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N E S T A E D I Ç Ã O Sumário I. E N S A I O · F I L O S O F I A O intelectual no século XXI: falar, agir e adiar o fim do mundo De Ailton Krenak à crise ambiental no Paraná: como pensar deixou de ser observação neutra para se tornar intervenção. P á g i n a 3 a 5 → II. E N T R E V I S T A · P S I C O L O G I A Traduzir o conhecimento: uma conversa com João Lucas Inocêncio de Sá Pensamento crítico, Terapia Cognitivo-Comportamental, Sócrates, Foucault e os riscos do sensacionalismo científico nas redes. P á g i n a 6 a 1 4 →

E N S A I O · F I L O S O F I A O papel do intelectual no século XXI A I L T O N K R E N A K S U M Á R I O P R Ó X I M O → 03 Adiar o fim do mundo Presentemente o intelectual contemporâneo precisa superar a posição de observador neutro e assumir uma filosofia engajada, na qual pensar, falar e agir constituem dimensões inseparáveis. Em um contexto marcado por crises ambientais, desigualdades, desinformação e esvaziamento do debate público, o intelectual tem o compromisso de intervir no presente e contribuir para a construção de futuros possíveis. Para o pensador e líder indígena Ailton Krenak, o “fim do mundo” não é um evento único ou futurista, mas um processo que já acontece em câmera lenta devido à destruição da natureza pelo consumo desenfreado. A expressão “adiar o fim do mundo” pode funcionar como metáfora central: pensar não para prever o fim, mas para criar condições de existência coletiva diante das crises. Para ele, adiar esse colapso exige inventar “paraquedas coloridos”, cultivando a alegria, os sonhos e a diversidade de modos de vida."Pensar não para prever o fim, mas para criar condições de existência coletiva diante das crises."

E N S A I O · F I L O S O F I A S U M Á R I O← A N T E R I O R P R Ó X I M O → 04 Falar: o pensamento como intervenção O intelectual não deveria compreender sua fala como simples transmissão de conhecimento. Falar é também posicionar-se no espaço público. O silêncio diante de determinadas injustiças pode representar uma forma de afastamento da responsabilidade política. O intelectual do século XXI não fala a partir de uma suposta neutralidade absoluta: sua palavra participa das disputas de sentido que organizam a sociedade. Esse cenário torna a reflexão de Krenak concreta: a crise ambiental não é apenas um problema para as próximas gerações, mas algo que já interfere na produção de alimentos, na disponibilidade de água e na vida das comunidades. O pensamento indígena questiona justamente a visão de que a natureza existe apenas como recurso para o desenvolvimento humano. A t i v i s t a , f i l ó s o f o , e s c r i t o r e l í d e r i n d í g e n a d o p o v o k r e n a k , A i l t o n p r o p õ e u m n o v o m o d o d e e x i s t i r : u m a v i d a e m q u e n a t u r e z a e h u m a n i d a d e n ã o s ã o s e p a r a d a s . C o m p a l a v r a s a f i a d a s e e s p í r i t o p r o f u n d o , e l e p l a n t a c o n s c i ê n c i a o n d e o m u n d o s ó v ê p r o g r e s s o .

E N S A I O · F I L O S O F I A Também é possível relacionar o papel do intelectual à tecnologia e à inteligência artificial. Em 2026, pesquisadores continuam discutindo os impactos sociais da expansão da IA, incluindo riscos relacionados à forma como a sociedade reage e se adapta a essas tecnologias. Isso mostra que o intelectual contemporâneo não deve apenas perguntar “o que a tecnologia consegue fazer?”, mas também “para quem ela serve, quais consequências produz e quem será responsável por elas?”. No contexto de Cornélio Procópio, há ainda um exemplo cotidiano dessa relação entre conhecimento, tecnologia e ação: em maio de 2026, a Copel anunciou a poda de cerca de 6 mil árvores no município para evitar o contato da vegetação com a rede elétrica. Isso permite discutir que questões ambientais também aparecem nas decisões municipais sobre arborização, energia, infraestrutura e segurança. Assim, o intelectual do século XXI precisa transformar conhecimento em participação social. “Adiar o fim do mundo” não significa simplesmente evitar uma catástrofe distante, mas enfrentar os problemas que já existem e construir, coletivamente, maneiras mais sustentáveis e justas de viver. S U M Á R I O← A N T E R I O R P R Ó X I M O → 05 Tecnologia, cidade e ação coletiva

E N T R E V I S T A · P S I C O L O G I A JL João Lucas Inocêncio de Sá Estudante de Psicologia S U M Á R I O P R Ó X I M O → 06 Traduzir o conhecimento "Ser um intelectual nos dias de hoje parte do princípio de traduzir conhecimentos para aqueles que não têm acesso a eles. Quando falo em “traduzir”, não penso no intelectual como uma figura isolada, presa em uma casa cercada de livros, distante da sociedade. Pelo contrário, o intelectual está vivo dentro dela e participa ativamente de seus debates. Seu papel é justamente tornar acessíveis conhecimentos muitas vezes considerados elitizados, eruditos ou difíceis, contribuindo para a desmistificação do pensamento, para o desenvolvimento do senso crítico e para o fortalecimento do letramento científico." @joaolucassa.psi on Instagram João Lucas Inocêncio de Sá é estudante do último semestre de Psicologia pela Universidade Positivo e pós-graduando nas áreas de Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), Neurociência e Comportamento e Avaliação Psicológica. Dedica-se à divulgação científica em Psicologia por meio do perfil @joaolucassa.psi, aproximando ciência, cultura e saúde mental.

E N T R E V I S T A · J O Ã O L U C A S I N O C Ê N C I O D E S Á S U M Á R I O← A N T E R I O R P R Ó X I M O → 07 O intelectual como tradutor “Esse papel se torna ainda mais importante em uma sociedade cada vez mais polarizada, na qual muitas questões são reduzidas a um “oito ou oitenta”, ao “tudo ou nada”. Nesse contexto, o intelectual pode estimular as pessoas a compreenderem melhor os assuntos, questionarem aquilo que recebem como verdade e desenvolverem maior interesse pelo conhecimento. A contribuição do intelectual para os problemas sociais e políticos do século XXI está justamente nessa capacidade de traduzir conhecimentos para a sociedade. Em crises climáticas, sanitárias ou conflitos políticos, seu papel não é simplesmente apresentar informações, mas ajudar as pessoas a compreendê-las para que elas não sejam transformadas em alarde, desinformação ou discursos polarizados. É importante, porém, não enxergar o intelectual como uma espécie de “super-herói” que consegue solucionar os problemas do mundo apenas por meio da inteligência.”

E N T R E V I S T A · J O Ã O L U C A S I N O C Ê N C I O D E S Á S O B R E A L G O R I T M O S E P O L A R I Z A Ç Ã O S U M Á R I O← A N T E R I O R P R Ó X I M O → 08 Pensamento crítico como defesa cognitiva “Estamos vivendo uma transformação comparável, em certa medida, a uma nova revolução. Assim como a Revolução Industrial modificou profundamente a maneira como as pessoas viviam, a internet e as redes sociais também transformaram a sociedade. Hoje é difícil separar a vida cotidiana da tecnologia. Não acredito que a internet deva ser tratada simplesmente como uma vilã. O desafio está em aprender a utilizá-la de maneira saudável. Nesse contexto, o pensamento crítico funciona como uma espécie de mecanismo de defesa cognitiva, permitindo que o indivíduo questione as informações que recebe e reconheça possíveis vieses de confirmação.” “A falta de pensamento crítico pode tornar algumas pessoas mais vulneráveis à desinformação e à radicalização.”

E N T R E V I S T A · J O Ã O L U C A S I N O C Ê N C I O D E S Á S U M Á R I O← A N T E R I O R P R Ó X I M O → 09 Do conhecimento à ação: a lição da Terapia Cognitivo-Comportamental “O conhecimento só consegue transformar a realidade quando deixa de existir apenas no campo da compreensão e passa a se manifestar em ações concretas. Isso pode ser relacionado ao próprio princípio da Terapia Cognitivo- Comportamental, que trabalha com a relação entre pensamentos, emoções e comportamentos. Compreender a origem de um pensamento ou de uma emoção, por si só, não é necessariamente suficiente para produzir uma mudança. É preciso que esse entendimento se transforme em comportamento. Da mesma forma, o conhecimento não deve permanecer restrito ao indivíduo ou à academia. Conhecer é o primeiro passo; transformar esse conhecimento em ação é o que permite transformar a realidade.”

E N T R E V I S T A · J O Ã O L U C A S I N O C Ê N C I O D E S Á S U M Á R I O← A N T E R I O R P R Ó X I M O → 10 Sócrates e o questionamento como método “Questionar aquilo que parece óbvio continua sendo uma das principais formas de transformação social. Um dos métodos utilizados pela Psicologia é o chamado questionamento socrático: em vez de apresentar respostas prontas, o terapeuta utiliza perguntas para ajudar a pessoa a investigar suas próprias crenças — processo também conhecido como descoberta guiada. Na prática clínica, o objetivo é questionar: de onde vem essa certeza? Quais evidências sustentam essa ideia? A mudança acontece não porque alguém impôs uma verdade, mas porque a própria pessoa conseguiu enxergar novas possibilidades. Acredito que a sociedade funcione de maneira semelhante: se ninguém questiona as ideias e as estruturas existentes, tendemos a reproduzi-las automaticamente, mesmo quando contribuem para desigualdades.”

E N T R E V I S T A · J O Ã O L U C A S I N O C Ê N C I O D E S Á P O N T E , N Ã O B A R R E I R A S U M Á R I O← A N T E R I O R P R Ó X I M O → 11 Conhecimento é poder: a barreira da linguagem “Foucault nos permite compreender a relação entre conhecimento e poder. Quem produz e controla o conhecimento pode influenciar profundamente a maneira como a sociedade pensa. Não importa apenas quem possui o conhecimento, mas também quem consegue acessá-lo, compreendê-lo e utilizá-lo. A própria linguagem pode se transformar em uma barreira. Em contextos como CAPS e UBS, dizer que alguém apresenta “pensamentos automáticos disfuncionais” pode ser tecnicamente correto, mas não significa que a pessoa vá compreender o que está acontecendo com ela.” O conhecimento não deveria servir para criar uma hierarquia entre quem sabe e quem não sabe, mas para aproximar as pessoas daquilo que antes parecia inacessível.

E N T R E V I S T A · J O Ã O L U C A S I N O C Ê N C I O D E S Á S U M Á R I O← A N T E R I O R P R Ó X I M O → 12 A internet e a democratização do saber "A internet possui um enorme potencial para ajudar os jovens a enfrentar os problemas da sociedade atual, principalmente porque ampliou de maneira inédita o acesso à informação. Entretanto, ter acesso à informação não significa saber utilizá-la — ela não garante que aquilo que encontramos seja verdadeiro. O jovem não precisa apenas ter consciência de que possui milhares de informações ao alcance de um celular. O mais importante é aprender a construir uma posição própria diante delas: essa ideia foi construída por mim a partir de reflexão e evidências, ou simplesmente reproduzida porque corresponde ao grupo ao qual pertenço? Aqueles que possuem conhecimentos especializados também possuem a responsabilidade de traduzi-los para uma linguagem acessível — sem apresentá-los como verdade absoluta." " O p a p e l d o i n t e l e c t u a l n ã o é d i t a r v e r d a d e s a b s o l u t a s , m a s t r a d u z i r o c o n h e c i m e n t o p a r a a r e a l i d a d e d o j o v e m . "

E N T R E V I S T A · J O Ã O L U C A S I N O C Ê N C I O D E S Á S O B R E C I Ê N C I A E E S P E T Á C U L O S U M Á R I O← A N T E R I O R P R Ó X I M O → 13 Os riscos do sensacionalismo científico "Conteúdos científicos ou educativos podem competir em desvantagem com conteúdos simplificados ou sensacionalistas, produzidos por quem sabe exatamente como chamar a atenção do público. O problema aparece quando o profissional tenta disputar espaço nas redes utilizando a mesma lógica do sensacionalismo usada por charlatões: exagerando informações ou reforçando aquilo que o público já espera ouvir. Vemos isso em afirmações como “pessoas com TDAH são extremamente inteligentes” — fenômenos complexos reduzidos a rótulos simplificados." O intelectual não deve competir com o charlatão tornando-se um charlatão mais sofisticado.

E N T R E V I S T A · J O Ã O L U C A S I N O C Ê N C I O D E S Á S U M Á R I O← A N T E R I O R P R Ó X I M O → 14 Adiar o fim do mundo: viver com dignidade Podemos começar questionando a própria ideia de “fim”. Existe uma tendência humana à catastrofização: diante de um grande acontecimento, imaginamos logo o pior cenário. Mas o fim da Terra não precisa ser compreendido assim — daqui a cerca de cinco bilhões de anos o Sol deverá se tornar uma gigante vermelha, antes de terminar sua evolução como uma anã branca. A questão mais importante não é “como impedir que o mundo acabe?”, mas “como podemos viver dignamente até que esse fim aconteça?”. “Adiar o fim do mundo” pode significar adiar o fim de condições que tornam a vida humana digna: a destruição ambiental, a desigualdade, a desinformação, a intolerância. Não podemos impedir que o mundo um dia termine; podemos decidir que tipo de mundo deixaremos para quem ainda estará aqui.

PENSAR C I Ê N C I A · C U L T U R A · P O L Í T I C A · E D U C A Ç Ã O · S O C I E D A D E D a n i k e l y , K e m i l l y , M a r i a N i c o m e d e s , K a t e l y n , S a m u e l R o m e i r o , V i t o r H u g o e M a t e u s R a f a e l . V O L T A R A O S U M Á R I O