecimento, assegurar memória e transmitir às futuras gerações um patrimônio que ajuda a contar quem somos, de onde viemos e como é o país que quere- mos construir. O Mosteiro de São Bento se destaca pela excepcional beleza arqui- tetônica e pela riqueza de seus elementos artísticos, que o tornam uma referência incontornável para o patrimônio brasileiro. Sua preservação fortalece a memória e a identidade de Pernambuco, demonstrando o va- lor de um bem cultural vivo, que segue inspirando a vida urbana, a pro- dução cultural e o orgulho das pernambucanas e dos pernambucanos. Investir em patrimônio é investir em desenvolvimento. Isso mobili- za cadeias produtivas, ativa saberes técnicos especializados, fortalece a economia da cultura, impulsiona o turismo e amplia a circulação de renda nos territórios. Cada obra de restauro conduzida com responsa- bilidade e compromisso demonstra o nosso amor à memória com vistas ao nosso futuro, com base em nossa história, em nossa diversidade e em nossa capacidade de transformar memória em valor social e econômico. O patrimônio cultural brasileiro possui ativos fundamentais em di- versos estados, e Pernambuco ocupa lugar de destaque nessa dimensão. Por isso, para o governo do presidente Lula — também pernambucano —, esta entrega tem relevância cultural e estratégica especial. Que esta leitura seja também um convite ao deleite e um despertar para reconhecer a força do nosso patrimônio cultural e a responsabili- dade coletiva de preservá-lo. Aproveitem a leitura.

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO 14 Patrimônio preservado: uma política de Estado Nós somos a nossa história. As pessoas passam, mas a me- mória nos mantém integrados. Isso é verdade no âmbito familiar e ainda mais profundo quando se trata de um povo unido por sua cultura. Para que a grandeza de Pernambuco permaneça viva, é necessária a decisão política de preservar. A valorização da cultura em nosso governo é uma ação planejada e firme. O que escolhemos restaurar indica para onde queremos ir. Pernambuco vive um momento de mudança, mas jamais de esque- cimento. Escolhemos honrar nosso passado para projetar um futu- ro onde voltemos a ser referência — sempre a “velha casa”, visando a “nova Roma”. Essa visão se traduz em prioridade absoluta. Assumimos o com- promisso de resgatar nossa identidade com um investimento histó- rico em recuperação de patrimônio: entre janeiro de 2023 e maio de 2026, destinamos cerca de R$200 milhões para obras de restau- ro em todo o Estado. É uma escolha política de tratar o patrimônio como um ativo vivo de desenvolvimento social, econômico e de afir- mação do orgulho pernambucano. Por Raquel Lyra, Governadora do Estado de Pernambuco YACY RIBEIRO/SECOM

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA15 Não há estado com identidade tão pulsante quanto o nosso. E quem pensa em Olinda, Patrimônio Mundial, tem o Mosteiro de São Bento como imagem de fé e beleza. Segunda casa beneditina do Brasil, este monumento atravessou séculos e invasões, consolidan- do-se como um dos maiores expoentes do barroco brasileiro. Este terceiro volume da Coleção Restauro, iniciativa do Iphan para documentar grandes intervenções do Novo PAC, narra o res- tauro deste Mosteiro, conduzido pelo Governo de Pernambuco, via Fundarpe. Com investimento de mais de R$16 milhões, viabiliza- dos pelo Novo PAC, o Governo de Pernambuco em parceria com o Governo Federal devolve ao mundo o esplendor deste símbolo. Não foi apenas um “embelezamento”, mas uma ação de Estado ba- seada em rigorosa investigação científica e respeito à materialida- de histórica. Pernambuco vive em cada patrimônio religioso que requalifica- mos, como na Igreja de Nossa Senhora de Nazaré, em Garanhuns, e no Terreiro Ilê Obá Ogunté, em Água Fria. Vive na resistência dos nossos fortes e na pulsação do Cinema São Luiz e do Cine Theatro Guarany. Nosso Estado vive, agora, também na estrutura renovada deste Mosteiro. Nosso trabalho não tem limites geográficos: alcança de Fernan- do de Noronha ao Sertão. Acreditamos que, quando as pessoas se reconhecem em seu chão, elas moram felizes. Que esta leitura seja um convite para celebrar o restauro não apenas de um prédio, mas da própria alma pernambucana.

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO 16 O Mosteiro de São Bento de Olinda e a força da preservação cultural Opatrimônio cultural brasileiro guarda as marcas de nos- sa história e das nossas experiências coletivas. Restaurar um monumento significa assegurar a permanência de re- ferências fundamentais para a identidade brasileira e sua transmis- são às gerações futuras. Nesse contexto, o restauro do Mosteiro de São Bento de Olinda, em Pernambuco, reafirma a preservação do patrimônio cultural como instrumento de valorização da memória, fortalecimento da identidade brasileira e de desenvolvimento. Guardião da memória beneditina em Pernambuco desde o sé- culo XVI, o conjunto chega ao presente como um dos mais impor- tantes testemunhos do barroco brasileiro. Tombado pelo Iphan em 1938, o monumento carrega em suas estruturas marcas profundas da história do Brasil. Após décadas encoberta por vernizes escurecidos e sucessivas camadas de repintura, a Igreja Abacial volta a revelar sua ambiência barroca original. O reaparecimento dos douramentos e cores res- titui ao espaço sua dimensão estética e simbólica. Foi um restauro complexo e que representou o reencontro da população com sua própria memória cultural. Por Deyvesson Gusmão, Presidente do Iphan VITOR PACHECO

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA17 Realizada numa parceria entre o Governo Federal, por meio do Iphan, e o Governo de Pernambuco, por meio da Fundarpe, a obra recebeu investimentos de R$ 16,4 milhões via Novo PAC, e integra um amplo conjunto de ações federais. Atualmente, o Iphanconduz 243 ações de preservação em mais de 80 municípios, totalizando R$ 771,8 milhões de investimentos via Novo PAC. São intervenções que corroboram a gestão do patrimônio cultural como política es- tratégica para o desenvolvimento, a educação, o turismo, a geração de renda e a cidadania. O trabalho mobilizou equipes multidisciplinares e altamente es- pecializadas, que seguiram uma rigorosa metodologia de restauro. Cada etapa exigiu rigor técnico, pesquisa histórica, conhecimentos científicos e sensibilidade. Todo esse processo está ricamente docu- mentado neste terceiro volume da Coleção Restauro, iniciativa do Iphan para registrar as intervenções no âmbito do Novo PAC. Ao devolver a espacialidade original do Mosteiro de São Bento, o restauro revela novamente a força artística, histórica e simbólica de um dos mais importantes conjuntos barrocos do país. Preservar é garantir que as atuais e as futuras gerações conheçam e vivenciem a riqueza de nossa trajetória coletiva. Desejo a todas e todos uma excelente leitura!

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO 18 introdução

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA19 As cores originais da Basílica Abacial do Mosteiro de São Bento de Olinda voltam lentamente à luz após décadas ocultas por vernizes escurecidos e sucessivas camadas de repintura. Para restaurar este monumento históri- co – edificado no final do século XVI e reconstruído nos séculos seguintes –, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) investiu R$ 16,4 milhões no âmbito do Novo PAC. O restauro foi executado pelo Governo de Pernambuco, por meio da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe). Guardião da memória beneditina em Pernam- buco desde o século XVI, o mosteiro passa agora a acolher religiosos, visitantes e a população de Olinda sob uma nova feição, mais próxima das característi- cas artísticas barrocas que foram reinterpretadas ao longo de mais de 400 anos de história do conjunto. O douramento reapareceu nas talhas. Antigos tons de azul e vermelho tornam novamente visível a ambiên- cia barroca concebida no século XVIII para envolver o fiel em uma experiência sensorial e religiosa, que transformava aquele espaço num lugar de encontros da comunidade. A intervenção contou com obra civil e restauro dos bens integrados. A primeira teve como objetivo executar serviços de restauração na Basílica, onde se encontram os bens integrados. Incluiu intervenções na cobertura e nas alvenarias e reforço de fundações, além de instalação de projeto de combate a incêndio e pintura externa. O restauro dos bens integrados apoiou-se numa equipe formada por 43 profissionais, entre conser- Quero expressar nossa gratidão a todos os que trabalham na Fundarpe e no Iphan pela valiosíssima conquista dos recursos para o restauro do Mosteiro de São Bento de Olinda. Este monastério quatro vezes centenário tem um valor imensurável histórico, cultural e religioso para o nosso estado de Pernambuco e também para o Brasil.” DOM ANDRÉ DOS SANTOS VICENTE, PRIOR ADMINISTRADOR DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA.

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO 20 vadores-restauradores e auxiliares, marceneiros e entalhadores, que atuaram na restauração dos bens integrados da capela-mor e da nave da igreja (o lugar onde os fiéis assistem à missa). A execução dos serviços de conservação e restauro ficou sob responsabilidade da empresa Grifo Diagnóstico e Preservação de Bens Culturais Ltda., especializada na conservação do patri- mônio histórico e artístico brasileiro. Coube à equipe técnica realizar os levantamentos preliminares, os diagnósticos do estado de conserva- ção, os estudos históricos e iconográficos, além de de- finir as metodologias e os critérios de intervenção ado- tados ao longo da obra. Detalhes dourados no altar-mor do Mosteiro de São Bento de Olinda demonstram como diálogo entre arte, arquitetura e sacralidade atravessaram mais de quatrocentos anos MARIANA ALVES O trabalho executado na Basílica Abacial incluiu testes para identificar a forma mais segura de remo- ver as sucessivas camadas de repintura presentes na talha e nas pinturas dos forros do nártex e da nave; higienização mecânica; desinfecção e imunização contra cupins; fixação das áreas de policromia e dou- ramento em desprendimento; desmontagem parcial de peças de madeira muito deterioradas; consolida- ção das estruturas fragilizadas; estudos históricos e iconográficos; análises físico-químicas das cama- das pictóricas; estudos cromáticos com aplicação do Natural Color System (NCS, Sistema Universal Codificado); além da limpeza das pinturas, remo-

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA21 FOTOS: MARIANA ALVES Servidores, restauradores e artesãos se uniram na tarefa de completar o restauro do Mosteiro de São Bento de Olinda

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO 22 FOTOS: MARIANA ALVES

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA23 O Mosteiro de São Bento dá vistas às colinas e paisagens naturais da cidade de Olinda Abaixo, interior do Mosteiro de São Bento ção de vernizes envelhecidos e retirada de repintes realizados ao longo do tempo. Todos os elementos artísticos e decorativos do mosteiro – tombado pelo Sphan, atual Iphan, em 1938 – apresentavam acú- mulo de poeira e sujeira, além de uma grande quan- tidade de excrementos de morcegos e pombos acu- mulados ao longo de décadas. Um monumento vinculado à história do Brasil O Mosteiro de São Bento de Olinda e sua Basílica Abacial formam um dos mais importantes conjuntos do barroco religioso brasileiro. Embora a configu- ração atual do complexo tenha sido consolidada ao longo do século XVIII, a presença dos beneditinos em Pernambuco remonta ao século XVI, período da expansão ultramarina portuguesa e da consolidação da colonização no território brasileiro. Foi nesse contexto que os monges beneditinos chegaram a Olinda, então um dos principais centros políticos e econômicos da América portuguesa, im- pulsionado pela produção açucareira. Erguida so- bre colinas e marcada pela intensa vida religiosa e comercial, a cidade abrigou o convento beneditino como espaço de liturgia, formação religiosa, edu- cação e organização social. Ao longo dos séculos, o mosteiro tornou-se parte da própria construção his- tórica e cultural de Pernambuco e do Brasil. Vinculado à história brasileira desde a época colonial, o monumento passa agora por um amplo processo de recuperação de suas talhas barrocas,

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO 24 A entrega da monumental Igreja do Mosteiro de São Bento de Olinda, devidamente restaurada, diz muito não só para a comunidade católica, mas para a cultura. Na condição de beneditino, muito me alegra a louvável iniciativa e sensibilidade do governo de Pernambuco para a arte e religiosidade.” DOM FERNANDO SABURIDO, ARCEBISPO EMÉRITO DE OLINDA E RECIFE. Dourado, azul e tons avermelhados abrilhantam a Basílica Abacial do mosteiro As obras da Basílica Abacial passaram por muitos estudos e vistorias dos órgãos responsáveis, como o Iphan FOTOS: MARIANA ALVES

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA25 O monumento passou por um amplo processo de restauro de suas talhas barrocas, pinturas originais, retábulos, entre outros pinturas originais dos forros, retábulos e da leitura cro- mática original da arquitetura setecentista. As obras ti- veram início em novembro de 2024, com a instalação do canteiro, e a etapa correspondente à nave e à cape- la-mor foi concluída em meados de 2026. A primeira etapa da obra teve como objetivo de- volver à comunidade os espaços de culto, enquanto a segunda etapa contempla a Capela do Santíssimo, a sacristia, a capela abacial e os vitrais da sala do capí- tulo.. O trabalho de restauro permitiu recuperar parte MARIANA ALVES MARIANA ALVES SILLAS CADENGUE importante da espacialidade barroca concebida origi- nalmente para o Mosteiro de São Bento, transforma- da ao longo do tempo por infiltrações, repinturas, ata- ques de cupins e sucessivas intervenções. Ao revelar antigas cores, douramentos e ornamentações oculta- das durante décadas, a intervenção também restitui novas possibilidades de aproximação entre a popu- lação e a memória histórica do monumento, contri- buindo para fortalecer os vínculos entre Olinda, sua tradição histórica e sua identidade cultural.

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO 26 O Mosteiro de São Bento de Olinda e sua Basílica Abacial formam um dos mais importantes conjuntos do barroco do Brasil DANI PEDROSA

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA27

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO28 O renascimento do Mosteiro de São Bento de Olinda

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA29 Aintervenção na Basílica do Mosteiro de São Bento de Olinda envolveu a recupera- ção dos bens integrados – pinturas, talha dourada e policromada, entre outros –, a fim de res- tituir a unidade estética a um dos mais importantes conjuntos barrocos do país. Ao longo dos séculos, infiltrações, sucessivas repinturas, intervenções descaracterizadoras e ataques de cupins alteraram significativamente a aparência e a ambiência do mo- numento. Com investimento de R$ 16,4 milhões do Iphan, por meio do Novo PAC, o restauro recuperou as cores e douramentos dos elementos decorativos originais da igreja, devolvendo a Olinda e ao Brasil o esplendor de um patrimônio fundamental para a his- tória da arte e da cultura brasileiras. O Governo de Pernambuco, por meio da Fundar- pe, foi responsável pela execução das obras de con- servação e restauro, em um processo que durou um ano e oito meses. Para realizar os serviços especiali- zados, foi contratada a empresa Grifo Diagnóstico e Preservação de Bens Culturais. Todo o trabalho con- tou com a fiscalização e o acompanhamento técnico do Iphan, responsável pela preservação do patrimô- nio cultural brasileiro. Preservar a nossa memória é uma decisão política. A retomada do PAC pelo Governo Federal garantiu recursos para que um dos locais mais emblemáticos de Olinda fosse recuperado e seu legado preservado para novas gerações.” DANIEL SOMBRA DIRETOR DO DEPARTAMENTO DE AÇÕES ESTRATÉGICAS E INTERSETORIAIS (DAEI) DO IPHAN.

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO30 A complexidade da intervenção O conjunto arquitetônico do Mosteiro de São Ben- to, com cerca de 37 mil m2, inclui a Basílica, o Mostei- ro e edificações anexas. Na igreja, cada espaço da ca- pela-mor, nave e do nártex recebeu ações específicas para correção de danos e para valorização do conjunto arquitetônico do século XVIII. A intervenção adotou abordagem multidisciplinar baseada em investigação histórica, pesquisa científica, análises laboratoriais, estudos cromáticos e explorações das camadas de pin- tura. Antes do início das intervenções diretas, a equipe realizou ainda diagnósticos, levantamentos, mapea- mentos e estudos iconográficos do conjunto. O trabalho técnico e interdisciplinar dos restauradores permitiu preservar os aspectos barrocos do templo e as memórias históricas inscritas em cada detalhe FOTOS: MARIANA ALVES PAULO ANDRÉ PEDROSA BEZERRA

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA31

PLANTA do pavimento térreo da Basílica do Mosteiro Cada espaço da Igreja recebeu ações específicas para ressaltar a beleza do conjunto arquitetônico* NÁRTEX ROBSON LEMOS NAVE ROBSON LEMOS * Fotos anteriores ao restauro.

SACRISTIA CAPELA-MOR ROBSON LEMOS ELPÍDIO LINS SUASSUNA PLANTA: RONALDO DE CARVALHO L'AMOUR FILHO E FELIPE DALIA CAMPELO (GRAU - GRUPO DE ARQUITETURA E URBANISMO)

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO34 MARIANA ALVES

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA35 Pensar nessas sucessivas camadas de tinta, nos vernizes envelhecidos e nos depósitos de sujidade que encobriam a rica policromia do edifício é também pensar nas próprias camadas históricas que se sobrepõem, naturalmente, à trajetória de um monumento. Essas camadas constituem testemunhos da passagem do tempo e das diferentes formas de apropriação do espaço.” PÉRSIDE OMENA RIBEIRO, CONSERVADORA-RESTAURADORA, RESPONSÁVEL TÉCNICA PELA INTERVENÇÃO NO MOSTEIRO DE SÃO BENTO.

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO36

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA37 MARIANA ALVES

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO38 As talhas em madeira de cedro são um registro histórico da técnica em mosteiros beneditinos MARIANA ALVES A talha em madeira de cedro da igreja encontrava-se severamente deteriorada, carcomida e com lacunas em diversas áreas. Os danos comprometiam não apenas a integridade material das peças, mas também a leitura estética do conjunto, marcado originalmente pela inte- gração entre arquitetura, pintura, policromia e doura- mento. O processo de restauro começou pela desinfestação e consolidação estrutural das talhas, dos forros, das ci- malhas e demais peças em madeira, seguido pelo trata- mento das camadas pictóricas. O combate às colônias de cupins envolveu desinfestação, imunização das pe- ças e limpeza das áreas mais profundamente afetadas. Constatou-se ainda que a umidade provocara o des- No início do processo, verificou-se que o estado geral de conservação dos elementos decorativos inte- grados apresentava comprometimentos significativos. Os principais fatores responsáveis por essa deteriora- ção foram a umidade proveniente de infiltrações no telhado e os danos causados por organismos biológi- cos, especialmente pela ação devastadora de cupins da espécie Coptotermes cf. formosanus. Amplamente disseminada em áreas litorâneas do Brasil, essa espé- cie representa uma ameaça significativa ao patrimônio histórico.

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA39 Cada espaço da Basília recebeu ações específicas para ressaltar a beleza do conjunto arquitetônico RONNY COLLORS ALÊ TIBÚRCIO DANI PEDROSA

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO40 MORGANA NARJARA

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA41 Tenho muito orgulho de ter participado dessa grande realização. Contribuir para o restauro e a valorização de um belo exemplar do barroco brasileiro nos traz a sensação de dever cumprido e a certeza de que as próximas gerações também poderão usufruir de um bem cultural de valor excepcional.” FREDERICO ALMEIDA, DIRETOR DE OBRAS E PROJETOS ESPECIAIS DA FUNDARPE.

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO42 colamento e perda das camadas pictórica e dourada, favorecera o desenvolvimento de fungos e a infesta- ção de insetos no suporte, e contribuíra também para a oxidação dos elementos metálicos responsáveis pela sustentação das peças. Além disso, os vernizes aplica- dos sobre as obras também haviam oxidado ao longo do tempo, alterando a estética e reduzindo sua capaci- dade de proteção. Recuperação da harmonia visual No Mosteiro de São Bento, intervenções realiza- das entre o início e a metade do século XX modifi- caram significativamente as cores, os acabamentos e a percepção visual do conjunto arquitetônico e de- corativo da igreja. Muitas dessas mudanças já eram irreparáveis, alguns elementos originais haviam se perdido e pouco podia ser recuperado das pinturas históricas. Assim, restituir parte de sua ambiência original foi um grande desafio do restauro. É uma felicidade ver concluído o restauro dos bens integrados do Mosteiro de São Bento de Olinda. Foi um privilégio acompanhar e colaborar com esse processo desde as primeiras etapas, ainda no PAC Cidades Históricas, com a elaboração do orçamento e a estruturação da licitação dos projetos, até o apoio à execução das obras no âmbito do Novo PAC.” TAMARA BONILLA, ENGENHEIRA CIVIL, CONSULTORA IPHAN/NOVO PAC. O Mosteiro de São Bento preserva um vasto repertório artístico ligado à espiritualidade beneditina FOTO: MARIANA ALVES

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA43 A obra contou com fiscalização periódica do Iphan, controle técnico rigoroso e auditorias institucionais, assegurando a preservação das características originais do edifício e sua requalificação para novos usos públicos e institucionais

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO44 FOTOS: MARIANA ALVES A riqueza de detalhes é um elemento definidor e singular do Mosteiro de São Bento de Olinda

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA45

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO46 As repinturas brancas, comuns nas reformas rea- lizadas no século XIX, seguiam o estilo neoclássico da época, que buscava suavizar os elementos mais exuberantes do barroco. Na nave da igreja, a primeira intervenção que encobriu a decoração original, cor- respondente à primeira camada de repintura, pro- vavelmente data desse período. A remoção dessas camadas de tinta nos elementos integrados, como tribunas, púlpitos e o forro com cimalha do nártex, revelou pinturas coloridas até então desconhecidas. Ao mesmo tempo, essas intervenções posteriores também se tornaram registros históricos importan- tes, capazes de revelar materiais, técnicas e estilos adotados em diferentes épocas. Por isso, a remoção dessas superposições exigiu estudos cuidadosos, já que cada pintura sobreposta ajuda a compreender as transformações sofridas pelo monumento ao longo dos séculos. As camadas de repintura identificadas nos dife- rentes elementos foram removidas gradualmente, após testes específicos de solvência. Depois desse processo, era realizado o enxágue das superfícies tra- tadas para eliminar possíveis resíduos dos solventes. Em determinadas áreas do douramento, a retirada era executada mecanicamente com o auxílio de bisturi, enquanto, em situações específicas, empregou-se ca- lor controlado por meio de sopradores térmicos. Talha dourada e policromada da nave As seis tribunas e os dois púlpitos entalhados, dou- rados e policromados da nave foram submetidos a um amplo processo de restauração. As tribunas possuem

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA47 Prospecção na pintura e cimalha do forro do nártex, comprovando a existência de pintura do século XVIII sob as camadas de repintura branca FOTOS: GRIFO, 2025.

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO48 Restaurar a Igreja do Mosteiro de São Bento de Olinda foi mais do que revelar cores ocultas sob camadas de tinta e tempo; foi devolver à luz a memória barroca de um espaço onde arquitetura, douramento, pintura e fé voltam a dialogar em harmonia.” SANDRA SPINELLI, SUPERINTENDENTE DE PROJETOS ESPECIAIS DA FUNDARPE, ARQUITETA E FISCAL DA OBRA DOS BENS INTEGRADOS DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO. FOTOS: MARIANA ALVES

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA49 do século XVIII. Ao longo do tempo, duas camadas de tinta branca e, a última, em tons de verde e ocre, haviam encoberto o douramento e as cores originais dessas peças. Os elementos restaurados recuperaram o doura- mento e a policromia característicos do conjunto bar- roco da Igreja, possibilitando a integração visual entre os elementos da nave e os da capela-mor e restabele- cendo a harmonia do conjunto. Capela-mor Após ser destruída por um incêndio provocado por neerlandeses calvinistas, em 1632, a capela-mor foi reconstruída cerca de quatro décadas depois, em 1670. Ao longo do século XVIII, o espaço passou por sucessivas ampliações e transformações até alcançar, em 1786, a configuração dos dias atuais. O conjunto integra o rococó luso-brasileiro e apresenta referên- cias ao Mosteiro de Tibães em Portugal (Oliveira e Ribeiro, 2015). As sanefas apresentam ornamentações características do barroco-rococó luso-brasileiro FOTOS: MARIANA ALVES. autoria ainda não identificada, enquanto os púlpitos são atribuídos ao mestre entalhador Simão dos Santos Pereira, confeccionados por volta de 1770. Antes do início do restauro, as peças foram des- montadas, limpas e higienizadas. Após a eliminação das colônias de cupins por meio de desinfestação, realizou-se a recuperação do suporte de madeira, por meio de consolidação, que consiste no fortale- cimento das fibras, preenchimento de galerias de cupim com material inerte e enxertos de cedro nas partes faltantes. Após o tratamento do suporte, foi realizada a lim- peza das superfícies, o que permitiu a remoção das repinturas tanto na policromia quanto no doura- mento originais. Todo o trabalho foi realizado den- tro da própria igreja, transformada em um grande canteiro de obras durante o período da intervenção. Com o restauro concluído, as seis sanefas e os dois púlpitos da nave voltaram a revelar não apenas a talha dourada, mas também a pintura azul original

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO50 Recuperação do douramento original e douramento de lacunas nas sanefas da nave MARIANA ALVES MARIANA ALVESSILLA CADENGUE SILLA CADENGUE

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA51 “Participar do processo de restauração foi uma grande realização profissional e pessoal. Contribuir tecnicamente para a recuperação de um patrimônio histórico tão importante para Olinda e para o Brasil representa a preservação da nossa memória cultural e arquitetônica. É motivo de orgulho fazer parte de uma obra executada com responsabilidade e respeito ao patrimônio.” CYNTIA GOUVEIA, ENGENHEIRA CIVIL, CONSULTORA IPHAN/NOVO PAC. SILLA CADENGUE

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO52 com a talha dourada e com a arquitetura do espaço. Construída com efeitos de ilusionismo pepectivo, a obra amplia visualmente o ambiente e conduz o olhar para a cena principal: o episódio do Trânsito da Alma de São Bento. Fontes históricas indicam que a pintura foi exe- cutada pelo artista Antônio Telles e por um oficial auxiliar, ambos escravizados e ligados ao Mosteiro beneditino do Rio de Janeiro (Ribeiro, 2025). A cena retrata São Bento em seus momentos finais, cercado pelo sacerdote e pela comunidade benedi- tina reunida em celebração eucarística. Elementos celestes, como querubins, nimbos e resplendores, O Trânsito da Alma de São Bento é a principal representação religiosa da igreja Documentos históricos do período entre 1783- 1786 registram a conclusão da pintura do teto da capela-mor e dos trabalhos de entalhe e doura- mento que compõem o espaço litúrgico. Em igrejas e mosteiros barrocos, arquitetura, talha dourada e pinturas formavam um conjunto integrado, pensa- do para provocar impacto visual, envolver os fiéis e reforçar a experiência religiosa. No Mosteiro de São Bento, essa integração entre espaço, imagens e simbolismo ajudava a construir a atmosfera sagra- da característica da arte barroca. A pintura do teto tem papel central na composi- ção visual da capela-mor, ao dialogar diretamente

53 reforçam o caráter sagrado e transcendental da composição. Do mesmo modo, o retábulo dialoga com a pintura do teto, ao compor um panorama de forte impacto visual, característico do ilusionismo setecentista. Um levantamento estrutural que antecedeu a inter- venção revelou que este rico conjunto sofria com um quadro patológico complexo. A pintura do forro apre- sentava descolamento e perda da camada pictórica, principalmente na área próxima ao altar-mor; sujida- de; manchas de água causadas por infiltrações prove- nientes da coberta; oxidação dos cravos usados na sus- tentação das tábuas e consequente perda da pintura. MARIANA ALVESSILLA CADENGUE Na cimalha, os danos mais graves foram provo- cados pelo ataque de cupins de solo e de madeira seca, que deixaram a estrutura fragilizada e oca em diversos pontos. A equipe também identificou marcas de intervenções anteriores, que substituí- ram partes originais da talha e utilizaram diferen- tes materiais para preencher áreas deterioradas, como cera, pó de serra misturado com cola PVA e resina epóxi. Além disso, foi encontrada uma camada de tin- ta ocre aplicada sobre o douramento original. Cra- vos e pregos oxidados também comprometeram a estrutura, corroeram a madeira e causaram o

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO54

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA55 O restauro recuperou as cores, os douramentos e os elementos decorativos originais do templo FOTO: MARIANA ALVES desprendimento de partes decorativas. O douramento apresentava também sujidade, perdas, áreas em desco- lamento e manchas causadas pela umidade, pelo calor, pelo acúmulo de poeira e por excrementos de morce- gos e insetos. Os mesmos problemas também afeta- vam a pintura do forro, que apresentava descolamento e perda na camada pictórica. Após os trabalhos de desinfestação, consolidação estrutural e estabilização das áreas fragilizadas, a equi- pe iniciou o tratamento das camadas pictóricas e do douramento. Foram removidos os vernizes oxidados e as sujidades acumuladas ao longo do tempo, o que per- mitiu recuperar parte significativa das cores originais, dos efeitos de policromia e do douramento da cape- la-mor. A intervenção também incluiu a reintegração das lacunas e limpeza criteriosa dos elementos deco- rativos integrados ao conjunto. Retábulo O retábulo-mor foi construído em madeira de ce- dro, entalhada e dourada, com estrutura de sustenta- ção em sucupira. É peça fundamental na organização dos espaços internos da igreja, pois concede destaque ao altar e, por meio de símbolos e imagens de santos, transmite valores e doutrinas católicas aos fiéis. Com uma estrutura mais preservada por ter passa- do por obra de recuperação há 25 anos, o retábulo da

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO56 igreja está localizado ao fundo da capela-mor e ocu- pa o espaço do piso ao teto. O restauro foi executado em 2001 por uma equipe do Laboratório de Pesquisa, Conservação e Restauração de Documentos e Obras de Arte (Laborarte) da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), sob responsabilidade técnica da conservado- ra-restauradora Pérside Omena Ribeiro. Esta primeira intervenção, que devolveu integri- dade ao imponente altar-mor beneditino e garantiu a preservação de suas características originais, con- feriu também projeção internacional ao retábulo. Logo após a intervenção, a peça permaneceu por seis meses em exposição no Museu Guggenheim, em Nova Iorque (EUA), como peça central da mostra Brasil: Corpo e Alma. Entalhado no século XVIII em madeira nobre e folheado a ouro, o altar de 13 to- neladas foi desmontado, restaurado e transportado MARIANA ALVES O restauro do retábulo foi feito de forma minuciosa pela equipe de conservadores-restauradores PAULO ANDRÉ PEDROSA BEZERRA

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA57 MARIANA ALVES

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO58 até os Estados Unidos e remontado no museu. Em um acervo que reunia cerca de 400 obras represen- tativas de diferentes períodos da arte brasileira, o re- tábulo do Mosteiro de São Bento destacou-se como o principal exemplar da arte barroca-rococó. No entanto, a peça não escapou aos danos provo- cados pelo tempo e pela falta de manutenção. Vinte e cinco anos depois, a presença de morcegos resultou em grande acúmulo de excrementos e manchas sobre o douramento. O retábulo apresentava descolamento e perdas da camada dourada, manchas de água decor- rentes de infiltrações pela coberta e sujidade genera- lizada. O restauro do conjunto entalhado teve início com o tratamento do suporte em madeira, por meio de processos de imunização e consolidação estrutural. Em seguida, foram realizados os procedimentos de limpeza, fixação e reintegração do douramento nas áreas com perdas. Forro da nave Os mesmos problemas identificados na capela- -mor também comprometiam o forro da nave da Ba- sílica, construído em tábuas de amarelo vinhático em formato de abóbada de berço. A infiltração de água pela cobertura provocou descolamentos e perdas em diversas áreas da pintura. Durante as prospecções realizadas pela equipe técnica, foi identificado que Os elementos artísticos, decorativos e arquitetônicos evidenciam a sofisticação estética do conjunto beneditino DANI PEDROSA

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA59 Como fiscal do Iphan no restauro do Mosteiro de São Bento de Olinda, vivenciei diariamente a riqueza e a complexidade da arte do restauro. Cada detalhe revelava camadas de história, técnica e sensibilidade, despertando em mim profunda admiração pelos profissionais que transformam conhecimento e precisão em preservação da memória.” AMARILES ARAÚJO, ARQUITETA E URBANISTA, TÉCNICA EM EDIFICAÇÕES E AUXILIAR INSTITUCIONAL DO IPHAN. PAULO ANDRÉ PEDROSA BEZERRA

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO60 O conjunto artístico apresentava intenso acúmulo de sujeira, poeira, resíduos orgânicos e marcas deixadas pelo tempo. As imagens registram o trabalho minucioso de limpeza realizado por restauradores

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA61 O trabalho técnico revelou áreas fragilizadas sob camadas de pintura e ornamentos, exigindo intervenções precisas para conter o avanço dos cupins e garantir a estabilidade do conjunto artístico FOTOS: GRIFO, 2026.

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO62

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA63 toda a pintura original do século XVIII havia sido recoberta por repinturas posteriores. A pintura atualmente visível no forro corresponde a uma intervenção de caráter popular, provavelmen- te datada de 1949-1951, que manteve a composição da pintura original do século XVIII. A cena é estru- turada por um guarda-corpo em balaustradas, com jarrões e guirlandas de flores nas extremidades, o que cria a sensação de abertura para o céu. No centro da composição está o Brasão da Ordem Beneditina. Contudo, da pintura original restaram apenas frag- mentos. Diante disso, a equipe optou por preservar essa pintura posterior, entendida também como um tes- temunho significativo da história do conjunto. A repintura branca aplicada sobre o fundo da cena foi removida para recuperar a leitura iconográfica da composição original. A estrutura do forro é sustentada por cambotas (armações arqueadas de suporte) e tesouras de ma- çaranduba, madeira nobre e resistente a pragas. Em intervenções anteriores, a maçaranduba havia subs- tituído a sucupira-do-carrasco, espécie rara devido ao intenso extrativismo. Duas tesouras originais em sucupira-do-carrasco foram preservadas no forro, mesmo sem função estrutural, como registro históri- co das técnicas construtivas utilizadas na época. A grande surpresa Um dos principais achados do restauro do Mosteiro de São Bento foi a descoberta de pinturas no forro do nártex, escondidas sob três camadas de tinta branca industrializada. O nártex é o espaço localizado antes da nave prin- cipal, abaixo do coro, funcionando como uma área de transição entre o exterior e o interior da igreja. Foi justamente ali que a equipe encontrou a pintura origi- nal do século XVIII, em bom estado de conservação. Ela estava encoberta por sucessivas camadas de re- pintura, sendo a primeira delas datada provavelmente do final do século XIX.. Antes da remoção das repinturas, foram realizados estudos históricos, prospecções estratigráficas e tes- tes de solvência para identificar as diferentes camadas de tinta acumuladas ao longo do tempo e definir crité- rios seguros de intervenção. Com técnica e precisão, as repinturas foram retiradas gradualmente com o uso de solventes previamente testados. O suporte em madeira do forro também passou por tratamento. Apesar de apresentar estado geral regu- lar, a estrutura apresentava danos provocados princi- palmente pela umidade e pelo ataque de cupins. Após a remoção dos estratos de tinta, foi revelada uma com- posição característica da pintura barroca setecentista, com balaustradas, jarrões e guirlandas de flores, ele- mentos que ampliavam visualmente o espaço e inte- gravam a experiência simbólica do ambiente religioso. Na cimalha (elemento que emoldura o forro do nártex), foi descoberta uma pintura primitiva com decoração em jaspeado em tons de azul e frisos dou- rados, igualmente recoberta por camadas de repin- A pintura do forro da nave apresenta ao centro o Brasão da ordem Beneditina FOTO: DANI PEDROSA

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO64 tura branca. A peça apresentava estado precário de conservação, com lacunas provocadas pela ação de cupins e pela umidade. Assim como ocorreu no forro, a cimalha passou por desinfestação, imunização e consolidação da madeira antes do restauro da pintura. Após testes de solvência, a camada original do século XVIII foi gradualmente revelada. As áreas com perdas pictóricas passaram por reintegração estética, técnica que recompõe vi- sualmente as lacunas sem apagar a distinção entre partes originais e restauradas. Em complemento à ambiência do nártex, duas co- lunas em pedra policromada, com acabamento jas- peado em tons de vermelho e azul e frisos dourados também tiveram suas cores originais recuperadas. As colunas sustentam a madre, viga de madeira respon- sável pelo suporte do coro da igreja. A recuperação dessas pinturas e elementos decorativos devolveu ao nártex parte importante de sua ambiência barroca original e permitiu compreender novamente o espa- ço como uma experiência visual, artística e simbólica integrada. Ao retirar camadas de tinta, vernizes escurecidos e marcas acumuladas ao longo dos séculos, o restauro realizado nos bens integrados da Basílica revelou no- vamente a potência artística e simbólica do Mosteiro de São Bento de Olinda. A recuperação de sua am- biência barroca devolve à cidade e ao Brasil um mo- numento restaurado e a possibilidade de reencontro com uma parte fundamental da nossa própria história. FOTOS: MARIANA ALVES

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA65 Pintura artística e talha dourada integradas apresentam estética harmoniosa

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO66 No interior do Mosteiro, equipe da Grifo Diagnóstico e Preservação de Bens Culturais, responsável pela execução minuciosa e precisa das obras de conservação e restauro PAULO ANDRÉ PEDROSA BEZERRA

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA67 Da esquerda para direita: Renata Borba, presidente da Fundarpe; Raquel Lyra, governadora de Pernambuco; Pérside Omena Ribeiro, conservadora- restauradora; e Priscila Krause, vice-governadora, durante visita técnica às obras do Mosteiro EDUARDO CUNHA/SECULT-PE/FUNDARPE

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO68 O Mosteiro de São Bento ultrapassa a dimensão monumental de sua arquitetura: é também espaço de trabalho, circulação, memória e vida cotidiana FOTOS: MARIANA ALVES

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA69 REFERÊNCIAS Oliveira, M.A.R. de & Ribeiro, E.S. (2015) Barroco e Rococó nas Igrejas de Recife e Olinda. Brasília: IPHAN. Ribeiro, P.O. (2024) De volta à luz: a recuperação das cores originais do interior da Igreja Barroca de Nossa Senhora da Conceição dos Militares do Recife – Pernambuco, Brasil. Tese de Doutoramento. Universidade de Lisboa, Portugal. Ribeiro, P.O. (2024-2026). Conservação e restauração dos bens integrados do Mosteiro de São Bento de Olinda. Fundarpe. Primeiro ao décimo oitavo relatório. Grifo Diagnóstico e Preservação de Bens Culturais, Recife. Ribeiro, P.O. (2025) Trânsito da Alma de São Bento: caracterização e classificação cromática na intervenção de restauro da pintura do teto da capela-mor do Mosteiro de São Bento de Olinda. No prelo. Smith, R. (1950) Arquitetura colonial no Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional.

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO68 A preservação se constrói em conjunto Apreservação do patrimônio cultural representa o compro- misso de um povo com sua própria história. Em um mun- do marcado pela efemeridade, as permanências — mate- riais e imateriais — tornam-se instrumentos preciosos de conexão entre passado, presente e futuro. Nesse contexto, Pernambuco des- taca-se no cenário nacional pela riqueza e diversidade de sua cul- tura. Atenta a essa responsabilidade, a governadora Raquel Lyra fortaleceu a Fundarpe como órgão de preservação, ampliando sua capacidade de atuação e consolidando ações consistentes de salva- guarda do patrimônio do estado. A reestruturação do órgão estadual de preservação possibi- litou ainda o estreitamento da parceria com o Iphan, que vem se afirmando como referência na realização de importantes obras de restauração de monumentos históricos. Essa atuação conjunta im- pulsiona não apenas a política estadual para o setor, mas também o Sistema Nacional de Patrimônio Cultural. Como resultado dessa cooperação, Pernambuco passou a vi- venciar um momento histórico sem precedentes, consolidando-se como um dos maiores canteiros de restauração do país, com inter- Por Renata Borba, Presidente da Fundarpe ARTIGO

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA69 venções simultâneas em bens de enorme relevância arquitetônica, artística e simbólica. Essa missão compartilhada alcança edificações emblemáticas da memória pernambucana: em Olinda, o Mosteiro de São Bento, a Igreja de São Pedro Mártir de Verona e a Igreja de Nossa Senhora do Monte; e, no Recife, a Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento de Santo Antônio — edifícios que atravessam séculos como teste- munhos vivos da formação cultural brasileira. A atuação conjunta também abrange o patrimônio fortificado de Fernando de Noronha, com obras no Forte de Santo Antônio e no Forte de São Pedro do Boldró, além dos projetos de restauro dos Chalés do Carmo de Olinda e do Terreiro de Pai Adão, no Recife. Ao reunir ações voltadas ao patrimônio religioso, militar e afro-brasi- leiro, reafirma-se uma visão democrática e inclusiva da preservação cultural. Os frutos dessa cooperação, entretanto, ultrapassam a recupe- ração física dos monumentos e estendem-se às ações de educação patrimonial e de salvaguarda de bens imateriais, que devolvem à população referências de pertencimento, fortalecem vínculos co- munitários, impulsionam o turismo cultural e destacam o patrimô- nio como instrumento de desenvolvimento, educação e cidadania. Assim como nas igrejas barrocas brasileiras, em que arquitetura e bens integrados formam um conjunto indivisível, a parceria entre Fundarpe e Iphan demonstra que diferentes competências, quando articuladas em torno de um propósito comum, podem construir um legado duradouro para a preservação da memória e da identidade cul- tural pernambucana.

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO70 Ora et labora* * Lema da ordem dos beneditinos, “ora e trabalha” em Latim, estabelecidos no século V conforme os preceitos de seu fundador, São Bento de Núrsia. É o lema da basílica e mosteiro presentes na cidade de Olinda. Os 434 anos de história do Mosteiro de São Bento

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA71 Há mais de quatro séculos anos, o Mosteiro de São Bento de Olinda é um templo de espiritualidade e cultura no Nordeste, um testemunho da colonização, da ocupação holandesa e do nascimento do Brasil. Fruto de um ideal mo- nástico que remonta aos últimos séculos do Império Romano, sua presença em solo pernambucano é uma história de resistência e renovação contínua. Das cin- zas do incêndio provocado pelos neerlandeses no sé- culo XVII às opulentas reformas barrocas do século XVIII, cada pedra, cada pintura e cada douramento contam uma saga de superação. Este capítulo convi- da a uma viagem por essa trajetória fascinante, onde a preservação do patrimônio é a chave para redesco- brir a nossa própria identidade. Essa saga fascinante de superação mergulha suas raízes mais profundas na tradição milenar que fun- damenta a própria essência do ideal monástico. A cultura dos frades e dos mosteiros constitui uma tra- dição muito antiga da teologia cristã, surgida ainda nos últimos séculos do Império Romano. Entre os sé- Vista de Olinda representada pelo pintor holandês Frans Post, 1647 ACERVO BIBLIOTECA NACIONAL

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO72 culos VIII e XV, difundiu-se amplamente pela Euro- pa o ideal de comunidades de irmãos em fraternidade que se afastavam do mundo (fuga mundi) em busca de uma vida de ascese, devoção religiosa e caridade. Integrados às comunidades cristãs e ao tecido social, econômico e político de seu tempo, esses grupos tor- naram-se agentes e testemunhas da expansão do ca- tolicismo nas Américas durante o período colonial. O Mosteiro de São Bento de Olinda, da ordem be- neditina, não foge a esta regra. A maior parte dos con- ventos beneditinos brasileiros foi erguida ao longo do século XVII e estilos arquitetônicos específicos po- dem ser encontrados em suas fachadas. A construção Gravura atribuída a Wenceslaus Hollar representando Olinda e a região portuária de Pernambuco no século XVII. A composição reúne vistas da ocupação urbana, da movimentação naval e da produção açucareira ACERVO BIBLIOTECA NACIONAL

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA73 em território pernambucano, localizada em uma área elevada do sítio histórico de Olinda, acompa- nha a própria topografia da cidade marcada por co- linas e ladeiras, e que lhe concedia uma posição de destaque. Tem uma vista privilegiada para o mar e para a paisagem natural da vila. Possuidor de uma fachada imponente e uma tor- re de sino lateral, o mosteiro está localizado na Rua São Bento, tal qual a ordem monacal. A obra do conjunto foi iniciada pelos monges beneditinos em 1597, após terem adquirido terrenos nas proximi- dades do Varadouro da Galeota. Cinco anos antes, Jorge Albuquerque Coelho, o terceiro donatário da capitania de Pernambuco, havia solicitado à Ordem de São Bento o envio de alguns religiosos ao terri- tório sob a sua administração em Olinda. Oferecia em troca algumas benesses, como posse de terras, regalias e vantagens financeiras. Em um primeiro momento, os beneditinos alo- jaram-se na Igreja de São João e posteriormente ocuparam a Capela de Nossa Senhora do Monte. Com o encerramento da construção do mosteiro, em 1599, os monges passam a habitar o espaço. Po- rém, a história da presença e atuação dos frades foi interrompida no século XVII com a chegada dos holandeses à capitania de Pernambuco. O primei- ro templo conhecido como Mosteiro do Patriarca São Bento da Vila de Olinda perdeu-se em cha- mas no ano de 1631. O incêndio foi provocado por neerlandeses calvinistas que ocuparam o Nordeste brasileiro entre 1630 e 1654. As tropas holandesas incendiaram grande parte de Olinda, tais como igrejas, conventos e edifícios civis. A construção em território pernambucano, localizada em uma área elevada do sítio histórico de Olinda, acompanha a própria topografia da cidade marcada por colinas e ladeiras, e que lhe concedia uma posição de destaque. Tem uma vista privilegiada para o mar e para a paisagem natural da vila.

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO74

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA75 Igreja e Mosteiro de São Bento, em Olinda (PE), no século XX ACERVO DOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO76 Foi somente treze anos depois, com a retirada dos flamengos da capitania de Pernambuco, que os re- ligiosos puderam voltar a atuar no local de culto e retomar gradualmente as atividades monásticas. A destruição provocada pelos incêndios e pelos confli- tos da ocupação holandesa alterou profundamente a estrutura original do edifício, o que exigiu sucessivas reconstruções e adaptações ao longo do período co- lonial. O que hoje é reconhecido como Patrimônio Histórico tombado constitui, portanto, o resultado de diferentes processos de transformação arquitetônica Detalhe do frontispício da Igreja e Mosteiro de São Bento, em Olinda, destacando o brasão heráldico beneditino inserido na composição barroca da fachada MARIANA ALVES

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA77 No interior da Basília, obras narram a história da vida de São Bento, como Trânsito da Alma de São Bento que marcaram sua história ao longo dos séculos. Foi na segunda metade do século XVII que os beneditinos adap- taram o espaço remanescente para a construção de um novo mos- teiro. E cem anos depois, em 1750, o edifício passou por uma in- tensa reforma que incluiu a ampliação da igreja e da capela-mor, a edificação da torre, a construção da sacristia, além de intervenções nas tribunas da nave e no claustro. Os monges construíram uma nova estrutura que permanece até hoje. Nas paredes da igreja, é possível encontrar pinturas que nar- ram a história da vida de São Bento, uma esplendorosa sacristia, colunas de arenito e várias imagens esculpidas em cedro e outras MARIANA ALVES

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO78

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA79 madeiras nobres. Estas estruturas são um reflexo da riqueza gerada no período colonial português no Bra- sil e expressam, por meio da arquitetura e da orna- mentação, o poder econômico e religioso que marcou a presença beneditina na América portuguesa. O piso é todo feito em ladrilho hidráulico, o arco principal da capela-mor é em pedra e possui área reservada para o coral dos monges durante as missas e celebrações. A sacristia do Mosteiro de São Bento possui mo- biliário em jacarandá, lavabo em mármore policro- mado português confeccionado em Estremoz e im- portantes obras de arte sacra e pinturas dedicadas à Nossa Senhora do Pilar, Santa Germana, São Cae- tano, São Gregório Magno, São Sebastião, Santa Es- colástica, entre outros. O forro da capela-mor possui uma grande riqueza de detalhes, com tribunas e lam- padários em prata. O conjunto conventual ainda abri- ga claustro em arcos plenos, antigas celas monásticas, biblioteca, refeitório e dependências internas ligadas à vida religiosa beneditina, tais como enfermaria e sala capitular. Há também um túnel subterrâneo com acervo arqueológico. A Ordem de São Bento atravessou um período de profundo declínio no Brasil, quase se aproximou da extinção ao longo do século XIX, e foi restabelecida apenas no final do mesmo século por religiosos belgas enviados ao país pelo Papa Leão XIII. Tais religiosos se destacam entre as ordens estabelecidas no Brasil pelo seu expressivo número de monges e pela valori- zação do conhecimento técnico e artístico. Durante muitos anos, coube aos monges a realização de obras de conservação e restauro no templo, o que ajudou a preservar o valioso patrimônio histórico e artístico. A Ordem de São Bento atravessou um período de profundo declínio no Brasil, quase se aproximou da extinção ao longo do século XIX, e foi restabelecida apenas no final do mesmo século por religiosos belgas enviados ao país pelo Papa Leão XIII. Os arrabaldes de Olinda no século XIX. Moritz Lamberg, 1880 - 1885 (página anterior) ACERVO BIBLIOTECA NACIONAL.

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO80 A Igreja e o Mosteiro de São Bento constituem um dos mais relevantes conjuntos arquitetônicos barro- cos de Olinda, reconhecidos como patrimônio nacio- nal tombado e integrados ao perímetro de preserva- ção do Sítio Histórico da cidade. O tombamento do conjunto desempenhou papel fundamental na valo- rização da identidade histórica e cultural olindense. Instituições de caridade e fé cristã, tais como mostei- ros, confrarias e irmandades, eram, durante o período colonial, ferramentas de convívio das comunidades nas quais eram passados valores como unidade, hie- rarquia, devoção, solidariedade e justiça. As ordens religiosas atuaram diretamente no de- senvolvimento urbano de Olinda por meio de suas construções e imóveis anexos. Tratava-se de espaços onde diversos serviços eram ofertados, como saúde e educação, e igualmente funcionavam como locais de encontro e sociabilidade para os indivíduos que habi- tavam suas cercanias. As dependências do Mosteiro de São Bento acolheram, a partir de 1828, a Faculda- de de Direito de Olinda. Criada pela Lei de 11 de agos- to de 1827 durante o período imperial, foi posterior- mente transferida para Recife, o que originou a atual Faculdade de Direito do Recife. Já no século XX, o mosteiro também sediou os cur- sos de Agricultura e Medicina Veterinária, criados em 1912, que mais tarde contribuíram para a forma- ção da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). A presença dessas atividades reforça o compromisso da instituição religiosa com os saberes e com a formação intelectual e profissional da socie- dade pernambucana. Paralelamente, o mosteiro con- tinuava exercendo sua função religiosa e educativa As ordens religiosas atuaram diretamente no desenvolvimento urbano de Olinda por meio de suas construções e imóveis anexos. Tratava-se de espaços onde diversos serviços eram ofertados, como saúde e educação, e igualmente funcionavam como locais de encontro e sociabilidade para os indivíduos que habitavam suas cercanias. Detalhe da fachada do Mosteiro de São Bento de Olinda na época do tombamento (página ao lado) FOTO: BENÍCIO WHATLEY DIAS, 1938. ACERVO FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO.

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA81

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO82 junto à população local, por meio da catequese e da instrução nos ritos da tradição católica. A beleza do mosteiro foi alvo de relatos de pen- sadores brasileiros. Gilberto Freyre, renomado so- ciólogo pernambucano, escreveu, em 1968, que o Mosteiro de São Bento de Olinda é um espaço “para ser visitado com vagar”, tamanha a riqueza artística, arquitetônica e simbólica que abriga. Entre doura- mentos, talhas e ornamentos, o autor destacou a im- ponência da capela-mor e a opulência da sacristia, marcada pelas obras em jacarandá e pelo lavatório de pedra, elementos que ainda hoje evocam a mo- numentalidade e o refinamento estético do conjunto beneditino (FREYRE, 1968, p. 81). Sua relevância ultrapassou o cenário nacional quando o altar-mor em madeira de cedro folheada a ouro, atribuído ao monge beneditino português frei José de Santo Antônio Vilaça e construído entre 1783 e 1786, foi integralmente desmontado e restaurado pela equipe técnica da Fundação Joaquim Nabuco em 2001. No ano seguinte, a obra com 13,8 metros de altura por 7,8 metros de largura foi enviada para a exposição Brasil: Corpo e Alma, realizada no Museu Guggenheim de Nova Iorque, nos Estados Unidos. Foi reconhecido como uma das principais atrações do evento e evidenciou internacionalmente a riqueza Altar-mor folheado a ouro da Basílica Abacial do Mosteiro de São Bento ocupou lugar de destaque na exposição do Museu Guggenheim de Nova York entre outubro de 2001 e maio de 2002 ELLEN LABENSKI

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA83

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO84 artística e patrimonial do Mosteiro de São Bento de Olinda. Foi reenviado posteriormente ao seu local de origem, pois é um dos mais importantes exemplares da talha barroca brasileira, com elementos do barro- co tardio, do rococó e do neoclassicismo. A proteção oficial do mosteiro ocorreu com a atua- ção do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), criado em 1937 durante o gover- no de Getúlio Vargas, que reconheceu formalmente a relevância histórica e artística do monumento por meio do processo 50-T-1938. Desde então, o conjun- to encontra-se inscrito no Livro do Tombo das Belas Artes, sob o nº 179, e no Livro do Tombo Histórico, sob o nº 86. Três décadas mais tarde, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) ampliou essa política de preservação ao classificar o Sítio Histórico de Olinda como conjunto arquitetô- nico, urbanístico e paisagístico. Do mesmo modo, o mosteiro também faz parte da área da cidade reconhecida como Patrimônino Mun- dial. Tal título foi concedido a Olinda pela Organiza- ção das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em 14 de dezembro de 1982, com uma área que compreende 190,9 hectares. A cidade foi escolhida por constituir um exemplo singular da arquitetura colonial e religiosa dos séculos XVI e XVII, ao preservar, ainda hoje, grande parte de seu traçado urbano original. O Mosteiro de São Bento de Olinda foi contem- plado pelo Iphan, por meio do Novo PAC, com in- vestimentos de R$ 16,4 milhões, numa parceria com governo de Pernambuco. Os recursos tiveram como objetivo restaurar os bens artísticos e integrados da igreja do mosteiro, além de promover a consolidação e a estabilização de suas fundações. As obras foram executadas pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) e a equipe de especialistas técnicos do Iphan em Olinda ficou res- Desenho em preto e branco representando a paisagem litorânea de Olinda vista a partir do mar, com destaque para as embarcações e para o perfil urbano da cidade no século XIX FERDINAND DENIS, PARIS, 1846. ACERVO BIBLIOTECA NACIONAL.

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA85 ponsável pelo acompanhamento das intervenções. A iniciativa integra um conjunto mais amplo de apor- tes, que somam cerca de R$ 92 milhões, destinados à preservação do patrimônio cultural pernambucano. Atualmente, 21 monges beneditinos vivem no mosteiro. A área conventual permace com acesso restrito, por abrigar a residência da comunidade mo- nástica. Já a igreja volta a receber atividades religio- sas após o restauro, devolvendo ao espaço não ape- nas sua função litúrgica, mas também sua presença viva no cotidiano de Olinda. Há séculos integrada à paisagem histórica e cultural da cidade, a Igreja Representantes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) e do Mosteiro de São Bento diante do altar-mor barroco MARIANA ALVES

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO86 Abacial reafirma, com a retomada das celebrações, seu papel como espaço de memória, espiritualidade e convivência coletiva. O restauro do Mosteiro de São Bento de Olinda, uma das primeiras edificações beneditinas no país, foi aguardado durante anos pela população pernam- bucana. A recuperação do monumento permitiu reinserir esse patrimônio na vivência cotidiana da cidade, devolvendo à comunidade um espaço pro- fundamente ligado à memória e à identidade cultural de Olinda. A intervenção também representa um im- portante exemplo de salvaguarda da memória coleti- va, ao reafirmar o patrimônio cultural como elo para o fortalecimento do sentimento de pertencimento da população ao longo dos séculos. REFERÊNCIAS INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTI- CO NACIONAL (IPHAN). Mosteiro de São Bento: Olinda. Reci- fe: IPHAN/Programa Monumenta-BID, s.d. (Coleção Rotas do Patrimônio: uma viagem através da história). MARIANO, Samara de Rezende; PACHECO, Ricardo de Aguiar. Patrimônio cultural urbano: o tombamento do Mosteiro de São Bento de Olinda. Revista Rural & Urbano, Recife, v. 2, n. 2, p. 120-131, 2017. INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTI- CO NACIONAL (IPHAN). Mosteiro de São Bento, em Olinda (PE), receberá R$ 15,3 mi do Novo PAC. Brasília, 23 out. 2024. Disponível em: IPHAN – Mosteiro de São Bento receberá R$ 15,3 mi do Novo PAC. Acesso em: 8 maio 2026. MORGANA NARJARA

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA87 O Mosteiro de São Bento restaurado volta a ocupar o seu protagonismo na paisagem de Olinda

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO88 A importância do Patrimônio Material Pernambuco possui uma das histórias mais ricas e importan- tes do Brasil e do mundo. Nosso estado carrega marcas pro- fundas da formação cultural, econômica, religiosa e arquite- tônica do país. Aqui aconteceram movimentos históricos decisivos, nasceram manifestações culturais reconhecidas internacionalmente e foram construídos monumentos que atravessaram séculos preser- vando a memória do nosso povo. Cada igreja, mercado, forte, casarão ou sítio histórico guarda parte dessa trajetória e reafirma a importân- cia de Pernambuco no cenário nacional e mundial. Como engenheiro de formação, sempre enxerguei o patrimônio material não apenas como estruturas físicas, mas como parte viva da nossa história, identidade e memória coletiva. Preservar um bem tombado é compreender que existe um legado sendo deixado para as presentes e futuras gerações. É assumir a responsabilidade de cuidar daquilo que atravessou décadas — muitas vezes séculos — e continua contando histórias. Cada obra de restauro me faz perceber que estamos lidando com verdadeiras obras de arte. Na maioria das vezes, a riqueza está jus- tamente nos detalhes: uma esquadria, um piso antigo, uma pintura. Por Fred Brennand, Superintendente do Iphan/PE ARTIGO

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA89 E com isso vem a responsabilidade com o planejamento, o custo fi- nal e a execução correta, porque não se trata de uma obra comum ou de uma simples reforma. Um exemplo disso é o restauro e a conservação do Mosteiro de São Bento, um dos monumentos mais importantes de Olinda e sím- bolo da nossa história, fé e identidade cultural. A recuperação desse patrimônio representa não apenas a preservação de um monumen- to secular, mas também a valorização da própria cidade de Olinda, reconhecida mundialmente por sua riqueza histórica e cultural. É devolver dignidade ao patrimônio, fortalecer o turismo religioso e cultural, movimentar a economia local e fazer com que moradores e visitantes possam voltar a enxergar a grandiosidade desse patrimô- nio da humanidade. Preservar também significa transformar a rotina de uma comuni- dade, fortalecer o sentimento de pertencimento e fazer com que as pessoas voltem a enxergar valor na própria história. Quando um pa- trimônio é recuperado, todo o entorno ganha vida: o comércio cresce, o turismo cultural se fortalece e novas oportunidades surgem para a população, gerando emprego e renda de forma direta e indireta. Como Superintendente do Iphan, enxergo de forma ainda mais clara o importante papel da preservação da história e da cultura de quem passou antes de nós. Tenho muito orgulho de fazer parte desse processo no Iphan-PE, construindo pontes e conexões junto ao Governo Federal, Governo do Estado e municípios. Hoje, Pernambuco conta com quase R$ 100 milhões em investimentos através do Novo PAC, contemplando mer- cados públicos, igrejas, fortes e importantes monumentos históricos. São ações que vão além da preservação física: representam investi- mentos na memória, na cultura, no turismo e no futuro do nosso povo.

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PAC 90RESTAURO Linha do tempo MONGES BENEDITINOS, VINDOS DE PORTUGAL, CHEGAM À VILA DE OLINDA PARA FUNDAR O MOSTEIRO DE SÃO BENTO E SE INSTALAM NA CAPELA DE SÃO JOÃO. Mosteiro de São Bento de Olinda OS MONGES DEIXAM A CAPELA DE SÃO JOÃO E OCUPAM A CAPELA DE NOSSA SENHORA DO MONTE. CONSTRUÇÃO DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO EM UM TERRENO ADQUIRIDO NO BAIRRO DO VARADOURO EM OLINDA. O MOSTEIRO DE SÃO BENTO É INCENDIADO POR NEERLANDESES CALVINISTAS QUE INVADIRAM E OCUPARAM O NORDESTE BRASILEIRO DE 1630 A 1654. A RECONSTRUÇÃO DO MONASTÉRIO OCORREU NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XVII APÓS A EXPULSÃO DOS NEERLANDESES. 1587-1599 REPRODUÇÕES DE ARQUIVO 90 1592 1595 1631 1770 2 1 3 AMPLIAÇÃO DA CAPELA-MOR, MEDIANTE DEMOLIÇÃO DA ANTIGA SACRISTIA. ENTRE 1778 E 1780 - DURANTE O SEGUNDO ABACIADO DE FREI MIGUEL ARCANJO DA ANUNCIAÇÃO, CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA CAPELA-MOR E UMA NOVA SACRISTIA, CUJA FACHADA LATERAL REGISTRA A INSCRIÇÃO “ANNO DOMINI 1783”.

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA91 FREI FILIPPE DE SÃO LUÍS PAIM, ABADE DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO, PROMOVE UMA GRANDE INTERVENÇÃO NO PRÉDIO, COM ACRÉSCIMOS E MODIFICAÇÕES. NOVO GRUPO DE BENEDITINOS BELGAS CHEGAM AO BRASIL PARA REPOVOAR O MOSTEIRO, ESVAZIADO NO FIM DO SÉCULO XIX. CRIAÇÃO DA FACULDADE DE DIREITO DE OLINDA, SEDIADA NO MOSTEIRO. É A PRIMEIRA DO PAÍS, AO LADO DA FACULDADE DE DIREITO DO LARGO DE SÃO FRANCISCO EM SÃO PAULO. 1895 1912 1860 1827 1786 91 FUNDAÇÃO DAS ESCOLAS SUPERIORES DE AGRICULTURA E MEDICINA VETERINÁRIA, COM A INSTALAÇÃO DAS ATIVIDADES VOLTADAS À ÁREA DO CAMPO NAS DEPENDÊNCIAS DO MOSTEIRO. 4 5 FINALIZAÇÃO DO CONJUNTO, COM A DECORAÇÃO SETECENTISTA PRESENTE ATÉ OS DIAS DE HOJE. ILUSTRAÇÕES 1. Mapa da Vila de Olinda colonial e do porto do Re- cife. Luís Teixeira (c. 1582-1585). Acervo Biblioteca da Ajuda, Lisboa, Portuga. 2. Vista do cerco holandês a Olinda e ao Recife no século XVII. Gravura publicada em America: Being the Latest, and Most Accurate Description of the New World. Londres, 1671, John Ogilby. Domínio Público. 3. Frans Post, vista de Olinda, século XVII. Acervo Museu Nacional de Belas Artes. 4. Diploma de Bacharel em Ciências Sociais e Jurídicas emitido pela “Academia de Sciencias So- ciaes e Juridicas de Olinda” em 14 de outubro de 1844 pelo Bispo Dom Thomaz de Noronha. Acervo Arquivo Nacional. 5. Detalhe de retrato de religioso beneditino, em óleo sobre tela no interior do Mosteiro de São Ben- to de Olinda.

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PAC 92RESTAURO Linha do tempo 1938 O MOSTEIRO DE SÃO BENTO É TOMBADO COMO MONUMENTO NACIONAL E INSCRITO NOS LIVROS DE BELAS ARTES E DO TOMBO HISTÓRICO DO SPHAN, ATUAL IPHAN. O CENTRO HISTÓRICO DE OLINDA É TOMBADO PELO IPHAN. INTERVENÇÃO EFETUADA PELO SPHAN, ATUAL IPHAN. FORAM RESTAURADOS OS BENS INTEGRADOS E FEITA A REPINTURA DO FORRO DA NAVE. FOI ENCONTRADA PRÓTESE COM ENTALHE DOS NOMES DOS ARTÍFICES QUE TRABALHARAM NO RESTAURO DAS TALHAS. Mosteiro de São Bento de Olinda 1949 1968 92 ARQUIVO ARQUIVO

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA93 1982 2001 2015 2024 2026 A UNESCO DECLARA OLINDA COMO PATRIMÔNIO MUNDIAL POR SEU CONJUNTO ARQUITETÔNICO, PAISAGÍSTICO E URBANO. O ALTAR-MOR DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO É LEVADO AO MUSEU GUGGENHEIM, DE NOVA IORQUE (EUA), PARA REPRESENTAR A ARTE BARROCA- ROCOCÓ BRASILEIRA NA EXPOSIÇÃO BRASIL: CORPO E ALMA. É A PEÇA CENTRAL DA MOSTRA. IPHAN CONTRATA A ELABORAÇÃO DE PROJETOS DE RESTAURO E CONSERVAÇÃO PARA O MOSTEIRO DE SÃO BENTO COM RECURSOS DO PAC CIDADES HISTÓRICAS. EXECUTADA PELO GOVERNO DE PERNAMBUCO, POR MEIO DA FUNDARPE, TEM INÍCIO A OBRA DE CONSERVAÇÃO E RESTAURAÇÃO DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO, NO MÊS DE NOVEMBRO, COM RECURSOS DO IPHAN POR MEIO DO NOVO PAC. OBRA DE RESTAURO DOS BENS INTEGRADOS É FINALIZADA. REABERTURA DA NAVE CENTRAL E DA CAPELA-MOR DO MOSTEIRO. 93 FOTOS: MARIANA ALVES

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO94 O Sistema Nacional do Patrimônio Cultural na Prática: o caso do Mosteiro de São Bento no Novo PAC Oano era 2023. Eu havia acabado de ser convidado pelo então presidente do Iphan Leandro Grass para assumir a Diretoria de Projetos e Obras - atual Departamento de Ações Estratégicas e Intersetoriais (DAEI) -, que herdou o extinto PAC Cidades Históricas (PAC CH). Ainda me situando na nova função, buscava reunir as informações que alguns poucos servidores haviam conseguido manter ativas du- rante um longo período sem recursos para o programa. Foi nesse contexto que recebi uma ligação de Frederico Almei- da, então diretor da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe). Ele procurava saber se seria possível disponibilizar os projetos que o PAC Cidades Históricas havia ela- borado para Pernambuco, pois o Governo do estado começava a es- truturar um novo portfólio para retomada das ações de patrimônio cultural. Por Daniel Sombra, Diretor do Departamento de Ações Estratégicas e Intersetoriais (DAEI) do Iphan ARTIGO

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA95 Fred, assim como eu, havia acabado de assumir um novo desa- fio institucional. Ao lado da então presidente da Fundarpe, Renata Borba, ambos traziam uma trajetória de intenso trabalho no Iphan. Tinham sido superintendentes do Instituto e acompanharam de perto os desafios da implementação do PAC CH. Um desses projetos era o do restauro do Mosteiro de São Bento de Olinda. Ele fazia parte de um conjunto de mais de 140 projetos desenvolvidos pelo PAC CH que, apesar de concluídos tecnica- mente, nunca haviam avançado para a contratação das obras por falta de recursos. Desde 2013, o Iphan vinha estruturando o PAC CH. À época, o programa previa 422 ações estratégicas distribuídas em 44 cidades e 20 estados brasileiros. Ao todo, cerca de R$ 800 milhões haviam sido destinados ao programa, ainda muito abaixo dos R$ 1,6 bilhão anunciados originalmente em 2013. Concebido como um programa de ações estruturantes para as ci- dades selecionadas, o PAC CH enfrentou obstáculos que impacta- ram diretamente seu cronograma. Dois momentos foram decisivos: a crise político-econômica desencadeada após o impeachment da pre- sidenta Dilma Rousseff, que provocou uma redução superior a 50% dos recursos entre 2015 e 2016; e a descontinuidade orçamentária imposta a partir de 2019, quando o orçamento do patrimônio cultural despencou quase 80% durante o governo Jair Bolsonaro. Com o novo governo do presidente Lula, a diretriz mudou: era o momento de retomar os investimentos públicos no patrimônio cultu- ral e retomar a participação na estratégia de desenvolvimento do país por meio do Novo PAC.

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO96 Em agosto daquele ano, o presidente Lula anun- ciou R$ 740 milhões para o patrimônio cultural, con- templando 144 obras e um novo edital nacional para 105 projetos. O anúncio representou a retomada do investimento público em patrimônio cultural em uma escala que o Iphan não via há muitos anos. Esse movimento significou um aumento de qua- se seis vezes do orçamento em relação a 2022. Em 2025, o investimento anual já se aproximava de R$ 200 milhões e, ao longo do ciclo do PAC, cerca de R$ 654 milhões passaram a estar garantidos para ações de patrimônio cultural. Trata-se do maior orçamento nominal da história do PAC para o setor. Também realizamos o edital com maior partici- pação do Iphan. Foram mais de 800 propostas apre- sentadas, das quais selecionamos 105 novos projetos, com foco na descentralização regional dos investi- mentos e na articulação com o patrimônio imaterial, a arqueologia e o patrimônio afro-brasileiro. Ao todo, foram selecionadas 13 ações diretamente relacionadas ao patrimônio imaterial, 22 voltadas ao patrimônio arqueológico e 14 destinadas ao patrimô- nio afro-brasileiro. Com isso, chegamos a 243 ações, envolvendo 64 proponentes, em 25 unidades da federação e 85 mu- nicípios beneficiados. O investimento em patrimônio cultural passou, finalmente, a alcançar o país de for- ma mais capilarizada e diversa. Foi esse cenário que permitiu a retomada do Novo PAC. Mas, com o programa anunciado, surgiu um desafio maior: já não cabia mais ao Iphan apenas ela- borar projetos ou repassar documentação técnica, como inicialmente havia sido solicitado pela Fundar- pe. Agora, o Instituto também transferiria recursos para execução direta das obras. O Novo PAC, estruturado a partir do pacto federa- tivo brasileiro, estimula na prática a consolidação do Sistema Nacional do Patrimônio Cultural. Cabe ao Governo Federal aprovar, financiar e supervisionar as ações. Aos governos locais compete apresentar a documentação técnica, contratar equipes e acompa- nhar a execução das obras. Para realizar as ações do Iphan no Novo PAC, foi necessário estruturar uma extensa rede com mais de 90 parceiros, entre prefeituras, governos estaduais, universidades, autarquias federais e superintendên- cias do próprio Instituto. Cada parceiro possui níveis distintos de maturida- de institucional para tocar as ações. Mas a regra geral ainda é, infelizmente, uma limitação de capacidades administrativas e técnicas. Em muitos casos, os técni- cos responsáveis pelo patrimônio acumulam funções em outras áreas da gestão pública. Não foram raras as situações em que equipes locais indicavam que as ações do patrimônio precisariam aguardar demandas urgentes ligadas à saúde, educação ou infraestrutura. No caso das ações de Olinda, o arranjo institucio- nal construído envolveu uma forte parceria com o Governo de Pernambuco, por meio da Fundarpe. E aqui temos um exemplo concreto de como diferen- tes instâncias podem atuar de forma complementar e sinérgica na preservação do patrimônio cultural brasileiro. A Fundarpe não apenas recebeu o projeto do Mos- teiro de São Bento. A instituição realizou uma revi- são crítica da proposta original e atualizou substan-

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA97 cialmente a intervenção, adequando-a ao estado da arte das discussões técnicas do início do processo, em 2023. Optou-se por priorizar os elementos integra- dos da igreja e do mosteiro, além da estabilização dos problemas estruturais existentes. Também fizemos nossa parte. No âmbito do Novo PAC, o Iphan destinou 2,5% dos recursos ao contrato de cooperação com a Unesco, permitindo apoio téc- nico especializado para a gestão do programa. Isso possibilitou a contratação de consultorias em arqui- tetura, engenharia, administração, contabilidade, gestão contratual e assessoramento jurídico. A Fundarpe teve atuação particularmente desta- cada. Reestruturou equipes, ampliou capacidades técnicas e mobilizou quadros com conhecimento especializado e habilidade política. Sob liderança de Renata Borba, a instituição consolidou-se como uma das principais executoras de ações de patrimônio no âmbito do PAC entre 2023 e 2026. Ao todo, foram mais de R$ 45 milhões viabilizados em oito ações, envolvendo obras e projetos em Recife, Olinda e Fer- nando de Noronha. Para viabilizar uma ação como a do Mosteiro de São Bento, muitas forças precisam convergir simul- taneamente: vontade política, institucionalidade, ca- pacidade técnica e coordenação administrativa. Se o Mosteiro já era um marco da paisagem de Olinda, presente na memória urbana, no carnaval e na música pernambucana, passa agora também a simbolizar algo maior: um exemplo concreto de como pode funcionar, na prática, o Sistema Nacional do Patrimônio Cultural brasileiro.

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO98 Uma obra de muitas mãos

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA99 Desde 1597, cada canto e recanto da Basílica do Mosteiro de São Bento de Olinda está impregnado de assinaturas silenciosas. Não são nomes gravados em papel ou manuscritos nas paredes; suas assinaturas são a própria arte ma- nual que eles ajudaram a construir nos forros, nas capelas, nos altares. Sobre esses registros mais anti- gos, muitos outros se juntaram ao longo dos séculos, com as obras de ampliação, reforma, conservação e restauro do edifício religioso. Em 2026, essas assinaturas ganham, finalmente, nomes e rostos nas fotografias de conservadores-res- tauradores e auxiliares, marceneiros e entalhadores que atuaram na obra de restauro da Basílica Abacial dos monges beneditinos. A Galeria de Trabalhadores é uma homenagem a todas e a todos que dedicaram seu tempo à preservação do patrimônio cultural brasileiro. FOTOS: PAULO ANDRÉ PEDROSA BEZERRA

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO100 A minha ligação com o Mosteiro de São Bento de Olinda é muito profunda e remonta aos anos de 2000 e 2001, quando tive o projeto de restauro do retábulo-mor selecionado para integrar a exposição Brasil: Corpo e Alma, realizada no Museu Guggenheim, em Nova Iorque, em 2001. O restauro da peça foi executado por uma equipe da Fundação Joaquim Nabuco, sob minha responsabilidade técnica. Posteriormente, entre 2003 e 2004, já pela empresa Grifo, retornei ao Mosteiro para coordenar o restauro do restante da talha da capela-mor, tribunas e cimalha do forro, dando continuidade à intervenção no conjunto, por meio de contrato firmado com o Iphan. Esse período foi especialmente marcante para mim, pois coincidiu com o nascimento da minha filha, Luiza. A partir de seu primeiro mês de vida, ela passou a me acompanhar diariamente ao Mosteiro, permanecendo em um bercinho na Sacristia, onde era acolhida e cuidada por todos. Em 2006, tive novamente a oportunidade de retornar ao Mosteiro para realizar o restauro do Crucifixo com Baldaquino, localizado no coro alto. Agora, tenho o imenso prazer de participar desta importante etapa de conservação e restauração dos bens integrados ao Mosteiro. Por tudo isso, o carinho e o cuidado que tenho por esse monumento são imensos. Trata- se de uma ligação que ultrapassa o campo profissional: é uma relação profundamente afetiva, construída ao longo da minha trajetória e entrelaçada à minha própria história de vida.” Pérside Omena Ribeiro CONSERVADORA-RESTAURADORA, RESPONSÁVEL TÉCNICA

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA101 Sou escultor, pintor e desenhista autodidata, e atuo como marceneiro entalhador desde a primeira obra da Grifo, em 2003, quando participei da etapa de restauro da talha dourada da capela-mor do Mosteiro de São Bento de Olinda. Sinto-me profundamente orgulhoso por participar desse resgate histórico e por fazer parte desta equipe. Restaurar esses elementos é, de certa forma, devolver ordem, beleza e sentido a um espaço carregado de memória, permitindo um mergulho nas relações sensoriais vividas por outras gerações. Um exemplo disso é a recuperação da pintura do forro do nártex, que não era vista há séculos. Tenho profundo interesse e total compromisso com a conservação e o restauro dos elementos artísticos integrados a este monumento. É uma grande satisfação contribuir, ainda que com uma pequena parcela, para que as futuras gerações possam contemplar novamente a beleza, a história e a essência original desta igreja.” Luiz Augusto Borges MARCENEIRO-ENTALHADOR, COORDENADOR DE EQUIPE

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO102 Tive a oportunidade de fazer parte da equipe de restauração do Mosteiro de São Bento de Olinda nesta última fase. É com muita satisfação e dedicação, junto à equipe, que vivenciamos um grande marco na história e cultura de Olinda. Um trabalho em que pudemos sentir o passado em todas as suas nuances de cores, formas e um dourado que encanta os olhos de todos que apreciam sua beleza.”essência original desta igreja.” Renato Junior da Silva CONSERVADOR-RESTAURADOR, COORDENADOR DE EQUIPE

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA103 Grato! É o sentimento pela oportunidade de me expressar nessa publicação. Sempre que participo de um trabalho de restauração de um monumento, fico imaginando quem eram as pessoas que concretizaram aquela obra, quem executou intervenções de conservação ou mesmo restaurações que possibilitaram que aquele bem resistisse ao tempo (nem sempre a conservação é levada a sério pelos guardiões daquele monumento histórico). É honroso para mim poder deixar registrado o que sinto com relação a esse trabalho no Mosteiro de São Bento. Tenho trabalhado na restauração de bens culturais desde 1990. Desde então, já participei de diversos projetos de relevância no sentido de preservar o nosso patrimônio. Quanto a empreitada atual, sinto grande satisfação por contribuir com o meu trabalho em uma obra tão abrangente que garantirá a sobrevida desse monumento para que as pessoas continuem se maravilhando com a beleza desse lugar. Nessa jornada que sigo no trabalho de restauração, coloco o Mosteiro de São Bento em Olinda como um dos mais ou o mais importante lugar que trabalhei. Estive na equipe que restaurou o altar-mor comandada pela restauradora Pérside Omena Ribeiro, em 2001, em um trabalho executado num período de tempo considerado, por muitos, impossível de ser feito pelo estado de conservação que encontramos o altar (missão cumprida). Depois fui convidado por Pérside para mais uma intervenção, no ano de 2003/04, dessa vez, nas tribunas e cimalhas da capela-mor. Em 2006, participei da desmontagem do crucifixo e baldaquino. Na atual restauração, estou engajado desde janeiro de 2025. Por isso tenho um sentimento de muito carinho pelo Mosteiro de São Bento que, além de tudo, fica em uma cidade Patrimônio da Humanidade, onde escolhi para viver. Olinda faz a minha vida ter sentido!” Tiago José dos Santos CONSERVADOR-RESTAURADOR

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO104 Em 2003, fui convidada a fazer parte do quadro de funcionários da empresa Grifo, onde trabalho até hoje como Gerente Administrativa. Naquele momento, iniciava uma experiência profissional em uma área que, para mim, era totalmente desconhecida, pois nunca havia trabalhado com nada parecido. Já se passaram 23 anos de muito aprendizado e encantamento, e tudo começou justamente aqui, no Mosteiro de São Bento de Olinda. Naquela ocasião, estávamos restaurando as tribunas e a cimalha do forro da capela-mor, a primeira obra executada pela Grifo. Lembro perfeitamente do estado de conservação em que as peças se encontravam, com profundas lacunas e partes carcomidas por cupins. Fiquei muito impressionada e me perguntava como tudo aquilo poderia ser restaurado e voltar ao seu lugar de origem. Mas foi exatamente isso que aconteceu. Ao ver o resultado final, fiquei profundamente emocionada. Hoje, continuo admirando o trabalho dos meus colegas restauradores, assim como o profissionalismo, a dedicação e o cuidado da minha diretora, Pérside Omena. Cada trabalho concluído, para mim, parece um milagre: algo quase divino, em que conhecimento, sensibilidade e dedicação se unem para devolver beleza e vida a bens tão importantes. Sou apaixonada por esse trabalho e pelo significado que ele carrega. Saber que, ao restaurarmos um monumento tão grandioso como a Igreja do Mosteiro de São Bento de Olinda, estamos contribuindo para manter viva a história e preservar a cultura do nosso estado é motivo de muito orgulho.” Patrícia Alves de Souza GERENTE ADMINISTRATIVA

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA105 Meu nome é Maria do Rosário, mas no mundo do restauro todos me conhecem como Rosa. Para nós, restauradores, a obra do Mosteiro de São Bento era algo muito aguardado; estava todo mundo ansioso para que o projeto saísse do papel. Quando finalmente aconteceu e eu fui escolhida para a equipe, para mim foi muito gratificante, fiquei muito feliz. E estou aqui, dando o máximo que eu posso para essa beleza que está ficando. É muito gratificante ver o processo desde o início. Chegamos aqui e encontramos tudo deteriorado, e agora estamos colocando cada detalhe de volta em seu lugar, para entregar esse encanto à população. Sou de Olinda e é mais gratificante ainda estar trabalhando na minha cidade. Está sendo uma experiência maravilhosa. Embora eu faça de tudo um pouco na obra, a parte em que me destaco e que mais amo fazer é o douramento. Gosto de pegar a peça desde o nivelamento, passar o bolo, brunir e deixar reluzente, deixar lindo”. Maria do Rosário dos Santos Bispo CONSERVADORA-RESTAURADORA E ESPECIALISTA EM DOURAMENTO

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO106 O PROCESSO DE CONTRATAÇÃO DOS SERVIÇOS DE RESTAURO NO MOSTEIRO DE SÃO BENTO Os bens móveis e integrados constituem o conjunto de elemen- tos artísticos que conferem identidade e riqueza estética às edificações históricas. Altares, pinturas, talhas, douramen- tos, púlpitos e tribunas ultrapassam a função decorativa e tornam-se expressões materiais da memória, da espiritualidade e da cultura. No campo da preservação patrimonial, distinguem-se os bens imó- veis — edificações e estruturas arquitetônicas — dos bens móveis e integrados, compostos pelos elementos artísticos vinculados à edifi- cação. Embora complementares, tratam-se de áreas técnicas distintas, com metodologias e especializações próprias. A restauração de bens móveis e integrados exige mão de obra al- tamente especializada, conhecimento histórico e domínio de técni- cas tradicionais. Diferentemente das intervenções em bens imóveis, vinculadas à arquitetura e à engenharia, o restauro de bens integra- dos demanda profissionais especializados em conservação e restau- ração artística. O conjunto arquitetônico do Mosteiro de São Bento de Olinda re- presenta um dos mais importantes conjuntos artísticos do patrimônio cultural brasileiro, reconhecido pelo Iphan por meio do tombamen- Por Frederico Almeida, Diretor de Obras e Projetos Especiais da Fundarpe ARTIGO

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA107 to federal, além da proteção estadual assegurada pela Fundarpe, conforme a Lei Estadual nº 7.970/70. A elaboração do processo de contratação dos serviços de restau- ração revelou importantes desafios técnicos e jurídicos. Tornou-se necessário demonstrar aos órgãos de controle que os serviços pre- vistos não se enquadravam como obras comuns de engenharia, mas como atividades especializadas de natureza predominantemente intelectual, conforme estabelece a Lei nº 14.133/21. As tabelas referenciais oficiais de obras públicas, como SINAPI e SICRO, não contemplam composições específicas para conserva- ção e restauração de bens móveis e integrados, exigindo a construção de metodologia própria de orçamento. Assim, os custos referenciais foram definidos por meio de cotações de mercado para materiais, mão de obra especializada, equipamentos e infraestrutura necessá- rios aos serviços. O projeto de restauração baseou-se em vistorias técnicas, pros- pecções pictóricas e estruturais não destrutivas, diagnósticos deta- lhados e registros fotográficos de cada elemento artístico, permitin- do o mapeamento dos danos e a definição das soluções de restauro adequadas a cada conjunto. Após a elaboração do projeto e orçamento, foram produzidos os Estudos Técnicos Preliminares (ETP) e o Termo de Referência (TR), justificando a necessidade de contratação especializada para garantir a preservação adequada dos bens artísticos do Mosteiro. A empresa Grifo Diagnóstico e Preservação de Bens Culturais, co- mandada pela restauradora Pérside Omena, reconhecida pelo no- tório saber e profundo conhecimento dos materiais e técnicas do Mosteiro, foi convidada a apresentar proposta por inexigibilidade de licitação. A experiência evidenciou a necessidade de criação de tabelas ofi- ciais e composições de custos específicas para serviços de conserva- ção e restauração de bens culturais, proporcionando maior seguran- ça técnica e jurídica aos órgãos públicos e profissionais da área.

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO108 Educação patrimonial Aeducação patrimonial, atividade perma- nente estimulada pelo Iphan, é fundamen- tal na construção do conhecimento que leva à apropriação dos bens de valor cultural pela socieda- de. Nesse sentido, nada melhor do que a obra de res- tauro de um bem tombado para colocar a teoria em prática. A Basílica Abacial do Mosteiro de São Bento de Olinda, que passou por intervenções no âmbito do Novo PAC, cumpriu magistralmente esse papel no decorrer da obra. Entre 24 de maio e 27 de novembro de 2025, o canteiro de obras transformou-se em uma sala de aula viva. Ao todo, 102 estudantes de Arquitetura e Urbanismo, 21 alunos de Engenharia e 18 técnicos da área de patrimônio histórico participaram de visitas técnicas promovidas pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe). O objetivo foi dialogar com os conservadores-restaura- dores e ver de perto a execução dos trabalhos de sal- vaguarda no edifício histórico.

MOSTEIRO DE SÃO BENTO DE OLINDA109 SILLA CADENGUE | FUNDARPE EDUARDO CUNHA| FUNDARPE RONNY COLORS | FUNDARPE SILLA CADENGUE | FUNDARPE RONNY COLORS | FUNDARPE SILLA CADENGUE | FUNDARPE SILLA CADENGUE | FUNDARPE SILLA CADENGUE | FUNDARPE A iniciativa mobilizou professores e estudantes de diversas instituições de ensino: • Engenharia: Escola Politécnica da Universidade de Pernambuco (Poli-UPE, Recife). • Arquitetura e Urbanismo: Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Centro Universitário Maurício de Nassau (Uninassau, Recife) e Faculdade de Ciências Humanas ESUDA (Recife). As visitas contaram também com a participação de técnicos da Fundarpe e de representantes da Superintendência do Iphan em Pernambuco e do seu Escritório Técnico de Olinda (ETO-Iphan).

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PAC 110RESTAURO Ficha técnica da obra TIPO DE INTERVENÇÃO E NOME DO BEM RESTAURAÇÃO DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO – BENS INTEGRADOS LOCALIZAÇÃO RUA DE SÃO BENTO S/N, VARADOURO, OLINDA-PE DATA DE INÍCIO 10/2024 DATA DE CONCLUSÃO 06/2026 ÁREA TOTAL DA INTERVENÇÃO: 1.826,34 m2 VALOR TOTAL DO INVESTIMENTO: R$ 16,4 MILHÕES ÓRGÃOS RESPONSÁVEIS EXECUÇÃO: FUNDAÇÃO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO DE PERNAMBUCO, GOVERNO DO ESTADO DE PERNAMBUCO GESTÃO PAC OBRAS: INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL EQUIPE FUNDARPE RENATA DUARTE BORBA, PRESIDENTE LIDIANE PESSOA CÂNDIDO DA COSTA PEREIRA, VICE- PRESIDENTE FREDERICO FARIA NEVES ALMEIDA, DIRETORIA DE OBRAS E PROJETOS ESPECIAIS SANDRA ALVES BARBOSA SPINELLI, SUPERINTENDENTE DE PROJETOS ESPECIAIS DA DIRETORIA DE OBRAS E PROJETOS ESPECIAIS AUDÍSIO MARQUES DE SOUZA NETO, SUPERINTENDENTE DE OBRAS DA DIRETORIA DE OBRAS E PROJETOS ESPECIAIS ANA CLÁUDIA ALVES FLORÊNCIO DE MELO, ASSESSORA TÉCNICA DA DIRETORIA DE OBRAS E PROJETOS ESPECIAIS FABÍOLA DE SOUZA GOMES, ENGENHEIRA CIVIL/ ORÇAMENTISTA DA DIRETORIA DE OBRAS E PROJETOS ESPECIAIS MAGDALENA WERNECK, ASSESSORA TÉCNICA DA DIRETORIA DE OBRAS E PROJETOS ESPECIAIS CÉLIA CAMPOS, DIRETORA DE PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO CULTURAL CRISTIANE FEITOSA CORDEIRO DE SOUZA, SUPERINTENDENTE DE PATRIMÔNIO MATERIAL DA DIRETORA DE PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO CULTURAL EVA FONSECA PASSAVANTE NEVES, ASSESSORA TÉCNICA DA DIRETORIA DE PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO CULTURAL FLÁVIO BARBOSA DA SILVA, GERENTE DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL E ARTICULAÇÃO DA DIRETORA DE PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO CULTURAL JESUS ANDERSON BEZERRA DE JESUS, ASSESSOR TÉCNICO DA DIRETORIA DE PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO CULTURAL RIVALDO ALVES CASADO FILHO, ASSESSOR TÉCNICO DA DIRETORIA DE PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO CULTURAL PATRÍCIA ELY, AGENTE DE CONTRATAÇÃO CAROLINE LIRA, APOIO ADMINISTRATIVO ANA PAULA MEDEIROS DE MACEDO, DIRETORIA JURÍDICA MARIA DA SILVEIRA BARROS GALLIZA, ASSESSORA JURÍDICA ALFREDO OTTONI DE CARVALHO NETO, DIRETORIA ADMINISTRATIVA FINANCEIRA PABLO NAVARRO VALENÇA, SUPERINTENDENTEDE ADMINISTRAÇÃO E COMPRAS EDILEUSA MADEIROS ROCHA, CHEFE DA UNIDADE FINANCEIRA JULIANO CESAR CAMARGO RAMOS, ASSESSOR TÉCNICO AROLDO VICENTE DA SILVA JUNIOR, ASSESSOR ADMINISTRATIVO MAÍSA PESSOA RODRIGUEZ, CONTADORA JOÃO MÁXIMO MARINHO FALCÃO DA SILVA, CONTADOR VALENTINE HEROLD, GERENTE DE COMUNICAÇÃO JOYCE LACERDA, SOCIAL MEDIA IGOR GOMES, ASSESSOR DE IMPRENSA SILLA CADENGUE - FOTÓGRAFA ALEF TIBURCIO, VIDEOMAKER

PALÁCIO GUSTAVO CAPANEMA111 EQUIPE IPHAN-PE FREDERICO DE VASCONCELOS BRENNAND, SUPERINTENDENTE ESCRITÓRIO TÉCNICO DE OLINDA ANA PAULA MOTA DE BITTENCOURT DA COSTA LINS, CHEFE AMARILES ARAÚJO DA SILVA ANDRADE, TÉCNICA EM EDIFICAÇÕES, CHEFE SUBSTITUTA MARÍLIA LOPES BEZERRA CIRENO, ARQUITETA E URBANISTA VICTOR TAKESHI ALBUQUERQUE KITAOKA, TÉCNICO EM EDIFICAÇÕES DANIELE NASCIMENTO DE ANDRADE, APOIO ADMINISTRATIVO COORDENAÇÃO TÉCNICA MARINA BELTRÃO RUSSELL, ARQUITETA E URBANISTA, COORDENADORA TÉCNICA ALLAN LEONARDO SILVA, ARQUEÓLOGO, COORDENADOR TÉCNICO SUBSTITUTO ADRIANA WOLF NOGUEIRA, BIBLIOTECÁRIA ADRIJANE BRENDA DA SILVA SANTOS, APOIO ADMINISTRATIVO EVERALDO JOSÉ DE MELLO, RESTAURADOR E CONSERVADOR GABRIELA PONTES MONTEIRO, ARQUITETA E URBANISTA JOHNATAN SANTIAGO DA SILVA GALVÃO, ENGENHEIRO CIVIL LÍVIA MORAES E SILVA, PATRIMÔNIO IMATERIAL LUCIANA CRISTINA DA SILVA BRITO, APOIO ADMINISTRATIVO MARCELO DE BRITO ALBUQUERQUE PONTES FREITAS, ARQUITETO E URBANISTA MARCELO DE LIMA FERREIRA, ARQUIVISTA MARCOS VINÍCIUS SIMÃO, ARQUITETO E URBANISTA MARIA CRISTINE SOARES MATOS OLIVEIRA, RESTAURADORA E CONSERVADORA MARIANA MAIA CARNEIRO DE SOUZA CASTRO, CHEFE DE SERVIÇO MÔNICA ALMEIDA ARAÚJO NOGUEIRA, ARQUEÓLOGA PATRÍCIA VALÉRIA MORAES DO RÊGO, BIBLIOTECÁRIA ROMERO DE OLIVEIRA E SILVA FILHO, HISTORIADOR STELLA SOLENE DA SILVA, APOIO ADMINISTRATIVO THAMIRES HELENA OLIVEIRA NEVES, HISTORIADORA VANESSA MASCHIO DOS REIS, ARQUITETA E URBANISTA VINÍCIUS DE PAULA ARAGÃO, PATRIMÔNIO IMATERIAL COORDENAÇÃO ADMINISTRATIVA AMANDA RODRIGUES FERNANDES LUNDGREN DE MELO, ADMINISTRADORA, COORDENADORA ADMINISTRATIVA CAROLINE DE BRANCO RODRIGUES PESSOA, ANALISTA, COORDENADORA ADMINISTRATIVA SUBSTITUTA ALEXSANDRO GUERGOLET, AUXILIAR INSTITUCIONAL BIANCA MARQUES GALINDO, APOIO ADMINISTRATIVO EDMILSON DA SILVA SOUZA, ASSISTENTE ADMINISTRATIVO EDVALDO JOSÉ DA SILVA, AUXILIAR DE SERVIÇOS DIVERSOS FERNANDA CARNEIRO DE ANDRADE LIMA, ANALISTA GABRIELA CAETANO DA SILVA SANTOS, APOIO ADMINISTRATIVO GERCINO JOSÉ DE OLIVEIRA, APOIO ADMINISTRATIVO JOSÉ CARLOS MARINHO DA SILVA, ARTÍFICE JOSÉ OSMAR DA ROCHA, ARTÍFICE MARIA PATRÍCIA BATISTA DE MOURA, APOIO ADMINISTRATIVO MARCOS ANTÔNIO JOSÉ DE SOUZA, ARTÍFICE MARIANA DE BARROS GUIMARÃES MAIA, AUXILIAR INSTITUCIONAL RAFAELA LICÓ DA SILVA, APOIO ADMINISTRATIVO CONSULTORAS UNESCO CYNTIA GOUVEIA BEZERRA, ENGENHEIRA CIVIL TAMARA MARIA DE ANDRADE BONILLA, ENGENHEIRA CIVIL ESTAGIÁRIOS BRENO CEZAR DA SILVA DIAS, TÉCNICO EM EDIFICAÇÕES DIANA DO NASCIMENTO LIMA, ARQUEOLOGIA GISELLA MARIA SILVEIRA DE ANDRADE, ARQUITETURA E URBANISMO LEANDRO FERREIRA DE LIMA, TÉCNICO EM EDIFICAÇÕES LUCIANO APOLONIO DA SILVA, ARQUITETURA E URBANISMO RECEPCIONISTAS DANILLO LEAL DE BARROS MARIA ANDECARLA SANTOS SILVA MOTORISTAS ALLYSON BARBOSA DE BRITO CLEYBSON DE OLIVEIRA TORQUATO WAGNER FRANKLIN RODRIGUES SILVA SEGURANÇAS PATRIMONIAIS ADEMAR MANOEL DA SILVA FILHO ANDREA AGUIAR DOS SANTOS COSME LUIZ CORREIA DO NASCIMENTO DINIZ PINHEIRO TORRES

112 O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PACRESTAURO EDSON PEREIRA DE SOUZA JUNIOR ELIAQUIM SANTOS DE ANDRADE EDUARDO DOS SANTOS GOMES ERNANDO LUIZ FRANCELINO DA SILVA JAIR ANTÔNIO NASCIMENTO JOÃO BATISTA DA SILVA JOÃO PAULO DA CRUZ REGINALDO FAUSTINO DA SILVA SIMONE LIMA DA SILVA TONE DÓRIO DE OLIVEIRA SERVIÇOS GERAIS EDIVÂNIA COSTA DA SILVA GALILEU JOSÉ DE OLIVEIRA JOSÉ ROBSON DE ALENCASTRO MACHADO MARCOS ANTÔNIO DA SILVA FILHO MARIA PETRÚCIA DE FREITAS MARILEIDE DIAS ALVES DE SOUZA SUPERVISÃO TÉCNICA IPHAN ELABORAÇÃO DO PROJETO E EXECUÇÃO DA OBRA EXECUÇÃO GRIFO DIAGNÓSTICO E PRESERVAÇÃO DE BENS CULTURAIS LTDA. RESPONSÁVEL TÉCNICA E COORDENAÇÃO GERAL PÉRSIDE OMENA RIBEIRO COORDENAÇÃO DE EQUIPES LUIZ AUGUSTO BORGES DA SILVA RENATO JÚNIOR DA SILVA EQUIPE TÉCNICA ALEX DAVID BARROS DA SILVA ALEXSANDRA FERREIRA LEITE ALICE DA SILVA SERAFIM AMANDA CALAZANS PEREIRA AMANDA KAROLINA SILVA DO NASCIMENTO ANDREA DUARTE DA SILVA ARTHUR PELÓPIDAS DE QUEIROZ NETO BEATRIZ MOREIRA DA NÓBREGA BRUNA MOREIRA FIGUEIREDO CARLA MARCELINA DOS SANTOS ARRUDA DARA MARAÍ DA SILVA DARLAN SANTOS DA ROCHA DAVI ASCENDINO CASTILHO DIEGO DE MORAES SILVA DJALMA MARQUES DA SILVA EDSON DUÍLIO CARLOS DOS SANTOS ERALDO OMENA RIBEIRO JÚNIOR FLÁVIA ZANARDINI ALVES ROSA FRANCISCA EDILENE DA SILVA GLEICE BARBOSA DA SILVA HAMILTON GERMANO DA SILVA JÚNIOR HÉLIO JOSÉ DA SILVA JÚNIOR JAIRSON ALVES DA ROCHA JACIEL JOSÉ DE OLIVEIRA BASTOS JOSEANE CRISTINA FRANÇA DE LIRA JOSEANY MARIA SILVA JOSÉ ANDERSON SILVA SANTOS JOSÉ DAVID NASCIMENTO JOSENILDO EMÍLIO DE SENA SANTOS JULIANA DE ARAÚJO ANDRADE KARLA FABIANA LEITE GUSMÃO MARCONE AMORIM BATISTA MARIA ALESSANDRA SILVA DE SOUZA MARIA DO ROSÁRIO DOS SANTOS BISPO MARIA GORETTE ARAÚJO CARVALHO MARYANA NASCIMENTO SILVA MATHEUS ROSA DE SOUZA MIRELA MARIA SANTOS SILVA NATÁLIA DE ARAÚJO SILVA OLIVEIRA PEDRO NEMROD DA SILVA RAFAELLE EDILENE DE SOUZA RITCHELLY SOARES DA SILVA RUI CRUZ PACHECO SÓCRATES DO NASCIMENTO ALVES SOFIA DE ASSIS HUNKA TAYRONE KLEBER BARBOSA DA SILVA TIAGO JOSÉ DOS SANTOS VALERIA SUZANA DE ALMEIDA WANDERLEY YASMIN CAVALCANTI TOSCANO DE MELO YURI CAVALCANTI BITTENCOURT ESTAGIÁRIOS NICOLE FERNANDA DE PAULA ALMEIDA LUCIANO ALVES DA SILVA HENRIQUE DE ANDRADE MOURA

EQUIPE ADMINISTRATIVA CLAUDIA CÉLIA TOSTA LIMA PATRÍCIA ALVES DE SOUZA SÉRGIO DA SILVA LIMA DOCUMENTAÇÃO FOTOGRÁFICA ELPÍDIO LINS SUASSUNA (in memorian) PAULO ANDRÉ PEDROSA BEZERRA ROBSON LEMOS DESENHOS GRÁFICO E ARQUITETÔNICO FELIPE EUGENIO DA SILVA GUILHERME L’AMOUR PRESTADOR DE SERVIÇO WILLIAM GOMES SÁ - PINTURA PESQUISA HISTÓRICA E ICONOGRÁFICA FERNANDO PONCE DE DANTAS LÉON ANÁLISES FÍSICO-QUÍMICAS UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO, NÚCLEO DE METROLOGIA ARQUEOLÓGICA DE PATRIMÔNIO CULTURAL PROF. HENRY SÓCRATES LAVALLE SULLASI UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS, LABORATÓRIO DE CIÊNCIA DA CONSERVAÇÃO/LACICOR/CECOR/EBA PROF. DR. LUIZ ANTÔNIO A. SOUZA DOUTORANDA - DÂMIA CARINA DIAS DO CARMO BOLSISTA DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA - ISABEL BOUZADA RIBEIRO NETTO EMPRESAS PRESTADORAS DE SERVIÇOS ALFA MONTAGEM – MONTAGEM E DESMONTAGEM DE ANDAIME. DALUZ ILUMINAÇÃO - EDITE MARIA BARROSO DE ARAÚJO E SUZANA GONÇALVES BARBOSA - ARQUITETAS ECIMA – ERRADICAÇÃO E CONTROLE DE INSETOS DA MADEIRA - LUCIANO SERPA - RESPONSÁVEL TÉCNICO. PASHAL PE LOCADORA DE EQUIPAMENTOS LTDA – LOCAÇÃO DE ANDAIMES. REALIZA ENGENHARIA PE – CHARLES M. G. C.PITANGA – ENGENHEIRO ELETRICISTA SOMMAR SOLUÇÕES SUSTENTÁVEIS – CATARINA TÁVORA MAIA – ENGENHEIRA QUÍMICA. SUASSUNA AMBIENTAL - DRª JOANA SUASSUNA - BIÓLOGA PROF. DR. RENATO LÚCIO MENDES ALVARENGA – UFPE. 113

O corpo do texto deste livro foi composto com fontes da família chronicle display. Para os títulos utilizou-se a Zuume , projetada pelo Adam Ladd do Adobe Type kit. Tiragem de 1200 exemplares, impressos em papel couchê fosco 150g pela Athalaia Gráfica e Editora

estautaurstauestau

roororo

O PATRIMÔNIO CULTURAL NO NOVO PAC